As dúvidas sobre o ‘passo à frente’ na Europa
4 de julho de 2012 | 20h27
Fernando Dantas
Minha coluna publicada hoje, 4/7/12, na AE-News/Broadcast.
Na madrugada da última sexta-feira, o euro ganhou uma sobrevida quando os primeiros-ministros da Itália e da Espanha, Mario Monti e Mariano Rajoy, conseguiram dobrar a chanceler alemã, Angela Merkel, e extrair algumas concessões importantes ao final do primeiro dia da reunião de cúpula da União Europeia (UE), em Bruxelas.
Os mercados financeiros reagiram com euforia, e aqui no Brasil o índice Ibovespa subiu 3,23%. Já na segunda-feira e ontem, a reação voltou a ser positiva, com novas altas das bolsas.
Diversos analistas, porém, vêm chamando a atenção para o fato de que, mesmo representando um avanço significativo em relação às cúpulas anteriores, as decisões da semana passada em Bruxelas estão longe de sinalizar o início do fim da crise do euro.
Há até quem pense que, no fim das contas, Merkel não cedeu nada de muito concreto, e a vitória de Monti e Rajoy é mais política e simbólica do que propriamente substantiva. O texto do acordo não é dos mais claros, e há diferentes visões sobre as suas implicações. Como de costume nessa complicadíssima crise do euro, provavelmente só o tempo mostrará o real significado da última cúpula da UE.
Uma das medidas mais comemoradas, especialmente pela Espanha, foi o fato de que o fundo de resgate europeu poderá emprestar diretamente para bancos em dificuldade. Até agora, os recursos têm de passar pelo governo dos países onde os bancos estão sediados.
No caso espanhol, onde ocorrem no momento os piores problemas bancários, o sistema ainda vigente de socorro bancário faz com que a situação de endividamento do governo se agrave, já que ele toma emprestado do fundo de resgate para socorrer as instituições financeiras. Já se o dinheiro flui dos fundos diretos para os bancos, o governo espanhol é poupado. É como se todos os 17 países da zona do euro assumissem coletivamente (na proporção do tamanho de suas economias) o resgate bancário.
O problema, porém, é que esse novo circuito de ajuda os bancos só começar a funcionar em 1º de janeiro de 2013, quando supostamente o Banco Central Europeu (BCE) terá se tornado o supervisor bancário comum de todos os países do euro.
Essa defasagem tem duas implicações principais. A primeira, positiva, é que finalmente a zona do euro dará um primeiro passo na direção de formar uma “união bancária” que, junto com a “união fiscal”, é considerada por muitos analistas um dos pré-requisitos para a superação da crise.
Por outro lado, ainda há outras etapas complicadas a cumprir para uma verdadeira união bancária, como um sistema de seguro de depósitos e um arcabouço para a liquidação de bancos. Alguns analistas acham que mesmo o estabelecimento da supervisão bancária comum até o fim do ano pode ser mais difícil do que parece, uma vez que os 17 países se sentem
para começar a discutir os detalhes.
Um ponto preocupante da nova configuração, em que a ajuda aos bancos não passa pelos governos, é que ela só entra em vigor no fim do ano, e, até lá, a situação pode se agravar.
Charles Wyploz, diretor do Centro Internacional de Estudos Monetários e Bancários, em Genebra, alertou em seu blog que a dívida espanhola vai crescer em 100 bilhões de euros, por causa do resgate aos bancos, antes que o novo esquema entre em vigor. O mesmo vale, ele acrescenta, caso algum banco italiano ou francês venha a ter problemas antes do fim do ano.
Outro aspecto pouco animador, lembrado por Wolfgang Münchau, colunista do Financial Times, é o volume máximo de recursos do Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM, na sigla em inglês; e que está para substituir os fundos temporários para o mesmo fim), de 500 bilhões de euros.
Além de ter de dar conta do resgate de bancos espanhóis e programas de ajuda a Grécia, Portugal e Irlanda (a que podem se juntar Chipre e Eslovênia), o fundo poderá comprar diretamente bônus do governo da Itália ou de outros países com custo demasiadamente elevado da dívida pública (na verdade, depois da Cúpula, Finlândia e Holanda já se
manifestaram contra esta possibilidade).
Para Münchau, não há dinheiro suficiente do ESM para tantos objetivos – e menos ainda se o objetivo da compra de títulos italianos é fazer uma diferença real em termos de redução da taxa de juros. O analista também acha que o abrandamento dos programas impostos aos países cujos títulos sejam adquiridos pelo fundo de resgate (o que corresponde a uma ajuda financeira) é bem menos significativo do que parece à primeira vista.
Aliás, esta redução das condicionalidades foi celebrada como uma grande vitória pela Itália, que detestaria ver aplicada a si própria os procedimentos intrusivos que a Troika (BCE, Comissão Europeia e FMI) utilizou no caso grego.
Há ainda, no acordo da conferência de cúpula da UE, uma iniciativa de crescimento de longo prazo, com planos de aplicação de 130 bilhões de euros numa série de projetos. Ninguém é contra essas medidas, mas os analistas em geral consideram que, nem de longe, ela será suficiente para reverter o quadro recessivo na zona do euro, e quase depressivo em vários países problemáticos.
Para o prêmio Nobel Paul Krugman, o melhor que se pode esperar da cúpula da semana passada é que ela seja um sinal de que as autoridades europeias acordaram e passarão a tomar decisões cada vez mais fortes para superar a crise. Mas ele não parece muito convencido de que esse seja o caso.






