ir para o conteúdo
 • 

Felipe Machado

É uma nave espacial? É uma arranha-céu? É uma aranha gigante? Não, é o palco do U2. A foto é de M.Rossi

Trabalho com as palavras há muito tempo e estou acostumado a usá-las para descrever as coisas. Algumas vezes, no entanto, as palavras não são suficientes, como se a realidade fosse tão espetacular que passar os olhos por letrinhas parecesse algo simplificado demais. É assim com grandes eventos históricos, por exemplo. É assim com sentimentos abstratos, com o perdão do pleonasmo conceitual. E foi assim com o show do U2.

Assisti à apresentação de domingo, e pelo que vi na imprensa, parece ter sido um show bem diferente do que aconteceu no sábado – e, provavelmente, bem diferente daquele que será a última apresentação da turnê brasileira, na próxima quarta-feira. Digo isso principalmente pelo setlist: não é incomum uma banda que faz mais de um show na mesma cidade mudar um pouco o repertório. Mas o U2 radicalizou, com várias canções diferentes entre os dois shows. O que mostra aquilo que todo mundo já sabe, mas que anda com um pouco de vergonha de dizer: o U2 é a maior banda do mundo.

Essa denominação não é apenas retórica de crítico de rock. Afinal, quando os Rolling Stones vem ao Brasil, eles são ‘a maior banda do mundo’. Quando o Radiohead vem ao Brasil, eles também são ‘a maior banda do mundo’. Mas isso é tudo uma grande bobagem, porque o U2 supera essas duas bandas em qualquer quesito. Tudo bem, confesso que sou fã de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. Mas não sou um fã cego.

Digo que o U2 é maior que os Rolling Stones (em importância e em relevância artística) não apenas porque eles têm hoje o maior palco já construído na história do showbiz. A grande diferença é que o U2 se preocupa em ser relevante musicalmente, ao contrário de músicos como Rolling Stones, AC/DC e até Paul McCartney, por exemplo. Note que não estou comparando esses artistas, cada um tem seu estilo e sua importância. Mas Stones, AC/DC e Paul não estão nos auges de suas carreiras há tempos, muito longe disso. Os artistas de hoje não se preocupam em criar obras-primas fonográficas, mas em lançar discos para viabilizarem turnês. Essa eu acho que é a grande diferença do U2: após 30 anos de carreira e mais de 100 milhões de discos vendidos, eles ainda se desafiam a fazer melhor do que já fizeram – e olha que isso não é fácil.

Tem gente que acha o disco ‘Boy’ o melhor da carreira do U2; tem gente que ama o ‘Achtung Baby’ (eu, inclusive). Mas não dá para dizer que ‘All That You Can’t Leave Behind’ é um disco lançado apenas para cumprir tabela; assim como ‘No Line on the Horizon’ pode ser apenas um disco mediano do U2, mas mesmo assim é melhor do que praticamente qualquer disco de qualquer banda lançado dos anos 2000 para cá. Não, eu não sou o tipo de crítico que tenta descobrir ‘a nova melhor banda do mundo’ todos os dias. Eu acho que o teste do tempo e da qualidade se impõe. Vamos ver onde estará o Arcade Fire e o Arctic Monkeys daqui a trinta anos. Mesmo o Radiohead, que é uma banda genial, não pode ser comparada com o U2. Radiohead está mais para um Pink Floyd pós-moderno, cheio de experimentações que nunca chegarão ao grande público. Pode agradar os mudérrnos, mas será que há muita gente que realmente se lembra de alguma música do Radiohead além de ‘Fake Plastic Trees’, que ficou famosa por ser trilha sonora de um comercial?

Duvido.

Mas chega de comparações porque música é arte, não campeonato de talento ou fama. Voltando ao início do texto, o motivo pelo qual eu senti dificuldades em encontrar palavras para descrever o show do U2 é um só: o palco da turnê 360 graus.

Vou tentar descrevê-lo, mas já peço desculpas pela eventual imprecisão. Bono diz que criou o palco colocando quatro garfos encaixados um no outro em cima de uma mesa; lenda ou não, é isso mesmo que parece. Só que esses garfos, na vida real, são tentáculos gigantescos que grudam no gramado como se toda a estrutura fosse uma nave espacial que acaba de pousar no centro do estádio. É um monstro. É uma aranha cibernética. É uma garra de alguma criatura que povoa nossos pesadelos mais sombrios. Resumindo: é o palco mais impressionante que já foi montado desde que alguém inventou um conceito chamado ‘show’.

O arranha-céu do U2 tem uma antena que projeta luzes até o céu; tem um telão circular que desce do topo da estrutura até o palco e praticamente encosta na cabeça dos músicos antes de subir de novo e virar novamente um telão. Mas a ideia mais genial por trás de toda essa megaestrutura é financeira: como o palco é circular e montado no centro do gramado, é possível vender todos os ingressos do estádio. Isso, para quem vive o dia a dia de turnês, sempre foi um problema. O palco era montado em uma extremidade do estádio, portanto não se podia colocar à venda os ingressos que ficavam atrás dele. Com o palco 360 graus isso muda: o U2 pode vender todos os ingressos de arquibancada, além da pista, todos com excelente vista a partir da plateia. É por isso que o Morumbi receberá 90 mil pessoas por noite, ao contrário de outros shows, que recebem ‘apenas’ 60 mil. Pequena diferença em termos de arrecadação, não? É por isso que essa turnê já arrecadou mais de US$ 500 milhões desde seu início, em Barcelona, em junho de 2009.

Por incrível que pareça, esse monstro que o U2 chama de palco é justamente o ponto mais negativo do show, se é que podemos dizer que há algum ponto negativo. Deixa eu tentar explicar: o palco é tão grandioso e chama tanto a atenção, que desvia um pouco a atenção do que é o melhor do U2: os quatro músicos e suas canções.

Por falar nisso, vamos voltar ao repertório. No sábado, os alto-falantes tocaram ‘Trem das Onze’ antes da introdução de ‘Space Oddity’, de David Bowie (‘Ground control to Major Tom…’). No domingo, foi ‘Minha Menina’, dos Mutantes. No sábado, o U2 homenageou as vítimas do massacre na escola do Realengo, colocando seus nomes no telão. No domingo, Bono e The Edge tocaram a inédita e belíssima ‘North Star’, que estará no próximo disco da banda.

(Quem ousaria tocar uma balada desconhecida para 90 mil pessoas, deixando de fora sucessos que chegaram ao topo das paradas em dezenas de países?)

Só acho que teve um outro pequeno ponto negativo do show, mas aí eu já falo descaradamente como fã. Eu achei que o setlist foi muito legal, variado, com músicas de todos os discos… mas eu teria escolhido outras músicas dos mesmos discos. Exemplo: a primeira música do show é ‘Even Better than the Real Thing’, mas na minha opinião deveria ser ‘The Fly’, que ficou de fora. Daí veio ‘Out of Control’, muito legal, antiga, uma ‘homenagem aos fãs’, segundo Bono (no sábado foi ‘I Will Follow). ‘Get on Your Boots’ é sensacional, uma música do último disco, mas que parece ter saído de alguma garagem dos anos 70: riff matador, vocal psicodélico. Outra nova, ‘Magnificent’, que eu acho meio chatinha. Eu preferia ‘Stand up Comedy’, mas tudo bem. ‘Mysterious Ways’ é outra do ‘Achtung Baby’, muito legal, The Edge mostrando por que é um dos grandes guitarristas da história do rock.

Deixa eu aproveitar e falar um parágrafo sobre o The Edge, vai. Todo mundo está de saco cheio do Bono porque ele aparece demais, etc, certo? Então façam como eu: concentrem-se no The Edge e vocês não se arrependerão. Bono está tentando melhorar o mundo, e o excesso de exposição é apenas o efeito colateral de uma fama tão grande. Continuo gostando do Bono, veja bem. Bono não é incrível porque chegou no Brasil e logo de cara comentou a tragédia do Rio e mostrou apoio ao projeto Ficha Limpa em encontro com a presidente Dilma Rousseff. Ele é demais porque ele se deu ao trabalho de saber o que é Ficha Limpa, se deu ao trabalho de ver o que é relevante no país que ele está. É fácil ser um rockstar, ficar doidão, pegar as groupies e destruir o quarto de hotel. Ser inteligente, culto e preocupado com a realidade é um pouco mais difícil.

Mas voltando ao The Edge (estou escrevendo em ciclos em homenagem ao palco da turnê – boa desculpa, não?), acho que ele realmente revolucionou a guitarra e digo o porquê. Até os anos 80 (e inclusive hoje em dia, dependendo do guitarrista), o instrumento sempre foi refém de maneirismos blueseiros, praticamente extensões do estilo de nomes como Jimi Hendrix e companhia. Os solos e os arranjos eram baseados totalmente em escalas pentatônicas ou escalas menores básicas. Dar um ‘bend’ (levantar a nota um tom acima) era o máximo da criatividade musical, apesar de ser uma contradição, já que é uma técnica roubada dos blueseiros americanos dos anos 40, por aí. Nomes como The Edge e Johnny Marr, do The Smiths, jogaram isso fora e começaram do zero. Criaram acordes em vez de solos; climas em vez de bases óbvias. O resultado é que a guitarra virou um instrumento muito maior, mais amplo, com mais possibilidades. A guitarra de The Edge é quase como um teclado, criando texturas e luzes para cada canção. The Edge é um Edgênio.

O show seguiu com ‘Elevation’ (u-uhu) e ‘Until the End of the World’, outra favorita do público. Até que veio o primeiro hino: ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’, do ‘Joshua Tree’. Linda, é completamente incrível ver uma canção gospel mezzo Harlem mezzo irlandesa tocada dentro de uma nave espacial pousada num estádio no Brasil. Globalização é uma palavra feia, mas o que ela representa conceitualmente é maravilhoso. Não preciso nem dizer que ‘Pride (In the Name of Love)’ trouxe o Morumbi abaixo, assim como ‘Beautiful Day’, o hit mais ‘good vibe’ do século 21. Tem gente que torce o nariz para ‘Miss Sarajevo’, mas eu acho linda a ideia de que o U2 colocou sua segurança em risco para tocar na cidade destruída pela guerra. E daí que o Bono não canta como o Pavarotti? Pelo menos ele estava bem afinado na noite de domingo.

Aí veio ‘Zooropa’, uma escolha estranha de uma canção estranha que deu nome a um disco… estranho. ‘City of Blinding Lights’, do disco ‘How to Dismantle an Atomic Bomb’ é linda, mas eu preferia ‘Sometimes You Can’t Make it on Your Own’. ‘Vertigo’ veio na sequência com um dos riffs mais simples e legais do rock, preparando terreno para uma viajante versão eletrônica-house-percussiva de ‘I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight’. Dizem que o próximo disco do U2 será eletrônico, com participação até do produtor David Guetta. Só acredito vendo, ou melhor, ouvindo. Eles não gostam do ‘Pop’, mas eu adoro ‘Discotheque’…

O que dizer de ‘Sunday Bloody Sunday’? Nada, apenas que até hoje é emocionante ouvi-la. E o show termina (pela primeira vez) com a bela ‘Walk On’, que não foi feita para comercial de whisky, embora fique aqui a ideia. No sábado, teve também ‘In a Little While’ e ‘Stuck in a Moment That You Can’t Get Out’, sinceramente, não sei qual das três é a melhor.

A banda volta com ‘One’, e Bono aproveita para fazer propaganda de sua ONG, chamada… ‘One’. Foi então que veio a melhor música do show, na minha opinião: ‘Where the Streets Have no Name’. Não sei por que, mas ela me pegou de jeito e me emocionou de uma maneira meio constrangedora (ainda bem que ninguém viu). Não sei se foi o fato de que eu era uma pessoa tão diferente quando a ouvi pela primeira vez, no ‘Joshua Tree’, em 1987, ou se é por alguma coisa que se passa na minha vida hoje mesmo. Mas o fato é que um lugar onde as ruas não têm nome pode ser inesquecível. Eu gostaria de ser abduzido e levado para esse lugar na nave do U2.

Peraí, não acabou! Tem ainda ‘Ultraviolet’, ‘With or Without You’ e ‘Moment of Surrender’, a melhor música do disco novo. Fim do show, as luzes se acendem e, paradoxalmente, é o momento que o palco-monstro parece finalmente adormecer. As pessoas começam a se dirigir para a saída, ainda estupefatos com o que acabou de acontecer. Sim, foi apenas um show de rock. Um dos últimos, talvez, já que a geração da internet não parece estar muito preocupada em construir ídolos. Eles não sabem o que estão perdendo.

Desculpe se o texto foi muito longo, eu disse que estava com dificuldade para descrever o que aconteceu na noite de domingo. Se eu pudesse resumir, diria apenas: não perca o show de quarta-feira: U2 só existe One.


Matéria sobre o show do U2 exibida pela TV Estadão

comentários (81) | comente

  • A + A -
Kathryn Bigelow, diretora de \'Guerra ao Terror\', comemora os Oscars em meio aos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin

Kathryn Bigelow, diretora de ‘Guerra ao Terror’, comemora os Oscars em meio aos apresentadores Steve Martin e Alec Baldwin

Mais uma noite de Oscar, mais uma noite que entra para a história do cinema e da cultura mundial. O grande destaque, na minha opinião, foi o prêmio de Melhor Diretora para Kathryn Bigelow, realmente merecido por ‘Guerra ao Terror’, ainda mais na véspera do Dia da Mulher. Mas confesso que fiquei frustrado pelo pouco caso da Academia com ‘Avatar’, simplesmente por uma única razão: se um filme pudesse ser um personagem, ‘Avatar’ seria o herói que salva a indústria do cinema e fica com a mocinha no final.

Mas vamos ao começo, já que Oscar é sempre uma noite longa e muito especial (o que eu, particularmente, adoro). Tem gente que reclama, ‘ah, mas é uma cerimônia muito chata, muito longa’. Tudo bem, ninguém é obrigado a ver. Se não gosta do Oscar, vai ver o Big Brother. A Globo, aliás, fez uma coisa ridícula ontem: meia-noite, duas horas depois do início da transmissão do Oscar, e a emissora mostrando Big Brother. “Ah, mas dá mais ibope.” Então é melhor vender os direitos de transmissão do Oscar na TV aberta para outra emissora… Impedir quem gosta de ver o Oscar e não tem TV a cabo é sacanagem. Ainda mais para ver Big Brother, um programa que já deu o que tinha que dar. (E não estou falando da apelação sexual desta edição, embora tenha soado assim… bom, deixa pra lá.)

Eu vi na TNT, porque confesso que gosto da transmissão deles. A Chris Nicklas foi excelente e divertida comentando a chegada das estrelas no tapete vermelho, a tradutora é ótima (embora eu ache absurdo não ter a opção de tecla SAP) e os comentários do Rubens Ewald Filho são muito bons por uma simples razão: o cara é uma verdadeira enciclopédia.

Vamos começar a comentar os prêmios: Ator Coadjuvante, para Christoph Waltz, de ‘Bastardos Inglórios’, era uma barbada tão grande que quem fez bolão deve ter ficado empolgado. A atuação desse cara no filme do Tarantino (o melhor dele, aliás, desde Pulp Fiction, já que acho os dois ‘Kill Bill’ meio chatos) é de tirar o chapéu (ou o capacete nazista, no caso). Como é bom ver uma performance desse nível, não? O ator austríaco foi sensacional. Stanley Tucci corria por fora em ‘Um Olhar do Paraíso’, e deve receber um Oscar em breve porque também é um excelente ator.

Uma das melhores piadas da cerimônia foi feita por Steve Martin, que dividiu o palco com Alec Baldwin. Depois de entregar o prêmio a Waltz, que faz o papel de um dos nazistas mais cruéis da história do cinema, Martin virou para ele e disse assim: “Você não queria acabar com os judeus? Então faça a festa”, apontando para a plateia do Oscar, insinuando que a comunidade judaica manda em Hollywood. Eu adorei o formato de dois apresentadores, primeiro porque gosto de Martin e Baldwin e acho que eles funcionaram juntos. E também porque duas pessoas permitem aqueles sketches de três tempos que a TV americana sabe fazer tão bem: um fala uma coisa, o outro levanta a bola, o primeiro finaliza. É simples, mas quando é bem feito (e no Oscar é lógico que seria bem feito, já que há alguns dos melhores roteiristas do mundo) funciona muito bem.

A melhor Atriz Coajuvante foi Mo’Nique, de ‘Preciosa’. Não posso comentar a atuação especificamente, porque infelizmente não consegui ver o filme a tempo. Mas a maneira com que ela foi aplaudida de pé pelos colegas no Kodak Theatre mostra que ela realmente mereceu. Só pelo clipe que o Oscar mostrou do filme já deu para ver que a performance dela era, para dizer o mínimo, explosiva. Penélope Cruz merecia um Oscar pela beleza (não sei o que ela viu no Javier Bardem, embora 11 em cada 10 mulheres digam que ele é lindo, maravilhoso, ‘homem de verdade’, etc. Elas reclamam dos homens metidos a machão… mas o Javier Bardem pode. Vai entender).

Animação: estava na cara que Up ia ganhar, até porque ele concorria até na categoria de Melhor Filme (isso não acontecia desde ‘A Bela e a Fera’ em 1991). E foi merecido mesmo: ‘Up – Altas Aventuras’ é delicado, inteligente, tem uma história linda e divertida. Se alguém ainda tinha dúvida de que animação pode ser tão criativa e importante para o cinema quanto um filme normal, tem que ver ‘Up’. Ou ‘Toy Story’ 3D, que vi há alguns dias com minha filha, e que é tão bom quanto qualquer clássico do cinema. Confesso que não gostei muito de ‘A Princesa e o Sapo’, produção da Disney que também concorria na categoria. Não, não foi pelo fato de ela ser 2D em um mundo cada vez mais 3D. Achei que algumas cenas eram muito escuras (a do pântano, por exemplo) e o filme cansa um pouco (informações baseadas na opinião da minha crítica infantil favorita, Bebel Machado).

Filme estrangeiro foi a categoria que mais me revoltou. Não vi o filme vencedor, o argentino ‘O Segredo dos Seus Olhos’ (é a segunda vez que os argentinos ganham; eles venceram com ‘A História Oficial’, em 1985; o Brasil fica inscrevendo filmes com ideologias/apologias ultrapassadas e nefastas, é isso o que acontece. Pelo menos temos mais Copas do Mundo que os hermanos).

A verdade é que o vencedor deveria ter sido ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. Como eu posso dizer isso sem ter visto o vencedor? Simples: Michael Haneke é o melhor diretor da atualidade, seu filme venceu a Palma de Ouro (que entende bem mais de filmes estrangeiros que a Academia) e… sou fã dele, pronto. Veja minha crítica sobre o filme aqui, se quiser saber outras razões.)

Não vou comentar os prêmios puramente técnicos por uma simples razão: ninguém se importa. Quer dizer, eles são muito importantes para os profissionais da indústria, mas para o grande público não interessa se ‘Guerra ao Terror’ ganhou Melhor Edição de Som ou se ‘Star Trek’ ganhou melhor Maquiagem (os dois ganharam). Torci para ‘Star Trek’ perder só para nunca mais eu ter que ver aquelas orelhas do Spok. Nerds e trekkers devem estar felizes.

Efeitos Visuais e Direção de Arte foram para ‘Avatar’, lógico. Roteiro adaptado foi para ‘Preciosa’, baseado no livro ‘Push’ (ô historinha desgraçada, aliás). Roteiro original foi para ‘Guerra ao Terror’, o que achei injusto. Em primeiro lugar porque o roteirista Mark Boal está sendo acusado de basear a história do filme em um personagem real do exército americano que ele conheceu no Iraque, já Boal é um jornalista que cobria a guerra no país. Em segundo porque para um filme de guerra ter o melhor roteiro tem que ser muito diferente, não? E Guerra ao Terror tem um pouco de ‘Falcão Negro em Perigo’, misturado com ‘Platoon’, ‘Full Metal Jacket’ (Nascido para Matar, do Kubrick) e mais meia dúzia de filmes onde o que muda é apenas o cenário/campo da batalha. Melhor seria ter vencido ‘Bastardos Inglórios’, a trama mais criativa do ano. Tarantino reescreveu a história e deu um final mais ‘justo’ (no meu ponto de vista, claro) para Hitler. Vi o filme em Nova York e a plateia levantava no final para bater palmas como se fosse a final de um campeonato. Grande Tarantino.

The Weary Kind, do filme ‘Coração Louco’, ganhou como Melhor Canção. Para mim, é apenas mais uma música country. Não podemos esquecer que essa é uma premiação americana, talvez o único lugar do mundo (fora o interior de São Paulo) onde tem gente que ainda ouve country. Eu estava torcendo para uma das duas canções da animação ‘A Princesa e o Sapo’, Almost There e Down in New Orleans, dois sons bem jazzy, à la big bands, até para marcar um renascimento de New Orleans pós-Katrina. A Melhor Trilha Sonora foi para Up, realmente muito bonita. Ainda bem que ‘Sherlock Holmes’ não ganhou nada, um filme chatíssimo que algumas pessoas gostaram – não sei por quê.

Sandra Bullock: Ela ganhou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz do ano, e o Oscar, como a Melhor Atriz. Quem está certo?

Sandra Bullock: Ela ganhou o Framboesa de Ouro como Pior Atriz do ano, e o Oscar, como a Melhor Atriz. Quem está certo?

Vamos agora às duas categorias mais importantes da noite (não para mim, mas para o público): Melhor Atriz e Melhor Ator. Gostei das duas escolhas. A Melhor Atriz foi Sandra Bullock, por seu papel em ‘Um Sonho Possível’. É claro que ela não é melhor que Meryl Streep, que concorria por ‘Julie & Julia’, nem que minha adorada Helen Mirren, de ‘The Last Station’. Mas a Academia adora premiar ‘All-American Girls’ como Sandrinha (olha a intimidade). Eles fizeram isso com Reese Whiterspoon em ‘Johnny & June’, em 2006: é um prêmio para uma estrela corajosa que se aventura em um papel, digamos, mais ‘artístico’. Além disso, Sandrinha estava linda ontem. Ela tem um quê de girl next door que me atrai bastante. Não, eu não sou apaixonado por nenhuma vizinha. Mas é que é um tipo de garota que poderia, realmente, ser sua vizinha, uma pessoa normal e, ao mesmo tempo, muito bonita. Quer dizer, se Sandra Bullock fosse minha vizinha, aí a gente poderia ver se… deixa pra lá.

O Melhor Ator foi Jeff Bridges, que eu acho que deveria ter recebido o Oscar por um papel que fez em 1998: ‘O Grande Lebowski’, até hoje um dos meus filmes favoritos dos irmãos Joel & Ethan Coen. Me falaram que Colin Firth está muito bem em ‘O Direito de Amar’, dirigido pelo estilista Tom Ford, e George Clooney… bem, ele é sempre George Clooney, que concorria por ‘Amor sem Escalas’. Mas Jeff Bridges no papel de um cantor de country decadente ganhou o prêmio que não deram a Mickey Rourke no ano passado, por ‘O Lutador’. Acho que Bridges tem mais amigos que Rourke – é só olhar para os dois que é fácil descobrir por quê.

Jeff Bridges, o Melhor Ator: Hollywood adora decadence avec elegance

Jeff Bridges, o Melhor Ator: Hollywood adora decadence avec elegance

Quanto aos prêmios mais importantes, Melhor Filme e Melhor Diretor, fiquei frustrado. Os favoritos eram James Cameron, por ‘Avatar’, e sua ex-mulher, Kathryn Bigelow, por ‘Guerra ao Terror’. Kathryn ganhou os dois. Não gostei: acho que ela deveria ter vencido como direção, até porque uma mulher nunca havia vencido nessa categoria (e nem há tantas mulheres diretoras assim) e porque era um filme difícil, produzido na Jordânia, violento, extremamente masculino. E ela fez um filmão.

Mas o Melhor Filme do ano deveria ter sido ‘Avatar’, simplesmente porque ele está salvando a indústria do cinema. O filme já bateu todos os recordes de bilheteria da história, o que deveria ser importante para Hollywood, já que é uma premiação da própria indústria. Acho que foi inveja de James Cameron, que já tinha ganhado 11 estatuetas por Titanic e quebrado todos os recordes de bilheteria na época. Eu não acho Avatar o melhor filme do ano, na minha opinião teria vencido ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke. Mas acho que é o filme mais importante do ano: se você viu Avatar em um cinema iMax 3D (infelizmente só existe uma sala em São Paulo), você sabe do que eu estou falando. Tudo bem, a história é maniqueísta e a mensagem eco-bom-selvagem já é velha desde a época do Rousseau. Mas é que a experiência ‘Avatar’ representa uma volta ao cinema e à tela grande, ao convívio social e às sensações que não podem ser reproduzidas em casa, nem no melhor dos home theatres. E outra coisa muito importante: a tecnologia é tão avançada que não pode ser copiada facilmente, portanto ninguém quer ver o DVD pirata de ‘Avatar’. E isso força as pessoas a irem ao cinema, como nos velhos tempos. E isso, na minha opinião, pode salvar a indústria do ponto de vista comercial e institucional. ‘Guerra ao Terror’ é um excelente filme, mas apenas isso: um excelente filme. ‘Avatar’ olha para frente, olha para o que pode ser feito e abre milhões de possibilidades. A Academia foi muito convencional e pode ter dado um tiro no pé.

(Se esse tiro no pé fosse em 3D, teria atraído muito mais gente ao cinema.)

Ben Stiller maquiado como personagem de 'Avatar': O filme ganhou apenas três das nove categorias a que foi indicado

Ben Stiller maquiado como personagem de ‘Avatar’: O filme ganhou apenas três das nove categorias a que foi indicado

comentários (34) | comente

  • A + A -

A Fita Branca

A primeira vez que vi um filme de Michael Haneke foi em 1999, dois anos depois do lançamento de ‘Violência Gratuita’. Li uma boa crítica a respeito do filme que me deixou bastante curioso, e em uma visita à locadora vi o DVD do filme à venda em uma promoção. Como o preço era quase o mesmo da locação, comprei o DVD e cheguei em casa ansioso para ver se o filme era mesmo tudo aquilo.

Não é um filme fácil, muito pelo contrário. É um filme violento, agressivo, que choca quem não está preparado. Pelo jeito, eu não estava: quando o filme acabou, fiquei tão revoltado que voltei à locadora e exigi que o atendente o trocasse por outro. Ele concordou. Ainda tive que desembolsar um dinheiro extra para voltar para casa com a edição especial de ‘Scarface’. Eu nunca mais queria ver Michael Haneke de novo.

No dia seguinte, comecei a pensar no filme. Até que era interessante, uma abordagem bastante inovadora e complexa da violência. Os personagens não tinham muita emoção, eram muito cerebrais. Era um filme muito inteligente, não sei como não vi isso assim que o filme acabou. Passei o dia pensando no filme, nos diálogos perturbadores e verdadeiros, no pequeno detalhe de uma situação em que os protagonistas ‘voltam’ a cena apertando uma tecla do controle remoto… Quando saí do trabalho, voltei à locadora e comprei o filme de novo. Agora eu estava preparado para Michael Haneke.

Tudo isso para dizer que ‘A Fita Branca’ (Das Weisse Band), o novo filme dele, estreia amanhã e é um dos filmes mais sensacionais que vi nos últimos anos. É estranho dizer isso numa época em que Avatar-Imax-3D bate todos os recordes de bilheteria, já que o filme de Haneke é uma jóia em preto e branco sobre uma pequena aldeia na Alemanha pré-nazismo.

Mas é exatamente isso que faz do filme essa preciosidade. Ele é filmado com uma perfeição digna do grande mestre que Haneke é. Seu preto e branco tem nuances de azul e sépia que transformam o filme em algo único, extremamente belo. O que é um contraste em relação à história, bastante cruel.

O filme traz uma série de situações de crueldade que podem ou não terem sido cometidas por um grupo de crianças. Como todos os filmes de Haneke, os personagens são contidos, sofrem em silêncio ou são vítimas de atrocidades sobre as quais não querem (nem conseguem) reagir. É um reflexo da geração que levaria ao mundo o projeto de poder de um monstro como Hitler, mas nem por isso o filme é antinazista. Ele é mais como um documento de que a violência pode nascer em qualquer lugar, dentro de qualquer ser humano, não importa se a felicidade está presa ao presente apenas por um fio de vento gelado.

Digo que o filme não é antinazista, mas reforço a tese de que ele é totalmente anti-autoritário, o que obviamente não é a mesma coisa. Ele poderia ter sido feito em outro país e outra época, mas não teria a mesma força. Sabemos que Haneke é austríaco, sabemos que o nazismo nasceu na época do filme. E isso é um cenário subentendido extremamente poderoso, porque provoca uma tensão ainda maior que aquela a que estamos acostumados quando vemos um filme de Haneke. E esse é seu melhor filme: não foi à toa que venceu a Palma de Ouro em Cannes e caminha para levar fácil, fácil, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Assisti ‘A Fita Branca’ no festival de cinema de Nova York, quando tive a oportunidade de conhecer Michael Haneke. Ele respondeu a algumas perguntas no evento, com uma serenidade tão tranqüila que é difícil imaginar que aquele homem alto, magro, de aparência tão comum seria capaz de criar análises tão profundas do comportamento do ser humano. Stanley Kubrick, meu maior ídolo, já dizia que o ser humano é mau e que sua essência é destrutiva. Haneke parece confirmar a tese, independente de ideologias e dogmas patrióticos. Como tenho feito com todos os filmes de Haneke, também pretendo comprar o DVD assim que chegar às lojas. E não tenho a menor intenção de trocá-lo, nunca, por nenhum outro. Eu nunca estive tão preparado para guardar mais um Haneke na minha prateleira.

Filmografia de Michael Haneke

A Fita Branca (2009)
Violência Gratuita (versão americana, 2007)
Cachê (2005)
Tempos de Lobo (2003)
A Professora de Piano (2001)
Código Desconhecido (2000)
Violência Gratuita (1997)

FM - Michael Haneke

comentários (7) | comente

  • A + A -

Peter Gabriel
Peter Gabriel: Artista de vanguarda desde os tempos do Genesis

Sei que ‘lindo’ é um adjetivo meio, digamos, sensível demais para descrever um disco, mas vamos lá: ‘Scratch my Back’, de Peter Gabriel é um disco… lindo.

O projeto é interessante, e o próprio cantor detalha no encarte: “Escrever canções foi o que me atraiu para o mundo da música. O processo de criar uma boa canção me parecia excitante e mágico. Há muito tempo que eu quero gravar algumas das minhas canções favoritas de outros compositores, focando mais no meu lado intérprete do que no lado compositor”, diz Peter.

“No entanto, ao contrário de gravar um disco de covers, achei que seria mais interessante criar um novo tipo de projeto em que os artistas comunicassem entre si, trocando canções. Eu gravaria a canção de um artista, ela gravaria uma minha. Foi aí que nasceu o nome do projeto.”

(‘Scratch my Back’, nome do disco, é uma expressão popular em inglês que significa ‘você coça minhas costas, eu coço as suas.’)

Como Peter mesmo explicou, é um disco com canções de outros artistas. Mas seria injusto com ele e com o produtor, Bob Ezrin, chamar o projeto de um disco de covers. Em primeiro lugar, é bem difícil reconhecer as canções porque elas estão totalmente diferentes do original – e isso é o grande trunfo do disco.

O repertório é o seguinte:

‘Heroes’ (David Bowie)
‘The Boy in the Bubble’ (Paul Simon)
‘Mirrorball’ (Elbow)
‘Flume’ (Bon Iver)
‘Listening Wind’ (Talking Heads)
‘The Power of the Heart’ (Lou Reed)
‘My Body is a Cage’ (Arcade Fire)
‘The Book of Love’ (The Magnetic Fields)
‘I Think it’s Going to Rain Today’ (Randy Newman)
‘Après Moi’ (Regina Spektor)
‘Philadelphia’ (Neil Young)
‘Street Spirit – Fade Out’ (Radiohead)

Não pense também que Peter cria versões baseadas em seu estilo de pop-adulto, como na maioria de seus discos pós-Genesis. As versões foram orquestradas com arranjos excelentes (Bob Ezrin é um conceituado produtor de música clássica, além de ter trabalhado com roqueiros como Gene Simmons, do Kiss, e David Gilmour, do Pink Floyd) e de muito bom gosto, o que deu origem a um disco original e cheio de climas.

Enfim, um disco… lindo.

comentários (10) | comente

  • A + A -

Richard Price/Ralph Gibson
Richard Price: O colega Dennis Lehane acha que ele é o melhor escritor de diálogos dos EUA. Quem sou eu para discutir?

Ao contrário da matemática, a literatura está longe de ser uma ciência exata. É por isso que, para gostar de um livro, pouco nos importa se o autor ganhou o Prêmio Nobel ou se ele foi considerado o melhor escritor do mundo pelo melhor crítico do mundo. O que nos toca, no sentido emocional – e até na influência sobre nossa capacidade de abstração do texto em si – é a linguagem. Gostamos de livros onde há uma identificação entre a narrativa do autor e a nossa forma de pensamento. É uma ligação muito próxima entre os olhos que correm as letras e o cérebro que as escreveu.

Escrever é ritmo, já disse alguém. E ler também, por consequência. Por isso acho tão importante encontrar autores com os quais me identifico, não apenas em termos de temática, mas principalmente em relação ao ritmo da narrativa.

Após esse início de texto chamado no jornalismo de ‘nariz de cera’ (‘enrolação de linguiça’ em português mais claro), pretendo falar sobre um dos livros que acabo de ler no feriado de início de ano: ‘Vida Vadia’, de Richard Price.

O tamanho assustou um pouco, já que é um tijolo de 500 páginas. Mas fiquei empolgado e o encarei porque li que a trama se passava em Manhattan, mais especificamente no Lower East Side, região onde fiquei hospedado recentemente durante minhas férias. O livro se passa numa época um pouco distante, levemente indefinida, provavelmente nos anos 80, quando a região ainda era um pouco detonada e o crime corria solto. Hoje Nova York é tão segura que mesmo nos locais citados no livro é difícil imaginar que havia uma degradação espalhada como uma metástase em um paciente terminal. ‘Vida Vadia’ é uma coleção de personagens ferrados, todos meio sem saída, presos a um dia a dia sem futuro e a um passado que seria melhor esquecer.

Voltando ao início do texto e à importância do ritmo no literatura, confesso que logo de cara achei a narrativa de Richard Price um pouco caricata e sem fluidez para um romance policial. Depois fui perceber que a culpa não era dele, mas minha, por ter lido a edição em português. Nada contra o excelente trabalho feito por Paulo Henriques Britto ou pela edição caprichada da editora Cia. Das Letras. O problema é da língua mesmo. Como traduzir what’s up, brother? sem cair no ridículo ou no, como se diz em português… fake? A expressão em português se tornaria algo como ‘e aí, brother?’ ou ‘como estão as coisas, irmãozinho?’, ou ‘fala, mano?’… Ou seja, tão difícil traduzir ‘Vida Vadia’ para o português como seria traduzir, sei lá, ‘O Invasor’ ou ‘Cidade de Deus’ para o inglês. É possível, mas não é crível, com o perdão da rima.

Apesar desse problema inicial, depois de assimilado o ritmo, o livro engata uma segunda e fica bastante interessante. Violento, sujo, intenso, cortante são alguns dos adjetivos que eu poderia aplicar a ele. Os diálogos são sensacionais, como aponta o também famoso escritor Dennis Lehane na orelha: ‘Richard Price é o maior escritor de diálogos, vivo ou morto, que este país jamais produziu. Maluco, profano, hilário e trágico, às vezes tudo isso numa única frase’.

Meio exagero, mas tudo bem… afinal, quem sou eu para discutir com o autor de ‘Sobre Meninos e Lobos’? O livro de Price, inclusive, também deve ir parar rapidinho nas telas: esse professor de Yale que cresceu no Bronx já escreveu ‘Irmãos de Sangue’, dirigido por Spike Lee em 1995, e séries como ‘The Wire’ (HBO). Antes, em 1986, havia escrito o roteiro de ‘A Cor do Dinheiro’, indicado ao Oscar pelo filme com Paul Newman e Tom Cruise, dirigido por Martin Scorsese.

É bem provável, portanto, que ‘Vida Vadia’ esteja em breve nas telas. A trama é simples, poderia ocupar bem menos papel. Mas Price gosta de passear por Nova York, ir e voltar aos lugares, como fazem os policiais de seus romances (e alguns criminosos também, já que ‘todo criminoso volta ao local do crime’). O livro é baseado na descrição de algumas histórias simultâneas (eu poderia usar a palavra ‘cenas’ com a mesma propriedade), todas decorrentes do assassinato de Ike Marcus. O jovem barman saía de um bar acompanhado por outros dois amigos quando foi morto após reagir a um assalto. Entram em cena a complicada família da vítima, os dois amigos que sobrevivem, dezenas de imigrantes ilegais, donos de bares ‘risca-faca’, bandidos de várias etnias (os adolescentes negros com medalhões no peito são tão reais que você acredita que eles vão brotar das páginas como hologramas para cantar um rap na sua cara), e, claro, os policiais (honestos e desonestos). ‘Vida Vadia’ é um livro sobre uma investigação policial; detalhado, vivo, elétrico, perigoso.

Apesar do livro ser longo, quando as letras The End surgiram ao final confesso que fiquei com aquele gostinho de ‘quero mais’. Se não for transformado logo em filme, vou ter que esperar ansioso pelo próximo livro de Richard Price. Será que vem aí ‘Vida Vadia 2′?

comentários (16) | comente

  • A + A -

Hanif Kureishi

Filho de mãe inglesa e pai paquistanês, o autor Hanif Kureishi, de ‘Tenho Algo a te Dizer’, tem um texto muito interessnte. Seus personagens são engraçados e profundos, o que nos deixa em dúvida constantemente, sem saber se é hora de rir ou, simplesmente… pensar. Eu recomendo.

1 Comentário | comente

  • A + A -

John Lasseter

John Lasseter revolucionou a história do cinema em 1995, ao dirigir o megassucesso de animação ‘Toy Story’. Depois, vieram ‘Vida de Inseto’, ‘Carros’… Hoje, ele é o diretor criativo da Pixar e cérebro por trás de filmes como ‘Up – Altas Aventuras’. Você já viu?Está em cartaz e vale a pena, não interessa a sua idade. Minha filha de dois anos e meio adorou: o pai dela também… e todo mundo que estava no cinema. John é um dos caras mais talentosos do planeta.

comentários (5) | comente

  • A + A -

Robert Rey
Robert Rey usa umas roupas esquisitas, mas parece ser um cara gente fina

Um cara conhecido como ‘Dr. Hollywood’ só pode ser uma celebridade. O cirurgião plástico Robert Rey, estrela de um reality show da TV norte-americana que está sendo exibido aqui pela RedeTV!, é um paulista nascido em uma família pobre na Lapa, em São Paulo, que hoje fala português com sotaque ‘amerrricannno’ (o nome verdadeiro é Roberto Rey, claro). Aos 11, ele foi morar nos Estados Unidos após ser levado para lá por um grupo de missionários – e acabou se dando bem: além de milionário, ele é formado pela Harvard University e tem uma das clínicas mais procuradas de Beverly Hills, o bairro mais VIP da Califórnia.

Tudo bem, ele usa umas roupas meio estranhas e tem um jeito meio afetado. Mas o que acho legal é que ele já se dispôs a participar de campanhas sociais no Brasil, como o ‘Médico do Bem e dos Carentes’. Seria uma espécie de ‘Dr. Robin Hood’, como ele mesmo gosta de se definir. Outra coisa legal é que ele já se colocou a serviço do Hospital de Câncer de Barretos para ajudar na reconstrução estética de pacientes carentes e contribuir em cirurgias infantis. Também já prometeu que vai atuar com ONGs que trabalham com meninos de rua, até porque ele já sofreu isso na pele: hoje milionário, o cara chegou a cometer pequenos furtos quando era criança. Ou seja: é um exemplo legal.

Abaixo, entrevista com Robert Rey enviada pela minha amiga Karina Klinger.

O que as mulheres esperam hoje da cirurgia plástica?
Se você ganhou cinco quilinhos, não deve correr para a cirurgia plástica imediatamente. Por incrível que pareça, sou contra a cirurgia plástica como primeira escolha. Hoje em dia a mulher é muito profissional, supera o homem, mas a sua auto-estima está baixa demais. Rejeito 90% das pacientes que vêm a minha clínica, porque geralmente elas estão bem e nem precisam de cirurgia. Quantas vezes entra pela porta uma mulher de 1,80 metro e 50 kg implorando por uma lipoaspiração? Elas podem pagar cinco mil dólares pela consulta, mas não precisam de nada. São perfeitas e deprimidas.

Mas isso não vai contra o seu negócio, que é fazer cirurgias?
Não quero mais fazer cirurgias como fiz a vida toda. Acho que hoje a tecnologia é o futuro para pequenos retoques, como a maioria das mulheres deseja. Há luzes poderosas, técnicas para enxugar, encolher, reafirmar até 15 cm de pele de braço, como eu já vi, sem precisar usar o bisturi. Tenho as minhas técnicas e quero aplicá-las, por exemplo, para reconstruir rostos de crianças e incluí-las na sociedade.

Você está envolvido em projetos sociais?
Sou um Robin Hood da cirurgia plástica. Desenvolvo uma série de projetos pelo mundo que me dão muito prazer. É como se tirasse dos ricos para dar aos pobres, mas no bom sentido. Aqui quero trabalhar com o Hospital de Câncer de Barretos. Soube que vão construir um hospital oncológico infantil com base no St. Judes Hospital, de Los Angeles, que conheço muito bem. É referência no mundo para tratar crianças e eu vou colaborar fazendo a minha parte.

Você trabalha com beleza e parece ser um homem vaidoso. Você se considera um metrossexual?
Esse visual é meu uniforme de Hollywood. Mas sou Hollywood apenas até a última peça de roupa. Há mulheres que vêm do mundo inteiro para a minha clínica e, por respeito a elas, acredito que preciso estar sempre bem. O mínimo que posso fazer para mostrar respeito é manter um visual legal.

comentários (34) | comente

  • A + A -

Jon Alpert

Jon Alpert é um dos documentaristas mais premiados do mundo. Estou dizendo que ‘eu queria ser esse cara’ apenas retoricamente, porque eu nunca teria coragem para acompanhar guerras e conflitos como ele, de peito aberto e, na maioria das vezes, do lado de lá, ou seja, no mesmo campo de batalha que os inimigos dos Estados Unidos, os ‘bad guys’.

Alpert esteve em São Paulo para ministrar um curso na Academia Internacional de Cinema e para um projeto de documentário em Dourados, no Mato Grosso do Sul(detalhes abaixo). Alpert já ganhou três Primetime Emmy Awards, onze News & Documentary Emmy Awards e um National Emmy. Ele foi o único repórter a ganhar prêmios Emmy também por seu trabalho técnico como câmera e editor. Em 39 anos de carreira, Alpert realizou documentários para o canal PBS (rede pública dos EUA), NBC e HBO. Ele acumula várias ‘medalhas’: foi o primeiro repórter americano a entrar no Camboja depois da Guerra do Vietnã; o primeiro repórter de TV a entrar no Afeganistão; o único não-cubano a entrevistar Fidel Castro quando ‘El Comandante’ discursou na ONU. Da União Soviética, fez as primeiras reportagens sobre a Perestroika e a Glasnost de Gorbachev; estava na China durante o massacre na Praça da Paz Celestial; entre 1993 a 2002, foi o único repórter a entrevistar Saddam Hussein.

A seguir, depoimento que ele me deu durante uma entrevista para a TV Estadão. Se preferir ver o vídeo, clique aqui.

Índios em Dourados: culto suicida ou assassinatos em série?

Há 12 anos eu ouvi falar de um culto suicida de uma tribo indígena em Dourados, no Mato Grosso. Essas pessoas eram tão tristes que estavam cometendo suicídio, se enforcando. Enviei um amigo para investigar o assunto e ele disse: é verdade, os índios estão morrendo, estão enforcados em árvores. Mas não parece suicídio, parece assassinato porque eles estavam se enforcando sentados, pertinho do chão. Parecia que alguém estava matando os índios e simulando os enforcamentos. Na época, passei uma semana na reserva investigando o assunto. Semana passada eu voltei lá, porque ainda não estava claro o que havia acontecido. Não há mais enforcamentos, mas o índice de suicídios e assassinatos ainda é muito alto, há uma grande disputa pela terra entre índios e fazendeiros.

Filmando no campo de batalha

Nos velhos tempos, quando fui a guerras em que os Estados Unidos estavam envolvidos, geralmente eu estava do outro lado e os americanos estavam atirando em mim ou ajudando as pessoas que estavam atirando em mim. Por exemplo, na Nicarágua, eu estava com os Sandinistas, e os americanos estavam ajudando os Contras. Era uma sensação muito estranha, porque as bombas que estavam caindo sobre a minha cabeça haviam sido pagas com o dinheiro dos meus impostos. Na primeira Guerra do Golfo, entrei para a lista negra do governo por causa das minhas reportagens. Quando os bombardeios começaram, fui o único repórter a permanecer em Bagdá e filmei coisas que nem o governo do Iraque nem o governo dos Estados Unidos queriam que eu filmasse. E fiz isso de maneira independente, enquanto as bombas americanas estavam caindo. Na segunda Guerra do Golfo, muitos repórteres começaram a trabalhar com as tropas americanas, e eu nunca havia feito aquilo. Mas fiz um documentário chamado ‘Bagdá E.R.’, filmado dentro de uma sala de emergência de um hospital militar no Iraque. Se você leva um tiro na guerra, eles te levam para esse hospital. Há muitas amputações, muitas cenas fortes. Achei que o exército me impediria de filmar, mas eles foram muito compreensivos, fiquei surpreso. Então, pela minha experiência, é possível fazer um bom trabalho com ou sem o apoio do exército. Os solados respeitam meu trabalho. O problema foi o governo Bush, que tentou impedir a exibição do documentário. Eles chegaram a ligar para a HBO para tentar proibi-lo, mas a emissora rejeitou a pressão e o exibiu mesmo assim.

Documentários: O estilo ‘Michael Moore’

Acho que há espaço para documentários de todos os estilos, e esse é o estilo dele. É muito eficiente porque Michael Moore sabe como misturar entretenimento e propaganda. Seus filmes são perfeitos para pessoas que já tem uma ideia prévia sobre determinado assunto. Eu faço documentários para minha mãe, para gente que quer criar uma opinião a partir do zero. Tenho um estilo mais linear, não gosto de revelar ao público o que estou pensando. Quando fizemos o documentário sobre o Iraque, as pessoas não sabiam o que eu estava querendo dizer. Mas no final do filme o público entende como essa guerra é sangrenta, como é alto o preço que estamos pagando para estar lá. Bush escondeu tudo isso. Enfim, há vários estilos de documentários, cada um tem que descobrir o seu. Michael Moore só ganha mais dinheiro, só isso.

Iraque e Afeganistão: novos Vietnãs?

Essas guerras têm semelhanças e diferenças. Vietnã foi uma guerra de independência. Eles queriam ser livres da França, dos Estados Unidos. Iraque é um pouco diferente, mas uma coisa é igual: por que o exército mais poderoso do mundo foi vencido pelo Vietnã? Os americanos não gostam de admitir, mas nós perdemos aquela guerra. Fui o primeiro repórter de TV a visitar o Vietnã depois da guerra. Eu estava filmando em um campo de arroz, havia várias mulheres trabalhando. Para conseguir uma boa tomada, arregacei as calças e entrei na água. Logo depois, várias sanguessugas começaram a subir pela minha perna. Eu fiquei louco! Mas aquelas mulheres estavam tranqüilas, no meio do rio, como se nada estivesse acontecendo. Foi aí que percebi que elas estavam em casa, acostumadas com aquilo, e eu tinha vindo, sei lá, de Marte. Não era a minha casa. Eles estavam defendendo a terra deles, por isso eles nos venceram. O Afeganistão é um país que ninguém nunca dominou até hoje, desde o Alexandre, o Grande. Vieram os britânicos, os russos, e agora nós estamos lá. Se alguém quisesse ter uma bandeira para lutar essa guerra, deveria ser a defesa dos direitos universais das mulheres. Enquanto o Talibã estiver no poder, as mulheres nunca terão nenhum direito.

Fidel Castro: ‘Atencioso com a imprensa’
Fidel foi muito interessante, era um líder muito atencioso com a imprensa. Se você pedisse para ver o quarto dele, era permitido. Se você quisesse tomar uma cerveja com ele, tudo bem. Ele faria qualquer coisa para ser simpático. Gostei muito de ter essas experiências com ele.

China: Praça da Paz (e Guerra) Celestial

Quando todo mundo estava na praça da paz celestial, nós estávamos no sul da China, em Guantxô, Shanghai. Éramos as únicas câmeras nesses lugares. Em Shanghai, as pessoas dominaram totalmente a cidade. Vimos o governo lutando para retomar o controle, era possível ver as pessoas sendo agredidas e assassinadas nas ruas. Durante pelo menos uma semana, o futuro da China ficou por um fio: poderia tanto ir para o lado do governo quanto o dos manifestantes, foi muito impressionante.


União Soviética desunida

Foi uma época muito interessante porque era possível sentir a mudança no ar. Um sistema que estava em vigor há 60 anos ficou de cabeça para baixo em pouquíssimo tempo. As pessoas estavam muito empolgadas, pensavam que a vida teria novas oportunidades. Hoje é uma situação diferente, há um controle de novo, agora exercido por Putin. Na época, me lembrava os Estados Unidos dos anos 60, quando os jovens achavam que era possível mudar o mundo.

O início em Nova York

Criamos a DCTV em 1972 e tínhamos apenas uma câmera. Queríamos apenas melhorar a vida no nosso bairro. Tínhamos problemas com escolas, hospitais, desemprego. Começamos a fazer documentários sobre esses assuntos para chamar a atenção das pessoas e tentar resolvê-los. Isso era antes da TV a cabo, da internet… Então você imagina que faz um bom tempo. Eu tinha um caminhão com dois monitores de TV do lado de fora e ficava exibindo os nossos filmes. As pessoas começaram a discutir esses temas, a conversar, então usamos isso como forma de organizar a sociedade. Hoje nem sei quantas câmeras temos. A equipe tem cerca de 40 pessoas, mais 250 alunos no programa de estudantes. Também temos estágios, se alguém quiser vir a Nova York para trabalhar conosco na DCTV. Temos sete alunos de São Paulo. Basicamente, ainda fazemos a mesma coisa, mas numa escala um pouco maior.

1 Comentário | comente

  • A + A -

Jimmy Page - Les Paul Standard Sunburst

Nenhuma imagem é tão representativa para o rock and roll quanto a de Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, solando com um cigarro na boca e uma Les Paul alaranjada (sunburst) pendurada no pescoço. O modelo da guitarra, que depois voltaria a ficar muito popular graças ao sucesso de Slash, do Guns ‘N’ Roses, foi criada por um mago. Um mestre. Um gênio, não apenas da música, mas da eletrônica.

Les Paul morreu hoje aos 94 anos. Dizer que eu queria ser esse cara não é apenas uma pretensão minha, mas o ideal de qualquer músico do planeta. Quem não gostaria de ter seu sonho imortalizado na beleza do design de uma guitarra Les Paul? Quem não gostaria de criar um ícone cultural perfeito? Quem não gostaria de assistir aos maiores artistas do mundo se divertindo e se expressando naquele instrumento que você concebeu numa salinha escura na pequena cidade de Waukesha, Wisconsin?

Les Paul

Les Paul continuou tocando até o fim de sua vida, sempre com personalidade e bom humor. Ele mantinha sua noite semanal no Iridium Jazz Club, pertinho do Lincoln Center, em Nova York. Na plateia era possível encontrar sempre algum músico famoso, que aparecia para curtir o show e acabava, invariavelmente, dando uma canja no palco. Não é exagero dizer que todo guitarrista do mundo era fã de Les Paul. No vídeo abaixo, Slash toca no show ‘Tributo a Les Paul’, um dos vários organizados em sua homenagem.

Mas por que a guitarra de Les Paul era tão incrível assim? Por que ela virou padrão em um mundo com tantas opções? Por várias razões, e não apenas por seu incrível design. A Les Paul, que o mestre construiu para a marca Gibson, trazia captadores duplos e corpo sólido bem mais pesado que o normal. Na época, fim dos anos 40, todo mundo tocava com instrumentos semi-acústicos, ou seja, ocas por dentro, algo no meio do caminho entre violões e guitarras elétricas. Traduzindo: os captadores são os aparelhos que eletrificam o som da guitarra; a Fender na época usava modelos simples nas suas guitarras Telecaster e Stratocaster. Os captadores parrudos de Les Paul geravam um timbre bem mais encorpado, pesado e ‘sujo’ que os single coils da Fender. Por isso, os guitarristas de rock se apaixonaram pelo modelo e isso, junto com as válvulas distorcidas dos amplificadores, deu origem ao rock and roll como conhecemos hoje, assim como suas vertentes mais pesadas.

O homem Les Paul nos deixa, mas sua guitarra continuará viva nos palcos de todo o mundo, eternamente. Enquanto houver um garoto com uma Les Paul pendurada no pescoço, o mestre continuará vivo. Não vou pedir um minuto de silêncio, muito pelo contrário. Les Paul adoraria que a gente aumentasse o som e fizesse o solo de guitarra mais alto do mundo, tão alto que ele poderia ouvi-lo lá de cima.

Slash no show ‘Tributo a Les Paul’

comentários (9) | comente

  • A + A -

Arquivos

Blogs do Estadão