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Imagem do Brasil perde um pouco do brilho

2 de maio de 2012 | 19h53

Fernando Dantas

Abaixo, a minha coluna de hoje (2/5/12) na AE-News da Broadcast.

O forte movimento de desvalorização do real desde o fim de fevereiro é atribuído por alguns analistas à atuação mais firme do Banco Central no mercado à vista e ao resultado da série de medidas de controle das entradas de fluxos de até cinco anos tomadas pelo governo desde o início do ano passado.

Outra linha de interpretação, porém, menos favorável ao governo, é de que nos últimos meses o Brasil perdeu um pouco do brilho que vem sustentando há anos para os investidores externos. Não é difícil encontrar análises em relatórios de instituições financeiras e na imprensa internacional que questionam diversos aspectos das perspectivas de crescimento do País e do desempenho das empresas brasileiras.

Há preocupação com o ritmo do crescimento potencial do PIB, que é evidentemente bem menor do que a expansão exibida no fim do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A possibilidade de uma desaceleração mais forte do que o previsto na China, que derrube de forma mais drástica o preço das commodities exportadas pelo Brasil, compõe esse quadro de maior cautela internacional com o País.

Outro fator de inquietação é a mudança da política econômica na direção da heterodoxia, com o Banco Central aparentemente empenhado em levar as taxas de juros reais para níveis previamente estipulados (próximos a 2%) como objetivo do governo, com uma política cambial que busca a desvalorização e com um ativismo crescente em controle de capitais, política industrial e protecionismo.

A grande ênfase do governo nas medidas de estímulo à demanda também desagrada aos que veem as restrições de oferta como o principal problema da economia brasileira. Dessa forma, há muito estardalhaço por parte da presidente Dilma Rousseff e sua equipe econômica em relação à dupla pressão – bancos públicos derrubando juros e governo vocalizando seu desagrado – sobre os bancos privados para que baixem os altíssimos spreads bancários.

Já a aprovação do fundo de Previdência dos funcionários públicos é bem menos realçada pelo marketing governista. A primeira política é claramente de demanda, enquanto a segunda é inequivocamente de oferta (ao contemplar gastos públicos mais sustentáveis no longo prazo, acena para um cenário produtivo mais saudável no futuro).

É óbvio que atacar bancos faz muito mais sentido eleitoral do que reformar a Previdência. Porém, como a percepção externa sobre o País não capta necessariamente as sutis diferenças entre discurso e curso de ação, o contínuo ruído heterodoxo produzido pelo governo acaba minando a história que fez do Brasil um dos pousos prediletos do investidor internacional nos últimos anos: a do presidente de esquerda, oriundo da extrema pobreza, que ao chegar ao poder abandonou a agenda radical e praticou uma política econômica pró-mercado, ao mesmo tempo em que a complementou com políticas sociais fiscalmente responsáveis que tiraram dezenas de milhões da pobreza e criaram uma nova classe média popular.

O que começa a ser questionado, ainda de forma muito leve, é a parte daquela história sobre a política econômica pró-mercado. Não contribui para a imagem externa do Brasil o fato de que a Argentina, um parceiro importante e muito próximo do País, esteja pisando mais fundo no acelerador da sua alternativa populista, como demonstrado na recente nacionalização da YPF.

O investidor distingue claramente o curso extremamente peculiar do peronismo de Cristina Kirchner da via muito mais moderada do Brasil. O problema, porém, é que há por vezes a percepção de certo “clima político” que extravasa fronteiras e engloba diferentes países de uma mesma região. Falso ou errado, não é muito diferente, por exemplo, da nossa ideia, como brasileiros, da reação popular e política às medidas de austeridade alastrando-se pelos diversos países da periferia europeia.

Assim, se a Argentina está exacerbando seu radicalismo heterodoxo, o estrangeiro menos atento à minúcia da política interna de cada país pode imaginar que, em paralelo, o Brasil possa estar ficando um pouco menos moderado no seu mix de política econômica. Ninguém vai confundir a posição relativa dos dois, mas isso é diferente de achar que há uma tendência de fundo na região (a nacionalização da TDE, empresa de energia espanhola, pela Bolívia ontem, reforça esse tipo de associação).

Como no caso da política econômica, o cuidado que o Brasil tem em não melindrar seus vizinhos populistas, embora faça todo o sentido como estratégia diplomática, também dificulta a diferenciação. Se Dilma ou membros da equipe econômica declarassem alto e bom som que consideram o caminho de Venezuela, Argentina e Bolívia equivocado, e que esse tipo de política econômica não serve para o Brasil, com certeza o País iria colher um forte imbróglio diplomático regional.

Por outro lado, seria um sinal claro e sem ambiguidades para a comunidade internacional de investidores de que a política econômica atual ainda está embasada nos mesmos princípios que mereceram tantos aplausos durante o governo Lula.

Em todo caso, não é certo que o governo esteja especialmente preocupado neste momento com a imagem do Brasil junto aos investidores externos. Com certeza, ela é ainda é muito boa, mesmo com alguma perda de lustro recente. O País ainda tem capital de credibilidade para gastar. Além disso, uma imagem boa demais não é muito diferente de uma bolha, com todos os riscos de sobrevalorização cambial e euforia excessiva de consumo e crédito. Dessa forma, é até possível que alguns respirem aliviados se a moda Brasil se atenuar um pouco.

O problema, porém, é que a baixa poupança brasileira faz com que o País dependa do financiamento externo para investir além dos níveis insatisfatórios que persistem há décadas. Melhor que assustar o investidor estrangeiro disposto a apostar no Brasil é engajá-lo numa estratégia inteligente de ampliação do investimento e do crescimento potencial, em vez de usar os recursos externos para botar mais lenha na fogueira do consumo.

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