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Felipe Machado

www.palavradehomem.com.br

“A despedida é uma dor tão doce…”, diz Julieta para Romeu, na clássica cena em que o apaixonado casal se despede na varanda. Não é novidade Shakespeare acertar em cheio no âmago do sentimento humano. Partir é, sim, um doce pesar, tanto para quem fica quanto para quem vai.

Para quem fica, a solidão. Para quem parte, as dúvidas diante do desconhecido. O que isso tem de doce? O mundo só existe porque se transforma; a vida só se renova quando nos sentimos obrigados a renová-la.

Entre doces e pesares, é isso que estou fazendo agora: me despedindo. Dizer ‘adeus’, porém, talvez seja exagero. Vamos dizer que é apenas uma mudança de endereço, já que este humilde blog está se mudando para um endereço próprio: www.palavradehomem.com.br . É apenas um deslocamento das palavras que saem da minha cabeça e o movimento cadenciado dos seus olhos, que costumam (costumavam) acompanhá-las nesse espaço virtualmente físico.

Mas as ideias que estão aqui não vivem apenas nesse ambiente hospedado no portal do Estadão, que me acolheu com tanto carinho durante tanto tempo. Elas vão comigo (e com você) aonde a gente for.

Foi maravilhoso contar com sua companhia nesses cinco anos. Todos textos publicados aqui foram transferidos para o endereço novo, o que me faz agradecer muito a equipe de tecnologia do Estadão. Continuamos amigos, espero, apesar da minha saída. E aproveito para dizer que todos os textos publicados aqui foram sinceros e do fundo do meu coração. Alguns foram feitos às pressas, de outros tenho orgulho por ter conseguido passar algum tipo original de ideia ou conceito.

Nunca me pediram para escrever sobre isso ou aquilo, contra aquele ou a favor deste, dessa maneira ou de outra. Disse sempre o que sentia, para o bem ou para o mal. Se cometi excessos, peço desculpas. Se fiz você pensar, agradeço humildemente.

Um blog como este, sem temas específicos, só funciona na base do diálogo. Por isso agradeço também os milhares de comentários e e-mails que recebi durante todo esse tempo, mesmo os que me criticavam. Nunca tentei ser polêmico, mas é difícil não tomar partido diante de certas situações. Pode ter certeza de que as críticas me incomodaram, e me fizeram refletir para saber se eu realmente estava ou não errado. Em muitas ocasiões, estava mesmo.

Fiquei sabendo há pouco tempo de algo que me deixou muito feliz: duas pessoas que se conheceram na área de comentários deste blog hoje estão juntas. Sem demagogia, só de saber isso já valeu todo o meu trabalho. Há recompensa maior para alguém que escreve sobre relacionamentos humanos? Camila e Beatlemaníaco, podem me chamar que eu aceito ser padrinho.

Bem, é melhor ir parando por aqui porque estou ficando realmente emocionado. Não vou considerar isso o fim do nosso relacionamento, espero você no novo Palavra de Homem. Afinal, a despedida só é uma dor tão doce quando nos permite sonhar com o reencontro. Até lá.


Felipe Machado

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Nossa, já é Páscoa de novo. Cada ano que passa parece correr ainda mais rápido, como se o gargalo da ampulheta se alargasse e deixasse cair cada vez mais areia. Acho que é uma mistura da idade chegando com a rapidez da vida moderna. Ou então é porque nunca dá tempo de fazer tudo que a gente quer.

Um ano é um bom período de tempo para analisar como andam as coisas. Por exemplo, o que aconteceu na sua vida de um ano para cá? Pense na Páscoa de 2010: as coisas melhoraram ou pioraram desde então? Tomara que tenham melhorado. Até porque, se não melhoraram… a culpa é sua.

E a vida amorosa, como vai? Tomara que esteja tudo bem. Mas se, por acaso, o seu relacionamento está ruim há um ano… tudo leva a crer que ele vai continuar ruim. E que você vai sofrer mais um ano. Mude isso hoje, por favor. Só depende de você.

Um ano é suficiente para dar uma guinada na vida. Você tem pelo menos 365 chances para fazer isso. Não espere o meu post na Páscoa de 2012 para perceber que tudo poderia ser diferente desde agora.

Olhe para a pessoa que está ao seu lado. O que você fez por ela no último ano? Ou melhor, o que você fez por ‘vocês’? Talvez você não se lembre do número exato, mas quantas vezes vocês saíram para jantar de um ano para cá? Só isso? E aquele fim de semana a dois na praia, foram quantos? Na dúvida, divirta-se. A vida é muito curta. Só um parênteses: não é porque costumo falar aqui das coisas do coração que eu acho trabalho uma coisa menos importante. Por falar nisso, o que você apresentou de original ao seu chefe no último ano? Quantos projetos, novas idéias? Gente que se acomoda no trabalho é como gente que se acomoda no relacionamento: fica para trás.

Domingo de Páscoa é um bom dia para se pensar em uma nova vida. Faça como Jesus Cristo: ressuscite.

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A atriz Kerri Russell é tão bonita que eu gostaria de conhecê-la, mesmo se fosse para ter um relacionamento… frágil. Foto: Evan Agostini/AP Photo

Não é de hoje que as pessoas tentam classificar os tempos em que vivem. Era de Ouro, Era de Aquário, Era sei-lá-do-quê. As épocas são compostas por várias características, mas alguma sempre salta aos olhos de quem se dispõe a analisá-las.

Eu acredito que vivemos na Era da Fragilidade.

Essa fragilidade certamente não é dos governos ou das instituições oficiais, embora muitas delas tenham solidez de uma geleia. Esta é a Era da Fragilidade das relações.

Não é à toa que redes sociais como Facebook e Twitter sejam tão populares. É mais confortável trocar ideias virtuais do que reais, já que pela internet só nos relacionamos com quem pensa igual à gente. E, se por acaso alguém ousar discordar, basta desligar o computador.

Isso não é uma crítica às redes sociais – seria como atirar no mensageiro –, que são apenas o reflexo dessa fragilidade das relações. É uma crítica a nós mesmos, que deixamos a correria alucinada do mundo ditar o ritmo de nossas vidas. Ninguém tem mais paciência para nada, ninguém tem tempo para perder com nada: nem com o que é importante.

Importante? Existe algo importante hoje em dia? Algo que consiga atrair nossa atenção por mais de dez minutos, sem que a gente dê uma olhadinha de leve para ver se chegou alguma mensagem pelo celular? E existe alguém que nunca falou no celular enquanto dirigia? “Ah, mas era urgente”. Claro que sim. Tudo é urgente – até as coisas que não são urgentes.

Nossas relações são frágeis até no nível mais íntimo, como prova uma historinha que ouvi de um amigo. Ele conheceu uma garota, a convidou para jantar. Restaurante chique, tudo muito bem. A conversa estava ótima, muitos interesses e amigos em comum. Até que ele, em um momento descontraído, fez um comentário X sobre um assunto qualquer. Nada de mais, mas ela não gostou.

Foi o suficiente para estragar a noite. E um futuro que poderia estar começando desapareceu em cinco ou seis palavras. Tudo o que veio antes foi jogado fora junto com as sobras dos pratos.

Uma simples frase apagou a ótima conversa, os interesses e amigos em comum. Simples assim. Por quê? Porque não há tempo para uma segunda chance. Como é que uma relação vai nascer se não dermos espaço para isso acontecer? Se a ligação entre duas pessoas não sobrevive a uma simples frase, como pode virar algo a mais?
Deixa-se de amar por nada. Mata-se por nada. Vive-se para nada. Por que tanta ansiedade? Quem disse que o que virá depois é melhor do que o que está aqui? O importante é aproveitar o momento. Afinal, entre o ‘antes’ e o ‘depois’, a única coisa verdadeiramente real é o ‘agora’.

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January Jones, a Betty Draper do seriado ‘Mad Men’: eu enfrentaria qualquer dragão para trazê-la para o meu castelo

As histórias infantis seguem invariavelmente o mesmo enredo. Por uma razão ou outra, a princesa se vê numa situação desfavorável, até que chega o príncipe, resolve tudo, blá, blá, blá e eles vivem felizes para sempre.

Para o público, a diversão consiste basicamente em assistir à princesa esperando pela chegada do príncipe encantado – e ele sempre chega. Imagine a frustração das crianças se não fosse assim.

Daí a gente cresce e vê que a vida não é bem assim. Ou é, dependendo da sua sorte. Mas o que eu queria falar a respeito de príncipes e princesas não é se esses enredos estão corretos ou não.

Desde os anos 60, as mulheres lutam por igualdade entre gêneros. Estão certíssimas, claro – e não sou nem louco de dizer o contrário aqui. Apesar disso, muitas delas ainda sonham com a chegada do príncipe encantado, o cara perfeito, lindo e maravilhoso que vai resgatá-las dessa vidinha besta e levá-las para um castelo – ou para uma mansão nos Jardins, sendo um pouco mais realista.

E foi aí que eu pensei: pôxa, as mulheres querem igualdade, lutam justamente por isso… então por que os homens também não podem esperar pela chegada de uma princesa encantada?

Eu acredito que temos o direito, sim. Arrisco até mais: nós merecemos.

Uma princesa encantada não precisa chegar em um cavalo branco nem trazer uma coroa na cabeça. Também não precisa se parecer fisicamente com a princesa Diana, que foi desprezada pelo idiota do príncipe Charles e trocada pela bruxa, numa total inversão dos valores que aprendemos na infância. Mas o que essa princesa precisa fazer é nos resgatar dessa vidinha e nos levar para algum lugar melhor. Metaforicamente, nesse caso.

Daí você vai dizer: ‘mas se você sabe que príncipe encantado não existe, por que esperar por uma princesa encantada’. Porque sim.

A vida não é lógica e as pessoas podem esperar por qualquer coisa. Tem gente que espera por um sinal de Deus; tem gente que espera por atendimento na fila do INSS. Tem gente que espera até por um milagre.
Por que um homem não pode esperar por uma princesa encantada?

Não pense que virei moralista, do tipo que acha que a princesa tem que ser virgem, pura, angelical. Não. A princesa encantada que alguns homens esperam é bonita, sim, mas também é inteligente, interessante, divertida. Uma princesa encantada muda a vida de um homem fazendo uma coisa muito simples: sendo quem ela é.

Estou sendo muito romântico? Pode até ser. É que eu acho que as coisas que a gente acredita quando é criança podem se tornar realidade em qualquer fase da vida.

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Algumas pessoas poderiam dizer que a atriz Lea Michele, de Glee, tem o nariz um pouco grande. Eu responderia: é o que temos para o momento

Uma coisa inusitada aconteceu na semana passada: dois amigos meus, completamente opostos em termos de personalidade e modo de vida, usaram exatamente a mesma expressão quando conversavam comigo. Um deles é publicitário, diretor de uma grande agência. O outro é um roqueiro, compositor de uma famosa banda de rock.

O que eles têm em comum? O branco dos olhos, no máximo. E, no entanto, me deixaram de olhos arregalados quando ouvi os caras dizendo a mesmíssima coisa.

“É o que temos para o momento”, disseram, diante de situações completamente diferentes. Isso me chamou a atenção, em primeiro lugar porque eu não imaginava que dois caras com vocabulários tão diversos pudessem compartilhar sequer uma simples frase. Em segundo, porque é uma frase que pode ter um significado muito mais complexo do que nos permite compreender a simples soma de suas palavras.

Tudo bem, você vai dizer que isso acontece com frequência com expressões que estão na moda, joias poéticas como ‘enfiar o pé na jaca’, ‘soltar a franga’ e outras belas contribuições da informalidade das ruas ao vocabulário brasileiro. Mas, nesse caso, acredito que a frase pode ser interpretada com teor um pouco diferente. Para mim, simboliza uma tendência muito mais complexa dos dias em que vivemos.

“É o que temos para o momento” simboliza, antes de tudo, uma aceitação pragmática de um fato. É um pouco fatalista? Pode ser. Mas, antes de tudo, é uma expressão realista, que não tinge de cores vivas o que é preto e branco. É uma prova de que há ocasiões em que não adianta a gente tentar reinventar a roda. Há uma outra expressão que diz o seguinte: “o cara que não sabia que aquilo era impossível foi lá e fez”.

Sim, é claro que isso acontece. As pessoas se superam. Quebram recordes. Explodem limites. Mas, na maioria dos casos do dia a dia, é necessário enfiar a viola dentro do saco e aceitar: é o que temos para o momento. Talvez tenha sido por isso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou um livro com o título ‘O Brasil do Possível’. Era o que ele tinha para o momento.

Isso revela também essa atual tendência ao imediatismo. Quem consegue refletir sobre a vida? Tudo tem que ser agora, não há tempo para esperar. Temos algo melhor para oferecer? Temos, mas vai demorar um pouco. Coisas bem feitas precisam de carinho e capricho. Está com pressa? Come cru. Os japoneses estavam com pressa quando inventaram o sushi.

Espero que você tenha gostado do assunto da coluna desta semana. Se não gostou, desculpe. Era o que tínhamos para o momento.

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Olha aí: até a cara da Sandy já mudou. E esse negócio na cabeça, então? Será que vem aí um vídeo no estilo Sandy Gaga? A foto é de Bertrand Linet

Querida Sandy,

não pude deixar de vê-la em sua nova versão, digamos, mais ‘saidinha’. Afinal, você estava em todas as revistas, comerciais de TV e fotos de camarotes do carnaval. Quer dizer, pelo menos a legenda da foto dizia que era você. Era mesmo?

Na TV, você diz que ‘todo mundo tem um lado devassa’. Sério? Você tem mesmo um lado devassa? Qual é, o esquerdo ou o direito? Quer dizer que, antes de você voltar a cantar com seu irmão, o que vai irremediavelmente acontecer em breve, você está pensando em gravar um vídeo como Sandy Gaga?

Cuidado, as coisas não são tão fáceis assim. Você não pode sair dizendo que tem um lado devassa por aí sem mostrá-lo. Vão exigir que você dê uma turbinada nos seios, coloque aplique no cabelo (esse loiro fraquinho não é suficiente) e vista microssaias de couro. Depois vão querer que você faça aulas de poledancing. E não vão demorar para lançar a campanha ‘Sandy na Playboy’. Só digo uma coisa: se alguém chamar você de ‘Sandy Popozuda’ eu vou dar porrada.

Sei que artista é profissional e tem que ganhar a vida. Mas imagina você num boteco, enchendo a cara de cerveja enquanto vê o jogo do Timão com um bando de manos numa rodinha de samba. Não rola. Não seria melhor ter escolhido uma marca de champanhe para anunciar? Ou de suco de laranja?

Não estou te julgando, longe disso. É que você não é devassa. Devassa é aquela Paris Hilton, que tem vídeo pornô correndo pela internet. Devassa é a Bruna Surfistinha ou as sambistas que aparecem na TV usando apenas tapa-sexo. Você não é assim. Você é a Sandy. A nossa Sandy. Se você tiver mesmo esse lado devassa, isso significa que a humanidade está perto do fim. Por favor, me escreva um e-mail dizendo que tudo não passou de um engano. Não sei se conseguiria viver num mundo onde você simboliza a mulher devassa. Assumir que você tem um lado devassa não é apenas um golpe fatal para as mulheres ‘pra casar’. É uma ofensa às devassas, que também têm uma reputação a (não) manter.

Eu sei, esses publicitários são meio loucos mesmo. Você viu que colocaram a Gisele Bündchen como dona de casa para vender TV por satélite? Imagina você chegar em casa do trabalho e dar de cara com a Gisele de avental, com cabelo cheio de bob, cheirando à fritura? Não dá, né? Agora, se ela estivesse em um bar, linda, loira, enchendo a cara de cerveja como uma verdadeira devassa, aí eu não comprava só a TV: eu comprava o satélite.

Aguardo seu e-mail garantindo que tudo não passou de uma grande confusão e que você voltou a ser a nossa Sandy de sempre.

Beijos, F.

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No início dos anos 80, quatro bandas de rock pesado foram convidadas para fazer uma turnê pelo Japão: Scorpions, Whitesnake, Bon Jovi e Anvil. Pouco depois, todas atingiram o estrelato, conquistaram milhares de fãs e foram para o topo das paradas de sucesso. Peraí, eu disse todas? Não. Todas, menos uma. O Anvil.

O Anvil é uma banda canadense que continuou lançando discos, fazendo shows (em lugares cada vez menores e mais vazios) e tentando emplacar algum sucesso. Mas nada aconteceu.

Em 2008, Sacha Gervasi lançou o documentário ‘A História do Anvil’. O filme mostra a banda nos dias de hoje, sem glamour: O vocalista Lips trabalha com merenda escolar; o baterista Robb Reiner é pedreiro. Ensaiam à noite e tocam em buracos nos fins de semana. Detalhe: fazem isso há trinta anos.

O filme dá um pouco de pena, mas é sensacional. Na verdade, é bem mais do que um relato sobre uma banda fracassada. É sobre amizade, sobre como é importante correr atrás de um sonho – mesmo quando esse sonho parece nunca se realizar. O filme é uma obra-prima da condição humana. É tão emocionante que cativa até quem odeia heavy metal. Eu chorei.

O Anvil tocou na semana passada em São Paulo, e é claro que você nem ouviu falar. O local até que estava cheio, com mais de mil fãs de heavy metal. Mas logo no primeiro acorde, descobri por que o Anvil nunca fez sucesso: a banda é muito, muito ruim.

É triste constatar que alguém sem o menor talento sonha em fazer sucesso como artista. As músicas do Anvil são péssimas, não tem a menor criatividade ou originalidade. O fracasso de público do Anvil nunca foi uma injustiça. Eles não fizeram sucesso porque não mereceram fazer sucesso.

Enquanto eu via o show, caiu a ficha: e daí que eu não gostei? O Anvil estava no palco, fazendo o que gostavam, apresentando o que tinham de melhor. Percebi que o importante para aqueles tiozinhos não era o sucesso comercial, mas a capacidade de continuar vivendo o sonho. Eles não querem sair na capa das revistas; eles querem apenas continuar tocando sua música ruim pelo resto da vida. Não importa a minha opinião – não importa a opinião de ninguém. Mesmo sem público, eles estariam tocando com a mesma garra. O sonho aqui não é chegar a nenhum lugar, alcançar um objetivo. O sonho é a jornada, não o lugar para onde ela leva. É ser quem você é, mesmo que você não seja a melhor pessoa do mundo.

Aceitar que a vida é o que se faz dela é uma bela lição de humildade. Se a vida te deu três limões, você faz uma limonada, não um champanhe. Não é triste, nem feliz. É o que é. Sucesso? Sucesso é viver.

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24.fevereiro.2011 14:24:46

Não me chame de fofo

De uns tempos para cá, as mulheres apareceram com mais uma estranha (e ridícula) mania: adoram chamar alguns homens de ‘fofos’. Se você é um gente fina, querido, legal e confiável, muito cuidado: mesmo sem querer, você pode ser automaticamente classificado como um cara ‘fofo’. Tudo bem, eu sei que a mulher tem uma tendência a infantilizar o homem, mas assim já é ridículo. Vocês não precisam disso, ou, pelo menos, não deveriam precisar. É uma contradição para quem busca a igualdade de forma tão obsessiva.

Antes de mais nada, vamos deixar uma coisa bem clara: eu não sou fofo. Não estou nem perto de ser fofo. Posso estar um pouco acima do peso, reconheço. E acredito que até consigo rejuvenescer alguns anos quando faço a barba com mais capricho. Mas estou a milhares de quilômetros de distância de ser considerado ‘um fofo’.

Bichinhos de pelúcia são fofos. Recém-nascidos são fofos. Ursos pandas são fofos. Não quero assustar ninguém, mas se eu ouvir alguma mulher se referindo a mim como ‘fofo’, vou virar bicho. Ou melhor, bichinho de pelúcia – desde que seja o maligno Chucky, o brinquedo assassino.

Não há, afinal, nada de errado com o adjetivo ‘fofo’ em si. O que não gosto é a forma como ele é usado. Minha filha, por exemplo, é fofa. Ela diz coisas fofas, faz coisas fofas e sorri de um jeito que dá vontade de apertar suas bochechas até ela pedir para o papai parar. Meu cachorro, um Yorkshire com 12 centímetros de comprimento, também é outro exemplo de algo ‘fofo’.

Como se vê, muitas coisas no mundo são fofas. Eu, não. Sou um corintiano de quarenta anos, ex-guitarrista de heavy metal e tenho um saco de boxe na minha varanda. Não tenho nenhum elemento de fofura em comum com a minha filha ou com meu cão.

Daí você vai perguntar: ‘mas por que ficar bravo com uma coisa tão insignificante?’ Insignificante para você, que deve ser uma pessoa fofa. Eu não sou. Tenho um nome a zelar. Uma reputação. Uma fama de mau que pode desaparecer a qualquer momento. Se algum amigo meu ouvir a frase ‘o Felipe é um fofo’, nunca mais poderei sair de casa.

Ser fofo significa ser inofensivo. E a última coisa que um cara como eu quer ser é inofensivo. Os fofos são ‘café-com-leite’ para as mulheres. Elas te veem como um amiguinho, não como um homem. Eu não quero ser visto como amiguinho, nem pelas minhas amiguinhas. Uma coisa é ser confiável, legal, simpático, amigo. Outra é ser fofo.

É bom vocês, mulheres, começarem a pensar em outro adjetivo para designar caras como nós. Não quero fazer ameaças, isso não fica bem para minha imagem. Mas posso mostrar como até um cara gente boa como eu pode ser violento. É só me chamar de fofo.

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Fergie é a garota propaganda de uma empresa de celular. Usar mulheres bonitas para vender celular? Ah, mas que coisa previsível

Um estudo publicado no final do ano passado pela revista Science revela que os seres humanos são previsíveis. Ora, não precisava nem ter investido tanto dinheiro para fazer essa pesquisa: era só ter perguntado pra mim.

O levantamento foi realizado por uma companhia de telefones celulares. Invasão de privacidade? Um pouco. Para as empresas de telefonia – ou para qualquer outra empresa, na verdade –, quanto mais informações forem obtidas sobre os hábitos de seus clientes, mais fácil criar produtos adequados a cada tipo de consumidor.

No caso das empresas de celular, descobrir por onde andam seus clientes é fácil. Verificando os dados de localização gerados pelas ligações telefônicas, o estudo revelou que é possível prever em até 93% o padrão de deslocamento das pessoas. 93%? Fala sério! Resumindo: você acha que é superaventureiro, faz coisas incríveis e adora conhecer lugares novos… Mas na realidade você passa praticamente a vida inteira trilhando os mesmos caminhos. Convenhamos: 93% é um número extremamente alto.

Desculpe te decepcionar. Você achava que ninguém sabia onde você estava? Errado. Você é previsível. E o pior é que agora isso está provado cientificamente.

Há um velho ditado em inglês que diz: Things change, people don’t. Ou seja, as coisas mudam, as pessoas, não. Isso é bom para aqueles homens e mulheres que pensam que podem mudar as pessoas ao seu lado: não podem. Em suas essências, elas não apenas frequentam os mesmos lugares, mas também seguem os mesmos padrões de vida.

Não quero, no entanto, fazer um juízo de valor sobre o fato de que as pessoas são previsíveis e que vamos todos os dias aos mesmos lugares. Acho que, no fundo, é por isso que conseguimos conviver em sociedade. Provavelmente o trânsito nas cidades seria ainda pior se não fosse assim. E se você acordasse todos os dias sem saber o que fazer? Ou aonde ir? A previsibilidade indica que existe uma certa rotina. Deve ser essa rotina que nos salva do caos.

Pense nisso quando ligar a chave do carro amanhã para ir ao trabalho. Que tal fazer um caminho diferente? E no final do dia, que tal fazer um happy hour em outro bar? Vamos provar para essas companhias telefônicas que temos nossa rotina, mas também não estamos confinados apenas ao limite das nossas gaiolinhas.

Sabe aquele passeio do qual você ouviu falar e nunca foi? Pois agora é hora de ir. Somos previsíveis, mas não somos ratos de laboratório. É para isso que existem os fins de semana.

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Há algum tempo escrevi aqui sobre mulheres com aura, citando como grande exemplo a maravilhosa atriz Audrey Hepburn, que iluminava qualquer filme com seu rosto expressivo e sua beleza inesquecível. Agora, ao acompanhar a polêmica em torno da nova música de Lady Gaga (‘Born This Way’ seria um plágio de ‘Express Yourself’, de Madonna? É claro que não), me lembrei de um episódio que aconteceu em outubro de 2009, durante um período que passei na melhor cidade do mundo, Nova York.

Fui assistir a um concerto beneficente no lendário Carnegie Hall, uma das casas de espetáculos mais elegantes e sofisticadas do planeta. O evento teria renda revertida para a fundação RED, criada por Bono, do U2. Além da banda irlandesa, desfilaram pelo palco nomes como Lou Reed, Courtney Love, Scarlett Johansson (sim, além de tudo ela ainda canta) e Rufus Wainwright, entre outros. Mas, por incrível que pareça, quem mais me chamou a atenção não foi nenhum desses pesos pesados da música internacional. Foi uma garota muito louca de nome mais esquisito ainda: uma cantora chamada Lady Gaga. Não preciso nem dizer que, na época, ela não era tão conhecida.

Eu nunca tinha prestado atenção em Lady Gaga, até porque achava seus figurinos (e penteados) ridículos. Até essa noite, claro. A plateia recebeu Lady Gaga com risinhos, até porque não é sempre que uma loiraça platinada entra no sisudo palco do Carnegie Hall usando biquíni vermelho, saltos plataforma e óculos escuros. Mas esse desdém do público durou apenas alguns segundos: Lady Gaga sentou no piano, ajeitou o microfone e… mandou ver.

Não acreditei que ela pudesse cantar tão bem, muito menos tocar piano daquela maneira. Achei que ela era apenas uma espécie de ‘nova Madonna’, uma dançarina que cantava somente o suficiente para justificar turnês baseadas em coreografias provocantes. Mas me enganei: Lady Gaga destruiu o Carnegie Hall e, pouco depois dos primeiros acordes, as pessoas se levantaram para aplaudi-la – o que, diga-se de passagem, não aconteceu nem com o mestre Lou Reed.

E daí pensei: está aí outro exemplo de mulher com aura. Não, não estou comparando a Audrey Hepburn com a Lady Gaga. Estou só dizendo que a aura não vem da personalidade ou da tela de cinema: é algo que os americanos chamam de star quality, a ‘qualidade de estrela’ que as pessoas têm ou não. E pode vir tanto ao redor de um rosto angelical como na voz de uma maluca que abusa de perucas roxas.

O único receio que tenho em relação a Lady Gaga é que ela é tão over, mas tão over, que dificilmente ela conseguirá resistir a seus próprios excessos. Minha esperança é que ela aposente as roupas de carne depois de algum tempo e mostre aos céticos que o importante é a sua música. Quem disse que pop não tem valor musical? Quem não é músico costuma achar que é ‘fácil’ compor um hit pop. Não é. E não vamos esquecer que Gaga tem apenas 23 anos.

Olhamos para essas estrelas e constatamos que estamos diante de pessoas especiais, de quem nossos olhos (e ouvidos, no caso) não conseguem se afastar. Lady Gaga tem star quality, e por isso ainda vamos ouvir falar muito dela. Mesmo que a cantora seja, digamos, o oposto de Audrey Hepburn.

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