Deixei um pouco o monitoramente da crise egípcia para concluir um artigo para o Estadão de sexta. Vejo que os Estados Unidos deram um passo para fortalecer a transição e a única grande incógnita agora é o papel do Exército. Um ligeiro movimento abandonando Mubarak deve bastar para que se ensaie uma transição.
Estava passando em revista os principais fatos acontecidos nesta verão e como os politicos reagiram a eles. Para dizer a verdade, não reagiram.
O artigo se justifica porque acaba amanhã o recesso parlamentar, com a posse de novos senadores, deputados federais e estaduais.
O desenrolar do artigo mostra que os principais temas não repercutiram na política que, por sua vez, mostrou apenas lutas internas entre aliados do governo e também entre dirigentes dos dois principais partidos da oposição. Foi como se a política tivesse se descolado da realidade para discutir cargos nas estatais e nas direções partidárias.
Podiam mostrar coração e mente diante de dias difíceis mas mostraram apenas as entranhas. É uma opinião e sai na página específica.
Estamos numa semana importante. A tendência é um crescimento no ritmo político do pais, com a instalação do novo Congresso. Mas sem muitas ilusões, pois vivo este filme há duas décadas. As coisas só funcionam a pleno vapor depois do carnaval.
Importante a notícia de hoje: Itamaraty vai rever a política externa brasileira. Pelo menos, pediu uma reavaliação a todas as embaixadas e à missão na ONU. Em tese, reavaliações podem ser até uma rotina. Mas as recentes entrevistas da presidente Dilma Rousseff indicam uma nuance, em relação ao governo anterior. E esta nuance, também a julgar pelas suas falas, está no capítulo de direitos humanos.
O Brasil entrou numa fase de crescimento comercial . Não existem modelos perfeitos sobre como se comportar diante do crescimento econômico e aumento da importância política. A China, defendendo-se das críticas externas, sempre desdenhou a luta pelos direitos humanos, afirmando que esse combate desconhecia características locais, e que a universalização do conceito era manobra política e inadequada. Ela fecha os olhos às ditaduras em qualquer parte porque precisa e muito de matéria prima para dinamizar sua economia e alimentar seu 1,3 bilhão de habitantes.
A China também está mudando um pouco. Na mais recente visita de seu presidente aos EUA, o pais reconheceu a universalidade dos direitos humanos. Mas está censurando a palavra Egito nas redes sociais, revelando que no momento decisivo fica com governos fortes. E os governos fortes ficam com a China: todos eles faltaram à cerimônia de entrega do premio Nobel a um dissidente chinês.
No caso brasileiro, os erros mais gritantes foram cometidos em relação ao Irã, com a abstenção do pais na ONU, num tema tão grave como a pena de morte por apedrejamento. E em Cuba, onde Lula comparou os dissidentes político aos bandidos comuns de São Paulo.
O Brasil tem condições de condenar a pena de morte e isto é uma cláusula pétrea em nossa Constituição. A Itália, por exemplo, fez muita campanha internacional contra a pena de morte, sem que isto tenha prejudicado suas relações políticas com outros países.
A nota do Itamaraty sobre o Egito, dizendo que o Brasil acompanha atento, é o tipo de nota desse período de transição. Todos sabemos que a melhor maneira de transmitir a falsa idéia de posicionamento é dizer que acompanha com atenção. Acompanha o que? Restrições às manifestações populares. A alemã Angela Merkel, por exemplo, especifica a necessidade de se respeitar o direito de demonstração pacífica.
Vamos voltar ao tema. Talvez nem exista mudança, talvez seja mais ampla do que espero.
Tags: China, Cuba, Dilma Roussef, direitos humanos, Irã, itamaraty, ONU
Um leitor levanta uma importante questão: o destino dos cristãos no Egito, os da Igreja Copta, que também já foram brutalmente reprimidos pelo governo.
É um tema que me sensibiliza muito. Por causa dele, nasci no Brasil. Minha família saiu do Líbano no contexto de lutas religiosas e era cristã a ponto de tatuar a cruz na testa.
Recentemente, a revista Nouvel Observateur publicou uma grande reportagem sobre as perseguicões aos cristãos no Oriente Médio. O centro era o Iraque onde são bombardeados impiedosamente por terroristas. Há muitos relatos de discriminação contra famílias e mesmo crianças.
A Igreja Copta não é ligada à Romana. Mas é uma religião cristã que teria sido implantada no Egito por São Marcos. A evolução dessa minoria no confuso processo de revolta no Egito será observada aqui.
Acho que o Brasil, de maioria cristã, teria todas as condições de considerar como um tópico de direitos humanos a situação dos cristãos no Oriente Médio.
Vamos esperar a evolução. Não é certa a queda de Mubarak. E no caso de acontecer, não é certo que a Irmandade Muçulmana assuma as rédeas do poder. Mas são desdobramentos que precisam ser tidos como prováveis.
O problema é que a crise de legitimidade de governos ditatoriais e corruptos nos países árabes é um beco sem saída. Nada será como antes e o protagonista que precisa entender mais rápido esse impasse é o governo Obama.
Tags: cristãos, Igreja Copta, Líbano
Blogs que cobrem os acontecimentos no Egito continuam a dar informações em tempo real, inclusive aqui no Estadão. Dei uma olhada neles e gostaria de destacar dois pontos.
A rede Al Jazeera, foi retirada do ar no Egito e seus escritórios estão vazios. Uma evolução importante, pois alguns especialistas – escrevemos um curto texto sobre isto- apontavam a importância da Al Jazeera ao estabelecer uma unidade entre as revoltas no mundo árabe.
Há muita discussão abstrata sobre o papel da internet. Twitter e facebook ajudaram a espalhar a revolta, não há dúvida. A Internet aumenta a comunicação e o desejo de liberdade. Também não há dúvida. Na hora h, entretanto, o governo silenciou os quatro provedores e ela saiu do ar. No Irã a internet foi usada pela repressão para rastrear todas as mensagens contra o governo. Em alguns países do leste europeu, os interrogatórios fazem perguntas com base em matéria do facebook. Portanto, como todos os outros meios, a internet pode servir a um lado e ao outro.
No caso da Al Jazeera, era evidente que sua presença, com gente falando árabe, e conhecimento do terreno, ia produzir um trabalho mais perigoso para o regime. Até que ponto Mubarak não se vai se desgastar mais ainda, até que ponto chegou tarde demais?
Outro aspecto que me preocupa é a confiança no Exército. A maioria dos analistas, no princípio da revolta, achava que o Exército iria segurar Mubarak. No sábado, houve confraternização entre alguns oficiais e manifestantes. Agora, um divisão de elite colocou seus tanques diante da Praça Tahir e parece disposta a à repressão. As manifestações têm um formidável poder de persuasão. Mas é preciso calma pois não superam todos os obstáculos num passe de mágica. Como diz o governo brasileiro, continuaremos atentos.
Os videos sobre o dia seguinte no Cairo ainda mostram edificios em chamas. Foram feitos praticamente ao amanhecer. Mais tarde, os manifestantes se agruparam e reiniciaram seus protestos. Segundo depoimento de Peter Beaumont, correspondente do Guardian, alguns oficiais atiraram balas de verdade do interior de um prédio do governo. Há mortos. Aliás, a contagem dos mortos de ontem ainda não foi completada.
O Museu Egípcio foi atingido pelas manifestações. Está lá dentro a coleção de Tutancâmon. Duas múmias segundo funcionários, foram danificadas. Não podem errar de faraó, nem começar saques. Há rumores, segundo os blogs em tempo real, de saques em Alexandria.
No plano nacional, a novidade é Mubarak ter indicado um vice, o que pode ser um indício de transição. Omar Suleiman, o nome indicado, é também o chefe do serviço de inteligência e, segundo os telegramas, tem boas relações com os Estados Unidos.
Tanto as descrições dos repórteres na rua quanto os videos mostram uma certa ambiguidade do Exército: nem todos estão pegando pesado e parece que a polícia já cansou.
Nada está decidido. Mubarak deve ter percebido, a esta altura, que não bastou demitir ministros, nem indicar um vice-presidente, depois de 30 anos.
Tags: Alexandria, Mubarak, Museu Egípcio, Tutancâmon
As manifestações não pararam neste sábado no Egito. Mas tudo indica que a situação no fim de semana, será menos intensa, para recuperar o ritmo na segunda. Na BBC, empresários de Friburgo reclamam da falta de dinheiro para recuperação de seus negócios. Na matéria que conclui esta semana, o Secretário de Desenvolvimento, Júlio Bueno, anunciou que, na segunda feira, começam a ser emprestados os R$450 milhões do BNDES.
Com este quadro, decidi tirar um dia livre neste sábado. Manhã livre, melhor dizendo. Fui à Lagoa Rodrigo de Freitas, como faço quase sempre. De um modo geral, percorro metade dela nos dias comuns. Em outros momentos, faço o percurso total, de 9,5 kms, para ver como andam as coisas.
É muito bom morar perto da Lagoa. Mas ainda há algumas coisas angustiantes, como periódicas mortandades de peixe. A Lagoa é ligado ao mar pelo canal do Jardim de Alá. Cada vez que morrem peixes, há um interminável debate sobre as causas.
O milionário Eike Batista está financiando um projeto de limpeza e recuperação da Lagoa. As aves voltaram em peso. Mas tenho a sensação de que a Lagoa está ficando mais rasa. Ao longo de minhas inspeções, encontro coisas surpreendentes na margem.
Sempre que vou a Lagoa levo comigo uma câmera compacta, desses que cabem no bolsa da bermuda. Uma das árvores mais bonitas da Amazônia, o Abricó de Macaco, enfeita as margens com suas flores vermelhas. O Abricó veio da Guiana, foi plantado no Jardim Botânico e pode ser encontrado em outras ruas do Rio.
O Bradesco ergue uma árvore de Natal na Lagoa, que é uma atração para a cidade. O esporte aquático cresceu muito, inclusive o remo, com a reconstrução do estádio.
A Lagoa fica logo após o túnel Rebouças, que liga a Zona Norte à Zona Sul. Muitos pescadores aparecem para jogar suas redes mas o resultado é modesto.
Se folgar no próximo sábado, mostrarei outro ponto do Rio, o Sitio Burle Marx, em Pedra de Guaratiba, na zona oeste.
Tags: abricó de macaco, Jardim Botânico, Jardim de Alá, Lagoa Rodrigo de Freitas
Com os tanques na rua, Baradei em prisão domiciliar e a internet fora do ar, o governo egípcio revela que está disposto a tudo, antes de capitular. O Brasil se diz atento, os EUA dão um passo maior e pedem que as manifestações sejam liberadas.
A crise vai prosseguir, uma vez que a internet já ajudou a decolagem e existe um outro favor importante em jogo: a televisão. Baseada no Quatar, a Al Jazeera tornou-se um ponto de unidade entre as revoltas na Tunísia, Egito e Yemen. Segundo o New York Times, a emissora se firmou com uma narrativa de luta contra ditaduras apoiadas pelos americanos.
A Jazeera já tinha desempenhado papéis importantes no passado. Mas agora tornou-se um ator decisivo, inclusive pesando na balança contra grupos mais próximos do Ocidente. No Líbano, onde a situação acabou favorável ao Hezbollah um carro da emissora foi incendiado.
A Autoridade Palestina, através de Mohamud Abbas tem denunciado também um viés contrário à OLP. Quem se fortaleceu com os vazamentos e sua repercussão na Jazeera foi o Hamas. Nos vazamentos, autoridades palestinas são mostradas dispostas a concederem a Israel áreas ocupadas em Jerusalém oriental. Também na Palestina houve ataques de simpatizantes da OLP contra instalações da Jazeera.
Um especialista ouvido pelo NYtimes afirma que a Jazeera não é causa de todo esse movimento de revolta, mas que ele não teria existido sem ela. Ao dar uma olhada na cobertura da Jazeera no Egito, observo que, além da narrativa contra ditaduras apoiadas pelos americanos, também trabalham outros temas, como o preço dos alimentos, por exemplo. A televisão mostra que 54 milhões de egípcios compram uma cesta subsidiada, na qual o arroz, por exemplo, é vendido pela metade do preço. Com a crise econômica, a queda brutal no turismo, o país está tendo dificuldade em manter o esquema de subsídios.
A força da Jazeera e sua tendência de apoio aos grupos islâmicos radicais lança também um pouco de dúvida sobre o rumo das mudanças, caso Mubarak caia. As revolucões começam de forma romântica mas são melhor aproveitadas por grupos com estrutura e capacidade de organização.
Baradei está fazendo seu papel, ao voltar e ser preso. Mas o fato de as manifestações terem sido convocadas para sexta, depois das preces nas mesquitas, vai trazendo aos poucos a presença religiosa na revolta e com ela a Irmandande Muçulmana.
O Brasil está atento. Mas preferia uma frase sobre a garantia de manifestações pacíficas. Ela se destina aos tanques bombas de gás e prisões, mas também, implicitamente, condena os incêndios e excessos dos manifestantes.
Tags: Egito, ElBaradei, Irmandade Muçulmana, Jazeera
A sexta feira ainda não terminou no Cairo e já houve muitos choques entre policias e manifestantes. O próprio Baradei, líder da oposição que voltou ao Cairo, ficou uma hora retido numa mesquita.
Em Alexandria, diz o blog do Guardian, que os fieis saíram da mesquita gritando: somos pacíficos. Mas parece que houve repressão mesmo assim.
Algumas praças do Cairo estão tomada pela policia e dos hotéis se podem ver, segundo relatos recentes, a proximidade da linha de manifestantes com a barreira policial.
Começam a aparecer alguns telegramas do Wikileaks revelando os bastidores da relação EUA-Egito. Os telegramas indicam que há muita preocupação com tortura e prisões de opositores. Mas revelam também que as relações entre Obama e Mubarak são mais calorosas que no tempo de Bush.
Três dirigentes da Irmandade Muçulmana foram presos. Ha relatos de uma mulher assassinada pela policia em Alexandria e muitas denúncias de espancamento.
Vamos dar algumas horas e ver o que resta, quando a poeira baixar.
PS: O Estadão está com um blog ao vivo - http://bit.ly/hLovCK
Tags: Baradei, Obama-Mubarak, policia politica
Imperdível para quem estuda o jornalismo no século XXI o longo texto do New York Times contando os bastidores das negociações do jornal no episódio do Wikileaks. O texto é assinado pelo editor executivo Bill Keller e surge num momento em que os vazamentos prejudicam o próprio processo de paz no Oriente Médio. Refiro-me as notîcias sobre possíveis concessões dos líderes palestinos. A matéria é uma longa defesa da participação do New York Times na história dos vazamentos e uma clara preocupação em manter distância da fonte, Julian Assange.
A história contada pelo New York Times começa com uma chamada telefônica do editor do Guardian. O Times teria uma forma segura de comunicação - pergunta o jornalista ingês. Resposta negativa. Não havia nada além das ligações ordinárias. Mesmo assim a conversa foi feita: havia uma grande quantidade de material que o Wilileaks queria divulgar e o Guardian estava procurando parceiros.
O New York Times enviou a Londres um homem de seu escritório de Washington que conhecia documentos militares e ele examinou durante dias o material. Eram verdadeiros. Começou aí a preparação dos artigos sobre a guerra, principalmente Afeganistão.
Tanto no material da guerra como nos telegramas dipomáticos, o jornal procura se distanciar do Weakleaks, afirmando que editou tudo com muito cuidado para não expor operações de inteligência, para oferecer alvos aos terroristas e, no caso de diálogo com diplomatas, não expor a vida de oposicionistas em países ditatoriais.
A história conta todos os choques entre o jornal e Julian Assange, inclusive como ele reagiu furioso à publicação de seu perfil. Assenge, afirma Keller, nem é um associado nem um colaborador: apenas uma fonte com suas impurezas. Adiante, Assange é descrito como um personagem de Stieg Larsson, o escritor best-seller sueco que mistura contracultura, hackers, conspirações de alto nível e sexo.
O primeiro contato com Assange, feito em Londres por Eric Schmitts, que foi estudar o material, descreve Assange como um homem com cheiro de quem não toma banho há dias. O Wikileaks exigiu dos jornais um embargo, algo bastante comum na distribuição de documentos. Embargo, nesses casos, marca uma data em que a publicação pode ser feita. O que dá mais tempo para estudos e apurações.
Toda a descrição do New York Times está voltada para sua própria defesa. Os cuidados em cada material, a lembrança dos repórteres do jornal assassinados em missão, o curso da narrativa indicam que receberam muitas e pesadas críticas. O jornal procura se distanciar um pouco até dos próprios associados na empreitada, como o Guardian, que tem uma posição mais à esquerda.
O relato, apesar de seu tamanho, deve estar circulando em português nos jornais do fim de semana. Vale a pena conferir ou então esperar a publicação de Segredos Abertos: Wikileaks, Guerra e Diplomacia Americanas . É a cobertura completa e atualizada do New York Times que será oferecida em forma de e-book.
Não creio que, apesar das minúcias, o relato do New York Times vai convencer de que fizeram a coisa certa porque o tema dividiu muito. Na verdade são poucos os jornalistas no mundo que diante de uma oferta como a do Guardian- 500 mil documentos secretos – diriam não, obrigado.
Tags: jornalismo, Julian Assange, New York Times, vazamentos
Ao descrever a situação de Fernando de Noronha mencionei o preço da gasolina e fui, justamente, ironizado pelos leitores. Não reproduzi todas as noticias que falam também da falta de gás e da ausência do serviço de correios, desde o fim do ano passado.
Sou favorável a veiculos não poluentes em Fernando de Noronha. Mas o alto preço da gasolina não representa uma política no sentido de estimular a passagem para outra fonte. É pura especulação. No momento ainda existe uma pequena frota,alguns utilitários importantes para os que trabalham lá..
Tudo isso poderia ser equacionado num projeto de gestão de Fernando de Noronha que é um patrimônio natural mas cobra uma taxa de R$30 por dia ao visitante.
Tentei junto a alguns deputados de Pernambuco, sobretudo Raul Henry que o tema fosse colocado na campanha eleitoral de lá. Tenho certeza de que a importância do arquipélago será reconhecida em termos de uma nova visão administrativa.
As coisas não são tão complicadas: o Brasil tem nas mãos uma área de grande beleza natural, pode explorá-la de uma forma inteligente e estratégica, ou pode tratá-la com descaso. Vou continuar insistindo na primeira hipótese. Sem gasolina, por favor.
2011