Indústria brasileira ficou para trás
18 de maio de 2012 | 8h34
Fernando Dantas
Abaixo, minha coluna da 4ª feira, 16/5, na AE-News/Broadcast:
Na sessão de abertura da vigésima quarta edição do tradicional Fórum Nacional de João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro do Planejamento, nessa segunda-feira, no Rio, deu para perceber entre os participantes um clima geral de que “o Brasil está bem, mas deste jeito não pode ficar”.
Pode parecer paradoxal, mas, na verdade, é uma posição que reflete o momento muito particular na história do País. Depois do razoável desempenho econômico desde 2004, mas que em termos sociais – emprego e redução de pobreza e desigualdade – foi excelente, há sinais claros de que os limites do atual modelo estão perto de ser atingidos.
Os sintomas de esgotamento vêm de diversas frentes: sobre-endividamento da classe C, perda de competitividade da indústria e preocupação com o ritmo lento da retomada econômica.
Os problemas da indústria, em particular, foram um importante foco de atenção na abertura do Fórum Nacional.
Paulo Stark, presidente e CEO da Siemens Brasil, mostrou que houve um forte descompasso entre o desempenho da produção industrial brasileira e global em 2011: enquanto a do Brasil ficou praticamente parada, com crescimento de 0,3%, a do mundo teve expansão de 5,8%.
Esse é um dado relevante, já que há analistas que tendem a ver o fraco desempenho da indústria no Brasil nos últimos anos como causado, pelo menos parcialmente, por uma tendência global na mesma direção.
Stark indicou que isso foi verdadeiro para os anos de 2007 a 2010, quando a performance da produção industrial no Brasil e no mundo foi de fato muito parecida. Em 2007, por exemplo, houve crescimento global de 6,1% e de 6% no Brasil. Em 2008, de respectivamente 2,7% e 3,1%. Em 2009, ano da grande crise global, a indústria caiu 7,7% no mundo e 7,4% no Brasil. E, em 2010, houve a forte recuperação de 9,6% globalmente e de 10,5% no caso brasileiro.
Fica claro, portanto, que, a partir de 2011, a indústria brasileira pode ter começado a sofrer pressões de uma conjuntura muito específica do País, na qual o câmbio valorizado deve ter sido um elemento importante.
Outra comparação interessante apresentada por Stark é relativa à participação da indústria de transformação no PIB. Esta é outra questão importante do debate econômico atual. Há uma tendência de as economias voltarem-se mais ao setor de serviços a partir de determinados níveis de desenvolvimento econômico. Mas a redução da participação da indústria de transformação brasileira no PIB salta aos olhos quando comparada com a de outros países emergentes ou que fizeram a transição para o mundo rico recentemente.
Assim, no caso brasileiro, essa participação era de 14% em 1960 e subiu para 33,2% em 1970, mantendo-se praticamente no mesmo patamar em 1980, quando registrou 32,4%. Em 1990, porém, a participação da indústria de transformação no PIB havia despencado para 16,1%, e em 2011 estava em 14,6%.
Já no caso da China, a participação saiu de 30,5% em 1960 para 33,9% em 2011, com um pico de 39% em 1970. Como se vê, houve um recuo nas últimas décadas, mas nada comparável ao desabamento ocorrido no Brasil. Na Coreia do Sul, a participação da indústria de transformação no PIB subiu ininterruptamente de 14% em 1960 para 27,9% em 2011, mas o movimento deu-se em ritmo muito mais rápido até 1980.
A Índia, finalmente, o país menos desenvolvido do grupo, viu a parcela da indústria de transformação no total da economia subir paulatinamente de 12% em 1960 para 15,9% em 2011. Chama a atenção que, mesmo vindo de um nível muito inferior, condizente com sua característica de nação agrária, a Índia em 2011 já exibia uma participação da indústria de transformação no PIB um pouco superior à brasileira.
Para uma corrente de economistas, o papel da indústria é crucial no processo de desenvolvimento econômico, por diversas razões. Talvez a mais básica seja a de que o setor manufatureiro tende a ter um melhor desempenho da produtividade, especialmente em países não desenvolvidos. E o Brasil, em particular, tem no baixo crescimento da produtividade o calcanhar-de-aquiles mais frequentemente citado em termos do seu modelo de crescimento.
Na proposta do Fórum Nacional de “mobilização nacional pela competitividade do País”, Velloso deixou explícito o objetivo de “reindustrialização do País, a fim de que a indústria de transformação, nos setores mais competitivos, volte a exercer papel de liderança no desenvolvimento nacional”.
As sugestões para revitalizar a indústria citadas pelos diversos participantes da abertura do Fórum Nacional repetiram o cardápio já bem familiar ao público: juros menores, câmbio menos valorizado, melhora da infraestrutura, redução do custo de energia e tributação em geral, reforma trabalhista e incentivo à inovação, entre outras.
O diagnóstico já é mais do que conhecido, o receituário também. Mas fica a impressão de que, daqui a um ano, no 25º Fórum Nacional, os debatedores ainda estarão discutindo a crise da indústria. Porque, como costuma observar Velloso, a reforma mais fundamental é a política, para viabilizar um sistema de governança pública que entregue as reformas necessárias. O problema, porém, é que a reforma política é também a mais complicada… politicamente.
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