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Felipe Machado

Elizabeth Taylor: A morte da grande estrela de Hollywood
TV Estadão | 23.3.2011
Em entrevista a Felipe Machado, os críticos de cinema do Caderno 2, Luiz Zanin e Luiz Carlos Merten, falam sobre a vida e a carreira de uma das maiores atrizes de Hollywood

Fiquei bastante triste com a morte da Elizabeth Taylor. Ela não era minha atriz favorita, mas seu rosto é tão conhecido que a gente sente como se tivesse perdido uma pessoa conhecida, uma amiga (a amiga mais linda do mundo, no caso).

Mais uma vez, pensei em apelar para uma jornalista que acompanhou a carreira de Liz Taylor de perto: minha mãe, Helô Machado. Foi aí que meu telefone tocou:

“Felipe, estou com vontade de escrever um texto sobre a Elizabeth Taylor, o que você acha?”

“Hummm… acho ótimo!”

Aqui está. Obrigado, Helô. Bye, Liz.

Adeus para a mais linda de todas
Helô Machado

Aprendi na infância que o Empire State era o prédio mais alto do mundo. Rockfeller era o homem mais rico do mundo. O dólar era a moeda mais forte do mundo. Caviar era a iguaria mais cara do mundo. Rolls-Royce era o carro mais valioso do mundo. Diamante era a pedra mais preciosa do mundo.

E Elizabeth Taylor era a mulher mais bonita do mundo.

Durante a minha juventude, outros objetos e pessoas ‘as mais do mundo’ foram surgindo e desaparecendo, dependendo da época e dos modismos. Só Elizabeth Taylor permanecia como mito da beleza, recheada do talento que eu pouco a pouco descobria nas telas do cinema.

Filha de americanos, Elizabeth Taylor, a mais bela atriz de Hollywood, nasceu em Londres em 1932 e desde os sete anos, quando se mudou com seus pais para Los Angeles, chamou a atenção dos caçadores de talento. Aos 10, estreou no cinema e aos 11 entrou para o time das celebridades, onde permaneceu durante toda a sua vida, sem perder o prestígio – mesmo depois de abandonar o cinema.

A beleza não atrapalhou a carreira da atriz. Nas dezenas de filmes que fez, destacou-se em vários, como ‘Um lugar ao sol’ (1951), ‘Assim caminha a humanidade’ (1955), ‘A megera domada’ (1967), ‘Os comediantes’ (1967) e em outros, que lhe valeram três anos seguidos indicações ao Oscar de melhor atriz: ‘A árvore da vida’ (1957), ‘Gata em teto de zinco quente’ (1958), ‘De repente no último verão’ (1959). Recebeu dois Oscars por suas atuações em ‘Disque Butterfield 8’ (1960) e “Quem tem medo de Virginia Woolf?’ (1965).

Durante alguns anos, nas décadas de 70 e 80, a atriz teve a carreira interrompida devido ao uso de drogas, álcool e problemas de saúde. Em 1993, foi premiada com um Oscar honorário. Seus últimos filmes ‘A Maldição do Espelho’ (1980) e ‘O Jovem Toscanini’ (1988) já não causaram tanto impacto e foram pouco comentados.

Liz Taylor – ela odiava ser chamada pelo apelido – foi também a atriz mais bem paga do cinema: em 1963, ela recebeu 1 milhão de dólares para ser a belíssima ‘Cleópatra’, no filme igualmente milionário. Foi neste trabalho que ela conheceu o maior amor de sua vida: o ator Richard Burton.

Na área da paixão, bateu outro recorde. Elizabeth Taylor também foi a celebridade que mais se casou: teve oito maridos. O primeiro, em 1950, era o rico herdeiro da famosa cadeia de hotéis Hilton; o último, em 1991, construtor, de quem também se divorciou.

Na sua extensa lista matrimonial constam tragédias, escândalos e muitas brigas: seu 3° marido, o produtor de cinema Mike Todd, morreu num desastre de avião. Consolada nesta época por um casal de amigos, os atores Debbie Reynolds e Eddie Fisher, pouco depois Elizabeth Taylor ‘roubou’ o marido da amiga e se casou com ele.

Já a paixão arrebatadora e as brigas famosas entre Taylor x Burton levaram a dois casamentos e divórcios, que, no total, duraram 20 anos e renderam muitas jóias raras à estrela, como o famoso diamante Krupp, de 33,19 quilates; a pérola La Peregrina, que passou pelas mãos de Maria Tudor, rainha da Inglaterra e o diamante Taj-Mahal, em forma de coração, datado de 1627, presente do imperador indiano Shan-Jahan à sua mulher favorita, em cuja memória mandou construir o imponente Taj-Mahal.

Elizabeth Taylor, aliás, era apaixonada por jóias valiosas, que sempre ostentou em todas as ocasiões, até nas suas últimas aparições em público. Também amava os cachorros – levava sempre um deles no colo – e os perfumes –“Jamais fiquei um dia sem perfume”, costumava dizer. Tanto que lançou os seus, três perfumes – Paixão, White Diamonds e Pérolas Negras, que ganharam o mundo e lhe renderam milhões de dólares.

Elizabeth Taylor viveu intensamente os seus 79 anos, apesar dos inúmeros problemas de saúde. Teve quatro filhos, dez netos e quatro bisnetos, Manteve casas em Palm Springs, Londres e no Havaí, além da sua residência em Los Angeles. Publicou dois livros: ‘Elizabeth takes off’ (Elizabeth levanta voo), em 1988 e ‘My love affair with jewelry’ (Meu caso de amor com as joias), em 2002.

Conhecida internacionalmente por sua beleza, especialmente por seus olhos cor de violeta, representou o glamour de Hollywood durante anos e anos, atravessando gerações. Amiga íntima de Michael Jackson, que lhe dedicou vários de seus trabalhos, inclusive a canção ‘Liberian Girl’, a atriz recebeu inúmeros prêmios pelas campanhas que promoveu contra a AIDS, desde o seu envolvimento na luta contra a doença, em 1985, com a morte de seu grande amigo, o ator Rock Hudson, vítima do HIV.

Antes de se internar com sérios problemas cardíacos, que a levaram à morte, Elizabeth Taylor, mesmo fora de forma, com muitos quilos a mais, mantinha a altivez e as joias ao comparecer em eventos e homenagens, sempre na cadeira de rodas, que utilizava nos últimos cinco anos.

Joias que ela tratava com amor e traduziam o seu pedido: “Sei que após minha morte minhas joias poderão ir à leilão, como aconteceu com a coleção da duquesa de Windsor. Talvez se espalhem pelos quatro cantos do mundo. Espero que quem as compre ame e cuide de cada peça, como eu fiz. A verdade é que as joias têm donos provisórios, somos apenas seus guardiões”.

Para terminar, uma frase de Elizabeth Taylor que sempre me vem à cabeça:

“Quando as pessoas dizem ‘ela tem tudo’, eu respondo: ‘eu não tenho o amanhã’”.

A mulher mais linda do mundo era também a mais ingênua: ela não sabia que seria eterna.

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Que saudades da política externa do governo Lula: Kadafi, Mahmoud Ahmadinejad, Fidel, Hugo Chávez, só a galera do bem! A foto é de Ed Ferreira/AE

Para ver outros líderes demagógicos, clique aqui. E conheça a turminha do Kadafi!

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Capa Bacana Bacana

Na próxima quarta-feira, dia 22 de setembro, é o lançamento do meu novo livro: ‘Bacana Bacana – As Aventuras de um Jornalista pela África do Sul’.

Quem acompanhou o blog que mantive durante a Copa do Mundo já deve saber do que estou falando. Realmente, o livro traz os textos que publiquei durante o período. Mas tentei ir um pouco além, já que blog é blog e livro é livro. Tirei trechos que traziam fatos muito específicos da Copa do Mundo, para não ficar muito datado (e também porque o Brasil não ganhou a Copa, claro). E acrescentei uma série de informações, como um dicionário (divertido) de provérbios africanos; uma coleção (séria) de frases de Nelson Mandela; fotos coloridas; um guia com todos os serviços e endereços sobre os locais que visitei.

Acho que ficou bem legal. O projeto gráfico é do designer Daniel Kondo, e pela capa acima você pode imaginar como ficou legal o projeto todo. A editora é a Seoman, um selo dentro da centenária editora Pensamento-Cultrix. Para quem quiser comprar o livro pela internet, é só clicar aqui. Para quem quiser receber um autógrafo super especial e conversar com o autor (eu, no caso) está convidadíssimo a comparecer à Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, 3170-4033) entre 19h e 22h.

Depois do lançamento haverá um evento surpresa. Quem comparecer à Cultura receberá uma senha e informações sobre a festa. A senha é… infelizmente, só tenho permissão para contar na livraria, pessoalmente, falando baixinho no ouvido do convidado.

Como é que se diz ‘espero você lá’ em Zulu?

Mais informações: Carolina Riedel |  imprensa at pensamento-cultrix.com.br | (011) 2066-9000. Assessoria de Imprensa | www.pensamento-cultrix.com.br | Twitter: @ed_pensamento

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Murilo Felisberto

Murilo Felisberto

Há exatos três anos, em 11 de maio de 2007, um grande amigo nos deixou. Murilo Felisberto não era apenas um amigo, mas um profissional que me ensinou quase tudo do pouco que eu sei. O mais incrível é que ele fez isso muitas vezes sem dizer uma só palavra, apenas com o olhar. Quem o conheceu sabe do que estou falando.

No dia em que ele morreu, escrevi um texto bastante emocionado. Acabo de dar uma olhada e vejo que ele continua atual, por incrível que pareça. Se eu fosse arriscar uma razão, diria que é porque é foi inspirado por um sentimento de perda que não se perdeu.

Murilo era um cara amado; tão amado que existe até um blog com textos dedicados a ele. Se não me falha a memória, foi ideia do ilustrador Daniel Kondo, que trabalhou com ele (e comigo) na DPZ. Tem histórias divertidíssimas de nomes como Washington Olivetto, Mauricio Kubrusly, Nirlando Beirão e outros caras legais, do jornalismo e da publicidade. Tenho orgulho de dizer que meu texto também está lá.

Murilo foi uma pessoa importante para mim, e é por isso que presto aqui essa pequena homenagem a ele. Para mim, escrever é uma forma de falar em voz alta sem precisar abrir a boca.

E só isso o que eu queria dizer: Murilão, você faz falta.

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João Caetano de Oliveira: Um velho amigo que eu e meu primo Lívio não vimos

João Caetano de Oliveira:

Publicar textos sobre a minha família não é nenhuma novidade para quem frequenta esse blog. A novidade é que desta vez publico o texto de um primo ‘inédito’ por aqui. Lívio Oliveira é poeta e tem um blog bem legal (Blog de Lívio Oliveira), onde ele escreve sobre a cultura brasileira, com ênfase na cena cultural de Natal, onde mora.

Recentemente, recebi por e-mail um texto dele sobre nosso avô, João Caetano de Oliveira. Achei o texto superbonito, emocionante, e me identifiquei bastante com ele até porque também não conheci meu avô. É um texto bastante pessoal, uma pequena homenagem que faço por meio das palavras do meu primo Lívio. Espero que você goste do tema já que, no fundo, todas as famílias são iguais. Quer dizer, como disse Tolstói, ‘todas as famílias felizes são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira’.

Só para deixar registrado, a nossa é a primeira opção.

Lívio, valeu pelo texto.

Abs, F.

Carta a um velho amigo que não vi

Natal, 2 de abril de 2010.

Meu avô João Caetano,

Desculpe-me pelo imenso atraso. Já se passaram – eu sei – 40 anos. Mas, é que somente agora atinei para o fato de que precisava lhe mandar minhas impressões e aquilo que tenho sentido acerca dessa longa aventura sobre a Terra, lugar estranho e curiosamente sedutor, solo por onde temos que andar longa e arriscada travessia. Para onde? Ainda não sei. Certamente onde está já tenha sabido que destino tomamos. Talvez aí, onde você está – você, não, que o senhor não é dado a essas intimidades –, onde o senhor está, possa compreender melhor e com mais conhecimento de causa as minhas preocupações, minhas dores, meus sofrimentos. Também deverá saber melhor avaliar as minhas alegrias, realizações, metas por atingir…

É, meu avô, sei que nada é fácil e por isso tenho lutado como ninguém. Às vezes esmoreço. Às vezes me fragilizo. Mas, quando a vida menos espera, fortaleço-me de um jeito que pareço um leão. Por falar nisso, esse é meu signo: Leão. Nascido em agosto de 1969. Lembra daquele mês de agosto em que eu nasci, aqui nessa ensolarada cidade chamada Natal? Pois é…soube que o senhor se preparava para vir me visitar, vindo de Parelhas, numa viagenzinha de um pouco mais que 100 quilômetros. Mas, aí, antes que isso acontecesse, decidiu fazer uma viagem mais longa, bem mais longa. E eu que pensava que Natal ficava a caminho do céu…

Papai me disse uma vez, se não me engano, que o senhor não acreditava muito que o homem tinha chegado à lua. Logo o senhor, João Caetano? Logo o senhor, que foi diretinho pro céu??!!

Não quero, meu avô, tomar o seu tempo, não. Por sinal, não sei nem se por aí existe esse tal de tempo. Taí um troço que me deixa perturbado. Às vezes, não consigo entender direito o sentido do relógio. Não é nada fácil! E olha que, como advogado público, tenho que ficar de olho nos prazos, todo santíssimo dia.

Acredito, meu avô, que o senhor gostaria de nos ver hoje. Talvez, até esteja vendo. Papai e mamãe estão fortes e vigorosos e vão completar aniversário de casamento. Vovô, olha que é mais tempo do que eu tenho de vida, eh!eh!eh! Óbvio, né? E os meus irmãos estão todos bem. Jaime Júnior fez uma cirurgia no umbigo, dia desses. Morreu de medo, mas deu tudo certo. Não fugiu. E Janair tá lá na Europa, no Velho Mundo (no início deste ano estive, com Alciléa, por aqueles lados frios) onde morou meu queridíssimo Tio Gabriel, que está aí por cima, junto com Vovó Clotilde, Tia Eunice, Tio Zé, Tio Adelson, Tia Anna. A hora do almoço de vocês deve ser muito animada. Não é? Sim, Jaiana está decidindo se vai trabalhar em Angicos, terra de Aluísio Alves. E eu e Jansênio não nos temos visto mais, meu avô. Coisas da vida…

Também acho que o senhor gostaria de prosear com o genro e as noras de papai e mamãe. Ele gosta muito de Caicó e é do seu Seridó e todas elas (as noras Alciléa, Anita, Naury e Sânzia) são mulheres corretas e trabalhadoras. Operosas e dedicadas. Às vezes falam pelos cotovelos. Como toda mulher, né, meu avô? A minha se chama Alciléa, que tem um nome que junta o do pai e da mãe (naquele tempo, vocês gostavam de fazer isso, né?). Ela tem me estendido a mão e me ajudado a ir pra frente. Sem ela, a coisa ficaria muito mais dura. Muito mais dura! Estou aprendendo, dia-a-dia, a amá-la mais e melhor.

Agora, meu avô, o senhor precisa saber mesmo é dos seus bisnetos. Vou dizer todos os nomes pela ordem decrescente de idade: Kelvin, Brenda, Gabriel, Bruno, Daniela, Carolina, Jaiminho, Beatriz, Larissa. Gente bonita, saudável e animada que só! A meninada é divertidíssima e é tudo de boa índole. Precisa ver quando está todo mundo em Tabatinga, terra do Barão Jaime e da Baronesa Ana Maria. Ah! E são estudiosos. Todos são. Assim como o senhor gosta. O senhor que, quando estava por estas bandas de cá, esforçou-se ao máximo para que os filhos estudassem e trabalhassem. A sua visão – mesmo no chão tórrido e esturricado do sertão seridoense – era de águia, num voo sempre altaneiro. Conseguiu colocar gente pra estudar até no Rio de Janeiro (cidade pela qual me apaixonei), como foi o caso de Tio Adones, que encontrou logo Tia Helô. Sim, tenho estado com ele, vez ou outra, e hoje ele mora em São Paulo, onde estão seus filhos Luís Felipe e Luís Fernando (envolvidos com música e jornalismo de primeira) e o Pedro Jorge, filho de Tio Adelson, que toca na Orquestra Sinfônica de São Paulo e já esteve até na Filarmônica de Berlim, a melhor orquestra do mundo. Não é fraco, não! Parece-me, vovô, que a Adriana também está lá por São Paulo ou nos “States”. Todos bem. Todos bem e com sucesso.

Na Paraíba e em Pernambuco tem muita gente sua. Muita gente nossa. Fábio, vez por outra, me manda um e-mail. É um cara bem-humorado. A gente conversa. O cara é um flamenguista doente! Mas, o Flamengo merece, mesmo, né? Fabíola e Gustavo, primos queridos, moram, também, em João Pessoa. As prezadíssimas tias Arlete e Elzenita vão aproveitando a vida, da melhor forma, em meio a viagens e fazendo o bem. Ana Luiza mora e trabalha no Recife das velhas pontes. Luciana deu um passinho além na geografia e está nos Estados Unidos, morando com seu marido americano e filharada. Chique, né? E não custa afirmar que toda a prole de meus primos e irmãos tem nos dado imensas felicidades!

Vovô, não estranhe se eu não perguntar sobre como tem passado por aí. É que eu sei que as coisas no lugar onde está são, certamente, muito boas. Afinal, o senhor merece, por toda a luta que travou por aqui e pelas vitórias que obteve. E, hoje, deve estar satisfeito de ver as coisas em ordem entre nós, sua família, seu centro.

Olhe, vovô Caetano! Mandamos, também, um beijo para os meus avós maternos Miguel e Senhora. Já deve ter tomado um cafezinho com eles por aí, né?

Meu avô João Caetano (por sinal, sabe que é o nome de um teatro lá no Rio?), acredito que lhe enviarei outras missivas nos próximos dias, nos próximos anos, mostrando o que estou aprendendo e como estou desempenhando meus esforços diante da vida. A vida é, mesmo, um contínuo e frenético aprendizado. E sei que o senhor vai me ajudando. Me ajuda mesmo, vai!

Por aqui, vou me despedindo porque o sábado já raiou e tenho um monte de obrigações para fazer. Principalmente, estudar. E sei que o senhor respeita muito esse tipo de tarefa.

Um beijo, meu avô.

Peço a bênção!

De seu neto: Lívio

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Meu amigo Luiz Antonio me ligou para dar uma dica cultural para o fim de semana. Perguntei: ‘por que você não me manda um e-mail para eu ver o que é?’ Ele fez melhor: se ofereceu para escrever um texto. Como sei que ele tem ótimo gosto e ainda escreve super bem, compartilho aqui com você.

Grande Luiz! Nos vemos na peça. Qual é o melhor dia?

Abs, F.

Cabaré da Rrrraça: Spike Lee teria inveja
Luiz Antonio

A discussão sobre ‘arte engajada’ só acontece em um tipo de situacão: quando o objeto artístico é fraco e só o que sustenta sua existência é um discurso. Aí, sim, críticos aparecem aos montes dizendo que a arte deve ser livre, que não precisa passar mensagens e todas essas outras coisas a que estamos acostumados. Quando alguém observa a Guernica, de Pablo Picasso, não usa esses argumentos. Quando lê ‘As Vinhas da Ira’, de Steinbeck, também não. Quando ouve ‘Strange Fruit’ na voz de Bilie Holiday muito menos. E o mesmo acontece quando alguém assiste a uma peça do Bando de Teatro Olodum.

Em primeiro lugar, temos que lembrar que estamos falando de teatro. O teatro é o lugar para as pessoas pensarem. Mais que o cinema, muito mais que a televisão. Nos palcos, os questionamentos surgem de todas as formas. A política está lá, os relacionamentos, as ideologias. A grande maioria dos textos teatrais tratam de assuntos polêmicos de forma incisiva, cortante. E a questão do negro no Brasil é um desses temas tabus que o teatro deve tratar.

O Bando de Teatro Olodum é uma das principais companhias teatrais brasileiras. Como está fora do eixo Rio-São Paulo, não é tão badalada por aqui. É um grupo talentosíssimo, formado por uma equipe de dar inveja a quaquer companhia teatral. Já montaram mais de 20 peças, entre elas uma versão maravilhosa de ‘Sonho de uma noite de verão’, de Shakespeare, que ganhou o Prêmio Braskem em 2006. O Bando nasceu do Grupo Cultural Olodum em 1990, tendo à frente os mais que competentes diretores Marcio Meirelles e Chica Carelli.
Os atores e atrizes são espetaculares. Atores, com A maiúsculo- não modelinhos para enfeitar a novelinha juvenil. São todos negros e isso não é um detalhe. A música dos espetáculos é sempre forte e bem colocada. E as coreografias estão a cargo de ninguém menos do que Zebrinha, um dos maiores bailarinos e coreógrafos do nosso país (só para o leitor ter uma ideia, Zebrinha lecionou danças na Stadeliyk Conservatoriam en dans Academie te Arnhem, na Academie Internationale de Paris na França, no Project Studio em Munich e na Federatie Friy Tiyed na Bélgica e dividiu o palco com os maiores dançarinos do mundo).

Essa turma, ou melhor, esse Bando estará em São Paulo, no SESC Vila Mariana a partir deste final de semana. Oportunidade rara para ver seus espetáculos na terra da garôa.

A programação começa com Cabaré da Rrrrraça. Espetáculo inteligente e bem-humorado que trata a questão do negro no Brasil como poucas vezes se viu. Todos os estereótipos, todas as situações constrangedoras, está tudo lá. A peça tem cenas hilárias e faz pensar, dando porrada em todo mundo. Se Spike Lee vivesse nossa realidade e entendesse português, ia morrer de inveja. Ah, você acha que não existe racismo no Brasil? Garanto: você é quem mais deve ir.

Na próxima semana, tem ‘Ó paí, ó’, o sucesso “comercial” do Bando. Virou filme, série de televisão. Divertido, sem perder a crítica social, vale a pena nem que seja para você ver a ‘peça que deu origem à série’. Nas telas, ‘Ó paí, ó’ conta com Lázaro Ramos, um dos maiores atores brasileiros da atualidade. Ator que surgiu adivinhem onde? No Bando de Teatro Olodum.

Junto com ‘Ó paí, ó’, temos uma surpresa a mais. Será um final de semana especial, com a linda peça Áfricas. Uma simples peça infantil? As coreografias, o figurino, as músicas, os atores. A direção segura. Não, não é uma ‘pecinha’ infantil, não. Essa viagem pelo nosso passado, pela nossa herança africana e pelos vários países, reinos e diferenças culturais existentes na África é para crianças e adultos de todas as cores.
O Brasil esconde até hoje nossa herança negra e nossos heróis negros. Aqui em São Paulo temos a Avenida Rebouças, a Rua Teodoro Sampaio- e ninguém sabe que eles eram negros. O negro só pode ser destaque nos locais ‘reservados’ a ele: no carnaval, no samba, no futebol, na capoeira. O Teatro Experimental do Negro e Abdias do Nascimento tentaram mudar isso na década de 40 (mas você também provavelmente nunca ouviu falar deles). O Bando de Teatro Olodum está aqui em São Paulo e é hora de você conhecê-los.
Mas espere um segundo. De acordo com o raciocínio do meu primeiro parágrafo, nada disso que escrevi aqui valeria seu ingresso se as peças fossem fracas. E eu garanto: elas são absolutamente fantásticas. Vai lá, negão.

Bando do Teatro Olodum no SESC VILA MARIANA
Rua Pelotas, 141. Ingressos à venda em todas as unidades do SESC.
‘Cabaré da Rrrraça’: dias 9, 10 e 11 de abril
‘Ó paí, ó’: 16, 17 e 18 de abril
‘Áfricas’: 17 e 18 de abril

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Kathryn Bigelow, diretora de \'Guerra ao Terror\', comemora os Oscars em meio aos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin

Kathryn Bigelow, diretora de ‘Guerra ao Terror’, comemora os Oscars em meio aos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin

Mais uma noite de Oscar, mais uma noite que entra para a história do cinema e da cultura mundial. O grande destaque, na minha opinião, foi o prêmio de Melhor Diretora para Kathryn Bigelow, realmente merecido por ‘Guerra ao Terror’, ainda mais na véspera do Dia da Mulher. Mas confesso que fiquei frustrado pelo pouco caso da Academia com ‘Avatar’, simplesmente por uma única razão: se um filme pudesse ser um personagem, ‘Avatar’ seria o herói que salva a indústria do cinema e fica com a mocinha no final.

Mas vamos ao começo, já que Oscar é sempre uma noite longa e muito especial (o que eu, particularmente, adoro). Tem gente que reclama, ‘ah, mas é uma cerimônia muito chata, muito longa’. Tudo bem, ninguém é obrigado a ver. Se não gosta do Oscar, vai ver o Big Brother. A Globo, aliás, fez uma coisa ridícula ontem: meia-noite, duas horas depois do início da transmissão do Oscar, e a emissora mostrando Big Brother. “Ah, mas dá mais ibope.” Então é melhor vender os direitos de transmissão do Oscar na TV aberta para outra emissora… Impedir quem gosta de ver o Oscar e não tem TV a cabo é sacanagem. Ainda mais para ver Big Brother, um programa que já deu o que tinha que dar. (E não estou falando da apelação sexual desta edição, embora tenha soado assim… bom, deixa pra lá.)

Eu vi na TNT, porque confesso que gosto da transmissão deles. A Chris Nicklas foi excelente e divertida comentando a chegada das estrelas no tapete vermelho, a tradutora é ótima (embora eu ache absurdo não ter a opção de tecla SAP) e os comentários do Rubens Ewald Filho são muito bons por uma simples razão: o cara é uma verdadeira enciclopédia.

Vamos começar a comentar os prêmios: Ator Coadjuvante, para Christoph Waltz, de ‘Bastardos Inglórios’, era uma barbada tão grande que quem fez bolão deve ter ficado empolgado. A atuação desse cara no filme do Tarantino (o melhor dele, aliás, desde Pulp Fiction, já que acho os dois ‘Kill Bill’ meio chatos) é de tirar o chapéu (ou o capacete nazista, no caso). Como é bom ver uma performance desse nível, não? O ator austríaco foi sensacional. Stanley Tucci corria por fora em ‘Um Olhar do Paraíso’, e deve receber um Oscar em breve porque também é um excelente ator.

Uma das melhores piadas da cerimônia foi feita por Steve Martin, que dividiu o palco com Alec Baldwin. Depois de entregar o prêmio a Waltz, que faz o papel de um dos nazistas mais cruéis da história do cinema, Martin virou para ele e disse assim: “Você não queria acabar com os judeus? Então faça a festa”, apontando para a plateia do Oscar, insinuando que a comunidade judaica manda em Hollywood. Eu adorei o formato de dois apresentadores, primeiro porque gosto de Martin e Baldwin e acho que eles funcionaram juntos. E também porque duas pessoas permitem aqueles sketches de três tempos que a TV americana sabe fazer tão bem: um fala uma coisa, o outro levanta a bola, o primeiro finaliza. É simples, mas quando é bem feito (e no Oscar é lógico que seria bem feito, já que há alguns dos melhores roteiristas do mundo) funciona muito bem.

A melhor Atriz Coajuvante foi Mo’Nique, de ‘Preciosa’. Não posso comentar a atuação especificamente, porque infelizmente não consegui ver o filme a tempo. Mas a maneira com que ela foi aplaudida de pé pelos colegas no Kodak Theatre mostra que ela realmente mereceu. Só pelo clipe que o Oscar mostrou do filme já deu para ver que a performance dela era, para dizer o mínimo, explosiva. Penélope Cruz merecia um Oscar pela beleza (não sei o que ela viu no Javier Bardem, embora 11 em cada 10 mulheres digam que ele é lindo, maravilhoso, ‘homem de verdade’, etc. Elas reclamam dos homens metidos a machão… mas o Javier Bardem pode. Vai entender).

Animação: estava na cara que Up ia ganhar, até porque ele concorria até na categoria de Melhor Filme (isso não acontecia desde ‘A Bela e a Fera’ em 1991). E foi merecido mesmo: ‘Up – Altas Aventuras’ é delicado, inteligente, tem uma história linda e divertida. Se alguém ainda tinha dúvida de que animação pode ser tão criativa e importante para o cinema quanto um filme normal, tem que ver ‘Up’. Ou ‘Toy Story’ 3D, que vi há alguns dias com minha filha, e que é tão bom quanto qualquer clássico do cinema. Confesso que não gostei muito de ‘A Princesa e o Sapo’, produção da Disney que também concorria na categoria. Não, não foi pelo fato de ela ser 2D em um mundo cada vez mais 3D. Achei que algumas cenas eram muito escuras (a do pântano, por exemplo) e o filme cansa um pouco (informações baseadas na opinião da minha crítica infantil favorita, Bebel Machado).

Filme estrangeiro foi a categoria que mais me revoltou. Não vi o filme vencedor, o argentino ‘O Segredo dos Seus Olhos’ (é a segunda vez que os argentinos ganham; eles venceram com ‘A História Oficial’, em 1985; o Brasil fica inscrevendo filmes com ideologias/apologias ultrapassadas e nefastas, é isso o que acontece. Pelo menos temos mais Copas do Mundo que os hermanos).

A verdade é que o vencedor deveria ter sido ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. Como eu posso dizer isso sem ter visto o vencedor? Simples: Michael Haneke é o melhor diretor da atualidade, seu filme venceu a Palma de Ouro (que entende bem mais de filmes estrangeiros que a Academia) e… sou fã dele, pronto. Veja minha crítica sobre o filme aqui, se quiser saber outras razões.)

Não vou comentar os prêmios puramente técnicos por uma simples razão: ninguém se importa. Quer dizer, eles são muito importantes para os profissionais da indústria, mas para o grande público não interessa se ‘Guerra ao Terror’ ganhou Melhor Edição de Som ou se ‘Star Trek’ ganhou melhor Maquiagem (os dois ganharam). Torci para ‘Star Trek’ perder só para nunca mais eu ter que ver aquelas orelhas do Spok. Nerds e trekkers devem estar felizes.

Efeitos Visuais e Direção de Arte foram para ‘Avatar’, lógico. Roteiro adaptado foi para ‘Preciosa’, baseado no livro ‘Push’ (ô historinha desgraçada, aliás). Roteiro original foi para ‘Guerra ao Terror’, o que achei injusto. Em primeiro lugar porque o roteirista Mark Boal está sendo acusado de basear a história do filme em um personagem real do exército americano que ele conheceu no Iraque, já Boal é um jornalista que cobria a guerra no país. Em segundo porque para um filme de guerra ter o melhor roteiro tem que ser muito diferente, não? E Guerra ao Terror tem um pouco de ‘Falcão Negro em Perigo’, misturado com ‘Platoon’, ‘Full Metal Jacket’ (Nascido para Matar, do Kubrick) e mais meia dúzia de filmes onde o que muda é apenas o cenário/campo da batalha. Melhor seria ter vencido ‘Bastardos Inglórios’, a trama mais criativa do ano. Tarantino reescreveu a história e deu um final mais ‘justo’ (no meu ponto de vista, claro) para Hitler. Vi o filme em Nova York e a plateia levantava no final para bater palmas como se fosse a final de um campeonato. Grande Tarantino.

The Weary Kind, do filme ‘Coração Louco’, ganhou como Melhor Canção. Para mim, é apenas mais uma música country. Não podemos esquecer que essa é uma premiação americana, talvez o único lugar do mundo (fora o interior de São Paulo) onde tem gente que ainda ouve country. Eu estava torcendo para uma das duas canções da animação ‘A Princesa e o Sapo’, Almost There e Down in New Orleans, dois sons bem jazzy, à la big bands, até para marcar um renascimento de New Orleans pós-Katrina. A Melhor Trilha Sonora foi para Up, realmente muito bonita. Ainda bem que ‘Sherlock Holmes’ não ganhou nada, um filme chatíssimo que algumas pessoas gostaram – não sei por quê.

Sandra Bullock: Ela ganhou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz do ano, e o Oscar, como a Melhor Atriz. Quem está certo?

Sandra Bullock: Ela ganhou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz do ano, e o Oscar, como a Melhor Atriz. Quem está certo?

Vamos agora às duas categorias mais importantes da noite (não para mim, mas para o público): Melhor Atriz e Melhor Ator. Gostei das duas escolhas. A Melhor Atriz foi Sandra Bullock, por seu papel em ‘Um Sonho Possível’. É claro que ela não é melhor que Meryl Streep, que concorria por ‘Julie & Julia’, nem que minha adorada Helen Mirren, de ‘The Last Station’. Mas a Academia adora premiar ‘All-American Girls’ como Sandrinha (olha a intimidade). Eles fizeram isso com Reese Whiterspoon em ‘Johnny & June’, em 2006: é um prêmio para uma estrela corajosa que se aventura em um papel, digamos, mais ‘artístico’. Além disso, Sandrinha estava linda ontem. Ela tem um quê de girl next door que me atrai bastante. Não, eu não sou apaixonado por nenhuma vizinha. Mas é que é um tipo de garota que poderia, realmente, ser sua vizinha, uma pessoa normal e, ao mesmo tempo, muito bonita. Quer dizer, se Sandra Bullock fosse minha vizinha, aí a gente poderia ver se… deixa pra lá.

O Melhor Ator foi Jeff Bridges, que eu acho que deveria ter recebido o Oscar por um papel que fez em 1998: ‘O Grande Lebowski’, até hoje um dos meus filmes favoritos dos irmãos Joel & Ethan Coen. Me falaram que Colin Firth está muito bem em ‘O Direito de Amar’, dirigido pelo estilista Tom Ford, e George Clooney… bem, ele é sempre George Clooney, que concorria por ‘Amor sem Escalas’. Mas Jeff Bridges no papel de um cantor de country decadente ganhou o prêmio que não deram a Mickey Rourke no ano passado, por ‘O Lutador’. Acho que Bridges tem mais amigos que Rourke – é só olhar para os dois que é fácil descobrir por quê.

Jeff Bridges, o Melhor Ator: Hollywood adora decadence avec elegance

Jeff Bridges, o Melhor Ator: Hollywood adora decadence avec elegance

Quanto aos prêmios mais importantes, Melhor Filme e Melhor Diretor, fiquei frustrado. Os favoritos eram James Cameron, por ‘Avatar’, e sua ex-mulher, Kathryn Bigelow, por ‘Guerra ao Terror’. Kathryn ganhou os dois. Não gostei: acho que ela deveria ter vencido como direção, até porque uma mulher nunca havia vencido nessa categoria (e nem há tantas mulheres diretoras assim) e porque era um filme difícil, produzido na Jordânia, violento, extremamente masculino. E ela fez um filmão.

Mas o Melhor Filme do ano deveria ter sido ‘Avatar’, simplesmente porque ele está salvando a indústria do cinema. O filme já bateu todos os recordes de bilheteria da história, o que deveria ser importante para Hollywood, já que é uma premiação da própria indústria. Acho que foi inveja de James Cameron, que já tinha ganhado 11 estatuetas por Titanic e quebrado todos os recordes de bilheteria na época. Eu não acho Avatar o melhor filme do ano, na minha opinião teria vencido ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. Mas acho que é o filme mais importante do ano: se você viu Avatar em um cinema iMax 3D (infelizmente só existe uma sala em São Paulo), você sabe do que eu estou falando. Tudo bem, a história é maniqueísta e a mensagem eco-bom-selvagem já é velha desde a época do Rousseau. Mas é que a experiência ‘Avatar’ representa uma volta ao cinema e à tela grande, ao convívio social e às sensações que não podem ser reproduzidas em casa, nem no melhor dos home theatres. E outra coisa muito importante: a tecnologia é tão avançada que não pode ser copiada facilmente, portanto ninguém quer ver o DVD pirata de ‘Avatar’. E isso força as pessoas a irem ao cinema, como nos velhos tempos. E isso, na minha opinião, pode salvar a indústria do ponto de vista comercial e institucional. ‘Guerra ao Terror’ é um excelente filme, mas apenas isso: um excelente filme. ‘Avatar’ olha para frente, olha para o que pode ser feito e abre milhões de possibilidades. A Academia foi muito convencional e pode ter dado um tiro no pé.

(Se esse tiro no pé fosse em 3D, teria atraído muito mais gente ao cinema.)

Ben Stiller maquiado como personagem de 'Avatar': O filme ganhou apenas três das nove categorias a que foi indicado

Ben Stiller maquiado como personagem de ‘Avatar’: O filme ganhou apenas três das nove categorias a que foi indicado

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02.fevereiro.2010 14:58:10

A loucura nossa de cada dia

Aqueronte - capa

Se há uma máquina que me impressiona pela complexidade, é o cérebro. Sou fascinado pelo seu funcionamento, pelas ligações nervosas de sua massa cinzenta (como diria Hercule Poirot), pelas incríveis cenas que a memória nos permite reviver quantas vezes desejamos.

Para interessados no assunto, no entanto, tão fascinantes quanto as maravilhas do cérebro são suas deficiências. Por que temos manias? Por que desenvolvemos síndromes de nomes esquisitos? Por que somos obcecados por determinados assuntos? Não estou falando apenas de problemas psiquiátricos, mas de coisas do dia-a-dia… por que não aceitamos a rejeição amorosa? Por que cada um de nós reage de maneira tão única diante de episódios semelhantes, que afetam todos os seres humanos? Por que sofremos por amor?

(Aliás, a forma como o amor atua sobre o cérebro deve ser uma das questões mais interessantes e inexplicáveis da história)

Não sei nenhuma dessas respostas, mas tenho uma amiga que pode apontar caminhos muito interessantes. Cláudia Belfort, editora-chefe do Jornal da Tarde, lança hoje, na Livraria Cultura do shopping Bourbon Pompéia, a partir das 19h30, ‘Aqueronte, O Rio dos Infortúnios’.

‘Aqueronte’ é o rio dos infortúnios na mitologia grega. Era por ele que o barqueiro Caronte levava as almas até a margem onde estava o porto de Hades, o submundo dos mortos, o inferno guardado por Cérbero, o cão de três cabeças. Na ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri, Aqueronte, é o anteinferno, que faz fronteira com o inferno.

O livro de Cláudia reúne treze contos sobre pessoas loucas, excêntricas ou geniais, dependendo de quem as observa e as classifica. As histórias são fictícias, mas obtidas da experiência da autora com fatos reais. Clique aqui para conhecer o blog de Cláudia, ‘Sinapses – A Mente Também Adoece’.

Mais informações sobre o livro, consulte o site da Editora Letras do Brasil.

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Trailer do filme ‘Besouro’, de João Daniel Tikhomiroff

Só para variar, abuso de um grande amigo para colaborar com este espaço. Luiz Antonio, meu ex-colega de sétimo andar da DPZ, virou escritor e publicou o excelente ‘Minhas Contas’, com ilustrações de outro grande amigo, Daniel Kondo. Como Luiz escreve muito bem e é um capoeirista de primeira, sugeri que ele escrevesse um texto sobre o filme ‘Besouro’, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. O resultado você vê abaixo. Luiz, um abraço e obrigado.

Besouro voa baixo
Luiz Antonio

Vá assistir ‘Besouro’ se você não conhece nada de capoeira, nada de candomblé. Ou se você até conhece essa religião e a cultura popular, mas sente falta de filmes em que elas apareçam de alguma forma (qualquer forma). Se você quer ver um ‘herói brasileiro’ de qualquer jeito. Depois disso, dê sua opinião isenta sobre o filme. Porque a minha, definitivamente, não é.

Fui convidado a escrever sobre ‘Besouro’. Antes, é melhor que eu diga: fui assistir ao filme sem esperar muita coisa. O tema é muito importante para mim, faz parte da minha vida, do meu dia-a-dia, das minhas pesquisas. Como público-alvo, fui bombardeado na internet pela campanha on-line da película. Por isso, para não me decepcionar, fui ao cinema esperando um filme de ação ao estilo ‘Clã das Adagas Voadoras’ rodado na Bahia. Afinal, pensando dessa maneira, o trailer é ótimo (veja acima). E o que encontrei? Um filme de super-herói fraco. Tanto o cinéfilo quanto o capoeirista não se empolgaram ao final da sessão. No caso, sou os dois.

Resumindo a história contada no filme: Besouro é um menino aprendiz de capoeirista que cresce no Recôncavo sob o olhar de seu velho mestre (nem tão velho assim). Após o falecimento de seu mentor, que também é o líder dos negros oprimidos na região, Besouro tem tudo para ser seu sucessor. Por uma série de motivos (não vou estragar) ele se afasta de tudo e de todos, até que entende sua vocação, seu chamado, e vai tomar seu lugar na luta contra os opressores. Isso, claro, conta também com uma tumultuada história de amor entre Besouro e uma linda capoeirista.

Bom, como cinéfilo, assisto a tudo. Sem preconceitos. Mas isso não quer dizer que vá gostar de qualquer coisa. Gosto de filmes de ação. Gosto de comédias. Gosto de filmes nacionais. Desde que sejam bem feitos dentro da sua proposta. Em ‘Besouro’, a fotografia é linda. Cenas bonitas mesmo da Chapada Diamantina, de orixás, da feira. As coreografias também são convincentes (como cinéfilo, não vou entrar no mérito capoeirístico das lutas, deixo isso para alguns parágrafos abaixo). Os atores, na sua maioria, estão bem nos seus papéis. Bonitos, com preparo corporal e tudo mais. A história de ‘Besouro’, por si só, é interessante. Então, o que falta? Dramaturgia, roteiro. Simples assim.

As falas muitas vezes não cabem na boca dos personagens. Poderiam culpar os esforçados atores. Mas fica difícil dizer aqueles textos e fazer com que quem assiste ao filme sinta veracidade nas falas. Mais do que isso, falta estrutura de roteiro. Clímax, anti-clímax, desenvolvimento de personagens, drama. Isso mesmo, drama. ‘Mas você quer isso em um filme que se propõe a ser um filme de ação?’ Claro que quero. Se a idéia era fazer um filme no estilo hollywoodiano, um filme de herói, o mínimo que temos é que ter uma jornada bem feita desse herói. Até a edição do filme prejudica o andamento da história, que infelizmente não envolve o espectador como deveria.

O livro que inspirou o filme, ‘Feijoada no Paraíso’, esse sim sai do lugar comum. Bem escrito, uma história bem contada, sem grandes pretensões – mas que consegue surpreender. Marco Carvalho, o autor, deveria produzir mais. Quem sabe, com o dinheiro ganho com o filme, ele não possa produzir outras belas páginas como aquelas, não apenas sobre Besouro. E falando nessa lenda da capoeira, entra em cena o outro lado desse crítico: o capoeirista.

Como capoeirista, conheço Besouro há muitos anos. É uma lenda no meio da capoeiragem, um personagem histórico. Mas que, como todo personagem histórico popular (Zumbi, Lampião, Padre Cícero), teve sua vida misturada com suas lendas. Há poucos anos tive provas de que ele realmente existiu, através de sua certidão de falecimento encontrada em Santo Amaro (Recôncavo Baiano, cidade importantíssima para a cultura popular). Besouro Mangangá, Besouro Preto, Besouro de Santo Amaro, Besourinho Cordão de Ouro, Besouro de Maracangalha. Até Elis Regina já cantou sobre ele (e falou algumas coisas erradas historicamente, também).

Todos nós, capoeiristas, ouvimos algumas façanhas desse homem que veio antes da organização da capoeira em academias. Por isso, tivemos alegria e apreensão ao saber que sua história seria retratada. E, no final, para um capoeirista, o filme também tem problemas. A capoeira apresentada no filme (supostamente a capoeira da década de 20) não tem muito a ver com a capoeira mais tradicional. Isso, sem falar da musicalidade referente à capoeira, fraquíssima na tela.

A capoeira é praticada no mundo todo, da Indonésia à Dinamarca. Só no Brasil, mais de cinco milhões de pessoas gingam e tocam berimbau. É o maior vetor de expansão da língua portuguesa pelo mundo. Precisa, sim, ser representada em livros, filmes, obras de arte. Pierre Verger já fez isso de forma magistral na fotografia. Carybé, nas ilustrações. Jorge Amado deve à capoeiragem muito do que lemos em seus livros. Besouro pode ser um primeiro passo, mesmo que meio torto. Alguns diriam que antes isso do que nada. E eu concordo. Mas não vou louvar o filme e fingir que não vi seus defeitos para ‘defender a coragem de quem fez um filme sobre a capoeira’. Não.

A melhor parte ‘tradicional’ do filme diz respeito ao candomblé. Os orixás aparecem de forma linda no filme. A religião é tratada com respeito, com fundamentos. O momento em que Besouro encontra Oxum é uma das imagens mais bonitas. Mas aí, nesse caso, sei que João Daniel (o diretor) e equipe tiveram uma assessoria de primeira. Um profundo conhecedor de candomblé, que tem cargos importantes na religião, acompanhou tudo de perto. Tenho medo apenas que as pessoas, os leigos, passem a confundir candomblé com capoeira. Candomblé é religião complexa. Capoeira não é religião, apesar de ter nascido com as mesmas pessoas que criaram o candomblé ou o samba.

Logo no início do filme, vemos Mestre Alípio usando aquela velha história de que ‘o Besouro voa porque não sabe que não pode voar… porque não sabe que voar, para ele, seria impossível… Ele é pesado, tem asa curta. Mas mesmo assim, voa.’ Infelizmente, no caso do filme, ‘Besouro’ voa bem baixo. Vale a pena acompanhar esse voo? Vale, desde que se saiba que o voo não é muito alto.

Luiz Antonio é autor do livro infantil ‘Minhas Contas’, da Cosac Naify, que trata sobre tolerência religiosa. E, antes de tudo, capoeirista.

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Amigas e amigos,

só para avisar: gravei ontem uma entrevista para o Programa do Jô e ela foi ao ar… ontem mesmo. O tema? ‘Ping Pong’, comidas chinesas exóticas, jornalismo… Foi super divertido, acho que o Jô estava de ótimo humor. Até ganhei uma caneca no final!

Quem perdeu e quiser ver, o vídeo está aqui. Bjs, F.

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