ir para o conteúdo
 • 

Felipe Machado

É uma nave espacial? É uma arranha-céu? É uma aranha gigante? Não, é o palco do U2. A foto é de M.Rossi

Trabalho com as palavras há muito tempo e estou acostumado a usá-las para descrever as coisas. Algumas vezes, no entanto, as palavras não são suficientes, como se a realidade fosse tão espetacular que passar os olhos por letrinhas parecesse algo simplificado demais. É assim com grandes eventos históricos, por exemplo. É assim com sentimentos abstratos, com o perdão do pleonasmo conceitual. E foi assim com o show do U2.

Assisti à apresentação de domingo, e pelo que vi na imprensa, parece ter sido um show bem diferente do que aconteceu no sábado – e, provavelmente, bem diferente daquele que será a última apresentação da turnê brasileira, na próxima quarta-feira. Digo isso principalmente pelo setlist: não é incomum uma banda que faz mais de um show na mesma cidade mudar um pouco o repertório. Mas o U2 radicalizou, com várias canções diferentes entre os dois shows. O que mostra aquilo que todo mundo já sabe, mas que anda com um pouco de vergonha de dizer: o U2 é a maior banda do mundo.

Essa denominação não é apenas retórica de crítico de rock. Afinal, quando os Rolling Stones vem ao Brasil, eles são ‘a maior banda do mundo’. Quando o Radiohead vem ao Brasil, eles também são ‘a maior banda do mundo’. Mas isso é tudo uma grande bobagem, porque o U2 supera essas duas bandas em qualquer quesito. Tudo bem, confesso que sou fã de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. Mas não sou um fã cego.

Digo que o U2 é maior que os Rolling Stones (em importância e em relevância artística) não apenas porque eles têm hoje o maior palco já construído na história do showbiz. A grande diferença é que o U2 se preocupa em ser relevante musicalmente, ao contrário de músicos como Rolling Stones, AC/DC e até Paul McCartney, por exemplo. Note que não estou comparando esses artistas, cada um tem seu estilo e sua importância. Mas Stones, AC/DC e Paul não estão nos auges de suas carreiras há tempos, muito longe disso. Os artistas de hoje não se preocupam em criar obras-primas fonográficas, mas em lançar discos para viabilizarem turnês. Essa eu acho que é a grande diferença do U2: após 30 anos de carreira e mais de 100 milhões de discos vendidos, eles ainda se desafiam a fazer melhor do que já fizeram – e olha que isso não é fácil.

Tem gente que acha o disco ‘Boy’ o melhor da carreira do U2; tem gente que ama o ‘Achtung Baby’ (eu, inclusive). Mas não dá para dizer que ‘All That You Can’t Leave Behind’ é um disco lançado apenas para cumprir tabela; assim como ‘No Line on the Horizon’ pode ser apenas um disco mediano do U2, mas mesmo assim é melhor do que praticamente qualquer disco de qualquer banda lançado dos anos 2000 para cá. Não, eu não sou o tipo de crítico que tenta descobrir ‘a nova melhor banda do mundo’ todos os dias. Eu acho que o teste do tempo e da qualidade se impõe. Vamos ver onde estará o Arcade Fire e o Arctic Monkeys daqui a trinta anos. Mesmo o Radiohead, que é uma banda genial, não pode ser comparada com o U2. Radiohead está mais para um Pink Floyd pós-moderno, cheio de experimentações que nunca chegarão ao grande público. Pode agradar os mudérrnos, mas será que há muita gente que realmente se lembra de alguma música do Radiohead além de ‘Fake Plastic Trees’, que ficou famosa por ser trilha sonora de um comercial?

Duvido.

Mas chega de comparações porque música é arte, não campeonato de talento ou fama. Voltando ao início do texto, o motivo pelo qual eu senti dificuldades em encontrar palavras para descrever o show do U2 é um só: o palco da turnê 360 graus.

Vou tentar descrevê-lo, mas já peço desculpas pela eventual imprecisão. Bono diz que criou o palco colocando quatro garfos encaixados um no outro em cima de uma mesa; lenda ou não, é isso mesmo que parece. Só que esses garfos, na vida real, são tentáculos gigantescos que grudam no gramado como se toda a estrutura fosse uma nave espacial que acaba de pousar no centro do estádio. É um monstro. É uma aranha cibernética. É uma garra de alguma criatura que povoa nossos pesadelos mais sombrios. Resumindo: é o palco mais impressionante que já foi montado desde que alguém inventou um conceito chamado ‘show’.

O arranha-céu do U2 tem uma antena que projeta luzes até o céu; tem um telão circular que desce do topo da estrutura até o palco e praticamente encosta na cabeça dos músicos antes de subir de novo e virar novamente um telão. Mas a ideia mais genial por trás de toda essa megaestrutura é financeira: como o palco é circular e montado no centro do gramado, é possível vender todos os ingressos do estádio. Isso, para quem vive o dia a dia de turnês, sempre foi um problema. O palco era montado em uma extremidade do estádio, portanto não se podia colocar à venda os ingressos que ficavam atrás dele. Com o palco 360 graus isso muda: o U2 pode vender todos os ingressos de arquibancada, além da pista, todos com excelente vista a partir da plateia. É por isso que o Morumbi receberá 90 mil pessoas por noite, ao contrário de outros shows, que recebem ‘apenas’ 60 mil. Pequena diferença em termos de arrecadação, não? É por isso que essa turnê já arrecadou mais de US$ 500 milhões desde seu início, em Barcelona, em junho de 2009.

Por incrível que pareça, esse monstro que o U2 chama de palco é justamente o ponto mais negativo do show, se é que podemos dizer que há algum ponto negativo. Deixa eu tentar explicar: o palco é tão grandioso e chama tanto a atenção, que desvia um pouco a atenção do que é o melhor do U2: os quatro músicos e suas canções.

Por falar nisso, vamos voltar ao repertório. No sábado, os alto-falantes tocaram ‘Trem das Onze’ antes da introdução de ‘Space Oddity’, de David Bowie (‘Ground control to Major Tom…’). No domingo, foi ‘Minha Menina’, dos Mutantes. No sábado, o U2 homenageou as vítimas do massacre na escola do Realengo, colocando seus nomes no telão. No domingo, Bono e The Edge tocaram a inédita e belíssima ‘North Star’, que estará no próximo disco da banda.

(Quem ousaria tocar uma balada desconhecida para 90 mil pessoas, deixando de fora sucessos que chegaram ao topo das paradas em dezenas de países?)

Só acho que teve um outro pequeno ponto negativo do show, mas aí eu já falo descaradamente como fã. Eu achei que o setlist foi muito legal, variado, com músicas de todos os discos… mas eu teria escolhido outras músicas dos mesmos discos. Exemplo: a primeira música do show é ‘Even Better than the Real Thing’, mas na minha opinião deveria ser ‘The Fly’, que ficou de fora. Daí veio ‘Out of Control’, muito legal, antiga, uma ‘homenagem aos fãs’, segundo Bono (no sábado foi ‘I Will Follow). ‘Get on Your Boots’ é sensacional, uma música do último disco, mas que parece ter saído de alguma garagem dos anos 70: riff matador, vocal psicodélico. Outra nova, ‘Magnificent’, que eu acho meio chatinha. Eu preferia ‘Stand up Comedy’, mas tudo bem. ‘Mysterious Ways’ é outra do ‘Achtung Baby’, muito legal, The Edge mostrando por que é um dos grandes guitarristas da história do rock.

Deixa eu aproveitar e falar um parágrafo sobre o The Edge, vai. Todo mundo está de saco cheio do Bono porque ele aparece demais, etc, certo? Então façam como eu: concentrem-se no The Edge e vocês não se arrependerão. Bono está tentando melhorar o mundo, e o excesso de exposição é apenas o efeito colateral de uma fama tão grande. Continuo gostando do Bono, veja bem. Bono não é incrível porque chegou no Brasil e logo de cara comentou a tragédia do Rio e mostrou apoio ao projeto Ficha Limpa em encontro com a presidente Dilma Rousseff. Ele é demais porque ele se deu ao trabalho de saber o que é Ficha Limpa, se deu ao trabalho de ver o que é relevante no país que ele está. É fácil ser um rockstar, ficar doidão, pegar as groupies e destruir o quarto de hotel. Ser inteligente, culto e preocupado com a realidade é um pouco mais difícil.

Mas voltando ao The Edge (estou escrevendo em ciclos em homenagem ao palco da turnê – boa desculpa, não?), acho que ele realmente revolucionou a guitarra e digo o porquê. Até os anos 80 (e inclusive hoje em dia, dependendo do guitarrista), o instrumento sempre foi refém de maneirismos blueseiros, praticamente extensões do estilo de nomes como Jimi Hendrix e companhia. Os solos e os arranjos eram baseados totalmente em escalas pentatônicas ou escalas menores básicas. Dar um ‘bend’ (levantar a nota um tom acima) era o máximo da criatividade musical, apesar de ser uma contradição, já que é uma técnica roubada dos blueseiros americanos dos anos 40, por aí. Nomes como The Edge e Johnny Marr, do The Smiths, jogaram isso fora e começaram do zero. Criaram acordes em vez de solos; climas em vez de bases óbvias. O resultado é que a guitarra virou um instrumento muito maior, mais amplo, com mais possibilidades. A guitarra de The Edge é quase como um teclado, criando texturas e luzes para cada canção. The Edge é um Edgênio.

O show seguiu com ‘Elevation’ (u-uhu) e ‘Until the End of the World’, outra favorita do público. Até que veio o primeiro hino: ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’, do ‘Joshua Tree’. Linda, é completamente incrível ver uma canção gospel mezzo Harlem mezzo irlandesa tocada dentro de uma nave espacial pousada num estádio no Brasil. Globalização é uma palavra feia, mas o que ela representa conceitualmente é maravilhoso. Não preciso nem dizer que ‘Pride (In the Name of Love)’ trouxe o Morumbi abaixo, assim como ‘Beautiful Day’, o hit mais ‘good vibe’ do século 21. Tem gente que torce o nariz para ‘Miss Sarajevo’, mas eu acho linda a ideia de que o U2 colocou sua segurança em risco para tocar na cidade destruída pela guerra. E daí que o Bono não canta como o Pavarotti? Pelo menos ele estava bem afinado na noite de domingo.

Aí veio ‘Zooropa’, uma escolha estranha de uma canção estranha que deu nome a um disco… estranho. ‘City of Blinding Lights’, do disco ‘How to Dismantle an Atomic Bomb’ é linda, mas eu preferia ‘Sometimes You Can’t Make it on Your Own’. ‘Vertigo’ veio na sequência com um dos riffs mais simples e legais do rock, preparando terreno para uma viajante versão eletrônica-house-percussiva de ‘I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight’. Dizem que o próximo disco do U2 será eletrônico, com participação até do produtor David Guetta. Só acredito vendo, ou melhor, ouvindo. Eles não gostam do ‘Pop’, mas eu adoro ‘Discotheque’…

O que dizer de ‘Sunday Bloody Sunday’? Nada, apenas que até hoje é emocionante ouvi-la. E o show termina (pela primeira vez) com a bela ‘Walk On’, que não foi feita para comercial de whisky, embora fique aqui a ideia. No sábado, teve também ‘In a Little While’ e ‘Stuck in a Moment That You Can’t Get Out’, sinceramente, não sei qual das três é a melhor.

A banda volta com ‘One’, e Bono aproveita para fazer propaganda de sua ONG, chamada… ‘One’. Foi então que veio a melhor música do show, na minha opinião: ‘Where the Streets Have no Name’. Não sei por que, mas ela me pegou de jeito e me emocionou de uma maneira meio constrangedora (ainda bem que ninguém viu). Não sei se foi o fato de que eu era uma pessoa tão diferente quando a ouvi pela primeira vez, no ‘Joshua Tree’, em 1987, ou se é por alguma coisa que se passa na minha vida hoje mesmo. Mas o fato é que um lugar onde as ruas não têm nome pode ser inesquecível. Eu gostaria de ser abduzido e levado para esse lugar na nave do U2.

Peraí, não acabou! Tem ainda ‘Ultraviolet’, ‘With or Without You’ e ‘Moment of Surrender’, a melhor música do disco novo. Fim do show, as luzes se acendem e, paradoxalmente, é o momento que o palco-monstro parece finalmente adormecer. As pessoas começam a se dirigir para a saída, ainda estupefatos com o que acabou de acontecer. Sim, foi apenas um show de rock. Um dos últimos, talvez, já que a geração da internet não parece estar muito preocupada em construir ídolos. Eles não sabem o que estão perdendo.

Desculpe se o texto foi muito longo, eu disse que estava com dificuldade para descrever o que aconteceu na noite de domingo. Se eu pudesse resumir, diria apenas: não perca o show de quarta-feira: U2 só existe One.


Matéria sobre o show do U2 exibida pela TV Estadão

comentários (81) | comente

  • A + A -


Se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne. Foto de Andre Penner/AP Photo

Na última sexta-feira, um dia antes do show de Ozzy Osbourne na Arena Anhembi, em São Paulo, assisti a um especial da MTV sobre o príncipe das trevas. O programa mostrava Ozzy no estúdio com sua nova banda, gravando videoclipes e até participando de uma pegadinha com seus fãs. Fazendo uma alusão ao refrão de seu novo single, ‘Let me hear you scream’ (Deixe-me ouvir você gritar), a produção da MTV retirou a estátua de cera de Ozzy de um museu em Los Angeles e pediu para o próprio vocalista ocupar o local. Ou seja, Ozzy ficava ali paradinho esperando a chegada dos fãs. Quando alguém se sentava ao lado da ‘estátua’ para tirar uma foto, Ozzy se mexia e dava um susto. Fizeram isso umas 50 vezes, eu chorei de rir em cada uma dela.

Comecei o texto falando sobre isso porque a brincadeira dá dimensão de quem é o ‘personagem’ Ozzy Osbourne hoje em dia. Quem acha que Ozzy é apenas um vocalista de heavy metal não tem noção do que representa sua figura para a cultura pop. Ozzy é um Nosferatu pós-moderno, com tudo de paradoxal e farsesco que isso representa. Sim, ele é vocalista de heavy metal e um dos principais pioneiros do rock pesado em todo o mundo. Mas ele também é um rufião que sabe muito bem transformar sua imagem de louco em milhões de dólares.

A carreira de Ozzy começou como a de dezenas de outros rockstars: lançando um disco atrás do outro, fazendo turnês exaustivamente longas por todo o planeta, consumindo álcool e drogas em quantidades assustadoras para os padrões da população ‘civil’. Desnecessário dizer que Ozzy e seus companheiros da formação original do Black Sabbath – o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o batera Bill Ward – praticamente inventaram em 1969 o heavy metal como conhecemos hoje, pelo menos a escola mais ‘escura’ desse estilo de tantas vertentes.

Ozzy ficou apenas dez anos no Black Sabbath, mas foi o suficiente para criar obras clássicas, como os discos ‘Black Sabbath’, ‘Paranoid’, ‘Master of Reality’, Sabbath Bloody Sabbath’ e outros. Ozzy saiu e engatou uma bem sucedida carreira solo; o Sabbath também se deu muito bem ao contratar o (recém-falecido, infelizmente) vocalista Ronnie James Dio e criar um novo catálogo de clássicos de estilo um pouco diferente.

A partir do lançamento do primeiro disco de sua carreira solo, ‘Blizzard of Ozz’, em 1980, ficou claro que Ozzy não era mais apenas um vocalista de heavy metal. Ele era Ozzy Osbourne, príncipe das trevas.

Vamos imaginar uma cena grotesca: se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne.

Tudo ficou mais exposto com o reality show The Osbournes, que mostrava o dia a dia na casa de Ozzy e sua família. A série ridicularizava o roqueiro mostrando que ele obedecia cegamente à mulher em tarefas mundanas e parecia um fantoche dentro de sua própria casa. Por outro lado, o show rendeu milhões de dólares e levou a imagem de Ozzy a um público que normalmente teria medo dele ou, pelo menos, antipatia.

Mostrou que, por trás da imagem vendida durante anos de ‘príncipe das trevas’, Ozzy não passava de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo. Como fã de Ozzy, achei meio desrespeitoso. Hoje entendo que não era nada disso. Essa imagem foi pensada e construída ardilosamente por Ozzy e Sharon Osbourne, sua mulher e empresária.

Percebi isso na entrevista coletiva que Ozzy deu em São Paulo e que você pode ver trechos abaixo, em matéria da TV Estadão. Ozzy diz que nunca mais fará um programa de TV, atribuindo ao estresse das gravações o câncer da mulher Sharon e o envolvimento dos filhos Jack e Kelly com drogas. Dito isso, que deve ser verdade, Ozzy disse na coletiva que tem uma vida normal e que seu dia a dia consiste basicamente em limpar o cocô dos cachorros a mando da mulher.

Achei isso meio forçado porque essa foi justamente uma das cenas mais famosas do reality show. Ora, estamos falando de algo que a TV mostrou há anos. É inconcebível imaginar que a vida de Ozzy em casa ainda é pegar cocôs de cachorro no chão. Portanto, ao que parece, Ozzy ‘usa’ deliberadamente a imagem que o reality show exibiu, optando por divulgar uma imagem planejada vis-à-vis sua imagem real: a imagem de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo já está espalhada, não é preciso explicar muita coisa. Ao usar essa imagem conscientemente, Ozzy deixa de ser o Ozzy-vocalista-de-heavy-metal e se torna Ozzy-o-ídolo-da-cultura pop-personagem-de-reality-show. É mais fácil ser um Nosferatu pós-moderno do que um artista que continua se desafiando artisticamente após tantos anos de carreira.

Quando sobe ao palco, no entanto, qualquer resquício desse personagem desaparece. Lá não tem Sharon Osbourne para encher o saco, nem produtores de reality show ou marqueteiros. Lá é o lugar de Ozzy e sua banda de garotos que poderiam ser seus netos. E se tem um cara que sabe montar uma banda de rock pesado, esse cara é o Ozzy.

Ozzy já trabalhou com alguns dos melhores guitarristas do mundo. Ele tem faro, sabe escolher um desconhecido em transformá-lo em um guitar hero. Tudo bem, isso na Califórnia nem é tão difícil assim: lá os guitar hero crescem em árvores. Mas Ozzy tem o seu mérito; basta ver a lista de guitarristas que passaram por sua banda.

Depois de Tony Iommi, Ozzy descobriu Randy Rhoads. O baixinho loiro ex-Quiet Riot precisou de apenas três discos para entrar para a história do rock. Basta ouvir os riffs e solos de ‘Crazy Train’ e ‘Mr. Crowley’, considerados até hoje solos mais incríveis da história da guitarra. Rhoads morreu cedo, vítima de um estúpido acidente aéreo, e a partir daí outros grandes guitarristas começaram a se revezar no estúdio e no palco, sempre ao lado esquerdo de Ozzy: Brad Gillis, Jake E. Lee, Zakk Wylde e, agora, Gus G.

Ainda não chovia quando o Sepultura esquentou o público com seu repertório ultra-conhecido dos brasileiros. Ozzy entrou ao som de ‘Bark at the Moon’, mas infelizmente a lua não podia ser vista porque as nuvens já começavam a atrapalhar a das vinte mil pessoas da plateia.

Ao contrário do Iron Maiden, que tocou no show da semana passada um repertório composto basicamente por músicas novas, Ozzy foi mais populista e cantou praticamente apenas velhos sucessos. ‘Let me Hear You Scream’, a segunda do show, foi a única exceção. Mas a música é bem legal, então o ritmo do show não foi quebrado em nenhum momento. ‘Mr. Crowley’ dispensa comentários, e pudemos ver o talento do guitarrista grego Gus G. Quem é fã de Ozzy, gosta que seus guitarristas mantenham os solos originais, principalmente os de Randy Rhoads, que são inesquecíveis. Gus fez isso: tocou nota por nota a melodia imortal criada por Rhoads. O público até cantou o solo…

Foi nessa hora que a chuva começou a cair com mais força. E continuou assim até o final do show, incomodando todo mundo. Para mostrar que não tinha medo de água, Ozzy jogou um balde de água sobre a própria cabeça. ‘Fuck the rain!”, gritou, em mais um arroubo de sua já conhecida educação britânica.

Veio então outra do disco ‘Blizzard of Ozz’, a pesadona ‘I Don’t Know’. ‘Fairies Wear Boots’ foi a primeira do Black Sabbath, mas acho que a música poderia ter sido melhor escolhida (‘Sabbath Bloody Sabbath’, ‘Children of the Grave’ ou ‘Sympton of the Universe’ teriam sido mais legais, na minha opinião).

‘Suicide Solution’ e ‘Road to Nowhere’ vieram depois, preparando terreno para um dos grandes hinos do rock pesado: ‘War Pigs’. Sensacional! ‘Shot in the Dark’ é meio breguinha, mas foi hit nos Estados Unidos, e por isso Ozzy sempre dá um jeito de incluí-la na turnê.

‘Rat Salad’, outro cover do Black Sabbath, é o momento em que Ozzy vai para o camarim descansar (ou tomar uma injeção de vitamina, como fez aqui no último show, entre outras coisas divertidas). Solo de guitarra de Gus G., solo do batera (animal) Tommy Clufetos. Rob ‘Blasko’ Nicholson (baixo) e Adam Wakeman não fizeram solos, mas os dois também se revelaram músicos talentosos. Adam Wakeman, inclusive, tem a quem puxar: ele é filho de Rick Wakeman, o lendário ex-tecladista do Yes.

Ozzy volta ao palco com energia, afinal, ele é o homem de ferro… sim, ‘Iron Man’ é a próxima, outro hino do Sabbath. ‘I Don’t Want to Change the World’ é simpatiquinha, assim como ‘Mama I´m Coming Home’. Eu gostei mesmo de ‘Crazy Train’, e daí veio o final apoteótico: ‘Paranoid’. Finished with my woman ’cause she couldn’t help me with my mind…

Assistir a um show debaixo da chuva é péssimo, não importa que é o artista. Confesso que isso atrapalhou um pouco o show, apesar de Ozzy não ter a menor culpa, claro. Acho que mandar aquela quantidade de chuva deve ter sido uma vingança dos deuses, provavelmente inconformados com a popularidade do príncipe das trevas. Sagrado ou maldito, Ozzy é uma voz única, muito mais interessante e talentosa que a imagem de tiozinho meio atrapalhado e inofensivo vendida pela TV. Eu prefiro o Ozzy do palco.

Ozzy Osbourne na coletiva em São Paulo: ‘Sou apenas um cara normal’

comentários (18) | comente

  • A + A -

Iron Maiden detona o Estádio do Morumbi, em imagens de J.F. Diório

Não foi meu primeiro show do Iron Maiden e, se tudo der certo (e o Eddie permitir), não será o último. Mas todo show do Iron Maiden é especial, não apenas porque é uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, mas porque é uma verdadeira viagem para ‘somewhere in time’.

A noite de sábado começou cedo e com um encontro bastante inusitado. Um evento organizado pela gravadora EMI levou alguns (sortudos) jornalistas para um tempo e se divertir no Rod’s Room. O camarim do empresário do Iron Maiden, Rod Smallwood, é um espaço onde ele e a banda recebem informalmente amigos, patrocinadores e alguns fãs. Em meio a cervejas e caipirinhas, é uma verdadeira festinha pré-show. E adivinha quem era um dos convidados? Sim, ele, o Iron Maiden em pessoa: Steve Harris. O baixista e líder da banda bateu papo e tirou fotos com a galera, entre eles o pessoal do WikiMetal, programa em podcast na internet que está se tornando febre entre os headbangers. Um dos editores, Daniel Dystyler, veio conversar comigo para saber qual é minha música favorita do Maiden. Tive que citar duas, uma com cada vocalista: ‘Phantom of the Opera’, com Paul Dianno, e ‘Hallowed be Thy Name’, com Bruce Dickinson.

Um show do Iron Maiden é uma viagem para ‘somewhere in time’ porque me leva de volta à minha adolescência, quando eu idolatrava a banda (hoje eu apenas amo). Quando formamos o Viper, queríamos deliberadamente ‘ser’ o Iron Maiden. Eu, pessoalmente, queria ser o guitarrista Adrian Smith: ele era cool, meio quietão, tinha guitarras incríveis e fazia solos memoráveis. A gente sempre quer ser alguém na adolescência, não é fácil descobrir que isso nunca vai acontecer.

Encontrar amigos de infância no show reforça essa viagem ao passado. Ser fã do Iron Maiden é fazer parte de uma família diferente, por exemplo, de quem é fã do Metallica ou do Slayer, outras bandas importantes de heavy metal. As canções do Iron Maiden são mais dramáticas, mais épicas, mais próximas da sonoridade das bandas dos anos 70. Elas são mais especiais, porque funcionam bem até quando tocadas no violão. Tente tocar uma música do Slayer no violão e você vai entender o que estou falando.

Rod Smallwood apareceu finalmente em sua própria festa para dar um abraço na galera, e o baterista Nicko McBrain passou correndo porque estava atrasado para fazer seu aquecimento (Nicko tem uma bateria no camarim para aquecer os músculos antes do show – faz sentido, já que o cara tem quase 60 anos e tem que tocar heavy metal durante duas horas). De perto, o nariz de Nicko é ainda mais parecido com o de um ex-boxeador. E ainda bem que ele trocou de roupa e não tocou no show com aquela camisa-de-turista-inglês-no-Caribe. Os 55 mil metalheads achariam graça.

Infelizmente, o horário me fez perder o show do Cavalera Conspiracy, que eu estava curioso para ver. Deu para ouvir de longe que a banda lembra muito o Sepultura do começo da carreira, com músicas rápidas e com vocal gutural. Para saber mais sobre a banda, veja aqui a entrevista da TV Estadão feita pelos headbangers Gabriela Valente, Bruno Salvagno e Anderson Bellini:

Devidamente calibrados e prontos para o show, o Rod’s Room foi esvaziado e fomos todos para a plateia. O Iron Maiden entraria em campo, quer dizer, no palco (confundi um pouco porque o baixista-boleiro Steve Harris estava de bermuda).

As luzes se apagam. ‘Doctor Doctor’, clássico da banda UFO, explode nas caixas de som, como no show de 2009, anunciando que está tudo pronto. A longa intro de ‘Satellite 15… The Final Frontier’ começa nos telões, um pouco anticlimática, mas tudo bem. Até que nada, eu repito, nada, supera a entrada do Iron Maiden em um palco. Steve Harris correndo, Dave Murray e Adrian Smith sérios e compenetrados detonando nos riffs, Nicko McBrain fazendo caretas, Janick Gers exagerando nas suas macaquices e Bruce Dickinson pulando como um louco. “Scream for me, São Paulo!”, grita Bruce. O Iron Maiden está no palco.

O disco novo da banda, ‘The Final Frontier’, é legal. Não é tão bom quanto os discos até ‘Seventh Son of the Seventh Son’, o último que eu realmente acompanhei como fã. Mas é um disco bom, muito melhor que o de 99% das bandas atuais de heavy metal. Depois de ‘Satellite 15’, a banda emenda em outra nova, ‘El Dorado’. Dizem que é uma homenagem à Rádio Eldorado, mas não consegui confirmar a informação.

Lá pelas 10 da noite, ou seja, duas horas adiantada, a banda começa ‘2 Minutes to Midnight’ e o Morumbi quase vem abaixo. Sensacional. Depois disso veio uma sequência que eu não conhecia muito bem, ‘The Talisman’, ‘Coming Home’ e ‘Dance of Death’, canções de discos mais recentes. É duro ser velho e querer ouvir só as antigas, mas é assim que eu sou. Só fui ficar realmente em êxtase com a incrível ‘The Trooper’, até hoje uma das melhores músicas de heavy metal da história. E o que é aquele refrão? ‘Ô ô ô ô ô ô ô ô ô…’ Um estádio inteiro cantando um hino de guerra, uma ode a Inglaterra e aos soldados ingleses. Me deu saudades do show de 2009, quando a banda entrou ao som do discurso de Winston Churchill emendado em ‘Aces High’. Mas estamos em 2011, vamos seguindo em frente.

Mais novas: ‘The Wicker Man’, ‘Blood Brothers’ e ‘When the Wild Wind Blows’. Não conheço nenhuma delas, boa hora para pegar mais cerveja. Ouço Bruce falando sobre Egito e a ‘primavera árabe’ no norte da África e Oriente Médio. Iron Maiden sempre foi cultura. Eu, por exemplo, aprendi que Alexandre, o Grande, era filho de Filipe da Macedônia graças à canção ‘Alexander The Great’. Bruce também falou do tsunami/terremoto no Japão, até porque eles quase sofreram na própria pele: o Iron Maiden a dez minutos de pousar em Tóquio quando foram avisados da catástrofe. Mudaram a rota e conseguiram pousar em Nagoya, mas alguns shows tiveram que ser cancelados.

‘The Evil That Men Do’ é boa, mas não está na minha lista de ‘best of’. Nem ‘Fear of the Dark’, que o público adora. Eu acho apenas OK. O show termina, pelo menos por enquanto, com ‘Iron Maiden’. Depois de Eddie passear pelo palco, sua cabeça surge enorme, parecendo um vampiro, com os dentinhos de fora e tal. Nossa, o Eddie está parecendo o Predador…


O Eddie está parecendo o Predador. Para os mais velhos, o Eddie está parecendo o ‘Capi, Capiva… Capivara’, mascote do programa Clip Trip, do Mister Sam

A banda sai, finge que foi embora… e volta para a melhor parte do show. ‘Woe to you, oh Earth and Sea…’ 666, ‘The Number of the Beast’! Quem acha que o Iron Maiden é satanista não tem um pingo de humor (negro). ‘Hallowed be Thy Name’, inesquecível como sempre, e outro hino, desta vez da liberdade: ‘Running Free’. Bruce deveria ter dedicado esta canção ao povo árabe que luta para depor seus ditadores criminosos.
Fim do show, nostalgia e ressaca começam a surgir imediatamente. Mais um show do Iron Maiden, mais lembranças que ficarão para sempre. E que vão renascer, ‘somewhere in time’, na cabeça de um eterno headbanger. Tenho orgulho de ser fã do Iron Maiden.

PS. O Iron Maiden faria show no domingo, no Rio de Janeiro. Mas, por um problema de segurança, o show foi adiado para hoje (segunda-feira, 28 de março). A seguir, a nota oficial da gravadora EMI: IRON MAIDEN – RIO DE JANEIRO

O show do Iron Maiden na HSBC arena que aconteceria neste domingo, dia 27, foi adiado para hoje, segunda-feira, dia 28 de março, às 21:00 hs por problemas técnicos com a montagem da barricada em frente ao palco.
Essa decisão foi tomada em conjunto pelo staff da banda e pela HSBC Arena por ser prioridade de ambos a segurança dos fãs.
A banda irá permanecer no Rio de Janeiro mais um dia para poder realizar o show e não deixar de fora o Rio de Janeiro nesta parte da turnê.
Todos os fãs poderão entrar no show de segunda-feira com os mesmos comprovantes dos tickets do show de hoje.
Os que não puderem comparecer ao show de hoje poderão solicitar o reembolso a partir do dia 4 de abril:
Os que compraram ingressos na bilheteria da Arena e nos demais pontos de venda deverão se dirigir à bilheteria com os comprovantes dos tickets a partir do dia 4 de abril para o reembolso.
Os que compraram ingressos através do Call Center e da Internet, deverão entrar em contato com  sac at livepass.com.br ou pelo telefone 4003.1527, munidos dos comprovantes dos tickets, também a partir do dia 4 de abril, para a solicitação do reembolso.
A banda naturalmente está consternada pelos fãs que não poderão retornar hoje e promete um grande show para os que puderem comparecer.
HSBC Arena e a banda agradecem aos incríveis fãs por entenderem a dificuldade da situação e por sua colaboração. O Iron Maiden está ansioso para fazer um grande show!
Para mais informações sobre Iron Maiden, visite:

  comentários (13) | comente

  • A + A -


James Murphy: O cara só usa camisa branca, vai saber por quê… Deve ser para ressaltar sua pele morena. A foto é de Matt Biddulph/Creativecommons.org

O nome correto da banda/projeto de James Murphy é LCD Soundsystem, mas quem esteve na Warehouse/Pachá sexta-feira à noite, em São Paulo, sabe do que estou falando. Cerca de três mil pessoas dançando loucamente em um ambiente fechado com pé direito baixo e sem ar condicionado têm o previsível poder de transformar uma casa noturna em uma panela de pressão.

Isso quer dizer que o show foi ruim? Pelamordedeus: longe disso.

Quando Murphy anunciou que essa seria a última turnê do LCD Soundsystem, muita gente correu para comprar o ingresso. Mesmo feliz por conseguir uma vaga na festa de despedida do LCD, a verdade é que todo mundo ficou triste ao saber que o cara ia acabar com tudo aquilo. Com razão: desde seu início, em 2002, a banda de rock eletrônico de James Murphy sempre foi uma das mais hypadas pela crítica e público independente em todo o mundo, levando inclusive alguns órgãos (exagerados) da imprensa a colocar Murphy como artista do ano. Quem? Exatamente, é esse o ponto. A imprensa ‘indie’ adora descobrir personalidades que o grande público não conhece: se Murphy tivesse escrito músicas para Britney Spears, como quase chegou a acontecer, aposto que ele teria sido eleito o ‘traidor do movimento indie do ano’. Mas ‘se’ não existe em nenhum universo, muito menos na lúdica cena independente.

Todo mundo me crucificava quando eu dizia que nunca havia visto o LCD ao vivo. “Eles são ótimos, já vi vários shows em Nova York” era o que alguns amigos especialistas diziam, se exibindo. Sorry, já vi muitos shows bons no exterior, mas não tinha realmente tido a chance de ver o LCD. Poderia ter visto no Brasil – sim, eles já estiveram por aqui duas vezes –, mas confesso que a banda nunca tinha realmente me chamado a atenção. Sou meio fresco com essas coisas: não gosto de ir atrás de bandas hypadas, prefiro que elas me encontrem. Não me pergunte como isso acontece, mas acontece.

Desta vez a cobrança da galera mudéérrna foi tão forte que comecei a ouvir os discos do LCD na semana anterior ao show, só para curtir melhor e poder dançar com as mãozinhas pra cima e cantarolando a letra correta (mas não cheguei a fazer isso, juro). Sabe quando você coloca um disco para tocar com a esperança de gostar dele muito, muito, só para poder dizer que também é fã da banda mais hypada do momento? Pois eu fiz isso. Apertei o play, comecei a balançar a cabeça. “Pô, que somzera!”, falei para mim mesmo. Mas trinta segundos depois passei para a próxima música. E assim foi até o final do disco. E dos outros discos.

Desculpem os mudéérrnos, mas achei o som meio chato, monótono, uma espécie de New Order de segunda sem boas canções, apenas com boas levadas. O que são levadas? Ora, os ritmos. Nisso tenho que reconhecer que James Murphy é muito bom: suas batidas são envolventes, seus arranjos pulsam com competência. Mas no disco é tudo muito frio, linear, sem graça. Mesmo a música mais famosa da banda, ‘Drunk Girls’ (o nome é ótimo, não?) é de uma obviedade que parece ter sido composta por uma criança de dez anos). Por que será que esse cara faz tanto sucesso, então?

No show de ontem eu descobri o segredo de James Murphy. Antes de contar qual é o segredo do LCD Soundsystem, vamos falar um pouco sobre a banda de abertura, o Turbogeist. Sinceramente, eu nem mencionaria uma banda tão ruim se não fosse pelo pai do vocalista/guitarrista. Só para dar uma dica, o nome dele é Jimmy Jagger. Yeah, ele é filho de Mick. Infelizmente, não tem nem 0,01 do talento do pai. É apenas um guitarrista meia boca de uma banda de moleques metidos a punk que certamente não venceriam sequer um concurso de show de talentos numa high school de Londres. Quem sabe daqui a alguns anos ele pega a manha? Estou pensando em começar uma campanha ‘Turbogeist no Rock in Rio 2026’.

Também teve uma apresentação que pouca gente viu, mas que foi muito legal: os DJs Rafael Urenha e Lúcio Ribeiro tocaram numa pista adjacente um repertório de rock contemporâneo (‘Barbra Streisand!’) bem legal. O Rafa, inclusive, me ensina bastante sobre novos sons, já que ele grava um CD todo ano e distribui para amigos que não têm tempo/paciência/interesse para garimpar tantas coisas novas. E o cara é super fã de U2, o que já prova que tem excelente gosto. Além de brother e publicitário top, Rafa é apenas o melhor DJ de São Paulo. E o Lúcio, além de jornalista conhecido no meio do rock, com direito à coluna no Estadão e autor do respeitado blog Popload, também foi o organizador do festival No Mondays, que teve como atração principal o LCD Soundsystem.

(Parabéns, Lúcio, da próxima vez traz o Suede ou o Morrissey? Eu te ajudo, pô!)

Vamos voltar ao LCD Soundsystem? Vamos.

James Murphy & Cia entraram no palco à uma da manhã. E calaram minha boca como poucas vezes eu vi acontecer em um show.

Para você entender o que é o som do LCD, é importante descrever a formação da banda. James Murphy é o vocal, um tiozinho barrigudo que parece uma espécie de Simon LeBon, do Duran Duran, antes de uma temporada no Spa/clínica de reabilitação. Ele só usa camisetas brancas, também não sei por quê. Temos ainda três percussionistas que se revezam tocando guitarras e baixos; dois tecladistas e mais um cara que se alterna entre DJ e teclado, acho. Não dá para saber direito, porque o guitarrista estava tocando bateria quando eu voltei do banheiro, o percussionista estava fazendo backing vocals… você entendeu.

Ao vivo eu descobri que todo o hype em cima do LCD é verdadeiro: a banda é sensacional. Fiquei pensando, ‘mas por que eu achei os discos meio chatinhos e ao vivo estou pulando como um louco?’ ‘Qual será o segredo de James Murphy? Uma palavrinha chamada ‘dinâmica’. Vou tentar explicar para quem não é músico.

Lembra de ‘Smells Like Teen Spirit’, do Nirvana? Claro que sim. Lembra que a parte cantada é bem suave, com baixo e bateria no fundo, quase falada? E que no refrão entra uma porrada só, com o Kurt gritando os pulmões para fora? Pois é, isso é um exemplo bem simplificado do que dinâmica. Dinâmica consiste em tocar diferentes arranjos durante a mesma música; saber fazer silêncio nas horas certas para valorizar quando entra o barulho; usar o timbre de cada instrumento de uma maneira que ele se sobressaia quando tem que sobressair, e se esconda quando não tem o que mostrar.

Esse é o segredo de James Murphy. As canções ao vivo ganham vida, o que é irônico para um cara que é super respeitado como produtor, ou seja, entende tudo de estúdio. Mas mesmo no disco ‘London Sessions’, que é uma gravação ‘ao vivo no estúdio’ do LCD, Murphy não consegue a empolgação que a gente vê no ‘ao vivo no palco’. Falta público, falta gritaria, falta adrenalina.

Aqui não faltou público: garotas bonitas e mudéérrnas, caras vestindo camisas xadrez e chapéus, playboys bêbados que não sabiam nem onde estavam… foi uma festa muito legal. Para acabar, eu ia mencionar também que o som da banda em disco não é tão bom porque falta ‘calor humano’ no estúdio – coisa que não faltou ao show do LCD Saunasystem.

comentários (9) | comente

  • A + A -

Foto: Ernesto Rodrigues/AE

Amigas e amigos,

ainda não estou completamente ‘curado’ em relação a ter perdido os shows do Paul em São Paulo. E também não acho que o meu texto sobre o tema (um anti-texto, na verdade) é suficiente para abastecer esse blog e informar seus leitores . Por isso, pedi ao meu irmão, um extremista Beatlemaníaco, que fizesse um relato sobre sua experiência. Aqui vai. Valeu, Nando! Bjs, F.

Paul in SP
Nando Machado

Caros,

Como meu irmão não pode ir ao show do Paul (sinto muitíssimo por ele), fiquei com a difícil tarefa de descrever duas noites muito especiais e emocionantes. Fui aos dois shows do Paul McCartney em SP e foram duas noites inesquecíveis. Impressionante como o mesmo show pode ter histórias tão diferentes umas das outras.

No domingo, fui sozinho na numerada coberta, lá atrás, bem longe. Bem cedinho, fui de carona com uns mineiros que haviam alugado um microônibus, amigos do Luiz ‘Téti’ Pimentel. Entre eles, Terence Machado, diretor do excelente programa ‘Alto Falante’, exibido pela TV Brasil. Gostei do papo imediatamente, todos eram profundos conhecedores dos Beatles e de Paul. Sentei na numerada, encontrei uns amigos, bati papo com desconhecidos (afinal, somos todos Beatlemaníacos, certo?). Assisti ao show com uma visão total do palco, da pista e do estádio. Busquei essa perspectiva pois já tinha visto Paul ao vivo duas vezes. Em 1990, fui um dos 184 mil fãs que foram ao Maracanã e que permaneceram durante muito tempo no Guiness book como parte do maior público em um show pago em todos os tempos (alguém sabe se ainda estamos no Guiness?). Em 93, vi Paul no Pacaembu, pertinho de casa, e me lembrava que o público do show é um espetáculo à parte.

O que mais me impressionou no show – além da banda, som, cenário e luzes perfeitos – é a emoção que essas músicas provocam nas pessoas. Você olha pra trás e vê pessoas felizes, de todas as idades, chorando, abraçadas, como se estivessem realizando um sonho – e estavam: o sonho de ver um Beatle cantando os maiores sucessos dos Beatles num show ao vivo. Isso durante muito tempo foi realmente um sonho, já que os Beatles pararam de se apresentar ao vivo em 66 e durante muito tempo Paul tocava apenas umas 3 ou 4 músicas dos Beatles por show. Paul só voltou a incluir Beatles para valer no repertório a partir da tour que o trouxe ao Brasil pela primeira vez, em 90 (não sei por que, sempre achei que os shows tinham sido em 89…). Na ocasião, fui de ônibus para o Rio com meu amigo Duda Soutello e ficamos na casa da avó dele em Copacabana, foi a primeira vez que tinha ido à Cidade Maravilhosa (deve ser por isso que eu adoro o Rio). Lembro de ter chorado ao ouvir o Maracanã inteiro cantando ‘Hey Jude’ e ‘Let it Be’.

Essas músicas nos fazem lembrar de tantos momentos e fazem parte das nossas vidas de tantas maneiras diferentes. A genialidade de um artista realmente pode nos transportar no tempo e nos elevar realmente a outra dimensão. Para quem gosta de Beatles como eu, essas músicas são como familiares que a gente ama, cada um do seu jeito. Interessante como a história dos Beatles pode servir de metáfora para a nossa vida real: o início inocente, puro; o amadurecimento com o passar dos tempos; e, no fim, o triste definhamento e a morte. É como uma história de amor que todos nós vivemos, até que o sonho realmente acabou com a morte de John Lennon em 80.

Voltando ao show: No primeiro dia, os primeiros acordes de ‘All My Loving’ me lembraram da inocência da minha própria infância; impossível não chorar com a homenagem a George Harrison e ver como ele também era cool, outro gênio. ‘The Long and Winding Road’ foi outro momento muito especial e emocionante, me lembro que tantas vezes andei por uma long and winding road até chegar a casa da minha amada – ‘the road’ pode simbolizar tantas coisas…

No segundo dia fui de Pista Premium. Quase não cheguei a tempo, entrei no Morumbi às 21:15 desesperado por causa da chuva e do trânsito.

O show do Paul é uma ocasião em que nem chego perto de uma cerveja para não ter que ir ao banheiro. Aliás, é difícil escolher um momento para ir ao banheiro. Nesse segundo dia o repertório já começou diferente: um show que começa com ‘Magical Mistery Tour’ não precisa de mais nada. Mas ele ainda tocou ‘Got to Get You Into My Life’, ‘Two Of Us’, ‘Bluebird’ (Wings). Paul tenta fazer um set list que agrade aos fãs de Beatles, aos fãs de Wings e aos fãs de sua carreira solo. Ele tocou até duas músicas do seu excelente projeto Fireman, além de algumas que divulgavam o relançamento de ‘Band on The Run’. Tocou ainda ‘Dance Tonight’, do ‘Memory Almost Full’. Difícil não se emocionar com a melodia de ‘My Love’, realmente é uma das melhores músicas de amor já escritas. A cada tour, Paul muda as músicas dos Beatles no setlist, inclui algumas inéditas (‘O Bla Di O Bla Da’), e renova as homenagens a John, com ‘A Day in The Life/Give Peace a Chance’ e ‘Here Today’, do álbum ‘Tug of War’.

O show teve outros momentos especiais: ‘Let it Be’ e ‘Hey Jude’, com 64 mil pessoas cantando, é muito emocionante. ‘Helter Skelter’, ‘Day Tripper’, ‘I’ve Got A Feeling’, ‘Back in The USSR’ e ‘Paperback Writer’ mostram o lado mais roqueiro de Paul e nos dão vontade de sair pulando (bom para mostrar para quem costuma dizer que Paul só fazia músicas melosas). Por outro lado, ‘Blackbird’ e ‘Yesterday’ mostram o lado de compositor simples e de melodias sensíveis. No primeiro dia, teve ‘Drive My Car’, as excelentes ‘Venus and Mars / Rockshow’ (que abriu o primeiro show), ‘Let Em In’, ‘Jet’, ‘Let Me Roll It’, ‘Band on The Ru’n e ‘Mrs Vanderbilt’ mostraram o melhor do Wings. No primeiro dia teve ainda ‘I’ve Just Seen a Face’, do ‘Help’; no segundo, ‘I’m Looking Through You’. ‘And I Love Her’ (só no domingo), ‘Eleanor Rigby’, ‘Lady Madonna’, ‘Get Back’, ‘Sgt Peppers’ (reprise).

O show termina com ‘The End’: ‘E, no final, o amor que você faz é igual ao amor que você leva’. É a melhor frase para encerrar um show, um álbum como Abbey Road, ou até uma banda como os Beatles. Por outro lado, senti falta do medley do ‘Abbey Road,’ uma sequência maravilhosa de canções. ‘We Can Work It Out’, ‘Penny Lane’, ‘Hello Goodbye’, tantas ficaram de fora… ‘Maybe I´m Amazed’ é uma das minhas preferidas, mas faltaram, ‘Pipes of Peace’,’ Calisco Skies’, ‘My Brave Face’, ‘Coming Up’, ‘Junk’, ‘Oh Darling’, ‘Gettin Better’, ‘Michelle’, ‘The Fool On The Hill’, ‘I Saw Her Standing There’, ‘Figure Of Eight’… Impossível tocar todas.

O único consolo em não termos mais John e George é saber que Paul está melhor do que nunca. Aos 68 anos, me deu a impressão de que só vai se aposentar quando completar 100. Como é legal ver alguém fazer uma coisa que sabe fazer tão bem… O cara é um entertainer nato e sabe o efeito que causa nas pessoas, ele vê essas mesmas cenas em todo lugar que vai há quase 50 anos. Mesmo assim, parece um cara normal que sai para andar de bicicleta em São Paulo (isso é ser um cara normal?) ou curte pegar o metrô lotado em Paris.

Vamos esperar pelo próximo show, com certeza ele acontecerá, se Deus quiser, antes de Paul fazer 100…

comentários (7) | comente

  • A + A -

No momento em que você estiver lendo esse texto, não estou mais por aqui. Calma, não pretendo passar desta para melhor: é que aproveitei uns dias de férias e viajei para o exterior. Bom? Mais ou menos.

Marquei a viagem há muito tempo e só descobri há algumas semanas que a data coincidiria com os shows de Paul McCartney no Brasil. Tentei, insisti, lutei, mas não consegui mudar a maldita passagem. Ou seja, não vi nenhum show de Paul McCartney no Brasil.

Para algumas pessoas, isso pode ter sido apenas uma pequena fatalidade. Para mim, não. Foi uma tragédia que vai me acompanhar por toda a minha vida. Amo Paul com todas as minhas forças. Para mim, Paul não é um ídolo. Ele é um deus.

Sim, é claro que sou Beatlemaníaco, com muito orgulho. Meu irmão Nando é até mais que eu, o que prova que bom gosto é uma coisa comum em nossa família.

Acho que as pessoas se acostumaram tanto com a imagem do Paul andando por aí, conversando com as pessoas, comendo nos restaurantes, que acreditam que ele é um homem normal. Mas nós, Beatlemaníacos, sabemos que isso não é verdade. Paul não é normal. Paul é uma entidade sagrada, um ícone popular. Poucos personagens tiveram a influência cultural global que ele teve. Paul é tão importante quanto Beethoven, Picasso, Einstein.

John foi o líder no início da carreira dos Beatles. Isso durou até 1966, mais ou menos, quando Paul começou a dividir o comando. Ele tinha um bom argumento para discutir com John: suas belas canções. John e Paul deixaram então de compor em dupla (apesar de manter a famosa assinatura ‘Lennon-McCartney’), e isso gerou uma dinâmica diferente na banda. Os Beatles ampliaram seus conceitos e revolucionaram ainda mais a cultura dos anos 60.

Se John era o cérebro, Paul sempre foi o coração. Sei que não podemos simplificar o estilo de dois gênios, mas eu diria que John sempre compôs para dentro, enquanto Paul escreve para fora. O equilíbrio perfeito dos dois acabou com o fim dos Beatles, e cada um teve que aprender a viver sem o outro. Conseguiram, e bem. Suas carreiras solos são quase tão sensacionais quanto o material imortal que criaram juntos.

Paul tocou domingo e segunda no Morumbi. Não estive lá fisicamente, mas em espírito, sim. No horário do show, imaginei meu ídolo entrando no estádio, as luzes, a gritaria. Milhares de brasileiros estavam felizes, e eu estava feliz por eles. Mas tenho certeza de que morri um pouco por dentro.

Foto: Ernesto Rodrigues/AE

comentários (36) | comente

  • A + A -

O figurino transformou Fergie em uma mulher muito especial, quer dizer, espacial

O Black Eyed Peas ama o Brasil, e o Brasil ama o Black Eyed Peas. Foi até constrangedor o número de vezes que o vocalista will.i.am falou sobre seu amor pelo nosso país, nossa música, nosso povo. E ele não disse da boca pra fora, como seria de se imaginar: o BEP foi uma das poucas bandas no topo do mundo que aceitou realizar uma verdadeira turnê pelo Brasil: passaram por Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo, ontem à noite, num show apoteótico no Estádio do Morumbi. A maioria das bandas vem para cá para tocar em Rio e São Paulo e olhe lá.

Além de dizer que o show de ontem foi o melhor da turnê, will.i.am prometeu que voltará no ano que vem porque quer comprar uma casa no Rio e um apartamento em São Paulo. Sabia que não pareceu puxação de saco? O discurso foi tão sincero que não acharei nem um pouco estranho ver o líder do Black Eyed Peas tomando um choppinho no Leblon ou passeando pela feirinha Benedito Calixto, na Vila Madalena. Ele já havia dito que torceria para o Brasil na Copa da África do Sul, até entrou com nossa bandeira no palco do show de abertura… Também gostei porque will.i.am subverteu a ideia de que todo gringo tem que gostar de encher a cara com caipirinha sempre que está no Brasil. ‘Não tomo caipirinha, prefiro guaraná com vodka’, brincou will.i.am. ‘Eu também’, gritei, mas não tenho certeza se ele me ouviu.

Perdoe o clichê, mas o Black Eyed Peas no palco não faz um show: faz uma festa, uma balada. A noite começou com o David Guetta, uma mistura de DJ com rockstar. O cara vai lá, aperta o botão de play no toca-discos… e todo mundo acha o máximo! Deve ser bom, né? Não precisa perder tempo aprendendo a tocar guitarra, cantar, tocar teclado, baixo, bateria… Mas tudo bem: David é meio pop demais para o meu gosto, mas sua apresentação teve pelo menos um momento genial: ‘Sexy Bitch’, com a participação do rapper-mela-cueca Akon.

Lights out. E o Black Eyed Peas surge das profundezas do palco-nave espacial, subindo por quatro elevadores (como o Michael Jackson fazia, diga-se de passagem) localizados sob a mega-estrutura. A primeira música do show é provavelmente uma das mais perfeitas introduções de todos os tempos: ‘Let’s Get it Started’ levanta até defunto. Há muito tempo eu não pulava tanto em um show (não que eu seja um defunto, claro). Infelizmente, não posso contar nada disso para meus amigos/fãs de heavy metal. Só garanto uma coisa: eu não dancei com os bracinhos pra cima. Juro.

Há uma história curiosa sobre a canção ‘Let’s Get it Started’; não tem nada a ver com o show, mas se eu não contar agora eu vou esquecer: na primeira versão que saiu do disco ‘Elephunk’, essa música se chamava ‘Let’s Get Retarded’ (Vamos ficar retardados). Era uma figura de linguagem, com o sentido ‘vamos ficar loucos’, etc. Mas pegou mal entre os politicamente corretos e o refrão teve que ser regravado com outra letra. Ficou então, bem mais light: ‘Let’s Get Started’ (Vamos começar).

Na sequência do show vieram ‘Rock That Body’, outra favorita da casa. Nesse caso, literalmente: minha filha adora essa canção, porque a Fergie canta com voz de robô. E aí a Bebel fica dizendo que a cantora é a ‘garota-robô’). Depois dela, veio a linda ‘Meet me Halfway’, que já foi até tema nesse blog

(Veja o repertório completo abaixo)

O visual do show – palco, figurino, cenário – é incrível e super futurista. O telão é enorme e a qualidade do som foi a melhor que já ouvi em um estádio (até porque o BEP deve ter muito material pré-gravado, o que facilita as coisas para os técnicos, mas tudo bem). Só não gostei muito das bailarinas que entravam no palco, ora vestidas de robôs, ora vestidas como mulatas de escolas de samba. Quer dizer, eu gostei delas, se é que você me entende. Mas que balé no palco é algo muito brega, ah, foi.

A quantidade de hits do BEP impressiona, mas, além do setlist-parada-de-sucesso, cada ‘ervilha’ (Peas, em inglês, é ervilha) ainda faz um showzinho ‘solo’ (o que deve ser ótimo para as outras ervilhas descansarem). Antes de falar sobre isso, porém, gostaria de comentar os nomes/pseudônimos/apelidos dos integrantes da banda. São super estranhos; só para começar, o DJ se chama ‘PoetNameLife’, ou seja, PoetaNomeVida. Não é exatamente o nome mais comum do mundo. (Imagina os amigos dele: “E aí, PoetaNomeVida, beleza?”)

E os integrantes do BEP, então? will.i.am se chama William, mas é tão cheio de graça que inventou essa sigla esquisita aí para complicar a vida de jornalistas brasileiros. O resultado é um apelido confuso que significa ‘Vou Eu Sou’ ou algo do gênero. Pronuncia-se ‘Uíu Ai Ém’, OK? É bom saber em caso de você encontrar com ele dia desses andando pela rua.

Daí veio o showzinho solo de apl.de ap. Eu não sei direito o que quer dizer. ‘apl’, mas acho que vem de ‘maçã’ (apple). O resto do nome eu não tenho a menor ideia, só sei que o tal do apl.de.ap é das Filipinas e seu nome verdadeiro é ‘Allan Pineda Lindo’ (não concordo com o último sobrenome, mas beleza). Na sequência veio o momento de glória-solo do cantor-rapper Taboo, um mexicano altão, branquelo e esquisitíssimo. E o gran finale não podia ficar com ninguém mais que não fosse ela: Fergie, a deusa.

Fergie merece um parágrafo especial. Não apenas porque ela é linda, carismática e canta bem, mas também porque… bem, isso tudo já é suficiente. Se você não acredita que no poder sexual que sua figura emana no palco, é só ver sua performance cantando ‘My Humps’. No vídeo já é bom, mas ao vivo é melhor. A Gretchen seria considerada uma freira perto dela.

O momento-solo mais divertido dos integrantes do BEP (fora o da Fergie, claro) foi o de will.i.am. O cara se transformar em DJ e toca várias introduções de canções conhecidas, como ‘Thriller’ (Michael Jackson), ‘Sweet Child O’Mine’ (Guns ‘N’ Roses) e até a inesperada ‘Time of my Life’, do filme clássico-cult-brega ‘Dirty Dancing’. As 60 mil pessoas que lotaram o Morumbi piravam a cada sucesso. E will.i.am dava risada, ê vida boa.

A última música do show também é a típica canção perfeita para encerrar um espetáculo desse tamanho. Além de achar que ela foi a música do ano (em 2009 e 2010, para falar a verdade), gosto porque acho que é uma espécie de hino da balada. Não foi à toa que ‘I’ve Gotta Feeling’ foi a primeira música a atingir a marca de seis milhões de downloads digitais. Seis milhões de pessoas compraram essa música pela internet, dá para acreditar? Dá. ‘I’ve gotta feeling that tonight is gonna be a good night…’ (Tenho a sensação de que hoje à noite vai ser uma boa noite… simples e perfeito).

No final do show, aquela chuva de papel picado nos lembrou com certa melancolina que a festa chegou ao fim. Dá vontade de apertar o botão do controle remoto e voltar aos primeiros acordes de ‘Let’s Get it Started’. Mas será que eu agüentaria mais uma festa dessas, assim, logo na sequência? Claro que sim. Afinal, se eu morresse de cansaço, o som ‘levanta-defunto’ do Black Eyed Peas garantiria minha ressurreição.

Setlist

Let’s Get it Started
Rock That Body
Meet Me Halfway
Alive / Don’t Phunk With My Heart
Solo de will.i.am
Imma Be
My Humps
Hey Mama / Mas Que Nada
Missing You
Solo de apl.de.ap
Solo de Taboo
Rockin To The Beat / La Paga
Solo de Fergie (Fergalicious / Glamorous)
Big Girls Don’t Cry
I.Am.Robot (DJ Set)
Pump It
Don’t Lie
Shut Up
Where is the Love?
Boom Boom Pow
I Gotta Feeling

Foto: Leonardo Soares/AE

comentários (16) | comente

  • A + A -

Billie Joe Armstrong faz piruetas no palco do Anhembi, em São Paulo. Foto de Leonardo Soares/AE

O que um show de punk e um musical da Broadway têm em comum? O palco, diria alguém. As luzes, diria outro. Em termos conceituais, no entanto, acredito que há apenas um ponto de intersecção entre estilos tão antagônicos: o trio norte-americano Green Day.

O Green Day tocou ontem no Anhembi, em São Paulo. Foi um dos últimos shows da megaturnê mundial que começou em maio, e a última apresentação no Brasil (antes eles tocaram em Porto Alegre, Rio e Brasília). Foi uma verdadeira celebração de rock & roll e teve direito a tudo: covers inusitados, piadinhas (inside jokes, principalmente), canções de todas as fases da carreira da banda, explosões, papel picado. O grande destaque, no entanto, foi mesmo o repertório do disco ‘American Idiot’, o maior sucesso do Green Day.

E, por mais que seja irônico, é justamente esse disco que nos remete à Broadway: a ópera-rock baseada em ‘American Idiot’ virou um musical em Nova York. Dirigido por Michael Mayer, conta a história de um anti-herói que troca uma cidadezinha pequena pela megalópole, e acaba entrando de cabeça na tríade sexo, drogas e rock & roll. Ou punk & roll, se você preferir.

O que chama a atenção é que o Green Day é considerada por muitos uma banda punk. Ou seja, nada mais diferente de um musical da Broadway, certo? Mais ou menos. Bem, se a gente lembrar que o punk nasceu de uma jogada de marketing do empresário Malcolm McLaren, até que faz sentido.

No final dos anos 70, McLaren queria chamar atenção para sua loja de roupas em Londres, e acabou criando o grupo que se tornaria o pioneiro do punk britânico. Ele pegou uns caras esquisitos na rua, batizou de Sex Pistols e entrou para a história da cultura mundial. Eles não sabiam tocar direito, mas o lema do it yourself, ‘faça você mesmo’, justificava a completa falta de qualidade musical.

Criado em 1987 na Califórnia, o Green Day é uma banda essencialmente punk. Billie Joe Armstrong (guitarra e vocal), Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria) tocam canções simples, feitas de três acordes, sem solos de guitarra, exatamente como manda o manual do punk. A canção ‘American Idiot’, por exemplo, é uma bela crítica ao american way of life, mais especificamente ao estilo de vida americano sob o governo Bush. Em um momento do show, Billie chegou a gritar no palco: ‘Eu odeio os Estados Unidos! Eu quero me mudar para o Brasil!’

Piadas à parte, vamos ser justos: não deixa de ser uma bênção da democracia viver em um país onde você pode lançar um disco chamado ‘Idiota Americano’ e ainda lucrar (pra burro) com isso. Os Estados Unidos só são os Estados Unidos porque permitem que alguém lance um disco falando mal do país e, em seguida, saia em uma turnê enorme lá mesmo, culminando com a adaptação dessa ‘crítica’ num supermusical da Broadway. Desconfio que a versão chinesa de Billie Joe Armstrong não teria permissão para lançar o ‘Idiota Chinês’ e continuar livre, leve e solto.

Como se vê, o Green Day abusa das letras subversivas, dos cortes de cabelo de cores e formatos radicais, etc. Ou seja, eles têm tudo para ser punks. Mas, como disse Karl Marx, a história se repete como farsa.

O show de ontem do Green Day em São Paulo foi um típico espetáculo Punk-Broadwayiano, se é que existe tal adjetivo. Havia uma certa rebeldia, mas ela é muito bem comportada; em vez de punks, a plateia estava cheia de adolescentes, muitos deles acompanhados por seus pais.

Isso quer dizer que o show foi ruim? De maneira alguma. Foi excelente. Porque o Green Day pegou a estética do punk e o transformou em pop, no sentido positivo da palavra. As canções são todas parecidas? São. Mas são excelentes, pegajosas, melodicamente perfeitas. E em alguns momentos, o som do Green Day se aproxima mais de um animado rock & roll básico dos anos 50 do que do punk tradicional, apostando em sequências harmônicas simples e quadradinhas. É bom notar que há também algumas baladas, o que faria o baixista do Sex Pistols, Sid Vicious, se virar no túmulo.

Mais do que um show, o Green Day ontem foi uma festa. O que mais chamou a atenção foram os vários convites para os fãs subirem ao palco e cantarem as músicas com a banda, uma espécie de ‘karaokê-punk’, ou ‘punkokê’. Um dos fãs, por sinal, se deu muito bem: Billie Joe disse que ele havia sido ‘o melhor vocalista de toda a turnê’ e o garoto saiu do palco com uma guitarra de presente. Imagina o que deve ser para um fã do Green Day subir no palco em um show para 30 mil pessoas, cantar uma música com a banda e ainda sair de lá com uma guitarra? Como se vê, punks também realizam sonhos.

O que incomodou um pouco foi o excesso de ‘populismo punk’ do show. Acho que nunca antes na história deste país um artista falou tantas vezes ‘São Paulo’ em um palco: 427 (é brincadeira, eu não contei. Mas foi por aí). E a cada 30 segundos, Billie Joe gritava ‘ê ô’ para o público, que respondia obedientemente como todo bom adolescente bem comportado.

A plateia, inclusive, rende comentários à parte. Na minha frente, na pista Premium, estava um homem e um adolescente. Aparentemente, o pai estava curtindo mais o show que o filho. De repente, passou um vendedor de cerveja. O pai comprou uma e a ofereceu ao filho. O garoto fez uma cara de espanto, mas o pai insistiu e ele aceitou. Deve ter sido a primeira cerveja que pai e filho tomavam juntos. Foi uma cena bonitinha. O que há de punk nisso? Nada. Ué, punks não podem ser bons pais?

Assim como também não havia nada de punk em meia-dúzia de praticantes de jiu-jítsu fazendo o ‘mosh’, aquela dança em que todo mundo se esbarra e empurra o outro. Esse jeito de pular, meio dança, meio luta, era uma coisa típica do punk no início do movimento. Mas o que dizer de alguns garotos bagunceiros vestindo calça Diesel e fazendo isso na pista Premium do Anhembi, que custava ‘apenas’ R$ 250? Eu diria que é apenas mais uma razão para Sid Vicious se virar no túmulo.

O que não dá para criticar, no entanto, é o vocalista Billie Joe Armstrong. O cara é um verdadeiro showman, único no mundo do rock. Fiquei imaginando ele ainda garoto, crescendo na Califórnia, baixinho, invocado, talentoso. Sabe criança hiperativa? Pois essa seria a descrição exata do cara no palco, apesar de ele ter 38 anos.

E o repertório? Tocaram todas as famosas, e muito mais, é só conferir no setlist abaixo. Tocaram trechos de ‘Sweet Child O’Mine’, do Guns ‘N’ Roses (com Billie tirando sarro de Axl Rose), ‘Rock and Roll’, do Led Zeppelin, ‘Satisfaction’, dos Stones, ‘Hey Jude’, dos Beatles… fora os números meio ‘Vaudeville’, com fantasias típicas de um musical da Broadway. Ao final do show, enquanto Billie Joe Armstrong comemorava o sucesso de sua turnê mundial, Sid Vicious se virou mais uma vez no túmulo.

Green Day Setlist

Song of the Century
21st Century Breakdown
Know Your Enemy
East Jesus Nowhere
Holiday
Nice Guys Finish Last
Give Me Novacaine
Letterbomb
Are We the Waiting
St. Jimmy
Boulevard of Broken Dreams
Burnout Play Video
F.O.D.
Geek Stink Breath
J.A.R.
Stuck With Me
Dominated Love Slave
Paper Lanterns
2000 Light Years Away
Hitchin’ a Ride
When I Come Around
Iron Man / Rock ‘n’ Roll / Sweet Child O’ Mine / Master Of Puppets / Highway To Hell / Baba O’ Riley / Eruption
Brain Stew
Jaded
Longview
Basket Case
She
King for a Day
Shout / Break On Through / (I Can’t Get No) Satisfaction / Hey Jude
21 Guns
Minority

Bis:
American Idiot
Jesus of Suburbia

Bis 2:
Whatsername
Wake Me Up When September Ends
Good Riddance (Time Of Your Life)

comentários (9) | comente

  • A + A -

Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart: Devoção dos fãs e respeito dos músicos

Inevitável comparar dois shows de rock que aconteceram no mesmo estádio e na mesma semana. Mas é estranho compará-los e constatar como dois eventos tão parecidos podem ter sido tão diferentes, mesmo dando desconto aos críticos que dirão que, no fundo, rock é tudo igual.

Pois foi assim com os shows do Bon Jovi, na quarta-feira, e do Rush, na sexta. A começar pela plateia: enquanto a banda americana liderada por Jon Bon Jovi arrastou milhares de mulheres ávidas por devorar, quer dizer, assistir ao show do galã e sua turma, os canadenses do Rush contaram com um público praticamente inteiro masculino.

Não é apenas porque os caras do Rush são feios, embora isso também deva ter contribuído. Tudo bem, eles podem não ser lindos. Mas o som que sai de seus instrumentos é simplesmente maravilhoso.

O show começou ‘apenas’ com ‘Spirit of the Radio’, o que não deixa de ser uma ironia, uma vez que as rádios nunca tocaram Rush. Depois veio a excelente ‘Time Stand Still’, que mostra todo o suíngue do trio canadense. Se você não sabe o que vem a ser isso, dificilmente vai concordar comigo ou se empolgar com esse relato. Apenas acredite: muito bom.

Não, não é um som para todos (as), como o Bon Jovi. É música complexa, como, aliás, é toda a discografia do Rush. Dizem que é música para músicos, e isso deve explicar a quantidade de colegas roqueiros que encontrei por lá: de Silvio Golfetti, guitarrista da banda de thrash metal Korzus, aos irmãos Busic, do ícone do hard rock brasileiro Dr. Sin. Todo mundo com mãozinhas para o alto – inclusive eu.

Sim, Rush é uma banda para músicos, mesmo quando esses músicos não sabem tocar nenhum instrumento. Estranho? Se você é um músico que não sabe tocar nenhum instrumento, sabe do que estou falando. Músicos podem ser músicos apenas na cabeça, respeito que nasce da admiração por outros músicos. Pois o fã do Rush é assim. Até porque, se for falar de músicos de verdade, nem os melhores do mundo têm muita facilidade para tocar uma música do Rush, seja na guitarra, no baixo ou, muito menos, na bateria.

O show teve vários hits, como Closer to the Heart e Limelight, mas o grande sucesso mesmo veio com a sequência de canções do disco Moving Pictures, de longe o melhor da banda. Tom Sawyer mostrou que, por trás daqueles músicos impressionantes, há um trio de amigos curtindo a vida de uma banda de rock com um senso de humor bastante peculiar. O vídeo com macacos dublando a música, exibido no telão, foi divertidíssimo, apesar de soar como ‘inside joke’ O próprio palco é uma ‘inside joke’, já que não consegui entender até agora o que máquinas de lavar tem a ver com rock and roll. Mas ouvir um estádio inteiro cantando o riff de música instrumental de quase sete minutos (YYZ) é uma experiência, no mínimo… interessante.

Mas chega de puxar o saco, vamos ser críticos: o show teve várias partes chatas. Passagens instrumentais longas demais ou ‘Lado B’ demais só funcionam para quem é fã-hardcore. Esse tipo de repertório pode até funcionar quando você faz uma longa temporada em uma única cidade, com shows diferentes toda noite, etc. Mas para bandas que tocam em estádios… o ideal seria escolher apenas as músicas mais conhecidas, mesmo.

Quem é o Rush? O baixista e vocalista Geddy Lee tem uma voz esquisita, um timbre que só agrada a… fãs do Rush. É uma voz do tipo ‘ame ou odeie’. Tudo bem, eu a amo, mas tem horas que me incomoda bastante. Geddy Lee canta em um registro muito, muito alto. O Ministério da Saúde adverte que horas seguidas desse timbre podem provocar danos aos ouvidos. Ainda mais porque os timbres são tão altos, que sua voz falhou algumas vezes. Mas Geddy, enfim, é um dos maiores baixistas da história do rock. E não é só isso, já que ele canta, toca teclado e baixo… com os pés, por meio de pedais. Tudo ao mesmo tempo. Assoviar e chupar bala simultaneamente é coisa para principantes.

O guitarrista Alex Lifeson é um dos músicos mais subestimados (para dizer pouco) da história do rock. Ele é muito, muito bom, mas como está na banda de dois monstros, acaba parecendo que é apenas um instrumentista razoável. Mas não é: basta imaginar que o cara influenciou o The Edge, para dizer o mínimo.

Neil Peart é, provavelmente, o maior baterista da história do rock. Não, não esqueci de John Bonham, do Led Zeppelin, ou de Ian Paice, do Deep Purple. Mas Peart é melhor, indiscutivelmente. Talvez não em ‘feeling’ ou em ‘pegada’, mas no resto ele leva de longe. Neil Peart é o baterista mais preciso, mais criativo e mais especial que já pisou em um palco de rock desde Bill Halley e seus Cometas. Dificilmente eu agüentaria cinco minutos de solo de bateria a essa altura da minha vida: Neil Peart solou durante dez minutos e eu achei muito pouco. Ele é simplesmente hipnotizante. Suas baquetas cortam o ar como bisturis de alta precisão numa mesa de cirurgia; o som que sai das peles de suas peças produz notas musicais que não existem no mundo real. Sua bateria não é apenas um instrumento de percussão, como as baterias dos outros bateristas. O instrumento de Neil Peart respira, é uma entidade orgânica. Não é à toa que Neil Peart, no excelente documentário ‘Beyond the Lighted Stage’, é apelidado de ‘Drum Guru’. Bateria, para ele, não é música: é religião.

No documentário citado acima há outras informações bem interessantes, vale a pena ver. Passou nos cinemas e fez bastante sucesso, chegando a ganhar em maio deste ano o prêmio do público no Tribeca Film Festival, em Nova York. Os produtores canadenses Scot McFadyen e Sam Dunn também dirigiram ‘Flight 666′, do Iron Maiden, e ‘Metal: A Headbanger’s Journey’. Ou seja, os caras são documentaristas da pesada.

O filme conta, por exemplo, que Geddy e Alex são amigos de infância e decidiram seguir o caminho do rock desde a adolescência. Há cenas hilárias da época, com os dois discutindo com os pais sobre suas posições. Os moleques já tinham personalidade desde os velhos tempos. Também fiquei sabendo que é Neil Peart quem escreve todas as letras, textos complexos que misturam ficção científica e mitos gregos. É por isso – e por outras muitas coisas – que o show do Rush é um mundo à parte. Um mundo frequentado por muitos nerds, diga-se de passagem (inclusive eu).

Quer a prova? Então só imaginar a seguinte cena: no ápice do show do Morumbi, 35 mil pessoas cantaram o seguinte refrão:

“Nós somos os sacerdotes do Templo de Syrinx
Nossos grandes computadores ocupam as paredes sagradas”

Sério, dá para imaginar? Sacerdotes? Templo? Syrinx? Sim, isso faz parte do mundo do Rush. Tolkien, de ‘Senhor dos Aneis’, perde de lavada. É ou não é meio nerd? Totalmente. É ou não é música para músicos? 100%. Mas o Rush não quer ser unanimidade, não está em seu DNA. A banda se contenta em dialogar com o seu público. Levando em conta que o Rush está na estrada há 42 anos, eles devem saber o que estão fazendo.

comentários (15) | comente

  • A + A -

Bon Jovi by JF Diorio: Ele é um bom vocalista, bom compositor… e bom garoto

Antes de ser um rockstar, Jon Bon Jovi é um all american boy. A expressão em inglês descreve o típico garoto criado nos Estados Unidos nos anos 70, o arquétipo do menino perfeito, bonito, sadio, bom aluno, bom filho. A expressão cai como uma luva de couro a Jon Bon Jovi: ele é um all american rockstar.

Difícil encontrar tempo e disposição para acompanhar a maratona roqueira na cidade, local que já apelidei de ‘São Paulo Rock City’. Ontem o Bon Jovi lotou o Morumbi; amanhã é a vez do Rush. Sábado, domingo e segunda temos o megafestival SWU, também conhecido como ‘Itústock’, com Rage Against the Machine, Dave Matthews Band, Linkin Park e outros. Na quinta-feira o Cranberries toca no Credicard Hall; no outro sábado tem o festival Natura, com Snowpatrol e Jamiroquai. Ufa.

Vamos voltar ao Bon Jovi, ontem à noite, uma linda noite, por sinal. No final da tarde, pouco antes do show, estive na coletiva da banda. Em termos de conteúdo, essas coletivas têm a profundidade de um pires. As bandas gringas adotam sempre uma postura defensiva, com respostas vagas e sem o menor interesse em mostrar algum sinal de simpatia. Acho que a culpa é nossa mesmo: da imprensa, que mistura deslumbramento de fã com jornalismo; da organização, que impõe regras rígidas e profissionais para preservar o artista, mas que, com isso, cria um fosso enorme entre o entrevistador e o entrevistado; e até da propria banda, que está acostumada a tudo isso e insiste em manter o ar blasé como se fossem a turma (mimada) do Peter Pan.

Jon Bon Jovi é realmente bonitão, o cara está ótimo para 48 anos. Meio esticado, com um cabelo que não se move um milímetro na cabeça, mas tudo bem. Parecia uma espécie tímida de Clark Kent que está esperando a hora H para se transformar no Super-Homem. Richie Sambora é mais ‘poser’, jaquetinha militar e óculos escuros (depois, no show, percebi que ele deve ter dormido no sol de óculos escuros, porque ao redor dos olhos havia duas manchas brancas). Sambora está inchadão, deve ser fruto do botox e/ou do álcool, problema que chegou a afastá-lo da banda durante um tempo na turnê passada. E pensar que esse cara era casado com a atriz Heather Locklear e se separou para ficar com a igualmente gata Denise Richards; milionário, famoso. Ficar deprimido por quê, mesmo?

David Ryan, o tecladista, parece que ainda está nos anos 80: tem o mesmo cabelo estilo ‘Ovelha’ daquela época (Uou-uou Yeah-Yeah). Dá vontade de puxar os cachinhos e passar a tesoura, mas não faço isso por razões óbvias. O baterista Tico Torres parece ser a reserva moral da banda. Por quê? Bem, porque ele não fala uma palavra e ainda mantém uma cara de mau. Depois, porque ele também costuma ter relacionamento com modelos internacionais, nada mau para um cara que tem cara, sei lá, de mafioso de New Jersey.

Após a coletiva, conversei com o tecladista David Bryan e, entre outras, perguntei três coisas interessantes:

“Quem representa melhor New Jersey, Bon Jovi ou The Sopranos?”
“Bon Jovi. The Sopranos já acabou, nós continuamos no palco.”
“Enchia o saco ter um cara como o Jon Bon Jovi na banda, todo mundo dizendo que ele era lindo, etc?”
“Nossa, eu nem dormia à noite (risos). Na verdade, foi ótimo porque ajudou a divulgar nosso trabalho e nos tornou mais famosos. Mas sempre nos concentramos na música.”
“Você conhece música brasileira?”
“Conheço muito, estudei os ritmos. Mas não sei o nome de nenhum artista.”

Então tá.

Quem abriu o show do Bon Jovi foi o Fresno, e acho que os caras merecem ao menos um parágrafo. Havia um boato na internet, gente dizendo que eles seriam recebidos com vaias e xingamentos. Em primeiro lugar, vamos deixar claro que o público do Bon Jovi não teria por que ser radical, considerando que a banda tem várias baladinhas radiofônicas (não estou dizendo que isso é ruim, note-se) e é nitidamente uma banda de rock comercial. Desse ponto de vista, por que vaiar o Fresno se eles são até mais pesados que o Bon Jovi? Porque o público brasileiro é preconceituoso e ignorante. Qual o problema de uma banda brasileira abrir o show do Bon Jovi? Quem seria o nome mais adequado, o Sepultura? Por que tudo tem que ser 8 ou 80 por aqui? Por que ter raiva de uma banda nova? Brasileiro não gosta de quem faz sucesso, já dizia o ditado. Que tal esperar apenas meia hora, ouvir os gaúchos, conferir se o som é bom ou não? Se gostar, parabéns. Se não gostar, não precisa vaiar: o Bon Jovi já estava pronto para entrar em cena.

As luzes se apagam, o telão anuncia a chegada dos quatro músicos, bla bla bla. Jon Bon Jovi está realmente muito bem, o cara tem uma boa voz e uma ótima presença no palco. É simpático, bonitão, abre a toda hora o sorriso branquíssimo, afinal ele é um all american rockstar.

O repertório do show do Bon Jovi é de responsa mesmo quando comparado a quase qualquer banda no planeta (veja abaixo o set list completo). O show começa com ‘Blood on Blood’ e o telão de alta definição (sensacional, aliás) vira um gigantesco quadro vermelho. Daí vem ‘You Give Love a Bad Name’ e ‘Born to be my Baby’, e me sinto imediatamente transportado para o final dos anos 80/início dos 90. Foi uma época boa na minha vida, solteiro, morando sozinho. A música tem o poder de nos levar para outra época, outro lugar.

O show do Bon Jovi, mesmo que eu não tenha sido um grande fã na época, me leva para lá. É gostoso.
Bon Jovi e Richie Sambora tem uma excelente química no palco, como as grandes bandas da história do rock. A comparação é estrutural, não qualitativa: eles seguem a mesma fórmula de bandas como Rolling Stones (Mick Jagger / Keith Richards), Led Zeppelin (Robert Plant / Jimmy Page), Aerosmith (Steven Tyler / Joe Perry), U2 (Bono / The Edge), etc. As grandes bandas têm sempre um herói e um vilão no palco, além de um bufão e um ser mais espiritual (criei essa teoria a partir dos Beatles, claro, é incrível constatar que ela se aplica às grandes bandas de rock). Jon é o herói; Richie é o vilão. Quanto ao espiritual e ao bufão… não conheço os outros caras do Bon Jovi tão bem assim, talvez você saiba dizer melhor que eu.

Bon Jovi foi um só, e vários ao mesmo tempo. Encarnou momentos de Mick Jagger, rebolando e seduzindo a plateia; em outros, tentou (sem muito sucesso, aliás) simular a postura messiânica do Bono, atitude que lhe rendeu o apelido de ‘Bono Jovi’ durante o show, criado pelo meu amigo Miguel Icassatti (não prometi que ia dar o crédito?).

Uma análise mais profunda da personalidade pode revelar um artista que, apesar do sucesso, parece manter os dois pés (e o corpo inteiro) na realidade. Não duvidaria se ele dissesse que viaja o mundo com sua banda de rock, mas que liga para a mãe de todos os hotéis onde se hospeda depois dos shows. Como todo all american rockstar, não duvidaria se ele dissesse que vive numa casa de subúrbio com a mulher, a namoradinha que conheceu ainda na High School quando era capitão do time de futebol americano e ela era a líder das cheerleaders. Bon Jovi lota estádios mundiais, mas o que ele gosta mesmo de fazer é passar as tardes jogando baseball com seus filhos e brincando com seu cão Labrador ‘Boss’, em homenagem ao ídolo Bruce Springsteen, também de New Jersey.

(As informações no parágrafo anterior foram inventadas. Mas podem ser verdadeiras, vai saber.)

Bon Jovi tem tantos hits que é até covardia. A banda faz o típico show em estádio, onde o público passa metade do tempo com as mãos para cima e a outra metade com as mãos ao redor de alguma cintura do sexo oposto. ‘I’ll be there for you’ tem grandes chances de ser uma das baladas mais bonitas do rock americano; ‘Bad Medicine’ é um rockão rasgado e eletrizante. O destaque instrumental do show é obviamente o guitarrista Richie Sambora: o cara manda muito, muito bem. Nada daqueles arpejos a 1.000 km/h, estilo que a garotada anda gostando ultimamente: Sambora é blueseiro, abusa dos licks meio sujos, esbanja categoria e melodia nos solos. Fora as guitarras: ele entrou com uma série de instrumentos (Les Paul Gold Top, Fender Stratocaster Sunburst 57, algumas ‘Franksteins’ maravilhosas’) que me deixaram babando. Sambora também canta muito bem, como provou na versão Gospel-hard-rock de ‘Lay Your Hands on Me’. Mas quem resiste a Jon Bon Jovi cantando ‘Always’?

Engraçado pensar que a melodia de uma canção como essa poderia estar na voz de Zezé di Camargo ou Fábio Jr., dependendo do arranjo e, claro, da letra em português. É dramática, exagerada, quase sertaneja. Mas a voz de Bon Jovi imprime um certo clima à música que faz com que perdoemos qualquer efeito ‘rockocó’ que apareça. Bon Jovi é o Elvis pós-moderno: rebola, mas na hora exata e após exaustivos ensaios. No final, só resta suspirar e dizer que é uma linda balada. Mas ainda viriam ‘Blaze of Glory’, do filme ‘Young Guns II’ (o solo no disco é do grande Jeff Beck, mas Sambora fez à altura), ‘Keep the Faith’, ‘These Days’, ‘Wanted Dead or Alive’, ‘Livin on a Prayer’…

Há 15 anos o Bon Jovi não tocava no Brasil. Foi interessante ver que o público era composto por pessoas que ainda não são velhas, mas que já sabem o que é sentir nostalgia em relação a um artista. Quem tinha 15 anos na época hoje tem 30; mal ou bem, já é um adulto e deve se lembrar do show anterior do Bon Jovi como se aqueles fossem ‘os velhos tempos’. Pensando bem, eram mesmo: não havia Twitter, não havia Facebook, não havia iPhone. Coisas do século passado.

O show chega ao fim quase três horas depois; maravilha, os caras fizeram valer o preço do ingresso. Bon Jovi é uma banda de rock perfeita: vocalista carismático e bonitão, bons músicos, repertório quase infinito de sucessos. Se o Bon Jovi é o ‘all american rockstar’, nada mais justo que chamar sua banda de… ‘all american band’. O show foi previsível? Sim. Mas existe algo errado em se tornar parte na catarse de uma multidão de fãs? Qual o problema em ouvir a sua, entre 60 mil vozes, gritando ‘I Love You Baby Forever’?

Nenhum.

Bon Jovi vai voltar com os bolsos cheios de grana para sua casa no subúrbio, onde encontrará sua mulher e voltará a jogar baseball com seus filhos e a brincar com o Labrador ‘Boss’. Então, como se fosse o Super-Homem que traz tatuado no braço, vai entrar na cabine telefônica e sair de lá vestindo casaco de couro, óculos escuros e tudo que um rockstar deve usar. Mas, no fundo, a gente sabe que ele é apenas um bom garoto.

SET LIST

Blood On Blood
We Weren’t Born To Follow
You Give Love a Bad Name
Born To Be My Baby
Lost Highway
Superman Tonight
In These Arms
Captain Crash
When We Were Beautiful
Runaway
We Got It Going On
It’s My Life
Bad Medicine / Pretty Woman / Shout
Lay Your Hands On Me
Always
Blaze Of Glory
I’ll Be There For You
Have a Nice Day
I’ll Sleep When I’m Dead
Working For The Working Man
Who Says You Can’t Go Home?
Keep The Faith
These Days
Wanted Dead Or Alive
Someday I’ll Be Saturday Night
Livin’ On a Prayer
Bed Of Roses

‘I’ll Be There For Your’ (videoclipe)

comentários (30) | comente

  • A + A -

Arquivos

Blogs do Estadão