ir para o conteúdo
 • 

Felipe Machado

29.novembro.2010 09:00:45

Começos e recomeços

Começo, meio e fim. Todo relacionamento tem começo ( isso é meio óbvio, não?). Alguns deles têm meio, o que acontece após um começo bem sucedido. Quanto ao fim, depende de muita coisa para se tornar um happy end: há amores que se eternizam, há amores que são infinitos apenas enquanto duram.

Começo e recomeço são etapas da vida interligadas não apenas pela quantidade de letras semelhantes, mas pela profunda necessidade que uma delas provoca na outra. Não, isso não é só jogo de palavras. É que, embora nem todo começo seja um recomeço, todo recomeço… é um começo.

Recomeçar implica em ‘não começar do zero’, pelo menos é o que significa semanticamente o prefixo ‘re’. Recomeçar é dar uma nova chance ao que, de certa forma, falhou; é insistir que ali há algo inevitavelmente belo e necessário para se chegar à felicidade. Estou basicamente falando de relacionamentos, se ainda não deu para perceber.

Nem todo recomeço, no entanto, nasce de um fim. Eu sei, soa paradoxal, mas acredito que não é apenas possível, mas essencial promover recomeços constantes em qualquer relação. Melhorar alguma característica pessoal é um recomeço; apostar na sua intuição é outro. Há muitos recomeços possíveis, todos eles baseados numa única palavra mágica: vontade.

Vontade de recomeçar é o que motiva o recomeço, e não uma pressão abstrata qualquer que vem sei lá de onde. Querer nem sempre é poder, mas querer pelo menos indica que você deseja ir atrás dessa coisa que está faltando. E aí cada um empenha o que acha necessário para atingir o seu objetivo e vencer a batalha.

Desculpe se esse papo está ‘cabeça’ demais. É que nem sempre as coisas são tão claras, tão preto no branco. Quando se está em dúvida em relação a alguém, dizem que o ideal é colocar na balança os defeitos e qualidades dessa pessoa e ver se vale a pena seguir em frente. O problema é que esses dados nem sempre são tão claros quanto a gente precisa. E aí nos vemos obrigados a apelar para outras formas de solução.

Começar um relacionamento é a coisa mais fácil do mundo. Especialmente quando há atração física e intelectual, vontade de ficar juntos. Com o tempo, surgem situações boas (e ruins) que modificam a relação. E aí vemos se o que uniu o casal é forte o suficiente para resistir às novas situações. Se não for, há duas opções: o relacionamento segue o enredo ‘começo, meio e fim’ ou o casal investe num ‘começo, meio e… recomeço’. Depende da vontade de cada um.

comentários (28) | comente

  • A + A -

Foto: Ernesto Rodrigues/AE

Amigas e amigos,

ainda não estou completamente ‘curado’ em relação a ter perdido os shows do Paul em São Paulo. E também não acho que o meu texto sobre o tema (um anti-texto, na verdade) é suficiente para abastecer esse blog e informar seus leitores . Por isso, pedi ao meu irmão, um extremista Beatlemaníaco, que fizesse um relato sobre sua experiência. Aqui vai. Valeu, Nando! Bjs, F.

Paul in SP
Nando Machado

Caros,

Como meu irmão não pode ir ao show do Paul (sinto muitíssimo por ele), fiquei com a difícil tarefa de descrever duas noites muito especiais e emocionantes. Fui aos dois shows do Paul McCartney em SP e foram duas noites inesquecíveis. Impressionante como o mesmo show pode ter histórias tão diferentes umas das outras.

No domingo, fui sozinho na numerada coberta, lá atrás, bem longe. Bem cedinho, fui de carona com uns mineiros que haviam alugado um microônibus, amigos do Luiz ‘Téti’ Pimentel. Entre eles, Terence Machado, diretor do excelente programa ‘Alto Falante’, exibido pela TV Brasil. Gostei do papo imediatamente, todos eram profundos conhecedores dos Beatles e de Paul. Sentei na numerada, encontrei uns amigos, bati papo com desconhecidos (afinal, somos todos Beatlemaníacos, certo?). Assisti ao show com uma visão total do palco, da pista e do estádio. Busquei essa perspectiva pois já tinha visto Paul ao vivo duas vezes. Em 1990, fui um dos 184 mil fãs que foram ao Maracanã e que permaneceram durante muito tempo no Guiness book como parte do maior público em um show pago em todos os tempos (alguém sabe se ainda estamos no Guiness?). Em 93, vi Paul no Pacaembu, pertinho de casa, e me lembrava que o público do show é um espetáculo à parte.

O que mais me impressionou no show – além da banda, som, cenário e luzes perfeitos – é a emoção que essas músicas provocam nas pessoas. Você olha pra trás e vê pessoas felizes, de todas as idades, chorando, abraçadas, como se estivessem realizando um sonho – e estavam: o sonho de ver um Beatle cantando os maiores sucessos dos Beatles num show ao vivo. Isso durante muito tempo foi realmente um sonho, já que os Beatles pararam de se apresentar ao vivo em 66 e durante muito tempo Paul tocava apenas umas 3 ou 4 músicas dos Beatles por show. Paul só voltou a incluir Beatles para valer no repertório a partir da tour que o trouxe ao Brasil pela primeira vez, em 90 (não sei por que, sempre achei que os shows tinham sido em 89…). Na ocasião, fui de ônibus para o Rio com meu amigo Duda Soutello e ficamos na casa da avó dele em Copacabana, foi a primeira vez que tinha ido à Cidade Maravilhosa (deve ser por isso que eu adoro o Rio). Lembro de ter chorado ao ouvir o Maracanã inteiro cantando ‘Hey Jude’ e ‘Let it Be’.

Essas músicas nos fazem lembrar de tantos momentos e fazem parte das nossas vidas de tantas maneiras diferentes. A genialidade de um artista realmente pode nos transportar no tempo e nos elevar realmente a outra dimensão. Para quem gosta de Beatles como eu, essas músicas são como familiares que a gente ama, cada um do seu jeito. Interessante como a história dos Beatles pode servir de metáfora para a nossa vida real: o início inocente, puro; o amadurecimento com o passar dos tempos; e, no fim, o triste definhamento e a morte. É como uma história de amor que todos nós vivemos, até que o sonho realmente acabou com a morte de John Lennon em 80.

Voltando ao show: No primeiro dia, os primeiros acordes de ‘All My Loving’ me lembraram da inocência da minha própria infância; impossível não chorar com a homenagem a George Harrison e ver como ele também era cool, outro gênio. ‘The Long and Winding Road’ foi outro momento muito especial e emocionante, me lembro que tantas vezes andei por uma long and winding road até chegar a casa da minha amada – ‘the road’ pode simbolizar tantas coisas…

No segundo dia fui de Pista Premium. Quase não cheguei a tempo, entrei no Morumbi às 21:15 desesperado por causa da chuva e do trânsito.

O show do Paul é uma ocasião em que nem chego perto de uma cerveja para não ter que ir ao banheiro. Aliás, é difícil escolher um momento para ir ao banheiro. Nesse segundo dia o repertório já começou diferente: um show que começa com ‘Magical Mistery Tour’ não precisa de mais nada. Mas ele ainda tocou ‘Got to Get You Into My Life’, ‘Two Of Us’, ‘Bluebird’ (Wings). Paul tenta fazer um set list que agrade aos fãs de Beatles, aos fãs de Wings e aos fãs de sua carreira solo. Ele tocou até duas músicas do seu excelente projeto Fireman, além de algumas que divulgavam o relançamento de ‘Band on The Run’. Tocou ainda ‘Dance Tonight’, do ‘Memory Almost Full’. Difícil não se emocionar com a melodia de ‘My Love’, realmente é uma das melhores músicas de amor já escritas. A cada tour, Paul muda as músicas dos Beatles no setlist, inclui algumas inéditas (‘O Bla Di O Bla Da’), e renova as homenagens a John, com ‘A Day in The Life/Give Peace a Chance’ e ‘Here Today’, do álbum ‘Tug of War’.

O show teve outros momentos especiais: ‘Let it Be’ e ‘Hey Jude’, com 64 mil pessoas cantando, é muito emocionante. ‘Helter Skelter’, ‘Day Tripper’, ‘I’ve Got A Feeling’, ‘Back in The USSR’ e ‘Paperback Writer’ mostram o lado mais roqueiro de Paul e nos dão vontade de sair pulando (bom para mostrar para quem costuma dizer que Paul só fazia músicas melosas). Por outro lado, ‘Blackbird’ e ‘Yesterday’ mostram o lado de compositor simples e de melodias sensíveis. No primeiro dia, teve ‘Drive My Car’, as excelentes ‘Venus and Mars / Rockshow’ (que abriu o primeiro show), ‘Let Em In’, ‘Jet’, ‘Let Me Roll It’, ‘Band on The Ru’n e ‘Mrs Vanderbilt’ mostraram o melhor do Wings. No primeiro dia teve ainda ‘I’ve Just Seen a Face’, do ‘Help’; no segundo, ‘I’m Looking Through You’. ‘And I Love Her’ (só no domingo), ‘Eleanor Rigby’, ‘Lady Madonna’, ‘Get Back’, ‘Sgt Peppers’ (reprise).

O show termina com ‘The End’: ‘E, no final, o amor que você faz é igual ao amor que você leva’. É a melhor frase para encerrar um show, um álbum como Abbey Road, ou até uma banda como os Beatles. Por outro lado, senti falta do medley do ‘Abbey Road,’ uma sequência maravilhosa de canções. ‘We Can Work It Out’, ‘Penny Lane’, ‘Hello Goodbye’, tantas ficaram de fora… ‘Maybe I´m Amazed’ é uma das minhas preferidas, mas faltaram, ‘Pipes of Peace’,’ Calisco Skies’, ‘My Brave Face’, ‘Coming Up’, ‘Junk’, ‘Oh Darling’, ‘Gettin Better’, ‘Michelle’, ‘The Fool On The Hill’, ‘I Saw Her Standing There’, ‘Figure Of Eight’… Impossível tocar todas.

O único consolo em não termos mais John e George é saber que Paul está melhor do que nunca. Aos 68 anos, me deu a impressão de que só vai se aposentar quando completar 100. Como é legal ver alguém fazer uma coisa que sabe fazer tão bem… O cara é um entertainer nato e sabe o efeito que causa nas pessoas, ele vê essas mesmas cenas em todo lugar que vai há quase 50 anos. Mesmo assim, parece um cara normal que sai para andar de bicicleta em São Paulo (isso é ser um cara normal?) ou curte pegar o metrô lotado em Paris.

Vamos esperar pelo próximo show, com certeza ele acontecerá, se Deus quiser, antes de Paul fazer 100…

comentários (7) | comente

  • A + A -

No momento em que você estiver lendo esse texto, não estou mais por aqui. Calma, não pretendo passar desta para melhor: é que aproveitei uns dias de férias e viajei para o exterior. Bom? Mais ou menos.

Marquei a viagem há muito tempo e só descobri há algumas semanas que a data coincidiria com os shows de Paul McCartney no Brasil. Tentei, insisti, lutei, mas não consegui mudar a maldita passagem. Ou seja, não vi nenhum show de Paul McCartney no Brasil.

Para algumas pessoas, isso pode ter sido apenas uma pequena fatalidade. Para mim, não. Foi uma tragédia que vai me acompanhar por toda a minha vida. Amo Paul com todas as minhas forças. Para mim, Paul não é um ídolo. Ele é um deus.

Sim, é claro que sou Beatlemaníaco, com muito orgulho. Meu irmão Nando é até mais que eu, o que prova que bom gosto é uma coisa comum em nossa família.

Acho que as pessoas se acostumaram tanto com a imagem do Paul andando por aí, conversando com as pessoas, comendo nos restaurantes, que acreditam que ele é um homem normal. Mas nós, Beatlemaníacos, sabemos que isso não é verdade. Paul não é normal. Paul é uma entidade sagrada, um ícone popular. Poucos personagens tiveram a influência cultural global que ele teve. Paul é tão importante quanto Beethoven, Picasso, Einstein.

John foi o líder no início da carreira dos Beatles. Isso durou até 1966, mais ou menos, quando Paul começou a dividir o comando. Ele tinha um bom argumento para discutir com John: suas belas canções. John e Paul deixaram então de compor em dupla (apesar de manter a famosa assinatura ‘Lennon-McCartney’), e isso gerou uma dinâmica diferente na banda. Os Beatles ampliaram seus conceitos e revolucionaram ainda mais a cultura dos anos 60.

Se John era o cérebro, Paul sempre foi o coração. Sei que não podemos simplificar o estilo de dois gênios, mas eu diria que John sempre compôs para dentro, enquanto Paul escreve para fora. O equilíbrio perfeito dos dois acabou com o fim dos Beatles, e cada um teve que aprender a viver sem o outro. Conseguiram, e bem. Suas carreiras solos são quase tão sensacionais quanto o material imortal que criaram juntos.

Paul tocou domingo e segunda no Morumbi. Não estive lá fisicamente, mas em espírito, sim. No horário do show, imaginei meu ídolo entrando no estádio, as luzes, a gritaria. Milhares de brasileiros estavam felizes, e eu estava feliz por eles. Mas tenho certeza de que morri um pouco por dentro.

Foto: Ernesto Rodrigues/AE

comentários (36) | comente

  • A + A -

O figurino transformou Fergie em uma mulher muito especial, quer dizer, espacial

O Black Eyed Peas ama o Brasil, e o Brasil ama o Black Eyed Peas. Foi até constrangedor o número de vezes que o vocalista will.i.am falou sobre seu amor pelo nosso país, nossa música, nosso povo. E ele não disse da boca pra fora, como seria de se imaginar: o BEP foi uma das poucas bandas no topo do mundo que aceitou realizar uma verdadeira turnê pelo Brasil: passaram por Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo, ontem à noite, num show apoteótico no Estádio do Morumbi. A maioria das bandas vem para cá para tocar em Rio e São Paulo e olhe lá.

Além de dizer que o show de ontem foi o melhor da turnê, will.i.am prometeu que voltará no ano que vem porque quer comprar uma casa no Rio e um apartamento em São Paulo. Sabia que não pareceu puxação de saco? O discurso foi tão sincero que não acharei nem um pouco estranho ver o líder do Black Eyed Peas tomando um choppinho no Leblon ou passeando pela feirinha Benedito Calixto, na Vila Madalena. Ele já havia dito que torceria para o Brasil na Copa da África do Sul, até entrou com nossa bandeira no palco do show de abertura… Também gostei porque will.i.am subverteu a ideia de que todo gringo tem que gostar de encher a cara com caipirinha sempre que está no Brasil. ‘Não tomo caipirinha, prefiro guaraná com vodka’, brincou will.i.am. ‘Eu também’, gritei, mas não tenho certeza se ele me ouviu.

Perdoe o clichê, mas o Black Eyed Peas no palco não faz um show: faz uma festa, uma balada. A noite começou com o David Guetta, uma mistura de DJ com rockstar. O cara vai lá, aperta o botão de play no toca-discos… e todo mundo acha o máximo! Deve ser bom, né? Não precisa perder tempo aprendendo a tocar guitarra, cantar, tocar teclado, baixo, bateria… Mas tudo bem: David é meio pop demais para o meu gosto, mas sua apresentação teve pelo menos um momento genial: ‘Sexy Bitch’, com a participação do rapper-mela-cueca Akon.

Lights out. E o Black Eyed Peas surge das profundezas do palco-nave espacial, subindo por quatro elevadores (como o Michael Jackson fazia, diga-se de passagem) localizados sob a mega-estrutura. A primeira música do show é provavelmente uma das mais perfeitas introduções de todos os tempos: ‘Let’s Get it Started’ levanta até defunto. Há muito tempo eu não pulava tanto em um show (não que eu seja um defunto, claro). Infelizmente, não posso contar nada disso para meus amigos/fãs de heavy metal. Só garanto uma coisa: eu não dancei com os bracinhos pra cima. Juro.

Há uma história curiosa sobre a canção ‘Let’s Get it Started’; não tem nada a ver com o show, mas se eu não contar agora eu vou esquecer: na primeira versão que saiu do disco ‘Elephunk’, essa música se chamava ‘Let’s Get Retarded’ (Vamos ficar retardados). Era uma figura de linguagem, com o sentido ‘vamos ficar loucos’, etc. Mas pegou mal entre os politicamente corretos e o refrão teve que ser regravado com outra letra. Ficou então, bem mais light: ‘Let’s Get Started’ (Vamos começar).

Na sequência do show vieram ‘Rock That Body’, outra favorita da casa. Nesse caso, literalmente: minha filha adora essa canção, porque a Fergie canta com voz de robô. E aí a Bebel fica dizendo que a cantora é a ‘garota-robô’). Depois dela, veio a linda ‘Meet me Halfway’, que já foi até tema nesse blog

(Veja o repertório completo abaixo)

O visual do show – palco, figurino, cenário – é incrível e super futurista. O telão é enorme e a qualidade do som foi a melhor que já ouvi em um estádio (até porque o BEP deve ter muito material pré-gravado, o que facilita as coisas para os técnicos, mas tudo bem). Só não gostei muito das bailarinas que entravam no palco, ora vestidas de robôs, ora vestidas como mulatas de escolas de samba. Quer dizer, eu gostei delas, se é que você me entende. Mas que balé no palco é algo muito brega, ah, foi.

A quantidade de hits do BEP impressiona, mas, além do setlist-parada-de-sucesso, cada ‘ervilha’ (Peas, em inglês, é ervilha) ainda faz um showzinho ‘solo’ (o que deve ser ótimo para as outras ervilhas descansarem). Antes de falar sobre isso, porém, gostaria de comentar os nomes/pseudônimos/apelidos dos integrantes da banda. São super estranhos; só para começar, o DJ se chama ‘PoetNameLife’, ou seja, PoetaNomeVida. Não é exatamente o nome mais comum do mundo. (Imagina os amigos dele: “E aí, PoetaNomeVida, beleza?”)

E os integrantes do BEP, então? will.i.am se chama William, mas é tão cheio de graça que inventou essa sigla esquisita aí para complicar a vida de jornalistas brasileiros. O resultado é um apelido confuso que significa ‘Vou Eu Sou’ ou algo do gênero. Pronuncia-se ‘Uíu Ai Ém’, OK? É bom saber em caso de você encontrar com ele dia desses andando pela rua.

Daí veio o showzinho solo de apl.de ap. Eu não sei direito o que quer dizer. ‘apl’, mas acho que vem de ‘maçã’ (apple). O resto do nome eu não tenho a menor ideia, só sei que o tal do apl.de.ap é das Filipinas e seu nome verdadeiro é ‘Allan Pineda Lindo’ (não concordo com o último sobrenome, mas beleza). Na sequência veio o momento de glória-solo do cantor-rapper Taboo, um mexicano altão, branquelo e esquisitíssimo. E o gran finale não podia ficar com ninguém mais que não fosse ela: Fergie, a deusa.

Fergie merece um parágrafo especial. Não apenas porque ela é linda, carismática e canta bem, mas também porque… bem, isso tudo já é suficiente. Se você não acredita que no poder sexual que sua figura emana no palco, é só ver sua performance cantando ‘My Humps’. No vídeo já é bom, mas ao vivo é melhor. A Gretchen seria considerada uma freira perto dela.

O momento-solo mais divertido dos integrantes do BEP (fora o da Fergie, claro) foi o de will.i.am. O cara se transformar em DJ e toca várias introduções de canções conhecidas, como ‘Thriller’ (Michael Jackson), ‘Sweet Child O’Mine’ (Guns ‘N’ Roses) e até a inesperada ‘Time of my Life’, do filme clássico-cult-brega ‘Dirty Dancing’. As 60 mil pessoas que lotaram o Morumbi piravam a cada sucesso. E will.i.am dava risada, ê vida boa.

A última música do show também é a típica canção perfeita para encerrar um espetáculo desse tamanho. Além de achar que ela foi a música do ano (em 2009 e 2010, para falar a verdade), gosto porque acho que é uma espécie de hino da balada. Não foi à toa que ‘I’ve Gotta Feeling’ foi a primeira música a atingir a marca de seis milhões de downloads digitais. Seis milhões de pessoas compraram essa música pela internet, dá para acreditar? Dá. ‘I’ve gotta feeling that tonight is gonna be a good night…’ (Tenho a sensação de que hoje à noite vai ser uma boa noite… simples e perfeito).

No final do show, aquela chuva de papel picado nos lembrou com certa melancolina que a festa chegou ao fim. Dá vontade de apertar o botão do controle remoto e voltar aos primeiros acordes de ‘Let’s Get it Started’. Mas será que eu agüentaria mais uma festa dessas, assim, logo na sequência? Claro que sim. Afinal, se eu morresse de cansaço, o som ‘levanta-defunto’ do Black Eyed Peas garantiria minha ressurreição.

Setlist

Let’s Get it Started
Rock That Body
Meet Me Halfway
Alive / Don’t Phunk With My Heart
Solo de will.i.am
Imma Be
My Humps
Hey Mama / Mas Que Nada
Missing You
Solo de apl.de.ap
Solo de Taboo
Rockin To The Beat / La Paga
Solo de Fergie (Fergalicious / Glamorous)
Big Girls Don’t Cry
I.Am.Robot (DJ Set)
Pump It
Don’t Lie
Shut Up
Where is the Love?
Boom Boom Pow
I Gotta Feeling

Foto: Leonardo Soares/AE

comentários (16) | comente

  • A + A -

André Mattos é Fortunato, apresentador de TV que vira deputado. O personagem é muito engraçado; a realidade é que é triste

Hoje é dia de eleição.

Nunca antes na história deste País houve um filme como ‘Tropa de Elite 2. Se você é um dos sete milhões de brasileiros que viu o filme – nosso maior público em todos os tempos –, sabe do que estou falando. Se não viu, corra para o cinema e entenda melhor o País em que você vive.

Se Mazzaropi e Glauber Rocha imortalizaram em película o País de suas épocas, José Padilha faz uma radiografia perfeita do momento em que vivemos. Infelizmente, o resultado é podre.

Hoje é dia de eleição.

‘Tropa 2′ mostra como o Estado brasileiro é corrompido, como espalha seus tentáculos malignos sobre a sociedade e como, em contrapartida, a sociedade responde com o que há de pior no submundo de suas fileiras.

Na tela, o já lendário personagem Coronel Nascimento, do Bope carioca, torna-se Secretário de Segurança. O alvo são as milícias cariocas, formadas por policiais mais criminosos que os próprios criminosos. Traficantes e favelados pagam para não ser assaltados por policiais. Sim, é inacreditável.

Hoje é dia de eleição.

Não vou contar o final do filme; só que as pessoas aplaudem de pé. Há catarse, revolta, indignação, mas não sei por quê: a culpa por tudo isso é nossa, só nossa. Somos nós que elegemos os políticos que nos saqueiam.

Hoje é dia de eleição.

Acaba de sair uma lista da Transparência Internacional sobre a percepção da corrupção no mundo. Estamos muito mal, o que não é nenhuma novidade, somos corruptos mesmo. De 0 a 10 em honestidade, tiramos 3,7. Se a corrupção fosse uma matéria escolar pela qual os países seriam julgados, levaríamos bomba. Ué, um país que não passa de ano pode ser considerado… um país?

Hoje é dia de eleição.

Dos 178 países pesquisados , ficamos em 69º lugar. Ao lado de Cuba, veja só que coincidência. Em 2009, ficamos em 75º. Melhoramos? Não, os outros é que pioraram. ‘Não há algo de podre no reino da Dinamarca’, como diria o Hamlet de Shakespeare: a Dinamarca tirou zero em corrupção. Há algo de podre no nosso País. Se a corrupção é um crime (e é), somos um país criminoso.

Hoje é dia de eleição.

A canção ‘Sob o Mesmo Céu’ diz: Com quantos Brasis se faz um Brasil? Com quantos Brasis se faz um país, canta Lenine. Com quantos Brasis se faz um país? Com o Brasil que tira carteira de estudante falsa para pagar meia-entrada? Com o Brasil que compra DVD pirata? Com o Brasil que molha a mão do guarda para não pagar multa? Com o Brasil que paga impostos para ser assaltado pelos políticos? Com quantos Brasis se faz um país, mesmo?

Hoje é dia de eleição.

comentários (18) | comente

  • A + A -


Alinne Moraes, em cena da minissérie ‘As Cariocas’, baseada em textos de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Foto de Ique Esteves

Estive no Rio de Janeiro semana passada para o lançamento do meu livro ‘Bacana Bacana’ na belíssima livraria da Travessa, no Leblon. Não ia ao Rio há alguns anos, tempo demais até para mim, o mais urbanoide dos paulistanos.

Conheci bem o Rio nos anos 90, época em que cheguei a morar no mais carioca dos bairros cariocas: Copacabana. Desta vez nem fui à Copa; fiquei mesmo no Leblon, o bairro mais legal da cidade. E tive a sorte de contar com bons anfitriões.

Neo e Jill, Bia e Guto, todos carioquíssimos – apesar de nenhum deles ter nascido no Rio. Neo e Guto são mineiros, Jill é americana, Bia é curitibana. Mas todos amam a cidade como se tivessem respirado ali suas primeiras moléculas de oxigênio. Estar carioca se torna ser carioca com bastante rapidez. Carioca é um estado de espírito, não um endereço de maternidade.

O Rio está longe de ser perfeito, vamos deixar claro. Vamos por hora esquecer os problemas da cidade, que serão abordados no futuro próximo por este blog. O Rio é a mais cosmopolita das cidades brasileiras. Das diferenças entre cariocas e paulistas, uma é gritante: em São Paulo, o mineiro tem orgulho de ser mineiro. No Rio, ele se considera carioca. O Rio também é cosmopolita porque os estrangeiros estão lá porque desejam, e não porque são obrigados por seus negócios – o que é o caso dos estrangeiros que vem a São Paulo.

Quando eu era mais novo, adorava criticar o Rio e estimulava a rixa cariocas X paulistas. Hoje dou risada: cidades não são entidades comparáveis. Mesmo assim, é impossível para um paulista não tentar generalizar o Rio de alguma forma. ‘Lá no Rio é assim, lá no Rio é assado’, dizemos, como se as diferenças fossem tão óbvias que transformassem qualquer turista de fim de semana em antropólogo. O Rio não é assim, o Rio não é assado. O Rio é o Rio.

Sou viajado, consigo compreender uma cidade com certa rapidez. Mas confesso que as qualidades (e defeitos) do Rio e de seus moradores ainda me surpreendem. A única característica previsível nos cariocas é a sua informalidade.

Em São Paulo, o importante é ter dinheiro. Dinheiro para esbanjar em carros importados, baladas e luxos que compensem, psicologicamente, o excesso de trabalho e a vida estressante. No Rio, o bem mais valioso é o tempo. Tempo para dar um mergulho no final da tarde, tempo para correr na praia pela manhã, tempo para passear com os cães pelo calçadão. E não há dúvida de que o tempo é mais democrático que o dinheiro – e menos repressor. O tempo não tem idade, não tem sexo, não é do rico nem do pobre. O tempo é de quem sabe usá-lo. E ninguém sabe usá-lo melhor do que os cariocas – não importa onde eles tenham nascido.

comentários (46) | comente

  • A + A -

Billie Joe Armstrong faz piruetas no palco do Anhembi, em São Paulo. Foto de Leonardo Soares/AE

O que um show de punk e um musical da Broadway têm em comum? O palco, diria alguém. As luzes, diria outro. Em termos conceituais, no entanto, acredito que há apenas um ponto de intersecção entre estilos tão antagônicos: o trio norte-americano Green Day.

O Green Day tocou ontem no Anhembi, em São Paulo. Foi um dos últimos shows da megaturnê mundial que começou em maio, e a última apresentação no Brasil (antes eles tocaram em Porto Alegre, Rio e Brasília). Foi uma verdadeira celebração de rock & roll e teve direito a tudo: covers inusitados, piadinhas (inside jokes, principalmente), canções de todas as fases da carreira da banda, explosões, papel picado. O grande destaque, no entanto, foi mesmo o repertório do disco ‘American Idiot’, o maior sucesso do Green Day.

E, por mais que seja irônico, é justamente esse disco que nos remete à Broadway: a ópera-rock baseada em ‘American Idiot’ virou um musical em Nova York. Dirigido por Michael Mayer, conta a história de um anti-herói que troca uma cidadezinha pequena pela megalópole, e acaba entrando de cabeça na tríade sexo, drogas e rock & roll. Ou punk & roll, se você preferir.

O que chama a atenção é que o Green Day é considerada por muitos uma banda punk. Ou seja, nada mais diferente de um musical da Broadway, certo? Mais ou menos. Bem, se a gente lembrar que o punk nasceu de uma jogada de marketing do empresário Malcolm McLaren, até que faz sentido.

No final dos anos 70, McLaren queria chamar atenção para sua loja de roupas em Londres, e acabou criando o grupo que se tornaria o pioneiro do punk britânico. Ele pegou uns caras esquisitos na rua, batizou de Sex Pistols e entrou para a história da cultura mundial. Eles não sabiam tocar direito, mas o lema do it yourself, ‘faça você mesmo’, justificava a completa falta de qualidade musical.

Criado em 1987 na Califórnia, o Green Day é uma banda essencialmente punk. Billie Joe Armstrong (guitarra e vocal), Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria) tocam canções simples, feitas de três acordes, sem solos de guitarra, exatamente como manda o manual do punk. A canção ‘American Idiot’, por exemplo, é uma bela crítica ao american way of life, mais especificamente ao estilo de vida americano sob o governo Bush. Em um momento do show, Billie chegou a gritar no palco: ‘Eu odeio os Estados Unidos! Eu quero me mudar para o Brasil!’

Piadas à parte, vamos ser justos: não deixa de ser uma bênção da democracia viver em um país onde você pode lançar um disco chamado ‘Idiota Americano’ e ainda lucrar (pra burro) com isso. Os Estados Unidos só são os Estados Unidos porque permitem que alguém lance um disco falando mal do país e, em seguida, saia em uma turnê enorme lá mesmo, culminando com a adaptação dessa ‘crítica’ num supermusical da Broadway. Desconfio que a versão chinesa de Billie Joe Armstrong não teria permissão para lançar o ‘Idiota Chinês’ e continuar livre, leve e solto.

Como se vê, o Green Day abusa das letras subversivas, dos cortes de cabelo de cores e formatos radicais, etc. Ou seja, eles têm tudo para ser punks. Mas, como disse Karl Marx, a história se repete como farsa.

O show de ontem do Green Day em São Paulo foi um típico espetáculo Punk-Broadwayiano, se é que existe tal adjetivo. Havia uma certa rebeldia, mas ela é muito bem comportada; em vez de punks, a plateia estava cheia de adolescentes, muitos deles acompanhados por seus pais.

Isso quer dizer que o show foi ruim? De maneira alguma. Foi excelente. Porque o Green Day pegou a estética do punk e o transformou em pop, no sentido positivo da palavra. As canções são todas parecidas? São. Mas são excelentes, pegajosas, melodicamente perfeitas. E em alguns momentos, o som do Green Day se aproxima mais de um animado rock & roll básico dos anos 50 do que do punk tradicional, apostando em sequências harmônicas simples e quadradinhas. É bom notar que há também algumas baladas, o que faria o baixista do Sex Pistols, Sid Vicious, se virar no túmulo.

Mais do que um show, o Green Day ontem foi uma festa. O que mais chamou a atenção foram os vários convites para os fãs subirem ao palco e cantarem as músicas com a banda, uma espécie de ‘karaokê-punk’, ou ‘punkokê’. Um dos fãs, por sinal, se deu muito bem: Billie Joe disse que ele havia sido ‘o melhor vocalista de toda a turnê’ e o garoto saiu do palco com uma guitarra de presente. Imagina o que deve ser para um fã do Green Day subir no palco em um show para 30 mil pessoas, cantar uma música com a banda e ainda sair de lá com uma guitarra? Como se vê, punks também realizam sonhos.

O que incomodou um pouco foi o excesso de ‘populismo punk’ do show. Acho que nunca antes na história deste país um artista falou tantas vezes ‘São Paulo’ em um palco: 427 (é brincadeira, eu não contei. Mas foi por aí). E a cada 30 segundos, Billie Joe gritava ‘ê ô’ para o público, que respondia obedientemente como todo bom adolescente bem comportado.

A plateia, inclusive, rende comentários à parte. Na minha frente, na pista Premium, estava um homem e um adolescente. Aparentemente, o pai estava curtindo mais o show que o filho. De repente, passou um vendedor de cerveja. O pai comprou uma e a ofereceu ao filho. O garoto fez uma cara de espanto, mas o pai insistiu e ele aceitou. Deve ter sido a primeira cerveja que pai e filho tomavam juntos. Foi uma cena bonitinha. O que há de punk nisso? Nada. Ué, punks não podem ser bons pais?

Assim como também não havia nada de punk em meia-dúzia de praticantes de jiu-jítsu fazendo o ‘mosh’, aquela dança em que todo mundo se esbarra e empurra o outro. Esse jeito de pular, meio dança, meio luta, era uma coisa típica do punk no início do movimento. Mas o que dizer de alguns garotos bagunceiros vestindo calça Diesel e fazendo isso na pista Premium do Anhembi, que custava ‘apenas’ R$ 250? Eu diria que é apenas mais uma razão para Sid Vicious se virar no túmulo.

O que não dá para criticar, no entanto, é o vocalista Billie Joe Armstrong. O cara é um verdadeiro showman, único no mundo do rock. Fiquei imaginando ele ainda garoto, crescendo na Califórnia, baixinho, invocado, talentoso. Sabe criança hiperativa? Pois essa seria a descrição exata do cara no palco, apesar de ele ter 38 anos.

E o repertório? Tocaram todas as famosas, e muito mais, é só conferir no setlist abaixo. Tocaram trechos de ‘Sweet Child O’Mine’, do Guns ‘N’ Roses (com Billie tirando sarro de Axl Rose), ‘Rock and Roll’, do Led Zeppelin, ‘Satisfaction’, dos Stones, ‘Hey Jude’, dos Beatles… fora os números meio ‘Vaudeville’, com fantasias típicas de um musical da Broadway. Ao final do show, enquanto Billie Joe Armstrong comemorava o sucesso de sua turnê mundial, Sid Vicious se virou mais uma vez no túmulo.

Green Day Setlist

Song of the Century
21st Century Breakdown
Know Your Enemy
East Jesus Nowhere
Holiday
Nice Guys Finish Last
Give Me Novacaine
Letterbomb
Are We the Waiting
St. Jimmy
Boulevard of Broken Dreams
Burnout Play Video
F.O.D.
Geek Stink Breath
J.A.R.
Stuck With Me
Dominated Love Slave
Paper Lanterns
2000 Light Years Away
Hitchin’ a Ride
When I Come Around
Iron Man / Rock ‘n’ Roll / Sweet Child O’ Mine / Master Of Puppets / Highway To Hell / Baba O’ Riley / Eruption
Brain Stew
Jaded
Longview
Basket Case
She
King for a Day
Shout / Break On Through / (I Can’t Get No) Satisfaction / Hey Jude
21 Guns
Minority

Bis:
American Idiot
Jesus of Suburbia

Bis 2:
Whatsername
Wake Me Up When September Ends
Good Riddance (Time Of Your Life)

comentários (9) | comente

  • A + A -

Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart: Devoção dos fãs e respeito dos músicos

Inevitável comparar dois shows de rock que aconteceram no mesmo estádio e na mesma semana. Mas é estranho compará-los e constatar como dois eventos tão parecidos podem ter sido tão diferentes, mesmo dando desconto aos críticos que dirão que, no fundo, rock é tudo igual.

Pois foi assim com os shows do Bon Jovi, na quarta-feira, e do Rush, na sexta. A começar pela plateia: enquanto a banda americana liderada por Jon Bon Jovi arrastou milhares de mulheres ávidas por devorar, quer dizer, assistir ao show do galã e sua turma, os canadenses do Rush contaram com um público praticamente inteiro masculino.

Não é apenas porque os caras do Rush são feios, embora isso também deva ter contribuído. Tudo bem, eles podem não ser lindos. Mas o som que sai de seus instrumentos é simplesmente maravilhoso.

O show começou ‘apenas’ com ‘Spirit of the Radio’, o que não deixa de ser uma ironia, uma vez que as rádios nunca tocaram Rush. Depois veio a excelente ‘Time Stand Still’, que mostra todo o suíngue do trio canadense. Se você não sabe o que vem a ser isso, dificilmente vai concordar comigo ou se empolgar com esse relato. Apenas acredite: muito bom.

Não, não é um som para todos (as), como o Bon Jovi. É música complexa, como, aliás, é toda a discografia do Rush. Dizem que é música para músicos, e isso deve explicar a quantidade de colegas roqueiros que encontrei por lá: de Silvio Golfetti, guitarrista da banda de thrash metal Korzus, aos irmãos Busic, do ícone do hard rock brasileiro Dr. Sin. Todo mundo com mãozinhas para o alto – inclusive eu.

Sim, Rush é uma banda para músicos, mesmo quando esses músicos não sabem tocar nenhum instrumento. Estranho? Se você é um músico que não sabe tocar nenhum instrumento, sabe do que estou falando. Músicos podem ser músicos apenas na cabeça, respeito que nasce da admiração por outros músicos. Pois o fã do Rush é assim. Até porque, se for falar de músicos de verdade, nem os melhores do mundo têm muita facilidade para tocar uma música do Rush, seja na guitarra, no baixo ou, muito menos, na bateria.

O show teve vários hits, como Closer to the Heart e Limelight, mas o grande sucesso mesmo veio com a sequência de canções do disco Moving Pictures, de longe o melhor da banda. Tom Sawyer mostrou que, por trás daqueles músicos impressionantes, há um trio de amigos curtindo a vida de uma banda de rock com um senso de humor bastante peculiar. O vídeo com macacos dublando a música, exibido no telão, foi divertidíssimo, apesar de soar como ‘inside joke’ O próprio palco é uma ‘inside joke’, já que não consegui entender até agora o que máquinas de lavar tem a ver com rock and roll. Mas ouvir um estádio inteiro cantando o riff de música instrumental de quase sete minutos (YYZ) é uma experiência, no mínimo… interessante.

Mas chega de puxar o saco, vamos ser críticos: o show teve várias partes chatas. Passagens instrumentais longas demais ou ‘Lado B’ demais só funcionam para quem é fã-hardcore. Esse tipo de repertório pode até funcionar quando você faz uma longa temporada em uma única cidade, com shows diferentes toda noite, etc. Mas para bandas que tocam em estádios… o ideal seria escolher apenas as músicas mais conhecidas, mesmo.

Quem é o Rush? O baixista e vocalista Geddy Lee tem uma voz esquisita, um timbre que só agrada a… fãs do Rush. É uma voz do tipo ‘ame ou odeie’. Tudo bem, eu a amo, mas tem horas que me incomoda bastante. Geddy Lee canta em um registro muito, muito alto. O Ministério da Saúde adverte que horas seguidas desse timbre podem provocar danos aos ouvidos. Ainda mais porque os timbres são tão altos, que sua voz falhou algumas vezes. Mas Geddy, enfim, é um dos maiores baixistas da história do rock. E não é só isso, já que ele canta, toca teclado e baixo… com os pés, por meio de pedais. Tudo ao mesmo tempo. Assoviar e chupar bala simultaneamente é coisa para principantes.

O guitarrista Alex Lifeson é um dos músicos mais subestimados (para dizer pouco) da história do rock. Ele é muito, muito bom, mas como está na banda de dois monstros, acaba parecendo que é apenas um instrumentista razoável. Mas não é: basta imaginar que o cara influenciou o The Edge, para dizer o mínimo.

Neil Peart é, provavelmente, o maior baterista da história do rock. Não, não esqueci de John Bonham, do Led Zeppelin, ou de Ian Paice, do Deep Purple. Mas Peart é melhor, indiscutivelmente. Talvez não em ‘feeling’ ou em ‘pegada’, mas no resto ele leva de longe. Neil Peart é o baterista mais preciso, mais criativo e mais especial que já pisou em um palco de rock desde Bill Halley e seus Cometas. Dificilmente eu agüentaria cinco minutos de solo de bateria a essa altura da minha vida: Neil Peart solou durante dez minutos e eu achei muito pouco. Ele é simplesmente hipnotizante. Suas baquetas cortam o ar como bisturis de alta precisão numa mesa de cirurgia; o som que sai das peles de suas peças produz notas musicais que não existem no mundo real. Sua bateria não é apenas um instrumento de percussão, como as baterias dos outros bateristas. O instrumento de Neil Peart respira, é uma entidade orgânica. Não é à toa que Neil Peart, no excelente documentário ‘Beyond the Lighted Stage’, é apelidado de ‘Drum Guru’. Bateria, para ele, não é música: é religião.

No documentário citado acima há outras informações bem interessantes, vale a pena ver. Passou nos cinemas e fez bastante sucesso, chegando a ganhar em maio deste ano o prêmio do público no Tribeca Film Festival, em Nova York. Os produtores canadenses Scot McFadyen e Sam Dunn também dirigiram ‘Flight 666′, do Iron Maiden, e ‘Metal: A Headbanger’s Journey’. Ou seja, os caras são documentaristas da pesada.

O filme conta, por exemplo, que Geddy e Alex são amigos de infância e decidiram seguir o caminho do rock desde a adolescência. Há cenas hilárias da época, com os dois discutindo com os pais sobre suas posições. Os moleques já tinham personalidade desde os velhos tempos. Também fiquei sabendo que é Neil Peart quem escreve todas as letras, textos complexos que misturam ficção científica e mitos gregos. É por isso – e por outras muitas coisas – que o show do Rush é um mundo à parte. Um mundo frequentado por muitos nerds, diga-se de passagem (inclusive eu).

Quer a prova? Então só imaginar a seguinte cena: no ápice do show do Morumbi, 35 mil pessoas cantaram o seguinte refrão:

“Nós somos os sacerdotes do Templo de Syrinx
Nossos grandes computadores ocupam as paredes sagradas”

Sério, dá para imaginar? Sacerdotes? Templo? Syrinx? Sim, isso faz parte do mundo do Rush. Tolkien, de ‘Senhor dos Aneis’, perde de lavada. É ou não é meio nerd? Totalmente. É ou não é música para músicos? 100%. Mas o Rush não quer ser unanimidade, não está em seu DNA. A banda se contenta em dialogar com o seu público. Levando em conta que o Rush está na estrada há 42 anos, eles devem saber o que estão fazendo.

comentários (15) | comente

  • A + A -

Como é que se diz ‘lançamento carioca’ em Zulu?

Não tenho a menor ideia, mas gostaria de convidar todos os leitores cariocas deste blog (e os turistas que estiverem no Rio também) para o lançamento de ‘Bacana Bacana – As Aventuras de um Jornalista na África do Sul’ na Cidade Maravilhosa.

O evento é amanhã, quinta-feira (14/10), a partir das 19h30, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon (Av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205 A – tel.: (21) 3138-9600).

Para quem não se lembra, o livro saiu pela Editora Seoman e é baseado na cobertura que fiz da África do Sul durante a Copa do Mundo, em junho/julho. Mas não se preocupe: eu não falo muito sobre a Seleção do Dunga… Se não puder ir ao evento, pode comprar o livro clicando aqui.

Depois da noite de autógrafos, teremos uma festinha. Infelizmente, não posso divulgar mais detalhes por aqui pois será proibida para menores. Mas posso garantir que quem comparecer à Livraria da Travessa vai ganhar uma senha que dará direito a um abraço (homens) e beijo (mulheres) do autor. Além, claro, de drinques psicodélicos e petiscos exóticos.

Se você tiver algum amigo (a) carioca, ele também está automaticamente convidado. Basta chegar na livraria e dizer ‘Bacana Carioca Carioca Bacana’.

Beijos e até lá!

Felipe

comentários (4) | comente

  • A + A -
12.outubro.2010 21:38:59

Feliz Dia da Criança


Bebel e Laurinha sempre disputam para ver quem é a Minnie. Para evitar briga, digo: ‘meninas, a Minnie… sou eu!’ Elas morrem de rir

Acordo minha filha para levá-la à escola. Bebel esfrega os olhinhos com as duas mãos, tira o cabelo do rosto e sorri: ‘bom dia, papai lindo!’

(Só de lembrar da cena, já choro de novo)

Ela vai até o banheiro, onde a Néia já a espera. Enquanto isso, me visto e fico na sala lendo o jornal. Bebel volta pouco depois, de vestidinho azul, tiara branca e tênis rosa. ‘Papai, estou bonita?’ Respondo que sim, não apenas porque sou pai, mas porque ela é, mesmo, a criança mais linda do mundo.

Bebel vem, então, como quem não quer nada, e diz com toda a seriedade: ‘papai, tenho uma ótima ideia… vamos tomar café da manhã?’

(Só de lembrar da cena, já choro de novo)

Sentamos na mesa da cozinha e Bebel escolhe, como todos os dias, o mesmo menu: suco de laranja, Danoninho de morango e uma torrada com manteiga – que ela dá duas mordidinhas e diz que não quer mais.
Nick, o nosso Yorkshire que ela chama de ‘Nickinho’, nos espera na porta abanando o rabinho. Papai pega a mochila dela (da Pucca) e filosófa: ‘papai, você vai no trabalho, eu vou na escola’.

No elevador, ela faz questão de apertar o botão da garagem. No carro, exige a música do robô (Rock That Body, do Black Eyed Peãs, onde a Fergie canta com voz metálica). Quando passamos pela enorme girafa na entrada do buffet infantil, Bebel diz que ela é sua amiga e que vai convidá-la a entrar no carro. Brinco que girafa não cabe em carro, o pescoço é muito comprido. “Cabe, sim, ela vai no meu colo!”, ela responde, dando risada.

Na escola, deixo a Bebel com a professora Vivi. Ela me dá um beijo (um, não, vários) e desaparece correndo dentro da classe. Quando saio do trabalho, pego a Bebel e a Néia na casa da prima Laurinha, minha afilhada. Ela me abraça, me dá vários beijos e se despede da Kátia, colega da Néia, e da Natália, a mamãe da Laura.

Mal entramos em casa, Nickinho já pula em cima dela e exige um passeio. Descemos com ele e, na rua, Bebel pede: ‘papai, posso ir no seu copotó?’ Ela quer dizer ‘pocotó’, mas não corrijo. Acho lindo, coloco ela nos ombros e viro um ‘copotó’.

Voltamos para casa. ‘Papai, tenho uma ótima ideia… vamos ver um desenho da Minnie?’ Vemos um pouco de DVD até a hora de ir para a cama. Leio ‘A Rata da Cidade e a Rata do Campo, a historinha campeã de audiência nos últimos tempos. ‘Boa noite, papai.’

Quando minha filha fecha os olhos, sinto uma felicidade incontrolável. Ela está segura, tranquila, alimentada, quentinha, saudável.

(Só de lembrar da cena, já choro de novo)

Comemoro o Dia da Criança sempre que minha filha está comigo, porque eu é que me sinto presenteado.

Feliz Dia da Criança para todos os pais que se esforçam, cuidam, sofrem, se preocupam com suas crianças. E, por meio desse amor, voltam a ser as crianças que um dia foram igualmente amadas por seus pais.

comentários (24) | comente

  • A + A -

Arquivos

Blogs do Estadão