Na correria das últimas semanas, acabei não postando aqui duas colunas que fiz para a AE-News/Broadcast enquanto participava do Fórum Econômico Mundial em Davos. Como acho que permanecem atuais, posto abaixo as duas, começando pela mais recente, que revela que dois ilustres participantes saíram do encontro mais pessimistas. Na coluna anterior, o célebre economista Larry Summers diz por que é mais fácil criar riqueza do que criar empregos.
26/01/2012
DAVOS AUMENTOU O PESSIMISMO DE ALGUNS PARTICIPANTES
No debate sobre o panorama econômico global, no último dia do Fórum Econômico Mundial, no sábado, o célebre colunista Martin Wolf, do Financial Times, resumiu o sentimento predominante no encontro de 2012 em Davos como o de alívio em saber que uma grande catástrofe não é mais tão iminente – o que, obviamente, está muito longe de se considerar que haja qualquer otimismo real no ar.
A causa principal do alívio recente é bem conhecida. Com as operações de financiamento aos bancos europeus, no valor de centenas de bilhões de euros, pelo prazo de três anos, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, removeu do cenário o espectro de uma quebradeira bancária na zona do euro a curtíssimo prazo.
Outro fator que pode ter impressionado positivamente alguns participantes do Fórum de Davos foi o espetáculo de unidade entre as autoridades econômicas européias. Ministros das Finanças da zona do euro e altas autoridades da Comissão Europeia fizeram coro ao enfatizar os progressos rumo a um regime comum de disciplina fiscal e ao repisarem que o “bônus europeu” é o corolário das reformas agora em andamento para estancar a crise do euro, e não um remédio para ela.
Mas há, por outro lado, participantes do Fórum que saíram do encontro mais pessimistas do que entraram. E, curiosamente, os fatos por detrás dessa postura são semelhantes aos que justificam o otimismo da outra corrente. A interpretação, claro, é que é muito diferente.
No sábado, último dia do encontro, encontrei nos corredores do Centro de Congressos em Davos dois célebres participantes do Fórum que saíram mais pessimistas da maratona de debates do evento, e que conversavam justamente sobre isso: o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e o polêmico historiador econômico britânico Niall Ferguson.
Entrevistei os dois rapidamente, e pude notar que a preocupação deles é justamente com essa aparente fachada de união entre os principais países da zona do euro em torno da visão germânica sobre como resolver a crise. É uma abordagem que privilegia o ajuste fiscal e as reformas estruturais, como redução de direitos previdenciários e flexibilização do mercado de trabalho.
Para Eichengreen, essa é apenas uma das pernas que a Europa necessita para sair da atual crise, o que ele chama de “reformas pelo lado da oferta”. Ele ficou preocupado ao ouvir autoridades européias indicarem que o problema da zona do euro era o de restabelecer a confiança. Essa é uma típica visão pelo lado da oferta, quando se supõe que melhoras nas condições produtivas de um país automaticamente religarão os motores da economia.
“Não se disse nada sobre qual seria a política fiscal para dar suporte ao crescimento, e isso me preocupou, porque nós sabemos que o crescimento não ocorre espontaneamente quando você está em meio a uma recessão e a uma crise financeira”, disse Eichengreen.
Ele também ficou inquieto ao notar que, diferentemente do que diz ter lido em vários artigos na imprensa sobre o encontro de Davos este ano, não houve – em sua opinião – nenhuma discussão séria no encontro sobre questões como desemprego, desigualdade e remuneração excessiva para executivos – exatamente alguns dos principais combustíveis da insatisfação popular com o sistema econômico pós-crise global, cuja principal manifestação é o movimento Occupy Wall Street.
O problema, para Eichengreen, é que a irritação popular está em total dissonância com a frente única de promessas de austeridade e reformas estruturais por parte das autoridades européias. Sem estímulo à demanda, continua o economista, não haverá crescimento, o que acabará por pulverizar o suporte político aos atuais reformadores. “E aí a gente não sabe que tipo de governo virá em seguida”, arremata o economista, apontando o risco de descontinuidade e rupturas.
Ele lembra ainda que há, na Europa, uma crise bancária, uma crise de dívida dos países e uma crise de crescimento, e a atuação de Draghi no BCE só tirou do cenário a primeira – e não definitivamente, mas por três anos.
Ferguson, por sua vez, tem um diagnóstico parecido, mas é ainda mais duro. Ele se disse mais pessimista depois do Fórum por ter aprendido que “ou o governo alemão não entende o problema, ou o coloca de forma propositadamente errada”.
Para o intelectual, é insuficiente, para dar base a uma união monetária, que ela seja acompanhada por um pacto de austeridade. É preciso que haja também federalismo fiscal, com transferências das regiões (países, no caso da zona do euro) mais produtivas para as menos produtivas. “O que é uma coisa muito diferente do que a Angela Merkel está propondo”, ele notou.
Ferguson acha ainda que, para dar sustentabilidade à união monetária, deve existir um bônus europeu comum, pelo qual o governo central capta recursos cotizando os riscos entre os participantes (esquema pelo qual, obviamente, os melhores riscos ajudam os piores). Ferguson lembra que a própria Alemanha é um estado federado, e que os “bunds” do governo alemão nada mais são do que o “eurobônus” na escala reduzida de um só país.
Ele também vê uma confusão entre liquidez e solvência no caso do megafinanciamento do BCE aos bancos. “Melhorou a situação de liquidez, mas ainda há bancos e governos insolventes na Europa”, alerta Ferguson.
O historiador acha que, na ausência de uma muito improvável reviravolta na postura do governo alemão, a Europa passará em breve por um choque de escala semelhante ao que abalou os Estados Unidos e o mundo depois da quebra do Lehman Brothers em 2008. Ele vê paralelos entre a recusa do governo americano em aceitar a enorme dimensão da crise financeira pré-Lehman e a atual atitude das autoridades européias em relação à crise soberana de países da zona do euro.
Ferguson prevê que a Grécia deve provocar um choque deste tipo até março, tomando decisões unilateralmente sobre o calote. Para ele, é impossível se isolar a Grécia, e Portugal será o primeiro a sofrer contágio, num efeito dominó que atingirá também Espanha e Itália.
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26/01/2012
PARA SUMMERS, CRIAR RIQUEZA É MAIS FÁCIL QUE CRIAR EMPREGOS
Foi anunciado com pompa e circunstância que um dos temas principais de Davos neste ano seria o de rediscutir o capitalismo. Como se sabe, o sistema que Karl Marx previu que sucumbiria às próprias contradições está passando por mais uma fase difícil, com o mau desempenho das economias avançadas após a crise global de 2008 e 2009.
Recessão, desemprego, ameaças de calotes soberanos, desigualdade social, rendimentos exorbitantes de altos executivos e banqueiros (e com estes últimos sendo salvos com dinheiro do contribuinte) – formou-se um coquetel de insatisfações e insegurança que redundou no espírito de autocrítica que agora se vê no Fórum Econômico Mundial, que reúne a elite econômica e política global.
Tudo pronto, portanto, para um debate fascinante? Infelizmente, não foi bem o que se viu na quarta-feira, o primeiro dia do encontro. O debate sobre capitalismo, pelo menos na opinião deste colunista que lá estava, foi decepcionante.
Promovida pela revista Time, a discussão tinha tudo para ser interessante. Afinal, havia um time eclético e distinto de debatedores, que incluía um economista de primeiríssima linha, Raghuram Rajan, da Universidade de Chicago; uma sindicalista, Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação Internacional de Sindicatos; o executivo Bem Verwaayen, à frente da Alcatel-Lucent; e Brian Moynihan, que comanda o Bank of America.
Mas o que se viu foi um debate relativamente raso, em que palavras de ordens e chavões eram esgrimidos de parte a parte, sem que houvesse de fato uma discussão mais aprofundada dos diversos problemas apresentados. Assim, previsivelmente, enquanto Sharan dizia que os patrões “perderam a bússola moral”, Verwaayen rebatia com a afirmação de que garantir empregos é muito diferente de criar empregos. Ambos têm razão, mas não há nada de muito excitante em termos intelectuais em ver uma sindicalista atacar a moralidade dos gestores de empresas ou um executivo defender a flexibilidade laboral.
Esta quinta-feira, porém, logo pela manhã, reservou uma surpresa positiva. Num debate sobre “prosperidade e austeridade”, do qual acabo de sair, o célebre economista Lawrence Summers, de Harvard, deu um show de inteligência e brilhantismo, ao comentar algumas das questões mais instigantes do capitalismo contemporâneo.
Ex-secretário do Tesouro americano com Bill Clinton, ex-principal conselheiro econômico de Barack Obama e ex-presidente de Harvard, Summers é conhecido pelos comentários instigantes, que às vezes transbordam os limites da correção política e lhe causam problemas.
No debate desta manhã, porém, ele concentrou-se nas questões econômicas, que domina como ninguém. Summers tocou em diversos temas interessantes, mas considerei particularmente brilhantes algumas colocações sobre o papel do Estado num capitalismo em transformação.
Ele observou, por exemplo, que, assim como empresas podem aumentar no curto prazo seus resultados economizando em gastos dos quais não deveriam fugir, como obrigações tributárias ou medidas ambientais ou de segurança, governos podem fazer o mesmo – obter bons resultados fiscais à custa de subinvestimento em infraestrutura e deterioração de serviços essenciais. É o que ele chamou de “déficit público reprimido”, que, como a inflação reprimida (o nosso conhecido tabelamento, que leva ao sumiço dos produtos nas prateleiras), é tão pernicioso quanto o déficit público explícito.
Numa nota à parte, Summers notou que há uma tendência universal de se privilegiar os novos projetos de investimento em detrimento da manutenção, que tem resultados na demanda mais rápidos e gera mais empregos. Ele se lembrou, nos seus tempos na presidência de Harvard, do comentário de um colega sobre as razões pelas quais a manutenção é relegada: “Nunca houve o caso de se dar o nome de um político a um serviço de pintura”.
Mas o filet mignon dos comentários de Summers ficou reservado à crise de desemprego nos países avançados. Na mesa de debates, com executivos e o ministro das Finanças do Canadá, James Flaherty, sucederam-se avaliações relativamente previsíveis, como, por exemplo, a necessidade de se liberar a energia empreendedora com flexibilização trabalhista e desburocratização.
Summers, porém, levantou o ponto de que é muito mais fácil criar riqueza do que criar empregos. E, na verdade, a economia americana está evoluindo numa direção em que a criação de emprego terá de vir muito mais de segmentos ligados ao Estado, como saúde e educação, do que do setor industrial.
Ele deu um exemplo dramático. Desde os anos 60, o preço relativo de uma televisão reduziu-se 50 vezes em relação ao de serviços de saúde. Ele ressalvou que era um caso excepcional mas, ainda assim, se for tomada a evolução do preço de roupas e de serviços de consumo em geral, embora muito menos drástico, há também um substancial encarecimento relativo dos serviços.
Por trás dessa tendência, explicou Summers, está a revolução de produtividade na manufatura, que faz com que hoje se produza uma quantidade muito maior de bens, de qualidade muito melhor, por preços muito menores, e se empregando muito menos gente.
Assim, criou-se a contradição de que os setores mais dinâmicos da economia, com crescimento mais rápido da produtividade, e que são normalmente aqueles que mais se busca estimular, pelo próprio carisma que possuem, são também os que menos criam empregos. “É uma ilusão que os iPods, iPads e Kindles vão criar mais empregos para pessoas normais”, disse Summers.
Summers fez um paralelo entre o que ocorre hoje e a transição da economia agrícola para a industrial nos países ricos. Naquele momento, de forma similar ao que acontece agora na indústria, a evolução tecnológica permitiu que se produzissem muito mais alimentos com muito menos gente. E o contingente desempregado no campo transferiu-se para a indústria, que produzia bens de consumo em altíssima demanda pela população.
Hoje, de maneira semelhante, os desempregados da indústria deverão se transferir para setores nos quais o atendimento à demanda da população é notoriamente insuficiente e insatisfatório, como saúde e educação. Os serviços de saúde, aliás, segundo Summers, são o segmento previsto para gerar mais empregos nos Estados Unidos nos próximos dez anos.
A transição atual, porém, apresenta um grande problema. Empregos estão sendo transferidos de um setor industrial altamente produtivo para serviços muito vinculados ao governo que apresentam um dinamismo econômico muito menor. De qualquer forma, notou Summers, outra ilusão é a de que “um governo menor combina com um governo que vai criar empregos”, uma aparente estocada na agenda conservadora dos Republicanos.
O grande desafio da política econômica na atual fase do capitalismo, portanto, seria o de preservar o dinamismo dos setores de baixa criação de emprego, que, por outro lado, produzem em massa bens de qualidade para a população, ao mesmo tempo em que se tenta construir uma sociedade com trabalho digno para todos.