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Felipe Machado

No início dos anos 80, quatro bandas de rock pesado foram convidadas para fazer uma turnê pelo Japão: Scorpions, Whitesnake, Bon Jovi e Anvil. Pouco depois, todas atingiram o estrelato, conquistaram milhares de fãs e foram para o topo das paradas de sucesso. Peraí, eu disse todas? Não. Todas, menos uma. O Anvil.

O Anvil é uma banda canadense que continuou lançando discos, fazendo shows (em lugares cada vez menores e mais vazios) e tentando emplacar algum sucesso. Mas nada aconteceu.

Em 2008, Sacha Gervasi lançou o documentário ‘A História do Anvil’. O filme mostra a banda nos dias de hoje, sem glamour: O vocalista Lips trabalha com merenda escolar; o baterista Robb Reiner é pedreiro. Ensaiam à noite e tocam em buracos nos fins de semana. Detalhe: fazem isso há trinta anos.

O filme dá um pouco de pena, mas é sensacional. Na verdade, é bem mais do que um relato sobre uma banda fracassada. É sobre amizade, sobre como é importante correr atrás de um sonho – mesmo quando esse sonho parece nunca se realizar. O filme é uma obra-prima da condição humana. É tão emocionante que cativa até quem odeia heavy metal. Eu chorei.

O Anvil tocou na semana passada em São Paulo, e é claro que você nem ouviu falar. O local até que estava cheio, com mais de mil fãs de heavy metal. Mas logo no primeiro acorde, descobri por que o Anvil nunca fez sucesso: a banda é muito, muito ruim.

É triste constatar que alguém sem o menor talento sonha em fazer sucesso como artista. As músicas do Anvil são péssimas, não tem a menor criatividade ou originalidade. O fracasso de público do Anvil nunca foi uma injustiça. Eles não fizeram sucesso porque não mereceram fazer sucesso.

Enquanto eu via o show, caiu a ficha: e daí que eu não gostei? O Anvil estava no palco, fazendo o que gostavam, apresentando o que tinham de melhor. Percebi que o importante para aqueles tiozinhos não era o sucesso comercial, mas a capacidade de continuar vivendo o sonho. Eles não querem sair na capa das revistas; eles querem apenas continuar tocando sua música ruim pelo resto da vida. Não importa a minha opinião – não importa a opinião de ninguém. Mesmo sem público, eles estariam tocando com a mesma garra. O sonho aqui não é chegar a nenhum lugar, alcançar um objetivo. O sonho é a jornada, não o lugar para onde ela leva. É ser quem você é, mesmo que você não seja a melhor pessoa do mundo.

Aceitar que a vida é o que se faz dela é uma bela lição de humildade. Se a vida te deu três limões, você faz uma limonada, não um champanhe. Não é triste, nem feliz. É o que é. Sucesso? Sucesso é viver.

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24.fevereiro.2011 14:24:46

Não me chame de fofo

De uns tempos para cá, as mulheres apareceram com mais uma estranha (e ridícula) mania: adoram chamar alguns homens de ‘fofos’. Se você é um gente fina, querido, legal e confiável, muito cuidado: mesmo sem querer, você pode ser automaticamente classificado como um cara ‘fofo’. Tudo bem, eu sei que a mulher tem uma tendência a infantilizar o homem, mas assim já é ridículo. Vocês não precisam disso, ou, pelo menos, não deveriam precisar. É uma contradição para quem busca a igualdade de forma tão obsessiva.

Antes de mais nada, vamos deixar uma coisa bem clara: eu não sou fofo. Não estou nem perto de ser fofo. Posso estar um pouco acima do peso, reconheço. E acredito que até consigo rejuvenescer alguns anos quando faço a barba com mais capricho. Mas estou a milhares de quilômetros de distância de ser considerado ‘um fofo’.

Bichinhos de pelúcia são fofos. Recém-nascidos são fofos. Ursos pandas são fofos. Não quero assustar ninguém, mas se eu ouvir alguma mulher se referindo a mim como ‘fofo’, vou virar bicho. Ou melhor, bichinho de pelúcia – desde que seja o maligno Chucky, o brinquedo assassino.

Não há, afinal, nada de errado com o adjetivo ‘fofo’ em si. O que não gosto é a forma como ele é usado. Minha filha, por exemplo, é fofa. Ela diz coisas fofas, faz coisas fofas e sorri de um jeito que dá vontade de apertar suas bochechas até ela pedir para o papai parar. Meu cachorro, um Yorkshire com 12 centímetros de comprimento, também é outro exemplo de algo ‘fofo’.

Como se vê, muitas coisas no mundo são fofas. Eu, não. Sou um corintiano de quarenta anos, ex-guitarrista de heavy metal e tenho um saco de boxe na minha varanda. Não tenho nenhum elemento de fofura em comum com a minha filha ou com meu cão.

Daí você vai perguntar: ‘mas por que ficar bravo com uma coisa tão insignificante?’ Insignificante para você, que deve ser uma pessoa fofa. Eu não sou. Tenho um nome a zelar. Uma reputação. Uma fama de mau que pode desaparecer a qualquer momento. Se algum amigo meu ouvir a frase ‘o Felipe é um fofo’, nunca mais poderei sair de casa.

Ser fofo significa ser inofensivo. E a última coisa que um cara como eu quer ser é inofensivo. Os fofos são ‘café-com-leite’ para as mulheres. Elas te veem como um amiguinho, não como um homem. Eu não quero ser visto como amiguinho, nem pelas minhas amiguinhas. Uma coisa é ser confiável, legal, simpático, amigo. Outra é ser fofo.

É bom vocês, mulheres, começarem a pensar em outro adjetivo para designar caras como nós. Não quero fazer ameaças, isso não fica bem para minha imagem. Mas posso mostrar como até um cara gente boa como eu pode ser violento. É só me chamar de fofo.

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Que saudades da política externa do governo Lula: Kadafi, Mahmoud Ahmadinejad, Fidel, Hugo Chávez, só a galera do bem! A foto é de Ed Ferreira/AE

Para ver outros líderes demagógicos, clique aqui. E conheça a turminha do Kadafi!

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James Murphy: O cara só usa camisa branca, vai saber por quê… Deve ser para ressaltar sua pele morena. A foto é de Matt Biddulph/Creativecommons.org

O nome correto da banda/projeto de James Murphy é LCD Soundsystem, mas quem esteve na Warehouse/Pachá sexta-feira à noite, em São Paulo, sabe do que estou falando. Cerca de três mil pessoas dançando loucamente em um ambiente fechado com pé direito baixo e sem ar condicionado têm o previsível poder de transformar uma casa noturna em uma panela de pressão.

Isso quer dizer que o show foi ruim? Pelamordedeus: longe disso.

Quando Murphy anunciou que essa seria a última turnê do LCD Soundsystem, muita gente correu para comprar o ingresso. Mesmo feliz por conseguir uma vaga na festa de despedida do LCD, a verdade é que todo mundo ficou triste ao saber que o cara ia acabar com tudo aquilo. Com razão: desde seu início, em 2002, a banda de rock eletrônico de James Murphy sempre foi uma das mais hypadas pela crítica e público independente em todo o mundo, levando inclusive alguns órgãos (exagerados) da imprensa a colocar Murphy como artista do ano. Quem? Exatamente, é esse o ponto. A imprensa ‘indie’ adora descobrir personalidades que o grande público não conhece: se Murphy tivesse escrito músicas para Britney Spears, como quase chegou a acontecer, aposto que ele teria sido eleito o ‘traidor do movimento indie do ano’. Mas ‘se’ não existe em nenhum universo, muito menos na lúdica cena independente.

Todo mundo me crucificava quando eu dizia que nunca havia visto o LCD ao vivo. “Eles são ótimos, já vi vários shows em Nova York” era o que alguns amigos especialistas diziam, se exibindo. Sorry, já vi muitos shows bons no exterior, mas não tinha realmente tido a chance de ver o LCD. Poderia ter visto no Brasil – sim, eles já estiveram por aqui duas vezes –, mas confesso que a banda nunca tinha realmente me chamado a atenção. Sou meio fresco com essas coisas: não gosto de ir atrás de bandas hypadas, prefiro que elas me encontrem. Não me pergunte como isso acontece, mas acontece.

Desta vez a cobrança da galera mudéérrna foi tão forte que comecei a ouvir os discos do LCD na semana anterior ao show, só para curtir melhor e poder dançar com as mãozinhas pra cima e cantarolando a letra correta (mas não cheguei a fazer isso, juro). Sabe quando você coloca um disco para tocar com a esperança de gostar dele muito, muito, só para poder dizer que também é fã da banda mais hypada do momento? Pois eu fiz isso. Apertei o play, comecei a balançar a cabeça. “Pô, que somzera!”, falei para mim mesmo. Mas trinta segundos depois passei para a próxima música. E assim foi até o final do disco. E dos outros discos.

Desculpem os mudéérrnos, mas achei o som meio chato, monótono, uma espécie de New Order de segunda sem boas canções, apenas com boas levadas. O que são levadas? Ora, os ritmos. Nisso tenho que reconhecer que James Murphy é muito bom: suas batidas são envolventes, seus arranjos pulsam com competência. Mas no disco é tudo muito frio, linear, sem graça. Mesmo a música mais famosa da banda, ‘Drunk Girls’ (o nome é ótimo, não?) é de uma obviedade que parece ter sido composta por uma criança de dez anos). Por que será que esse cara faz tanto sucesso, então?

No show de ontem eu descobri o segredo de James Murphy. Antes de contar qual é o segredo do LCD Soundsystem, vamos falar um pouco sobre a banda de abertura, o Turbogeist. Sinceramente, eu nem mencionaria uma banda tão ruim se não fosse pelo pai do vocalista/guitarrista. Só para dar uma dica, o nome dele é Jimmy Jagger. Yeah, ele é filho de Mick. Infelizmente, não tem nem 0,01 do talento do pai. É apenas um guitarrista meia boca de uma banda de moleques metidos a punk que certamente não venceriam sequer um concurso de show de talentos numa high school de Londres. Quem sabe daqui a alguns anos ele pega a manha? Estou pensando em começar uma campanha ‘Turbogeist no Rock in Rio 2026’.

Também teve uma apresentação que pouca gente viu, mas que foi muito legal: os DJs Rafael Urenha e Lúcio Ribeiro tocaram numa pista adjacente um repertório de rock contemporâneo (‘Barbra Streisand!’) bem legal. O Rafa, inclusive, me ensina bastante sobre novos sons, já que ele grava um CD todo ano e distribui para amigos que não têm tempo/paciência/interesse para garimpar tantas coisas novas. E o cara é super fã de U2, o que já prova que tem excelente gosto. Além de brother e publicitário top, Rafa é apenas o melhor DJ de São Paulo. E o Lúcio, além de jornalista conhecido no meio do rock, com direito à coluna no Estadão e autor do respeitado blog Popload, também foi o organizador do festival No Mondays, que teve como atração principal o LCD Soundsystem.

(Parabéns, Lúcio, da próxima vez traz o Suede ou o Morrissey? Eu te ajudo, pô!)

Vamos voltar ao LCD Soundsystem? Vamos.

James Murphy & Cia entraram no palco à uma da manhã. E calaram minha boca como poucas vezes eu vi acontecer em um show.

Para você entender o que é o som do LCD, é importante descrever a formação da banda. James Murphy é o vocal, um tiozinho barrigudo que parece uma espécie de Simon LeBon, do Duran Duran, antes de uma temporada no Spa/clínica de reabilitação. Ele só usa camisetas brancas, também não sei por quê. Temos ainda três percussionistas que se revezam tocando guitarras e baixos; dois tecladistas e mais um cara que se alterna entre DJ e teclado, acho. Não dá para saber direito, porque o guitarrista estava tocando bateria quando eu voltei do banheiro, o percussionista estava fazendo backing vocals… você entendeu.

Ao vivo eu descobri que todo o hype em cima do LCD é verdadeiro: a banda é sensacional. Fiquei pensando, ‘mas por que eu achei os discos meio chatinhos e ao vivo estou pulando como um louco?’ ‘Qual será o segredo de James Murphy? Uma palavrinha chamada ‘dinâmica’. Vou tentar explicar para quem não é músico.

Lembra de ‘Smells Like Teen Spirit’, do Nirvana? Claro que sim. Lembra que a parte cantada é bem suave, com baixo e bateria no fundo, quase falada? E que no refrão entra uma porrada só, com o Kurt gritando os pulmões para fora? Pois é, isso é um exemplo bem simplificado do que dinâmica. Dinâmica consiste em tocar diferentes arranjos durante a mesma música; saber fazer silêncio nas horas certas para valorizar quando entra o barulho; usar o timbre de cada instrumento de uma maneira que ele se sobressaia quando tem que sobressair, e se esconda quando não tem o que mostrar.

Esse é o segredo de James Murphy. As canções ao vivo ganham vida, o que é irônico para um cara que é super respeitado como produtor, ou seja, entende tudo de estúdio. Mas mesmo no disco ‘London Sessions’, que é uma gravação ‘ao vivo no estúdio’ do LCD, Murphy não consegue a empolgação que a gente vê no ‘ao vivo no palco’. Falta público, falta gritaria, falta adrenalina.

Aqui não faltou público: garotas bonitas e mudéérrnas, caras vestindo camisas xadrez e chapéus, playboys bêbados que não sabiam nem onde estavam… foi uma festa muito legal. Para acabar, eu ia mencionar também que o som da banda em disco não é tão bom porque falta ‘calor humano’ no estúdio – coisa que não faltou ao show do LCD Saunasystem.

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Fergie é a garota propaganda de uma empresa de celular. Usar mulheres bonitas para vender celular? Ah, mas que coisa previsível

Um estudo publicado no final do ano passado pela revista Science revela que os seres humanos são previsíveis. Ora, não precisava nem ter investido tanto dinheiro para fazer essa pesquisa: era só ter perguntado pra mim.

O levantamento foi realizado por uma companhia de telefones celulares. Invasão de privacidade? Um pouco. Para as empresas de telefonia – ou para qualquer outra empresa, na verdade –, quanto mais informações forem obtidas sobre os hábitos de seus clientes, mais fácil criar produtos adequados a cada tipo de consumidor.

No caso das empresas de celular, descobrir por onde andam seus clientes é fácil. Verificando os dados de localização gerados pelas ligações telefônicas, o estudo revelou que é possível prever em até 93% o padrão de deslocamento das pessoas. 93%? Fala sério! Resumindo: você acha que é superaventureiro, faz coisas incríveis e adora conhecer lugares novos… Mas na realidade você passa praticamente a vida inteira trilhando os mesmos caminhos. Convenhamos: 93% é um número extremamente alto.

Desculpe te decepcionar. Você achava que ninguém sabia onde você estava? Errado. Você é previsível. E o pior é que agora isso está provado cientificamente.

Há um velho ditado em inglês que diz: Things change, people don’t. Ou seja, as coisas mudam, as pessoas, não. Isso é bom para aqueles homens e mulheres que pensam que podem mudar as pessoas ao seu lado: não podem. Em suas essências, elas não apenas frequentam os mesmos lugares, mas também seguem os mesmos padrões de vida.

Não quero, no entanto, fazer um juízo de valor sobre o fato de que as pessoas são previsíveis e que vamos todos os dias aos mesmos lugares. Acho que, no fundo, é por isso que conseguimos conviver em sociedade. Provavelmente o trânsito nas cidades seria ainda pior se não fosse assim. E se você acordasse todos os dias sem saber o que fazer? Ou aonde ir? A previsibilidade indica que existe uma certa rotina. Deve ser essa rotina que nos salva do caos.

Pense nisso quando ligar a chave do carro amanhã para ir ao trabalho. Que tal fazer um caminho diferente? E no final do dia, que tal fazer um happy hour em outro bar? Vamos provar para essas companhias telefônicas que temos nossa rotina, mas também não estamos confinados apenas ao limite das nossas gaiolinhas.

Sabe aquele passeio do qual você ouviu falar e nunca foi? Pois agora é hora de ir. Somos previsíveis, mas não somos ratos de laboratório. É para isso que existem os fins de semana.

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Há algum tempo escrevi aqui sobre mulheres com aura, citando como grande exemplo a maravilhosa atriz Audrey Hepburn, que iluminava qualquer filme com seu rosto expressivo e sua beleza inesquecível. Agora, ao acompanhar a polêmica em torno da nova música de Lady Gaga (‘Born This Way’ seria um plágio de ‘Express Yourself’, de Madonna? É claro que não), me lembrei de um episódio que aconteceu em outubro de 2009, durante um período que passei na melhor cidade do mundo, Nova York.

Fui assistir a um concerto beneficente no lendário Carnegie Hall, uma das casas de espetáculos mais elegantes e sofisticadas do planeta. O evento teria renda revertida para a fundação RED, criada por Bono, do U2. Além da banda irlandesa, desfilaram pelo palco nomes como Lou Reed, Courtney Love, Scarlett Johansson (sim, além de tudo ela ainda canta) e Rufus Wainwright, entre outros. Mas, por incrível que pareça, quem mais me chamou a atenção não foi nenhum desses pesos pesados da música internacional. Foi uma garota muito louca de nome mais esquisito ainda: uma cantora chamada Lady Gaga. Não preciso nem dizer que, na época, ela não era tão conhecida.

Eu nunca tinha prestado atenção em Lady Gaga, até porque achava seus figurinos (e penteados) ridículos. Até essa noite, claro. A plateia recebeu Lady Gaga com risinhos, até porque não é sempre que uma loiraça platinada entra no sisudo palco do Carnegie Hall usando biquíni vermelho, saltos plataforma e óculos escuros. Mas esse desdém do público durou apenas alguns segundos: Lady Gaga sentou no piano, ajeitou o microfone e… mandou ver.

Não acreditei que ela pudesse cantar tão bem, muito menos tocar piano daquela maneira. Achei que ela era apenas uma espécie de ‘nova Madonna’, uma dançarina que cantava somente o suficiente para justificar turnês baseadas em coreografias provocantes. Mas me enganei: Lady Gaga destruiu o Carnegie Hall e, pouco depois dos primeiros acordes, as pessoas se levantaram para aplaudi-la – o que, diga-se de passagem, não aconteceu nem com o mestre Lou Reed.

E daí pensei: está aí outro exemplo de mulher com aura. Não, não estou comparando a Audrey Hepburn com a Lady Gaga. Estou só dizendo que a aura não vem da personalidade ou da tela de cinema: é algo que os americanos chamam de star quality, a ‘qualidade de estrela’ que as pessoas têm ou não. E pode vir tanto ao redor de um rosto angelical como na voz de uma maluca que abusa de perucas roxas.

O único receio que tenho em relação a Lady Gaga é que ela é tão over, mas tão over, que dificilmente ela conseguirá resistir a seus próprios excessos. Minha esperança é que ela aposente as roupas de carne depois de algum tempo e mostre aos céticos que o importante é a sua música. Quem disse que pop não tem valor musical? Quem não é músico costuma achar que é ‘fácil’ compor um hit pop. Não é. E não vamos esquecer que Gaga tem apenas 23 anos.

Olhamos para essas estrelas e constatamos que estamos diante de pessoas especiais, de quem nossos olhos (e ouvidos, no caso) não conseguem se afastar. Lady Gaga tem star quality, e por isso ainda vamos ouvir falar muito dela. Mesmo que a cantora seja, digamos, o oposto de Audrey Hepburn.

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Don Draper, o Tony Soprano da publicidade: Eu queria ser esse cara

No episódio ‘Inventando a Roda’, no final da primeira temporada, há um trecho que define e, de certa forma, explica o sucesso da série americana ‘Mad Men’. Para quem não conhece, o seriado mais premiado dos últimos anos retrata o dia a dia de uma agência de publicidade de Nova York. Detalhe: se passa nos anos 60.

Na tal cena, o Diretor de Criação da agência e protagonista da série, Don Draper, prepara uma apresentação para os executivos da Kodak.

O produto abordado pela campanha é um projetor de slides. Lembra o que é isso? Sim, aquela velha geringonça que projetava fotos na parede da sala de jantar.

O carismático publicitário usa slides pessoais na apresentação: fotos de seu casamento, imagens de seus filhos na praia. E seduz os executivos da Kodak, que pretendiam vender o aspecto ‘tecnológico’ do produto.

“Criar uma conexão profunda com o produto é mais importante que falar sobre a tecnologia. Sua máquina de slides não é um foguete, é uma máquina do tempo. Vai para frente, vai para trás, nos leva a lugares onde desejamos voltar. Nos faz viajar como crianças, não como adultos. Saímos por aí, mas acabamos voltando para casa. Voltamos para um lugar onde sabemos que somos amados.”

Silêncio. Um executivo da Kodak esconde as lágrimas.

O discurso, pontuado por belas fotos da família do personagem, é feito para emocionar. Ao final, claro, Don Draper aprova a campanha. Mas por que o trecho simboliza o sucesso de ‘Mad Men’?

Porque ‘Mad Men’ é exatamente como o projetor de slides. Não é um foguete, é uma máquina do tempo. E nos leva direto para os anos 60, quando o mundo começava lentamente a se transformar no lugar onde vivemos hoje.

Ninguém ali estava preocupado com o último lançamento do Steve Jobs; o chefão da Apple ainda era uma criança. Kennedy não apenas era vivo, como ainda disputava a eleição presidencial com Nixon. E as pessoas fumavam e bebiam sem culpa, ingenuamente até, sem saber que fazia mal ou que era politicamente incorreto.

A vida era perfeita? Claro que não. O machismo era gritante, a hipocrisia reinava. Mas não havia terrorismo, não havia essa ansiedade social que abala o planeta.

O mundo era feliz e não sabia? Talvez. Quem lembra do passado sempre tende a achar que tudo era melhor. Esse mundo não existe mais, e é justamente isso que seduz o público. Queremos acreditar que aquele mundo ainda é possível, o que é totalmente impossível. O mundo só existe durante os 47 minutos de cada episódio.

A verdade é que entre o projetor de slides e o iPhone há uma distância tão grande que nem Don Draper conseguiria nos convencer do contrário.

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Alessandra Ambrósio, Alessandra Ambrósio, Alessandra Ambrósio. Escrevi três vezes o nome dela para o meu blog aparecer quando a Alê for procurar matérias sobre a SPFW no Google. A foto é de André Lessa/AE

Quem disse que festa de debutante é fora de moda? Pois a São Paulo Fashion Week acaba de fazer 15 anos mais fashion do que nunca. Ou tão fashion quanto sempre, se você preferir.

Para começar, o prédio da Bienal estava chiquérrimo, como se diz durante a semana de moda. Acho que há um dialeto fashionês que é falado apenas duas vezes no ano: no Outono-Inverno e na Primavera-Verão. Tem gente que parece que dorme o ano inteiro e só acorda na SPFW. Ou então os locais que eu frequento são muito… fora de moda.

O momento mais marcante desta edição? A passagem dos astros de Hollywood Ashton Kutcher e Demi Moore. Foi um belo mico: receberam a maior vaia quando chegaram para o desfile com ‘apenas’ três horas de atraso. OK, eles são ricos e famosos. Mas não estou nem aí: Ashton Kutcher nunca fez um filme bom na vida e o último sucesso da Demi Moore foi lançado há tanto tempo que o Botox ainda não tinha nem sido inventado.

Paris Hilton também estava aí. Tranquilinha, viu? Nem foi fotografada bêbada caindo na sarjeta. Dureza, já não se fazem mais celebridades como… no ano passado.

Veio também o (a) tal de Lea T., modelo transexual que está super na moda. Deve ter sido chamado (a) pela sua versatilidade. Ou para economizar dinheiro, já que ele (a) poderia desfilar coleções masculinas e femininas.

Tivemos ainda a despedida de Gisele Bündchen na Colcci. Pena, eu adorava ver desfiles da Gisele. Ela é incrível. Mas o mais legal mesmo era ver suas entrevistas coletivas após a passarela: era engraçado vê-la batendo o próprio recorde de clichês numa mesma frase.

Sai Gisele, entra Alessandra Ambrósio, a mulher mais linda do mundo. Entre os momentos históricos da SPFW, eu destacaria a noite em que jantamos juntos.

Foi há dois anos, mas me lembro como se fosse hoje. A Alê (olha a intimidade) tinha ido ao lounge do Estadão para uma entrevista no estúdio da Rádio Eldorado. Como sou um cara muito educado, me ofereci e perguntei se ela não gostaria de comer um pedacinho de pizza, comida que era servida no nosso lounge. Ela aceitou. Fiquei surpreso, pois eu não sabia que modelos comiam. Ainda mais pedaços de pizza.
A pizza chegou, ela deu uma mordidinha. Agradeceu e foi embora. Sem ninguém ver, peguei o resto do pedaço e comi. Pronto: eu e Alessandra Ambrósio, tecnicamente, jantamos juntos.

Gosto das coleções Outono-Inverno, mas confesso que estou aguardando ansiosamente os biquínis e minissaias da estação Primavera-Verão. Moda é muito legal, mas ainda prefiro aquelas partes do corpo que os tecidos não cobrem. Será que estou muito fora de moda?

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Alessandra Negrini: A atriz paulistana fez sucesso em ‘As Cariocas’. A foto é de Luciana Prezia

Tudo bem, eu sei que você não aguenta mais ouvir falar sobre o aniversário de São Paulo, que aconteceu há exatamente uma semana. Deixei o assunto passar de propósito, até para poder observá-lo de maneira mais racional. E vejo que temos muito (e pouco) a comemorar nesses 457 anos.

Paulistanos e moradores de SP têm uma relação de amor e ódio com a cidade. É engraçado ver que todo mundo que mora aqui adora falar mal de São Paulo, mas basta um turista abrir a boca… que defendemos a cidade como se ela fosse da nossa família. No fundo, talvez seja isso mesmo: a cidade onde vivemos é um integrante da nossa família.

Difícil dizer isso para quem perdeu tudo com as últimas enchentes. Vá dizer para eles que ‘São Paulo tem excelentes opções na área cultural’: você vai levar na cabeça o que a água não levou na enxurrada.

Confesso, no entanto, que também defendo São Paulo dos críticos. Cariocas adoram falar mal de São Paulo, mas aqui é onde eles geralmente vêm ganhar dinheiro. Ninguém sabe ganhar dinheiro como SP – talvez seja por isso que os restaurantes andam tão caros: as pessoas têm dinheiro para gastar e, de acordo com a lei da oferta e da procura…

Restaurantes, inclusive, são o que a cidade tem de melhor. Mas também há shows, peças de teatro, concertos, lojas. O que é ruim em São Paulo, então? Basicamente tudo que depende de algum nível de governo (aliás, como acontece no Brasil inteiro). Restaurantes só precisam de bons chefs e administradores; shows só precisam de bons artistas e empresários.

Por que será que tudo que depende do governo dá errado? Infraestrutura, saneamento, segurança, transporte, serviços públicos. Absolutamente tudo em que o governo põe a mão, é para estragar. Quem sabe na festa de 1.457 anos de SP eles terão aprendido a trabalhar com a mesma competência que se vê no resto da cidade?

Voltando ao lado bom de São Paulo, ouço gente falar que gosta daqui porque ‘dá para comer uma feijoada às 4 da manhã de segunda-feira’. Sim, é verdade. Mas você já viu alguém fazendo isso? Nem eu.

O que gosto aqui são as coisas simples. Tomar café da manhã na padaria em Higienópolis. Comer sushi na Liberdade. Caminhar pela Paulista e ver os rostos na multidão. Ir a um jogo do Timão no Pacaembu.

A vida de uma cidade não é medida pelos seus pontos fora da curva, mas pelo seu dia a dia. E nas áreas em que o governo não se envolve, vamos muito bem, obrigado. Só não me venha chamar São Paulo de ‘Sampa’: isso é coisa de turista.

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Manicure também é artista

Uma manhã dessas eu estava passeando calmamente com meu Pitbull (é mentira, eu tenho um Yorkshire) quando vi minha vizinha andando com os braços meio para cima e as mãos bem abertas. Parecia uma maluca. Quando nos aproximamos, ela deu um pulo para o canto da calçada como se eu tivesse uma doença contagiosa. Foi aí que percebi: ela tinha acabado de fazer as unhas.

Nunca reparei tanto em unhas femininas quanto agora, e isso só pode ser um mau sinal. Já viu a variedade de cores disponíveis no mercado atualmente? Não entendo muito de tendências femininas, mas uma coisa posso garantir: nós, homens, não estamos nem um pouco interessados em unhas de cores exóticas.

Tudo bem, eu sei que mulheres não pintam as unhas para os homens, mas para elas mesmas – para as amigas e, ainda mais, para as inimigas. Mas, de uns tempos para cá, a obsessão por essas cores bizarras passou do limite. É isso aí, minha paciência já acabou: parem de pintar as unhas com cores ridículas ou estejam preparadas para o pior.

“Ah, Felipe, mas azul-limão-rosa-choque-fúcsia é uma cor tão charmosa…” Não, não é. É horrível. Outro dia vi uma garota com as unhas tão amarelas que achei que ela estava com alguma doença africana. Com minha amiga italiana que fala com as mãos, então, não consigo nem mais conversar: fico tão hipnotizado pelas unhas amarelo-canário-pigmeu-de-saturno que não consigo prestar atenção no que ela está falando. Quando reclamo, ela diz que a cor “é o máximo”. Para mim, ela é o “mínimo”.

Em nome dos homens, vou tomar a liberdade de esclarecer as coisas. Nós não queremos unhas pintadas com cores malucas. Vermelho, branco, ‘francesinha’, preto… estava bom assim. Para que mexer em time que está ganhando? Desde o início dos tempos, vocês nunca precisaram usar cores exageradas nas pontas dos dedos para chamar a nossa atenção.

E os nomes das cores, então? São piores ainda. “Vermelho-me-beija”, “rosa-quinta-avenida”, “verde-marciano-pelado” e por aí vai. Já vi até uma mulher com uma unha de cada cor – e juro que não foi no circo!

Então o negócio é o seguinte: vocês vão parar de usar essas cores ridículas ou terão que aguentar as consequências: sim, se isso continuar, vou usar esses esmaltes para colorir… meu bigode. É isso aí. Vocês vão ver. Vou pintar meu bigodinho de ator pornô dos anos 70 de verde-marciano-pelado. Será a minha vingança, ha ha ha! (risada macabra)

Mal espero para ver a cara da minha vizinha.

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