Bolha de consumo de bens duráveis estourou?
15 de agosto de 2012 | 19h36
Fernando Dantas
Minha coluna da AE-News/BROADCAST de hoje (15/8/2012):
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Há um ano, a mediana das projeções do PIB de 2012 coletadas pelo Banco Central (BC) estava em 4%. Já a previsão mais recente, referente a 10 de agosto, caiu para 1,81%. No mercado financeiro, há analistas prevendo crescimento inferior a 1,5% este ano, com um desempenho particularmente ruim da indústria. Não há dúvida, portanto, que a tônica da primeira metade do governo da presidente Dilma Rousseff no campo econômico é a decepção com a performance do PIB. Esse desapontamento é particularmente agudo pelo fato de não ter sido previsto por ninguém. Nem mesmo o Banco Central (BC), que corretamente anteviu que a economia estava estacionando no segundo semestre do ano passado, imaginou que o ano de 2012 seria tão ruim.
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Paradoxalmente, a vida polÃtica segue normal, e até bem, para Dilma, pelo fenômeno que vem sendo analisado com lupa pela equipe econômica e pelos analistas em geral: o descolamento entre a economia estagnada e o mercado de trabalho ainda aquecido. Uma visão na equipe econômica é que se trata fundamentalmente de uma longa defasagem entre o efeito do desaquecimento nos número do PIB e nos dados do emprego. O desemprego, particularmente, ainda em nÃveis de baixa recorde, poderia estar passando uma imagem excessivamente rósea da realidade, por questões demográficas ou ligadas à metodologia da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE).
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De qualquer forma, a visão é de que o resfriamento econômico é para valer, e que tende a se espraiar ao mercado de trabalho, à renda, ao consumo e ao setor de serviços. É contra isso que o governo vem jogando todo o peso da polÃtica econômica, com o longo – e ainda não concluÃdo – ciclo de cortes da Selic, a taxa básica de juros, e um sem-número de medidas tributárias e creditÃcias de estÃmulo. A grande novidade do momento é que o governo parece ter incorporado a visão de muitos analistas de que já não é possÃvel puxar a economia apenas pelo consumo das famÃlias, e que o verdadeiro elo perdido do crescimento em 2012 é o investimento, com projeções negativas para o ano. A decisão de lançar um pacote para atrair recursos privados de R$ 60 bilhões em rodovias e ferrovias – entre outras medidas – é um claro sinal de que o investimento é a nova frente de batalha.
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Dificilmente, porém, as medidas de concessão e outras formas de participação do capital privado em infraestrutura terão impacto este ano. É até duvidoso quão forte será o efeito em 2013, dadas todas as complicações institucionais – jurÃdicas, ambientais, de fiscalização – que vêm emperrando as obras de infraestrutura.
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Assim, a retomada de um ritmo satisfatório de crescimento continuará a ser a grande ansiedade do governo Dilma, e dependerá mais da prevista reaceleração cÃclica a partir do segundo semestre do que dos pacotes que serão lançados em agosto e setembro.
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A aposta de retomada no segundo semestre ainda permanece como hipótese básica para o mercado, com a mediana das projeções de crescimento em 2013 de 4%. Este otimismo, porém, está arrefecendo, já que, em maio, a previsão era de 4,5% para o próximo ano. O grande temor é de que a tão antecipada recuperação não se materialize. Neste caso, com um mercado de trabalho resfriando, e os efeitos disto na renda e no consumo, o governo provavelmente ingressaria na sua fase mais complicada politicamente.
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Muito tem sido falado sobre o efeito da deterioração do quadro internacional, especialmente na Europa, na frustração do crescimento nesta primeira metade do governo Dilma. Na própria equipe econômica, a ideia é de que esta talvez seja a causa principal.
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Mas há uma visão alternativa que considera a exaustão do ciclo de crédito ao consumo iniciado em 2004 como o protagonista principal da decepção econômica dos últimos dois anos. Para um experiente economista do mercado, a alta da inadimplência pode ser vista como uma espécie de estouro da “bolha” de consumo de bens duráveis movido a crédito, com destaque para os automóveis.
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Nessa interpretação, a exemplo do ocorrido com as hipotecas subprime nos Estados Unidos – mas, evidentemente, numa escala muito menor -, houve um pico de consumo de bens duráveis movido a crédito, a partir do qual esses produtos começaram a cair de preço no mercado internacional, com reflexos no Brasil. A queda de valor, é claro, está ligada à superoferta, com a grande produção asiática e a estagnação do consumo nos paÃses ricos.
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Assim, o consumidor endividado no Brasil faz a opção racional de ficar inadimplente já que, por causa dos juros muito altos, o saldo devedor é muito grande comparado ao preço do produto adquirido, seja novo ou usado. O contraste entre o alto endividamento e o preço em queda, ou pelo menos estável, dos bens duráveis induz a inadimplência, mesmo quando o consumidor está empregado, aufere renda e tem condições de pagar.
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Se for verdadeiro esse diagnóstico sobre a saturação da demanda por bens duráveis movida a crédito, reativar a economia com juros baixos e estÃmulos ao consumo pode ser uma tarefa bem mais difÃcil do que parece. A alternativa de estimular o investimento pode não resultar em números apresentáveis do PIB em 2012 e talvez nem mesmo em 2013, mas seria muito mais acertada do ponto de vista de recolocar o PaÃs numa trajetória sustentável de crescimento.














