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Fernando Dantas

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A difícil busca do crescimento na zona do euro

9 de maio de 2012 | 19h48

Fernando Dantas

Segue a minha coluna da AE-News/Broadcast de hoje, dia 9/5/12 (com pequena modificação em função de notícia ao longo do dia):

A vitória de François Hollande na disputa pela presidência da França reforçou o campo do atual debate econômico que defende uma política de crescimento para a Europa e que critica o foco exclusivo na austeridade que foi empregado na abordagem dos países problemáticos do euro até agora.
 
O péssimo resultado dos partidos gregos tradicionais, fiadores do pacote de ajuste econômico, nas eleições parlamentares também indica que os ventos políticos na Europa estão se virando para o lado da ênfase no crescimento.
 
O problema, porém, é saber o que a estratégia pró-crescimento significa. Uma análise cuidadosa das opções para estimular as economias do euro – e especialmente aquelas em pior situação – mostra que trocar o foco na austeridade pela busca do crescimento é mais difícil do que poderiam supor os mais otimistas.
 
A França, é verdade, está em condição superior à dos países mais problemáticos da zona do euro, embora não inteiramente livre do contágio. É possível que Hollande tenha latitude para renegociar o último acordo fiscal da união monetária, para dar um ritmo mais gradativo ao seu próprio ajuste das contas públicas e para reverter e paralisar reformas liberalizantes.
 
Mas tudo isso é uma receita restrita à França (e, mesmo assim, de sucesso muito duvidoso) e não se configura de forma alguma como o embrião de uma fórmula mais geral para as agruras do euro.
 
Em termos fiscais, é impensável que países como Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda cogitem estímulos via gastos públicos e aumento de déficit. Se já estão com dificuldade de se financiar no mercado na situação fiscal atual, certamente a tentativa de um impulso adicional de despesa pública neste momento só tornaria os investidores mais avessos e contribuiria para agravar ainda mais o problema.
 
Pode-se imaginar ainda um esquema de investimento reforçado nos países abalados da zona do euro por meio dos fundos comunitários ou do Banco de Investimento Europeu (BIE). Porém, para que isso fosse suficiente para tirá-los da recessão, teria de ser um impulso fiscal maciço que certamente exigiria que muito mais dinheiro dos contribuintes alemães e de outras partes saudáveis da região fosse direcionado às áreas em crise. Politicamente, é muito
complicado.
 
Draghi não cruzou os braços
 
Um estímulo monetário, por sua vez, não depende dos governos nacionais, mas sim do Banco Central Europeu (BCE), que comanda a política monetária da zona do euro. As dificuldades aqui são inúmeras. Em primeiro lugar, as taxas de juros básicas já estão próximas de zero e não há, portanto, quase nenhum espaço para reduzi-las.
 
No departamento das políticas não tradicionais, não dá para acusar o BCE e seu presidente, Mario Draghi, de cruzar os braços: afinal, desde dezembro, cerca de um trilhão de euros foram injetados nos bancos da região em condições excepcionalmente favoráveis e contra garantias duvidosas em muitos casos.
 
A expansão do balanço do BCE desde a crise, embora proporcionalmente um pouco menor do que a do Fed (Federal Reserve, o BC americano), também é excepcional e inédita em termos históricos.
 
É claro que sempre se pode fazer mais. O BCE poderia comprar diretamente bônus dos países em dificuldades. Além disso, as autoridades europeias poderiam conceber e implementar o projeto de criação de um bônus europeu comum, em que o alto risco dos países em crise fosse diluído no baixo risco das nações sólidas, como Alemanha, Holanda e
Finlândia.
 
E, finalmente, o BCE poderia tentar reinflacionar deliberadamente a zona do euro, na suposição de que a inflação subiria mais nas economias pujantes, como a Alemanha. Desta forma, os países da periferia ganhariam competitividade não pelo doloroso processo da deflação interna, mas sim pela inflação maior dos principais parceiros comerciais.

A Alemanha, porém, já deixou claro que não aceitará nenhuma dessas opções (estou fazendo este acréscimo hoje, 9/5, a partir de matéria que li no FT: o Bundesbank, BC alemão, admitiu que a inflação possa ficar mais alta na Alemanha do que em países europeus em processo de reestruturação econômica. É um avanço digno de nota, mas resta a dúvida sobre até que ponto a Alemanha permitiria que isso acontecesse. Para corrigir os diferenciais de competitividade, a inflação a mais na Alemanha deve ser significativa e sustentada por vários anos). Na verdade, a Alemanha já suporta a contragosto a maciça política de financiamento aos bancos de Draghi, o que ficou claro em seguidas manifestações de Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, o BC alemão.
 
As alternativas anteriormente citadas ferem claramente as regras da união monetária. Institucionalmente, seria muito difícil, talvez impossível, levá-las a cabo contra a vontade da Alemanha, ainda que todos os outros países as defendessem. Mas mesmo este cenário de união geral antialemã é improvável, já que outras nações do norte europeu compartilham da visão germânica da crise.
 
Euro fraco ajuda Alemanha
 
Uma última possibilidade é de que a Alemanha praticasse uma política forte de estímulo à sua própria demanda, por via fiscal ou salarial, de tal forma que tivesse um significativo déficit comercial com seus parceiros do bloco, estimulando as economias mais debilitadas.

 
Ninguém pode, é claro, forçar a Alemanha a ampliar gastos e déficit público, ainda mais que este é um tema que concerne exclusivamente à política interna. Mas um fio de esperança surgiu em recentes declarações do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendendo que os salários na Alemanha cresçam mais rápido do que em outros países europeus, de forma a restaurar a competitividade destes últimos. É duvidoso, entretanto, até que ponto a Alemanha deixaria que a alta salarial corroesse a sua competitividade.
 
Em recente entrevista a um órgão da imprensa alemã, o prestigiado economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, observou que a Alemanha conseguiu o árduo feito de reestruturar-se para competir bem com a China e o Oriente em geral. É difícil imaginar que o país sacrificaria essa conquista para corrigir problemas de competitividade de nações europeias que, para os alemães, não fizeram o dever de casa nas últimas décadas.
 
Há uma última dificuldade em convencer a Alemanha a mudar sua abordagem da crise do euro. Ironicamente, o estado lastimável dos países da periferia é uma força que atua no sentido contrário ao da valorização da moeda única. Se a Alemanha retivesse o marco, é bem possível que sua moeda hoje estivesse mais valorizada que o euro.
 
Assim, além de ter feito o dever de casa, a maior economia europeia beneficia-se também de uma moeda que ajuda a sua competitividade. E a piora dos seus parceiros tende a intensificar, e não a reduzir, esta vantagem, ao lançar mais dúvidas sobre a união monetária, o que contribui para desvalorizar o euro.
 
Na terça-feira, em confirmação do bom momento da economia alemã, foi divulgado que a produção industrial do país subiu 2,8% em março ante fevereiro, uma forte surpresa positiva.
 
Seria mais fácil convencer a Alemanha a cogitar soluções radicalmente heterodoxas para a crise do euro se o país estivesse sendo sugado para o mesmo tipo de problema dos seus parceiros mais fracos. Por enquanto, porém, nada indica que isso esteja acontecendo.
 
Mesmo levando em conta os comentários de Schäuble sobre os salários alemães (e a manifestação do Bundesbank sobre a possibilidade de um inflação mais alta na Alemanha do que em seus parceiro do euro em reestruturação – fiz este acréscimo hoje, 9/5/) e a vaga ideia de se ampliar investimentos comunitários nos países com problemas, a agenda do crescimento ainda parece longe de se tornar uma receita eficaz para superar a atual crise.

A mão pesada da economia social de mercado

18 de abril de 2012 | 20h03

Fernando Dantas

Segue minha coluna da Broadcast da quarta-feira, 18/4/12:

Um dos aspectos mais intrigantes da crise europeia é o contraste entre as visões anglo-americana e alemã do problema. É claro que é muito simplificador agrupar opiniões pelo seu caráter nacional, já que no interior de cada país convivem as mais diversas interpretações e ideologias. Ainda assim, pode-se dizer que em cada uma daquelas duas esferas há um predomínio de determinadas abordagens da crise do euro, refletidas no que diz e faz a maioria dos políticos, acadêmicos, autoridades econômicas etc.
 
De forma muito esquemática, pode-se dizer que a prescrição alemã para os países europeus problemáticos é muito mais dura e ortodoxa do que a da maior parte dos analistas e das autoridades da esfera anglo-saxã. Enquanto estes temperam a recomendação de austeridade e reformas estruturais com apelos para que a zona do euro promova simultaneamente uma política de expansão de demanda na periferia, a receita germânica limita-se a exigir que os países com problemas façam o dever de casa – para os alemães, austeridade e reformas bastam para salvar Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda.
 
É até surpreendente, de certa forma, que a posição mais moderada nesse debate venha do mundo anglo-saxão.
 
Há muitas décadas os principais países ocidentais partilham um ideário econômico comum que valoriza a economia de mercado, o respeito aos contratos, a crescente liberalização comercial e a primazia do setor privado. Respeitados esses princípios básicos, porém, norte-americanos e – em menor grau – britânicos inclinam-se por modelos mais liberais, com
desregulamentação mais intensa e relações trabalhistas mais livres, enquanto os países europeus continentais construíram ‘economias sociais de mercado’, com um estado de bem-estar social mais parrudo apoiado numa carga tributária mais elevada.
 
Dessa forma, o modelo alemão e europeu continental (independentemente de qual partido esteja no poder) sempre foi percebido como “à esquerda” do liberalismo triunfante de norte-americanos e ingleses, que se tornou emblemático na era de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Os que se opunham e se opõem ao neoliberalismo, ao Consenso de Washington e às prescrições ortodoxas do FMI sempre acharam que seus principais adversários ideológicos encontravam-se nos Estados Unidos e, secundariamente, na Grã-Bretanha.
 
Numa irônica inversão de papeis, porém, hoje são colunistas do Financial Times, autoridades econômicas dos Estados Unidos e economistas das correntes centrais da academia norte-americana que pregam uma abordagem mais matizada e menos puramente disciplinar para resolver o problema da periferia europeia. Países profundamente imbuídos da “economia social de mercado”, como Alemanha e Holanda, têm tratado com muito mais dureza seus parceiros do euro em apuros.
 
Um observador cínico diria que a única diferença é que Alemanha e Holanda, como participantes do euro, têm de pagar a conta de eventuais liberalidades com os países com problemas. Mas é muito provável que a diferença de atitudes tenha também raízes ideológicas mais profundas, como um apego à ortodoxia por parte das economias sociais de mercado que até então passava despercebido em meio ao conflito retórico superficial entre “progressistas” e
“neoliberais”.

 
Na Alemanha, em especial, essa particular combinação de ortodoxia liberal com garantias sociais está claramente delineada na influente escola de pensamento econômico conhecida como “ordoliberalismo”. O termo foi cunhado em 1950 em conexão com a revista econômica Ordo, fundada por economistas alemães em 1948.
 
O ordoliberalismo defende a presença do Estado para garantir o funcionamento eficiente da economia de mercado. Nesse sentido, é um tipo de pensamento bem menos propenso a desregulamentação do que o liberalismo anglo-americano.
 
Por outro lado, os ordoliberais são extremamente avessos à intervenção discricionária do governo na economia. O Estado entra para estabelecer regras justas para o funcionamento da economia do mercado. Uma vez que o jogo começa, porém, o correto é deixar que cada agente econômico seja beneficiado ou punido por suas decisões.
 
Nesse sentido, é uma abordagem que rejeita de forma particularmente veemente a ideia de ajudar quem fez as escolhas erradas a esquivar-se das consequências destas escolhas. 

A aplicação dessa visão de mundo à crise da periferia europeia é óbvia: os países que perderam competitividade por adiar reformas estruturais devem agora recuperá-la submetendo-se a um sacrifício redobrado de enxugamento de despesas e cortes de benefícios em plena crise.
 
No fim das contas, a economia social de mercado está revelando tendências disciplinadoras muito mais implacáveis do que aquelas que no passado foram tão criticadas, pelos progressistas, nos arautos do neoliberalismo e do Consenso de Washington.

Brasil e Portugal II: unidos pelo rating

29 de março de 2011 | 13h36

Fernando Dantas

Brasil e Portugal certamente não vão se fundir, como sugeriu ironicamente o Lex do FT (tema do post abaixo), mas algo de comum eles acabam de adquirir: com mais um ‘downgrade’ (rebaixamento), a agência S&P colocou Portugal hoje no mesmo nível de rating que o Brasil: BBB -. Esse rating é o primeiro degrau da escada que é considerado “grau de investimento”, isto é, significa que investir em títulos do emissor não é considerado um ato especulativo. A diferença é que o Brasil vem subindo essa escada, enquanto Portugal está descendo – na sexta-feira, o rating do país já fora cortado para BBB.

Mas, antes que turma ufanista encha os peitos, é bom ficar atento ao fato de que a diretora-executiva da Standard & Poor’s do Brasil, Milena Zaniboni, afirmou hoje que o não-cumprimento da meta de superávit primário este ano, de 2,9% do PIB, poderia levar ao rebaixamento do rating do brasileiro ou da “perspectiva do rating” (um passo antecipatório, quando se anuncia que há uma probabilidade significativa, não uma certeza, de que o rating virá a ser baixado). A apuração dessa última informação foi do jornalista Ricardo Leopoldo, da Agência Estado.

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