Foto: Ernesto Rodrigues/AE
Amigas e amigos,
ainda não estou completamente ‘curado’ em relação a ter perdido os shows do Paul em São Paulo. E também não acho que o meu texto sobre o tema (um anti-texto, na verdade) é suficiente para abastecer esse blog e informar seus leitores . Por isso, pedi ao meu irmão, um extremista Beatlemaníaco, que fizesse um relato sobre sua experiência. Aqui vai. Valeu, Nando! Bjs, F.
Paul in SP
Nando Machado
Caros,
Como meu irmão não pode ir ao show do Paul (sinto muitíssimo por ele), fiquei com a difícil tarefa de descrever duas noites muito especiais e emocionantes. Fui aos dois shows do Paul McCartney em SP e foram duas noites inesquecíveis. Impressionante como o mesmo show pode ter histórias tão diferentes umas das outras.
No domingo, fui sozinho na numerada coberta, lá atrás, bem longe. Bem cedinho, fui de carona com uns mineiros que haviam alugado um microônibus, amigos do Luiz ‘Téti’ Pimentel. Entre eles, Terence Machado, diretor do excelente programa ‘Alto Falante’, exibido pela TV Brasil. Gostei do papo imediatamente, todos eram profundos conhecedores dos Beatles e de Paul. Sentei na numerada, encontrei uns amigos, bati papo com desconhecidos (afinal, somos todos Beatlemaníacos, certo?). Assisti ao show com uma visão total do palco, da pista e do estádio. Busquei essa perspectiva pois já tinha visto Paul ao vivo duas vezes. Em 1990, fui um dos 184 mil fãs que foram ao Maracanã e que permaneceram durante muito tempo no Guiness book como parte do maior público em um show pago em todos os tempos (alguém sabe se ainda estamos no Guiness?). Em 93, vi Paul no Pacaembu, pertinho de casa, e me lembrava que o público do show é um espetáculo à parte.
O que mais me impressionou no show – além da banda, som, cenário e luzes perfeitos – é a emoção que essas músicas provocam nas pessoas. Você olha pra trás e vê pessoas felizes, de todas as idades, chorando, abraçadas, como se estivessem realizando um sonho – e estavam: o sonho de ver um Beatle cantando os maiores sucessos dos Beatles num show ao vivo. Isso durante muito tempo foi realmente um sonho, já que os Beatles pararam de se apresentar ao vivo em 66 e durante muito tempo Paul tocava apenas umas 3 ou 4 músicas dos Beatles por show. Paul só voltou a incluir Beatles para valer no repertório a partir da tour que o trouxe ao Brasil pela primeira vez, em 90 (não sei por que, sempre achei que os shows tinham sido em 89…). Na ocasião, fui de ônibus para o Rio com meu amigo Duda Soutello e ficamos na casa da avó dele em Copacabana, foi a primeira vez que tinha ido à Cidade Maravilhosa (deve ser por isso que eu adoro o Rio). Lembro de ter chorado ao ouvir o Maracanã inteiro cantando ‘Hey Jude’ e ‘Let it Be’.
Essas músicas nos fazem lembrar de tantos momentos e fazem parte das nossas vidas de tantas maneiras diferentes. A genialidade de um artista realmente pode nos transportar no tempo e nos elevar realmente a outra dimensão. Para quem gosta de Beatles como eu, essas músicas são como familiares que a gente ama, cada um do seu jeito. Interessante como a história dos Beatles pode servir de metáfora para a nossa vida real: o início inocente, puro; o amadurecimento com o passar dos tempos; e, no fim, o triste definhamento e a morte. É como uma história de amor que todos nós vivemos, até que o sonho realmente acabou com a morte de John Lennon em 80.
Voltando ao show: No primeiro dia, os primeiros acordes de ‘All My Loving’ me lembraram da inocência da minha própria infância; impossível não chorar com a homenagem a George Harrison e ver como ele também era cool, outro gênio. ‘The Long and Winding Road’ foi outro momento muito especial e emocionante, me lembro que tantas vezes andei por uma long and winding road até chegar a casa da minha amada – ‘the road’ pode simbolizar tantas coisas…
No segundo dia fui de Pista Premium. Quase não cheguei a tempo, entrei no Morumbi às 21:15 desesperado por causa da chuva e do trânsito.
O show do Paul é uma ocasião em que nem chego perto de uma cerveja para não ter que ir ao banheiro. Aliás, é difícil escolher um momento para ir ao banheiro. Nesse segundo dia o repertório já começou diferente: um show que começa com ‘Magical Mistery Tour’ não precisa de mais nada. Mas ele ainda tocou ‘Got to Get You Into My Life’, ‘Two Of Us’, ‘Bluebird’ (Wings). Paul tenta fazer um set list que agrade aos fãs de Beatles, aos fãs de Wings e aos fãs de sua carreira solo. Ele tocou até duas músicas do seu excelente projeto Fireman, além de algumas que divulgavam o relançamento de ‘Band on The Run’. Tocou ainda ‘Dance Tonight’, do ‘Memory Almost Full’. Difícil não se emocionar com a melodia de ‘My Love’, realmente é uma das melhores músicas de amor já escritas. A cada tour, Paul muda as músicas dos Beatles no setlist, inclui algumas inéditas (‘O Bla Di O Bla Da’), e renova as homenagens a John, com ‘A Day in The Life/Give Peace a Chance’ e ‘Here Today’, do álbum ‘Tug of War’.
O show teve outros momentos especiais: ‘Let it Be’ e ‘Hey Jude’, com 64 mil pessoas cantando, é muito emocionante. ‘Helter Skelter’, ‘Day Tripper’, ‘I’ve Got A Feeling’, ‘Back in The USSR’ e ‘Paperback Writer’ mostram o lado mais roqueiro de Paul e nos dão vontade de sair pulando (bom para mostrar para quem costuma dizer que Paul só fazia músicas melosas). Por outro lado, ‘Blackbird’ e ‘Yesterday’ mostram o lado de compositor simples e de melodias sensíveis. No primeiro dia, teve ‘Drive My Car’, as excelentes ‘Venus and Mars / Rockshow’ (que abriu o primeiro show), ‘Let Em In’, ‘Jet’, ‘Let Me Roll It’, ‘Band on The Ru’n e ‘Mrs Vanderbilt’ mostraram o melhor do Wings. No primeiro dia teve ainda ‘I’ve Just Seen a Face’, do ‘Help’; no segundo, ‘I’m Looking Through You’. ‘And I Love Her’ (só no domingo), ‘Eleanor Rigby’, ‘Lady Madonna’, ‘Get Back’, ‘Sgt Peppers’ (reprise).
O show termina com ‘The End’: ‘E, no final, o amor que você faz é igual ao amor que você leva’. É a melhor frase para encerrar um show, um álbum como Abbey Road, ou até uma banda como os Beatles. Por outro lado, senti falta do medley do ‘Abbey Road,’ uma sequência maravilhosa de canções. ‘We Can Work It Out’, ‘Penny Lane’, ‘Hello Goodbye’, tantas ficaram de fora… ‘Maybe I´m Amazed’ é uma das minhas preferidas, mas faltaram, ‘Pipes of Peace’,’ Calisco Skies’, ‘My Brave Face’, ‘Coming Up’, ‘Junk’, ‘Oh Darling’, ‘Gettin Better’, ‘Michelle’, ‘The Fool On The Hill’, ‘I Saw Her Standing There’, ‘Figure Of Eight’… Impossível tocar todas.
O único consolo em não termos mais John e George é saber que Paul está melhor do que nunca. Aos 68 anos, me deu a impressão de que só vai se aposentar quando completar 100. Como é legal ver alguém fazer uma coisa que sabe fazer tão bem… O cara é um entertainer nato e sabe o efeito que causa nas pessoas, ele vê essas mesmas cenas em todo lugar que vai há quase 50 anos. Mesmo assim, parece um cara normal que sai para andar de bicicleta em São Paulo (isso é ser um cara normal?) ou curte pegar o metrô lotado em Paris.
Vamos esperar pelo próximo show, com certeza ele acontecerá, se Deus quiser, antes de Paul fazer 100…
Felipe,
parabéns por ter escolhido o seu irmão para escrever (e tão bem!) sobre os shows do Paul. Convoque-o outras vezes, o Nando escreve muito bem.
Nando querido,
que lindo texto!
Você também poderia ser jornalista.
Mas 4 numa mesma família é até falta de imaginação: bastam 3!
Nossa, vivi aqui com você as emoções que rolaram no Morumbi.
A sua rouquidão já passou, tenho certeza, mas o que está guardado no seu coração, felizmente, jamais passará.
Fico comovida de lembrar que vocês começaram a ouvir Beatles ainda bebês ou muito antes de nascerem: seu pai e eu sempre fomos fanáticos pelos Beatles.
E você e o Felipe – que me conhecem muito bem – sabem que só não me animei para ver o Paul porque não gosto de multidões.
Vi meu outro grande ídolo, Frank Sinatra, sentada numa mesa tão perto, mas tão perto, que poderia tocar o palco se quisesse, mas me contive: o jantar de inauguração do Hotel Maksoud tinha apenas 700 convidados escolhidos a dedo e eu estava lá! Quanta honra!
Com meus outros ídolos – Paul Anka, Neal Sedaka, Liza Minelli, Roberto Carlos, Elis, Charles Aznavour, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Caetano e Chico – também sempre foi assim: de pertinho…
Os tempos mudaram, mas a emoção de poder estar diante de um ídolo ao vivo é a mesma.
Como aconteceu com você.
E como brilhantemente, você passou para mim, aqui.
Todos os beijos.
Acho que esse review do show está impecável, pois foram descritas todos os sentimentos que circundam uma apresentação desta. Gostaria muito de ter ido no dia 22/11, mas era impossível, pois queria muito ter assistido Magical Mystery Tour, Two of Us e I’m looking through you. Agora só uma ressalva: no domingo não foi tocada Can’t Buy Me Love e acho também que nem na segunda. Tenho certeza disso, pois eu estava lá, talvez o Fernando tenha confudido com alguma outra música.
Grande Eduardo,
Realmente, falei com meu irmão e ele me disse que confundiu porque ‘Can’t buy me love’ tocou no vídeo da introdução.
Já corrigi, valeu pelo toque!
Abs, F.
responder este comentário denunciar abusoCaramba, é verdade, não sei porque achei quer tinha tocado. Corrige aí Felipe,
Valeu!
Nando
Felipe Machado, parabéns para seu irmão pelo belo texto. E olha que sou exigente, em se tratando de Beatles!
Mudando de assunto: alguém já disse que a unica maneira de sentirmos, hoje, um pouco da sensação de como um dia foram os Beatles, seria juntar Paul McCartney e Noel Gallagher, ex-Oasis.
Abraços
Nandoooooo!!!
Mandou muito bem!!! Adorei o texto!
Fui ao show na segunda e me senti do jeitinho que vc descreveu: feliz, muuuuuuuito feliz!!!
Que maravilha poder ver, ouvir e sentir toda aquela emoção!!
bjs
foi uma honra ter assistido a esse show
inesqecivel
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