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15 de Abril de 2010

 

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Fernando Dantas

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As dúvidas sobre o ‘passo à frente’ na Europa

4 de julho de 2012 | 20h27

Fernando Dantas

Minha coluna publicada hoje, 4/7/12, na AE-News/Broadcast.

Na madrugada da última sexta-feira, o euro ganhou uma sobrevida quando os primeiros-ministros da Itália e da Espanha, Mario Monti e Mariano Rajoy, conseguiram dobrar a chanceler alemã, Angela Merkel, e extrair algumas concessões importantes ao final do primeiro dia da reunião de cúpula da União Europeia (UE), em Bruxelas.
 
Os mercados financeiros reagiram com euforia, e aqui no Brasil o índice Ibovespa subiu 3,23%. Já na segunda-feira e ontem, a reação voltou a ser positiva, com novas altas das bolsas.
 
Diversos analistas, porém, vêm chamando a atenção para o fato de que, mesmo representando um avanço significativo em relação às cúpulas anteriores, as decisões da semana passada em Bruxelas estão longe de sinalizar o início do fim da crise do euro.
 
Há até quem pense que, no fim das contas, Merkel não cedeu nada de muito concreto, e a vitória de Monti e Rajoy é mais política e simbólica do que propriamente substantiva. O texto do acordo não é dos mais claros, e há diferentes visões sobre as suas implicações. Como de costume nessa complicadíssima crise do euro, provavelmente só o tempo mostrará o real significado da última cúpula da UE.
 
Uma das medidas mais comemoradas, especialmente pela Espanha, foi o fato de que o fundo de resgate europeu poderá emprestar diretamente para bancos em dificuldade. Até agora, os recursos têm de passar pelo governo dos países onde os bancos estão sediados.
 
No caso espanhol, onde ocorrem no momento os piores problemas bancários, o sistema ainda vigente de socorro bancário faz com que a situação de endividamento do governo se agrave, já que ele toma emprestado do fundo de resgate para socorrer as instituições financeiras. Já se o dinheiro flui dos fundos diretos para os bancos, o governo espanhol é poupado. É como se todos os 17 países da zona do euro assumissem coletivamente (na proporção do tamanho de suas economias) o resgate bancário.
 
O problema, porém, é que esse novo circuito de ajuda os bancos só começar a funcionar em 1º de janeiro de 2013, quando supostamente o Banco Central Europeu (BCE) terá se tornado o supervisor bancário comum de todos os países do euro.
 
Essa defasagem tem duas implicações principais. A primeira, positiva, é que finalmente a zona do euro dará um primeiro passo na direção de formar uma “união bancária” que, junto com a “união fiscal”, é considerada por muitos analistas um dos pré-requisitos para a superação da crise.
 
Por outro lado, ainda há outras etapas complicadas a cumprir para uma verdadeira união bancária, como um sistema de seguro de depósitos e um arcabouço para a liquidação de bancos. Alguns analistas acham que mesmo o estabelecimento da supervisão bancária comum até o fim do ano pode ser mais difícil do que parece, uma vez que os 17 países se sentem
para começar a discutir os detalhes.
 
Um ponto preocupante da nova configuração, em que a ajuda aos bancos não passa pelos governos, é que ela só entra em vigor no fim do ano, e, até lá, a situação pode se agravar.
 
Charles Wyploz, diretor do Centro Internacional de Estudos Monetários e Bancários, em Genebra, alertou em seu blog que a dívida espanhola vai crescer em 100 bilhões de euros, por causa do resgate aos bancos, antes que o novo esquema entre em vigor. O mesmo vale, ele acrescenta, caso algum banco italiano ou francês venha a ter problemas antes do fim do ano.
 
Outro aspecto pouco animador, lembrado por Wolfgang Münchau, colunista do Financial Times, é o volume máximo de recursos do Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM, na sigla em inglês; e que está para substituir os fundos temporários para o mesmo fim), de 500 bilhões de euros.
 
Além de ter de dar conta do resgate de bancos espanhóis e programas de ajuda a Grécia, Portugal e Irlanda (a que podem se juntar Chipre e Eslovênia), o fundo poderá comprar diretamente bônus do governo da Itália ou de outros países com custo demasiadamente elevado da dívida pública (na verdade, depois da Cúpula, Finlândia e Holanda já se
manifestaram contra esta possibilidade).
 
Para Münchau, não há dinheiro suficiente do ESM para tantos objetivos – e menos ainda se o objetivo da compra de títulos italianos é fazer uma diferença real em termos de redução da taxa de juros. O analista também acha que o abrandamento dos programas impostos aos países cujos títulos sejam adquiridos pelo fundo de resgate (o que corresponde a uma ajuda financeira) é bem menos significativo do que parece à primeira vista.
 
Aliás, esta redução das condicionalidades foi celebrada como uma grande vitória pela Itália, que detestaria ver aplicada a si própria os procedimentos intrusivos que a Troika (BCE, Comissão Europeia e FMI) utilizou no caso grego.
 
Há ainda, no acordo da conferência de cúpula da UE, uma iniciativa de crescimento de longo prazo, com planos de aplicação de 130 bilhões de euros numa série de projetos. Ninguém é contra essas medidas, mas os analistas em geral consideram que, nem de longe, ela será suficiente para reverter o quadro recessivo na zona do euro, e quase depressivo em vários países problemáticos.
 
Para o prêmio Nobel Paul Krugman, o melhor que se pode esperar da cúpula da semana passada é que ela seja um sinal de que as autoridades europeias acordaram e passarão a tomar decisões cada vez mais fortes para superar a crise. Mas ele não parece muito convencido de que esse seja o caso.

O jogo de pôquer da crise grega

24 de maio de 2012 | 19h16

Fernando Dantas

Minha coluna da AE-News/Broacast, da 4ª feira, 23/5/12.
De uma hora para outra, a maioria dos analistas passou a considerar que a saída da Grécia do euro era mais provável do que a sua permanência. Poucos se arriscam a prever quanto tempo a agonia pode durar, mas não é incomum ver quem diga que um desfecho pode acontecer em questão de meses, até de semanas. Mas nem todo mundo está tão convencido
assim. Segundo algumas análises, a eventual saída da Grécia pode demorar mais do que o projetado pelo consenso atual. No extremo, poderia nem acontecer.

O blogueiro e analista político americano Matthew Yglesias, por exemplo, escreveu em recente artigo que os dois lados dessa queda de braço – o governo alemão e o líder da coalizão da esquerda radical na Grécia, Alexis Tsipras – estão blefando.

Os alemães, embora não admitam nenhuma alteração no programa de austeridade grego, que dá suporte à ajuda financeira do país, sabem que levar esta atitude às últimas consequências, e expelir a Grécia do euro, pode causar uma crise de enormes proporções que levaria de roldão Portugal, Espanha e Irlanda. Nesse caso, a conta da ajuda financeira dos países saudáveis do Norte europeu para a periferia certamente iria aumentar, o que é exatamente aquilo que a Alemanha mais quer evitar.

Muitos analistas, aliás, chamam a atenção para a importância que a zona do euro tem para a Alemanha. A moeda comum evita as desvalorizações competitivas dos parceiros europeus em relação ao país economicamente mais forte. Além disso, a peculiaridade desta crise faz com que o euro se desvalorize, impulsionando as exportações alemães para fora da sua própria zona monetária, e derrubando os juros do país – à medida que os capitais das nações periféricas fogem para a segurança da economia central.

A Grécia, por sua vez, no raciocínio de Yglesias, também não teria interesse num desfecho dramático, com calote total da dívida pública e saída do euro, por duas razões. A primeira é que o país ainda tem déficit primário, e, portanto, mesmo parando totalmente de pagar sua dívida, não teria como fechar as contas e dependeria da ajuda externa.

A segunda razão é que faltaria à Grécia um setor exportador que fosse fortemente suscetível ao câmbio e que puxasse a economia do país depois da desvalorização – como aconteceu, por exemplo, com as commodities agrícolas argentinas depois do fim da conversibilidade em janeiro de 2002.

Um fator adicional, mencionado por outros analistas, é que o calote e a desvalorização da Argentina foram seguidos, pouco depois, por uma fase de reaquecimento da economia global (que inclusive deu início ao boom das commodities), enquanto as perspectivas mundiais para o eventual pós-calote grego não são nada boas.

O economista Mario Blejer, ex-presidente do Banco Central da Argentina, também está entre os que acham que a Grécia não deveria deixar o euro. Em recente artigo no Financial Times, ele apresenta um argumento similar ao de Yglesias, e até mais embasado em termos econômicos. Para Blejer, tanto a Alemanha quanto a Grécia teriam a ganhar evitando a solução mais drástica da ruptura da zona do euro.

“Os gregos querem permanecer na zona do euro, mas não querem fazer o que é necessário para isto, já que o que é necessário é demasiado. Os alemães querem que o euro sobreviva, mas estão relutantes em pagar o preço. Se os dois buscassem um compromisso, o euro teria uma chance melhor de sobreviver”, escreveu Blejer.

Essas análises devem ser levadas a sério, pois trazem à baila um aspecto às vezes um pouco negligenciado da atual crise: a partida de pôquer entre os antagonistas, na qual se joga, de parte a parte, com as armas da ameaça implícita, mas não necessariamente para valer. Há muito cálculo político por detrás de cada posicionamento aparentemente intransigente ou radical dos principais atores políticos desse drama.

Por outro lado, como mostrou o colapso do Lehman Brothers em 2008, esse jogo arriscado pode acabar mal, e os fatos podem sair do controle dos protagonistas. Além disso, há a questão de fundo da perda de competividade da Grécia, que parece quase impossível de ser contornada sem uma desvalorização cambial, impossível enquanto o país permanecer no euro.

Assim, se de fato a saída iminente da Grécia da moeda única, prevista por muitos analistas, pode ser uma visão ingênua que não leva em conta a capacidade das partes envolvidas de “tocar com a barriga” mais um pouco o problema, por outro lado não há como imaginar uma solução definitiva para a terrível crise econômica grega com o atual status quo. Cedo ou tarde, a hora da verdade da zona do euro vai chegar.

A difícil busca do crescimento na zona do euro

9 de maio de 2012 | 19h48

Fernando Dantas

Segue a minha coluna da AE-News/Broadcast de hoje, dia 9/5/12 (com pequena modificação em função de notícia ao longo do dia):

A vitória de François Hollande na disputa pela presidência da França reforçou o campo do atual debate econômico que defende uma política de crescimento para a Europa e que critica o foco exclusivo na austeridade que foi empregado na abordagem dos países problemáticos do euro até agora.
 
O péssimo resultado dos partidos gregos tradicionais, fiadores do pacote de ajuste econômico, nas eleições parlamentares também indica que os ventos políticos na Europa estão se virando para o lado da ênfase no crescimento.
 
O problema, porém, é saber o que a estratégia pró-crescimento significa. Uma análise cuidadosa das opções para estimular as economias do euro – e especialmente aquelas em pior situação – mostra que trocar o foco na austeridade pela busca do crescimento é mais difícil do que poderiam supor os mais otimistas.
 
A França, é verdade, está em condição superior à dos países mais problemáticos da zona do euro, embora não inteiramente livre do contágio. É possível que Hollande tenha latitude para renegociar o último acordo fiscal da união monetária, para dar um ritmo mais gradativo ao seu próprio ajuste das contas públicas e para reverter e paralisar reformas liberalizantes.
 
Mas tudo isso é uma receita restrita à França (e, mesmo assim, de sucesso muito duvidoso) e não se configura de forma alguma como o embrião de uma fórmula mais geral para as agruras do euro.
 
Em termos fiscais, é impensável que países como Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda cogitem estímulos via gastos públicos e aumento de déficit. Se já estão com dificuldade de se financiar no mercado na situação fiscal atual, certamente a tentativa de um impulso adicional de despesa pública neste momento só tornaria os investidores mais avessos e contribuiria para agravar ainda mais o problema.
 
Pode-se imaginar ainda um esquema de investimento reforçado nos países abalados da zona do euro por meio dos fundos comunitários ou do Banco de Investimento Europeu (BIE). Porém, para que isso fosse suficiente para tirá-los da recessão, teria de ser um impulso fiscal maciço que certamente exigiria que muito mais dinheiro dos contribuintes alemães e de outras partes saudáveis da região fosse direcionado às áreas em crise. Politicamente, é muito
complicado.
 
Draghi não cruzou os braços
 
Um estímulo monetário, por sua vez, não depende dos governos nacionais, mas sim do Banco Central Europeu (BCE), que comanda a política monetária da zona do euro. As dificuldades aqui são inúmeras. Em primeiro lugar, as taxas de juros básicas já estão próximas de zero e não há, portanto, quase nenhum espaço para reduzi-las.
 
No departamento das políticas não tradicionais, não dá para acusar o BCE e seu presidente, Mario Draghi, de cruzar os braços: afinal, desde dezembro, cerca de um trilhão de euros foram injetados nos bancos da região em condições excepcionalmente favoráveis e contra garantias duvidosas em muitos casos.
 
A expansão do balanço do BCE desde a crise, embora proporcionalmente um pouco menor do que a do Fed (Federal Reserve, o BC americano), também é excepcional e inédita em termos históricos.
 
É claro que sempre se pode fazer mais. O BCE poderia comprar diretamente bônus dos países em dificuldades. Além disso, as autoridades europeias poderiam conceber e implementar o projeto de criação de um bônus europeu comum, em que o alto risco dos países em crise fosse diluído no baixo risco das nações sólidas, como Alemanha, Holanda e
Finlândia.
 
E, finalmente, o BCE poderia tentar reinflacionar deliberadamente a zona do euro, na suposição de que a inflação subiria mais nas economias pujantes, como a Alemanha. Desta forma, os países da periferia ganhariam competitividade não pelo doloroso processo da deflação interna, mas sim pela inflação maior dos principais parceiros comerciais.

A Alemanha, porém, já deixou claro que não aceitará nenhuma dessas opções (estou fazendo este acréscimo hoje, 9/5, a partir de matéria que li no FT: o Bundesbank, BC alemão, admitiu que a inflação possa ficar mais alta na Alemanha do que em países europeus em processo de reestruturação econômica. É um avanço digno de nota, mas resta a dúvida sobre até que ponto a Alemanha permitiria que isso acontecesse. Para corrigir os diferenciais de competitividade, a inflação a mais na Alemanha deve ser significativa e sustentada por vários anos). Na verdade, a Alemanha já suporta a contragosto a maciça política de financiamento aos bancos de Draghi, o que ficou claro em seguidas manifestações de Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, o BC alemão.
 
As alternativas anteriormente citadas ferem claramente as regras da união monetária. Institucionalmente, seria muito difícil, talvez impossível, levá-las a cabo contra a vontade da Alemanha, ainda que todos os outros países as defendessem. Mas mesmo este cenário de união geral antialemã é improvável, já que outras nações do norte europeu compartilham da visão germânica da crise.
 
Euro fraco ajuda Alemanha
 
Uma última possibilidade é de que a Alemanha praticasse uma política forte de estímulo à sua própria demanda, por via fiscal ou salarial, de tal forma que tivesse um significativo déficit comercial com seus parceiros do bloco, estimulando as economias mais debilitadas.

 
Ninguém pode, é claro, forçar a Alemanha a ampliar gastos e déficit público, ainda mais que este é um tema que concerne exclusivamente à política interna. Mas um fio de esperança surgiu em recentes declarações do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendendo que os salários na Alemanha cresçam mais rápido do que em outros países europeus, de forma a restaurar a competitividade destes últimos. É duvidoso, entretanto, até que ponto a Alemanha deixaria que a alta salarial corroesse a sua competitividade.
 
Em recente entrevista a um órgão da imprensa alemã, o prestigiado economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, observou que a Alemanha conseguiu o árduo feito de reestruturar-se para competir bem com a China e o Oriente em geral. É difícil imaginar que o país sacrificaria essa conquista para corrigir problemas de competitividade de nações europeias que, para os alemães, não fizeram o dever de casa nas últimas décadas.
 
Há uma última dificuldade em convencer a Alemanha a mudar sua abordagem da crise do euro. Ironicamente, o estado lastimável dos países da periferia é uma força que atua no sentido contrário ao da valorização da moeda única. Se a Alemanha retivesse o marco, é bem possível que sua moeda hoje estivesse mais valorizada que o euro.
 
Assim, além de ter feito o dever de casa, a maior economia europeia beneficia-se também de uma moeda que ajuda a sua competitividade. E a piora dos seus parceiros tende a intensificar, e não a reduzir, esta vantagem, ao lançar mais dúvidas sobre a união monetária, o que contribui para desvalorizar o euro.
 
Na terça-feira, em confirmação do bom momento da economia alemã, foi divulgado que a produção industrial do país subiu 2,8% em março ante fevereiro, uma forte surpresa positiva.
 
Seria mais fácil convencer a Alemanha a cogitar soluções radicalmente heterodoxas para a crise do euro se o país estivesse sendo sugado para o mesmo tipo de problema dos seus parceiros mais fracos. Por enquanto, porém, nada indica que isso esteja acontecendo.
 
Mesmo levando em conta os comentários de Schäuble sobre os salários alemães (e a manifestação do Bundesbank sobre a possibilidade de um inflação mais alta na Alemanha do que em seus parceiro do euro em reestruturação – fiz este acréscimo hoje, 9/5/) e a vaga ideia de se ampliar investimentos comunitários nos países com problemas, a agenda do crescimento ainda parece longe de se tornar uma receita eficaz para superar a atual crise.

A mão pesada da economia social de mercado

18 de abril de 2012 | 20h03

Fernando Dantas

Segue minha coluna da Broadcast da quarta-feira, 18/4/12:

Um dos aspectos mais intrigantes da crise europeia é o contraste entre as visões anglo-americana e alemã do problema. É claro que é muito simplificador agrupar opiniões pelo seu caráter nacional, já que no interior de cada país convivem as mais diversas interpretações e ideologias. Ainda assim, pode-se dizer que em cada uma daquelas duas esferas há um predomínio de determinadas abordagens da crise do euro, refletidas no que diz e faz a maioria dos políticos, acadêmicos, autoridades econômicas etc.
 
De forma muito esquemática, pode-se dizer que a prescrição alemã para os países europeus problemáticos é muito mais dura e ortodoxa do que a da maior parte dos analistas e das autoridades da esfera anglo-saxã. Enquanto estes temperam a recomendação de austeridade e reformas estruturais com apelos para que a zona do euro promova simultaneamente uma política de expansão de demanda na periferia, a receita germânica limita-se a exigir que os países com problemas façam o dever de casa – para os alemães, austeridade e reformas bastam para salvar Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda.
 
É até surpreendente, de certa forma, que a posição mais moderada nesse debate venha do mundo anglo-saxão.
 
Há muitas décadas os principais países ocidentais partilham um ideário econômico comum que valoriza a economia de mercado, o respeito aos contratos, a crescente liberalização comercial e a primazia do setor privado. Respeitados esses princípios básicos, porém, norte-americanos e – em menor grau – britânicos inclinam-se por modelos mais liberais, com
desregulamentação mais intensa e relações trabalhistas mais livres, enquanto os países europeus continentais construíram ‘economias sociais de mercado’, com um estado de bem-estar social mais parrudo apoiado numa carga tributária mais elevada.
 
Dessa forma, o modelo alemão e europeu continental (independentemente de qual partido esteja no poder) sempre foi percebido como “à esquerda” do liberalismo triunfante de norte-americanos e ingleses, que se tornou emblemático na era de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Os que se opunham e se opõem ao neoliberalismo, ao Consenso de Washington e às prescrições ortodoxas do FMI sempre acharam que seus principais adversários ideológicos encontravam-se nos Estados Unidos e, secundariamente, na Grã-Bretanha.
 
Numa irônica inversão de papeis, porém, hoje são colunistas do Financial Times, autoridades econômicas dos Estados Unidos e economistas das correntes centrais da academia norte-americana que pregam uma abordagem mais matizada e menos puramente disciplinar para resolver o problema da periferia europeia. Países profundamente imbuídos da “economia social de mercado”, como Alemanha e Holanda, têm tratado com muito mais dureza seus parceiros do euro em apuros.
 
Um observador cínico diria que a única diferença é que Alemanha e Holanda, como participantes do euro, têm de pagar a conta de eventuais liberalidades com os países com problemas. Mas é muito provável que a diferença de atitudes tenha também raízes ideológicas mais profundas, como um apego à ortodoxia por parte das economias sociais de mercado que até então passava despercebido em meio ao conflito retórico superficial entre “progressistas” e
“neoliberais”.

 
Na Alemanha, em especial, essa particular combinação de ortodoxia liberal com garantias sociais está claramente delineada na influente escola de pensamento econômico conhecida como “ordoliberalismo”. O termo foi cunhado em 1950 em conexão com a revista econômica Ordo, fundada por economistas alemães em 1948.
 
O ordoliberalismo defende a presença do Estado para garantir o funcionamento eficiente da economia de mercado. Nesse sentido, é um tipo de pensamento bem menos propenso a desregulamentação do que o liberalismo anglo-americano.
 
Por outro lado, os ordoliberais são extremamente avessos à intervenção discricionária do governo na economia. O Estado entra para estabelecer regras justas para o funcionamento da economia do mercado. Uma vez que o jogo começa, porém, o correto é deixar que cada agente econômico seja beneficiado ou punido por suas decisões.
 
Nesse sentido, é uma abordagem que rejeita de forma particularmente veemente a ideia de ajudar quem fez as escolhas erradas a esquivar-se das consequências destas escolhas. 

A aplicação dessa visão de mundo à crise da periferia europeia é óbvia: os países que perderam competitividade por adiar reformas estruturais devem agora recuperá-la submetendo-se a um sacrifício redobrado de enxugamento de despesas e cortes de benefícios em plena crise.
 
No fim das contas, a economia social de mercado está revelando tendências disciplinadoras muito mais implacáveis do que aquelas que no passado foram tão criticadas, pelos progressistas, nos arautos do neoliberalismo e do Consenso de Washington.

Política amplia risco de ruptura na Grécia

22 de setembro de 2011 | 19h19

Fernando Dantas

Abaixo, meu artigo de ontem na Broadcast/AE-News.

Para aqueles que, como eu, assistiram de perto ao triste espetáculo do fim do regime de conversibilidade na Argentina, as chances de que a crise grega seja resolvida sem eventos traumáticos, como uma moratória drástica ou o abandono do euro, parecem muito reduzidas.

Lembro-me bem, nos anos que precederam a moratória e a desvalorização argentina, de aplausos de investidores externos à disciplina com que a o país tentava cumprir precondições cada vez mais draconianas para que o financiamento externo mínimo, de fontes oficiais, continuasse a pingar, e a inevitável ruptura fosse adiada.

Lembro-me também, em seminários na Argentina, da monótona cantilena de autodepreciação de economistas do país que defendiam os pacotes de austeridade. Referindo-se ao povo ao qual pertenciam, eles diziam que a vantagem da paridade com o dólar é que ela forçava a Argentina – que, como toda nação latino-americana, tenderia à irresponsabilidade fiscal e monetária – a fazer o dever de casa.

As condições dramáticas que precederam o calote eram vistas como o ambiente adequado para o teste definitivo, no qual ou a Argentina provaria sua capacidade de manter seus compromissos, mesmo com as piores dores, ou explodiria. O que havia, no entanto, era um claro círculo vicioso: o déficit e a dívida aumentavam, o governo tentava aprofundar a austeridade, essa deprimia ainda mais a economia, a arrecadação piorava e o déficit e a dívida se expandiam ainda mais.

Como no caso grego, a Argentina de fato agiu de forma bastante irresponsável nos anos bons do regime de paridade. É sabido que o ex-presidente Carlos Menem relaxou a política fiscal na sua tentativa fracassada de viabilizar um terceiro mandato. O fato econômico, porém, é que expiar o pecado de ontem não resolve necessariamente a crise de hoje e, pelo contrário, pode agravá-la. Exatamente como na Grécia agora.

É um pouco espantoso, portanto, que o establishment financeiro oficial, como a chamada troica – FMI, Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia – aja como se a Grécia pudesse superar a atual crise “fazendo o dever de casa”. É um sinal de que, apesar da globalização, o mundo não é tão plano assim. O que parece evidente numa perspectiva de vizinho da Argentina, ou seja, que a Grécia não sai dessa armadilha por um sobre-humano esforço de virtude, escapa às autoridades econômicas mais poderosas e capacitadas do planeta.

Vietnã como exemplo

Ou talvez não escape. Pode ser que a verdade seja simplesmente não absorvível pelo modus operandi dos organismos oficiais. Esta parece ser a mensagem de interessante artigo recente, no Financial Times, de Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro e ex-principal assessor da Presidência nos Estados Unidos (respectivamente nos governos Clinton e Obama).

Summers compara a situação das autoridades econômicas envolvidas no socorro à Grécia e a outros países europeus problemáticos com a situação das autoridades militares e políticas americanas durante a guerra do Vietnã, tal como descrito num ensaio de Danniel Ellsberg em 1972, baseado em vasto material do Pentágono ao qual o autor teve acesso.

Nas palavras de Summers, referentes ao Vietnã interpretado por Ellsberg, “a cada momento eles fizeram os mínimos compromissos para evitar o desastre iminente – oferecendo uma retórica otimista, mas nunca tomando os passos que até mesmo eles acreditavam que pudessem oferecer a perspectiva de uma vitória decisiva”.

Já no caso europeu, Summers diz que as autoridades, de forma similar, “para além da ortodoxia do euro, fizeram apenas o suficiente para evitar um colapso iminente, mas nunca o suficiente para estabelecer uma fundação sólida para a retomada da confiança”.

A melhor explicação que li recentemente para essa atitude não se encontra, curiosamente, no artigo de Summers, mas sim em outra peça de opinião no Financial Times, do colunista Gideon Rachman. Para ele, as razões do impasse não são econômicas nem financeiras, mas sim políticas. Simplesmente não existe na Europa a solidariedade entre as nações que permita aos políticos usar recursos do contribuinte – por exemplo – alemão para resgatar os habitantes da Grécia. Os políticos estariam paralisados não por conta própria, mas sim pela vontade dos seus eleitorados.

Em artigo no jornal Valor Econômico na terça-feira, o ex-ministro Antonio Delfim Netto lembra o manifesto de 150 acadêmicos alemães contra a participação do país no euro, quando foi anunciada a intenção do governo de aderir à moeda única. O argumento, correto em retrospectiva, era de que os países da união monetária não se submeteriam à disciplina econômica necessária para o sucesso do projeto.

O manifesto contra o euro dos acadêmicos alemães e o argumento de Rachman apontam na mesma direção. Não existe na zona do euro a coesão sociopolítica que permita aos líderes de cada país tomar decisões que tenham como objetivo primordial o bem-estar do grupo como um todo, mesmo à custa de algum sacrifício temporário dos seus respectivos eleitorados. Os eleitores não enxergam a Europa, mas sim seus próprios países.

Contornando o eleitor

Uma possível saída, criticável do ponto de vista democrático, seria canalizar a ajuda por caminhos que contornassem a representatividade popular. De certa forma, isso já está ocorrendo, com a compra pelo BCE de títulos públicos gregos e de outros países problemáticos e a criação do Instrumento Europeu de Estabilidade Financeira, que pode, em tese, emprestar até 440 bilhões de euros (US$ 603 bilhões) para membros da união monetária.

O problema, porém, apontado por diversos analistas, é que essas ações teriam de ser muito mais amplas e ilimitadas para apagar o incêndio de desconfiança nos mercados. No limite, a criação de um mercado de eurobônus, onde todos os países se financiariam por meio de títulos com risco partilhado (e ponderado pelo peso de cada economia do grupo), seria a forma definitiva de emprestar a credibilidade alemã, francesa e do norte da Europa aos países periféricos problemáticos.

O eurobônus, porém, seria inadmissível para a Alemanha e o Norte europeu sem novas amarras fiscais que, na prática, representariam grande renúncia à soberania dos membros – o que, obviamente, seria mais humilhante para os países periféricos e do Sul que estariam sendo devidamente submetidos à disciplina de inspiração germânica.

Além disso, a Alemanha, como notou Rachman, “é um raro país em que as atividades do banco central despertam profundas paixões políticas”. Em outras palavras, é equivocada a ideia de que, pela via do BCE e de fundos financeiros, seja possível contornar o debate democrático na Alemanha sobre a ajuda a outros membros do euro.

Na verdade, a renúncia recente do ultrafalcão alemão Jürgen Stark do Conselho do BCE colocou nos holofotes da opinião pública a questão do uso da instituição para fins outros que não a manutenção da estabilidade monetária nos moldes do antigo e arquiconservador BundesBank (BC alemão). E, ainda mais complicado, todos os mecanismos de transferência de recursos alemães para apoio a outros países que contornem a chancela parlamentar podem ser questionados do ponto de vista constitucional.

Ordem e caos

Com tantos obstáculos no caminho de uma solução radical para o problema da Grécia, que pode se estender a outros países do euro, as chances de um grande acidente de percurso aumentam.

Recentemente, o célebre economista Nouriel Roubini, que previu a crise das hipotecas subprime, escreveu claramente o que muitos pensam, mas poucos ousam deixar claro: a situação da Grécia é insolúvel na abordagem atual, e o país deveria dar um calote drástico, sair do euro, reintroduzir a dracma (com a consequente desvalorização), decretar a “dracmização” das dívidas em euro e até estabelecer um “corralito”.

Neste último caso, Roubini não empregou a expressão “corralito”, mas disse que a sua solução para a crise grega exigiria “a imposição de medidas ao estilo argentino – como feriados bancários e controles de capital”. Para bom entendedor, uma explicação como essa basta.

O economista escreveu ainda que o “dano colateral” do calote e da saída do euro pela Grécia poderia ser limitado se o processo fosse “ordeiro”. Quem assistiu ao desfecho da crise argentina, sabe que dificilmente a palavra “ordeiro” pode ser aplicada a situações deste tipo. Se houver melhora, ela provavelmente virá apenas depois de um período de caos. E, do ponto de vista das consequências para a economia global e para o Brasil, é justamente esse possível momento de ruptura o que mais importa.

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