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Felipe Machado

Nossa, já é Páscoa de novo. Cada ano que passa parece correr ainda mais rápido, como se o gargalo da ampulheta se alargasse e deixasse cair cada vez mais areia. Acho que é uma mistura da idade chegando com a rapidez da vida moderna. Ou então é porque nunca dá tempo de fazer tudo que a gente quer.

Um ano é um bom período de tempo para analisar como andam as coisas. Por exemplo, o que aconteceu na sua vida de um ano para cá? Pense na Páscoa de 2010: as coisas melhoraram ou pioraram desde então? Tomara que tenham melhorado. Até porque, se não melhoraram… a culpa é sua.

E a vida amorosa, como vai? Tomara que esteja tudo bem. Mas se, por acaso, o seu relacionamento está ruim há um ano… tudo leva a crer que ele vai continuar ruim. E que você vai sofrer mais um ano. Mude isso hoje, por favor. Só depende de você.

Um ano é suficiente para dar uma guinada na vida. Você tem pelo menos 365 chances para fazer isso. Não espere o meu post na Páscoa de 2012 para perceber que tudo poderia ser diferente desde agora.

Olhe para a pessoa que está ao seu lado. O que você fez por ela no último ano? Ou melhor, o que você fez por ‘vocês’? Talvez você não se lembre do número exato, mas quantas vezes vocês saíram para jantar de um ano para cá? Só isso? E aquele fim de semana a dois na praia, foram quantos? Na dúvida, divirta-se. A vida é muito curta. Só um parênteses: não é porque costumo falar aqui das coisas do coração que eu acho trabalho uma coisa menos importante. Por falar nisso, o que você apresentou de original ao seu chefe no último ano? Quantos projetos, novas idéias? Gente que se acomoda no trabalho é como gente que se acomoda no relacionamento: fica para trás.

Domingo de Páscoa é um bom dia para se pensar em uma nova vida. Faça como Jesus Cristo: ressuscite.

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É uma nave espacial? É uma arranha-céu? É uma aranha gigante? Não, é o palco do U2. A foto é de M.Rossi

Trabalho com as palavras há muito tempo e estou acostumado a usá-las para descrever as coisas. Algumas vezes, no entanto, as palavras não são suficientes, como se a realidade fosse tão espetacular que passar os olhos por letrinhas parecesse algo simplificado demais. É assim com grandes eventos históricos, por exemplo. É assim com sentimentos abstratos, com o perdão do pleonasmo conceitual. E foi assim com o show do U2.

Assisti à apresentação de domingo, e pelo que vi na imprensa, parece ter sido um show bem diferente do que aconteceu no sábado – e, provavelmente, bem diferente daquele que será a última apresentação da turnê brasileira, na próxima quarta-feira. Digo isso principalmente pelo setlist: não é incomum uma banda que faz mais de um show na mesma cidade mudar um pouco o repertório. Mas o U2 radicalizou, com várias canções diferentes entre os dois shows. O que mostra aquilo que todo mundo já sabe, mas que anda com um pouco de vergonha de dizer: o U2 é a maior banda do mundo.

Essa denominação não é apenas retórica de crítico de rock. Afinal, quando os Rolling Stones vem ao Brasil, eles são ‘a maior banda do mundo’. Quando o Radiohead vem ao Brasil, eles também são ‘a maior banda do mundo’. Mas isso é tudo uma grande bobagem, porque o U2 supera essas duas bandas em qualquer quesito. Tudo bem, confesso que sou fã de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. Mas não sou um fã cego.

Digo que o U2 é maior que os Rolling Stones (em importância e em relevância artística) não apenas porque eles têm hoje o maior palco já construído na história do showbiz. A grande diferença é que o U2 se preocupa em ser relevante musicalmente, ao contrário de músicos como Rolling Stones, AC/DC e até Paul McCartney, por exemplo. Note que não estou comparando esses artistas, cada um tem seu estilo e sua importância. Mas Stones, AC/DC e Paul não estão nos auges de suas carreiras há tempos, muito longe disso. Os artistas de hoje não se preocupam em criar obras-primas fonográficas, mas em lançar discos para viabilizarem turnês. Essa eu acho que é a grande diferença do U2: após 30 anos de carreira e mais de 100 milhões de discos vendidos, eles ainda se desafiam a fazer melhor do que já fizeram – e olha que isso não é fácil.

Tem gente que acha o disco ‘Boy’ o melhor da carreira do U2; tem gente que ama o ‘Achtung Baby’ (eu, inclusive). Mas não dá para dizer que ‘All That You Can’t Leave Behind’ é um disco lançado apenas para cumprir tabela; assim como ‘No Line on the Horizon’ pode ser apenas um disco mediano do U2, mas mesmo assim é melhor do que praticamente qualquer disco de qualquer banda lançado dos anos 2000 para cá. Não, eu não sou o tipo de crítico que tenta descobrir ‘a nova melhor banda do mundo’ todos os dias. Eu acho que o teste do tempo e da qualidade se impõe. Vamos ver onde estará o Arcade Fire e o Arctic Monkeys daqui a trinta anos. Mesmo o Radiohead, que é uma banda genial, não pode ser comparada com o U2. Radiohead está mais para um Pink Floyd pós-moderno, cheio de experimentações que nunca chegarão ao grande público. Pode agradar os mudérrnos, mas será que há muita gente que realmente se lembra de alguma música do Radiohead além de ‘Fake Plastic Trees’, que ficou famosa por ser trilha sonora de um comercial?

Duvido.

Mas chega de comparações porque música é arte, não campeonato de talento ou fama. Voltando ao início do texto, o motivo pelo qual eu senti dificuldades em encontrar palavras para descrever o show do U2 é um só: o palco da turnê 360 graus.

Vou tentar descrevê-lo, mas já peço desculpas pela eventual imprecisão. Bono diz que criou o palco colocando quatro garfos encaixados um no outro em cima de uma mesa; lenda ou não, é isso mesmo que parece. Só que esses garfos, na vida real, são tentáculos gigantescos que grudam no gramado como se toda a estrutura fosse uma nave espacial que acaba de pousar no centro do estádio. É um monstro. É uma aranha cibernética. É uma garra de alguma criatura que povoa nossos pesadelos mais sombrios. Resumindo: é o palco mais impressionante que já foi montado desde que alguém inventou um conceito chamado ‘show’.

O arranha-céu do U2 tem uma antena que projeta luzes até o céu; tem um telão circular que desce do topo da estrutura até o palco e praticamente encosta na cabeça dos músicos antes de subir de novo e virar novamente um telão. Mas a ideia mais genial por trás de toda essa megaestrutura é financeira: como o palco é circular e montado no centro do gramado, é possível vender todos os ingressos do estádio. Isso, para quem vive o dia a dia de turnês, sempre foi um problema. O palco era montado em uma extremidade do estádio, portanto não se podia colocar à venda os ingressos que ficavam atrás dele. Com o palco 360 graus isso muda: o U2 pode vender todos os ingressos de arquibancada, além da pista, todos com excelente vista a partir da plateia. É por isso que o Morumbi receberá 90 mil pessoas por noite, ao contrário de outros shows, que recebem ‘apenas’ 60 mil. Pequena diferença em termos de arrecadação, não? É por isso que essa turnê já arrecadou mais de US$ 500 milhões desde seu início, em Barcelona, em junho de 2009.

Por incrível que pareça, esse monstro que o U2 chama de palco é justamente o ponto mais negativo do show, se é que podemos dizer que há algum ponto negativo. Deixa eu tentar explicar: o palco é tão grandioso e chama tanto a atenção, que desvia um pouco a atenção do que é o melhor do U2: os quatro músicos e suas canções.

Por falar nisso, vamos voltar ao repertório. No sábado, os alto-falantes tocaram ‘Trem das Onze’ antes da introdução de ‘Space Oddity’, de David Bowie (‘Ground control to Major Tom…’). No domingo, foi ‘Minha Menina’, dos Mutantes. No sábado, o U2 homenageou as vítimas do massacre na escola do Realengo, colocando seus nomes no telão. No domingo, Bono e The Edge tocaram a inédita e belíssima ‘North Star’, que estará no próximo disco da banda.

(Quem ousaria tocar uma balada desconhecida para 90 mil pessoas, deixando de fora sucessos que chegaram ao topo das paradas em dezenas de países?)

Só acho que teve um outro pequeno ponto negativo do show, mas aí eu já falo descaradamente como fã. Eu achei que o setlist foi muito legal, variado, com músicas de todos os discos… mas eu teria escolhido outras músicas dos mesmos discos. Exemplo: a primeira música do show é ‘Even Better than the Real Thing’, mas na minha opinião deveria ser ‘The Fly’, que ficou de fora. Daí veio ‘Out of Control’, muito legal, antiga, uma ‘homenagem aos fãs’, segundo Bono (no sábado foi ‘I Will Follow). ‘Get on Your Boots’ é sensacional, uma música do último disco, mas que parece ter saído de alguma garagem dos anos 70: riff matador, vocal psicodélico. Outra nova, ‘Magnificent’, que eu acho meio chatinha. Eu preferia ‘Stand up Comedy’, mas tudo bem. ‘Mysterious Ways’ é outra do ‘Achtung Baby’, muito legal, The Edge mostrando por que é um dos grandes guitarristas da história do rock.

Deixa eu aproveitar e falar um parágrafo sobre o The Edge, vai. Todo mundo está de saco cheio do Bono porque ele aparece demais, etc, certo? Então façam como eu: concentrem-se no The Edge e vocês não se arrependerão. Bono está tentando melhorar o mundo, e o excesso de exposição é apenas o efeito colateral de uma fama tão grande. Continuo gostando do Bono, veja bem. Bono não é incrível porque chegou no Brasil e logo de cara comentou a tragédia do Rio e mostrou apoio ao projeto Ficha Limpa em encontro com a presidente Dilma Rousseff. Ele é demais porque ele se deu ao trabalho de saber o que é Ficha Limpa, se deu ao trabalho de ver o que é relevante no país que ele está. É fácil ser um rockstar, ficar doidão, pegar as groupies e destruir o quarto de hotel. Ser inteligente, culto e preocupado com a realidade é um pouco mais difícil.

Mas voltando ao The Edge (estou escrevendo em ciclos em homenagem ao palco da turnê – boa desculpa, não?), acho que ele realmente revolucionou a guitarra e digo o porquê. Até os anos 80 (e inclusive hoje em dia, dependendo do guitarrista), o instrumento sempre foi refém de maneirismos blueseiros, praticamente extensões do estilo de nomes como Jimi Hendrix e companhia. Os solos e os arranjos eram baseados totalmente em escalas pentatônicas ou escalas menores básicas. Dar um ‘bend’ (levantar a nota um tom acima) era o máximo da criatividade musical, apesar de ser uma contradição, já que é uma técnica roubada dos blueseiros americanos dos anos 40, por aí. Nomes como The Edge e Johnny Marr, do The Smiths, jogaram isso fora e começaram do zero. Criaram acordes em vez de solos; climas em vez de bases óbvias. O resultado é que a guitarra virou um instrumento muito maior, mais amplo, com mais possibilidades. A guitarra de The Edge é quase como um teclado, criando texturas e luzes para cada canção. The Edge é um Edgênio.

O show seguiu com ‘Elevation’ (u-uhu) e ‘Until the End of the World’, outra favorita do público. Até que veio o primeiro hino: ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’, do ‘Joshua Tree’. Linda, é completamente incrível ver uma canção gospel mezzo Harlem mezzo irlandesa tocada dentro de uma nave espacial pousada num estádio no Brasil. Globalização é uma palavra feia, mas o que ela representa conceitualmente é maravilhoso. Não preciso nem dizer que ‘Pride (In the Name of Love)’ trouxe o Morumbi abaixo, assim como ‘Beautiful Day’, o hit mais ‘good vibe’ do século 21. Tem gente que torce o nariz para ‘Miss Sarajevo’, mas eu acho linda a ideia de que o U2 colocou sua segurança em risco para tocar na cidade destruída pela guerra. E daí que o Bono não canta como o Pavarotti? Pelo menos ele estava bem afinado na noite de domingo.

Aí veio ‘Zooropa’, uma escolha estranha de uma canção estranha que deu nome a um disco… estranho. ‘City of Blinding Lights’, do disco ‘How to Dismantle an Atomic Bomb’ é linda, mas eu preferia ‘Sometimes You Can’t Make it on Your Own’. ‘Vertigo’ veio na sequência com um dos riffs mais simples e legais do rock, preparando terreno para uma viajante versão eletrônica-house-percussiva de ‘I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight’. Dizem que o próximo disco do U2 será eletrônico, com participação até do produtor David Guetta. Só acredito vendo, ou melhor, ouvindo. Eles não gostam do ‘Pop’, mas eu adoro ‘Discotheque’…

O que dizer de ‘Sunday Bloody Sunday’? Nada, apenas que até hoje é emocionante ouvi-la. E o show termina (pela primeira vez) com a bela ‘Walk On’, que não foi feita para comercial de whisky, embora fique aqui a ideia. No sábado, teve também ‘In a Little While’ e ‘Stuck in a Moment That You Can’t Get Out’, sinceramente, não sei qual das três é a melhor.

A banda volta com ‘One’, e Bono aproveita para fazer propaganda de sua ONG, chamada… ‘One’. Foi então que veio a melhor música do show, na minha opinião: ‘Where the Streets Have no Name’. Não sei por que, mas ela me pegou de jeito e me emocionou de uma maneira meio constrangedora (ainda bem que ninguém viu). Não sei se foi o fato de que eu era uma pessoa tão diferente quando a ouvi pela primeira vez, no ‘Joshua Tree’, em 1987, ou se é por alguma coisa que se passa na minha vida hoje mesmo. Mas o fato é que um lugar onde as ruas não têm nome pode ser inesquecível. Eu gostaria de ser abduzido e levado para esse lugar na nave do U2.

Peraí, não acabou! Tem ainda ‘Ultraviolet’, ‘With or Without You’ e ‘Moment of Surrender’, a melhor música do disco novo. Fim do show, as luzes se acendem e, paradoxalmente, é o momento que o palco-monstro parece finalmente adormecer. As pessoas começam a se dirigir para a saída, ainda estupefatos com o que acabou de acontecer. Sim, foi apenas um show de rock. Um dos últimos, talvez, já que a geração da internet não parece estar muito preocupada em construir ídolos. Eles não sabem o que estão perdendo.

Desculpe se o texto foi muito longo, eu disse que estava com dificuldade para descrever o que aconteceu na noite de domingo. Se eu pudesse resumir, diria apenas: não perca o show de quarta-feira: U2 só existe One.


Matéria sobre o show do U2 exibida pela TV Estadão

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A atriz Kerri Russell é tão bonita que eu gostaria de conhecê-la, mesmo se fosse para ter um relacionamento… frágil. Foto: Evan Agostini/AP Photo

Não é de hoje que as pessoas tentam classificar os tempos em que vivem. Era de Ouro, Era de Aquário, Era sei-lá-do-quê. As épocas são compostas por várias características, mas alguma sempre salta aos olhos de quem se dispõe a analisá-las.

Eu acredito que vivemos na Era da Fragilidade.

Essa fragilidade certamente não é dos governos ou das instituições oficiais, embora muitas delas tenham solidez de uma geleia. Esta é a Era da Fragilidade das relações.

Não é à toa que redes sociais como Facebook e Twitter sejam tão populares. É mais confortável trocar ideias virtuais do que reais, já que pela internet só nos relacionamos com quem pensa igual à gente. E, se por acaso alguém ousar discordar, basta desligar o computador.

Isso não é uma crítica às redes sociais – seria como atirar no mensageiro –, que são apenas o reflexo dessa fragilidade das relações. É uma crítica a nós mesmos, que deixamos a correria alucinada do mundo ditar o ritmo de nossas vidas. Ninguém tem mais paciência para nada, ninguém tem tempo para perder com nada: nem com o que é importante.

Importante? Existe algo importante hoje em dia? Algo que consiga atrair nossa atenção por mais de dez minutos, sem que a gente dê uma olhadinha de leve para ver se chegou alguma mensagem pelo celular? E existe alguém que nunca falou no celular enquanto dirigia? “Ah, mas era urgente”. Claro que sim. Tudo é urgente – até as coisas que não são urgentes.

Nossas relações são frágeis até no nível mais íntimo, como prova uma historinha que ouvi de um amigo. Ele conheceu uma garota, a convidou para jantar. Restaurante chique, tudo muito bem. A conversa estava ótima, muitos interesses e amigos em comum. Até que ele, em um momento descontraído, fez um comentário X sobre um assunto qualquer. Nada de mais, mas ela não gostou.

Foi o suficiente para estragar a noite. E um futuro que poderia estar começando desapareceu em cinco ou seis palavras. Tudo o que veio antes foi jogado fora junto com as sobras dos pratos.

Uma simples frase apagou a ótima conversa, os interesses e amigos em comum. Simples assim. Por quê? Porque não há tempo para uma segunda chance. Como é que uma relação vai nascer se não dermos espaço para isso acontecer? Se a ligação entre duas pessoas não sobrevive a uma simples frase, como pode virar algo a mais?
Deixa-se de amar por nada. Mata-se por nada. Vive-se para nada. Por que tanta ansiedade? Quem disse que o que virá depois é melhor do que o que está aqui? O importante é aproveitar o momento. Afinal, entre o ‘antes’ e o ‘depois’, a única coisa verdadeiramente real é o ‘agora’.

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Se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne. Foto de Andre Penner/AP Photo

Na última sexta-feira, um dia antes do show de Ozzy Osbourne na Arena Anhembi, em São Paulo, assisti a um especial da MTV sobre o príncipe das trevas. O programa mostrava Ozzy no estúdio com sua nova banda, gravando videoclipes e até participando de uma pegadinha com seus fãs. Fazendo uma alusão ao refrão de seu novo single, ‘Let me hear you scream’ (Deixe-me ouvir você gritar), a produção da MTV retirou a estátua de cera de Ozzy de um museu em Los Angeles e pediu para o próprio vocalista ocupar o local. Ou seja, Ozzy ficava ali paradinho esperando a chegada dos fãs. Quando alguém se sentava ao lado da ‘estátua’ para tirar uma foto, Ozzy se mexia e dava um susto. Fizeram isso umas 50 vezes, eu chorei de rir em cada uma dela.

Comecei o texto falando sobre isso porque a brincadeira dá dimensão de quem é o ‘personagem’ Ozzy Osbourne hoje em dia. Quem acha que Ozzy é apenas um vocalista de heavy metal não tem noção do que representa sua figura para a cultura pop. Ozzy é um Nosferatu pós-moderno, com tudo de paradoxal e farsesco que isso representa. Sim, ele é vocalista de heavy metal e um dos principais pioneiros do rock pesado em todo o mundo. Mas ele também é um rufião que sabe muito bem transformar sua imagem de louco em milhões de dólares.

A carreira de Ozzy começou como a de dezenas de outros rockstars: lançando um disco atrás do outro, fazendo turnês exaustivamente longas por todo o planeta, consumindo álcool e drogas em quantidades assustadoras para os padrões da população ‘civil’. Desnecessário dizer que Ozzy e seus companheiros da formação original do Black Sabbath – o guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o batera Bill Ward – praticamente inventaram em 1969 o heavy metal como conhecemos hoje, pelo menos a escola mais ‘escura’ desse estilo de tantas vertentes.

Ozzy ficou apenas dez anos no Black Sabbath, mas foi o suficiente para criar obras clássicas, como os discos ‘Black Sabbath’, ‘Paranoid’, ‘Master of Reality’, Sabbath Bloody Sabbath’ e outros. Ozzy saiu e engatou uma bem sucedida carreira solo; o Sabbath também se deu muito bem ao contratar o (recém-falecido, infelizmente) vocalista Ronnie James Dio e criar um novo catálogo de clássicos de estilo um pouco diferente.

A partir do lançamento do primeiro disco de sua carreira solo, ‘Blizzard of Ozz’, em 1980, ficou claro que Ozzy não era mais apenas um vocalista de heavy metal. Ele era Ozzy Osbourne, príncipe das trevas.

Vamos imaginar uma cena grotesca: se Keith Richards e Boris Karloff tivessem um filho, ele seria Ozzy Osbourne.

Tudo ficou mais exposto com o reality show The Osbournes, que mostrava o dia a dia na casa de Ozzy e sua família. A série ridicularizava o roqueiro mostrando que ele obedecia cegamente à mulher em tarefas mundanas e parecia um fantoche dentro de sua própria casa. Por outro lado, o show rendeu milhões de dólares e levou a imagem de Ozzy a um público que normalmente teria medo dele ou, pelo menos, antipatia.

Mostrou que, por trás da imagem vendida durante anos de ‘príncipe das trevas’, Ozzy não passava de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo. Como fã de Ozzy, achei meio desrespeitoso. Hoje entendo que não era nada disso. Essa imagem foi pensada e construída ardilosamente por Ozzy e Sharon Osbourne, sua mulher e empresária.

Percebi isso na entrevista coletiva que Ozzy deu em São Paulo e que você pode ver trechos abaixo, em matéria da TV Estadão. Ozzy diz que nunca mais fará um programa de TV, atribuindo ao estresse das gravações o câncer da mulher Sharon e o envolvimento dos filhos Jack e Kelly com drogas. Dito isso, que deve ser verdade, Ozzy disse na coletiva que tem uma vida normal e que seu dia a dia consiste basicamente em limpar o cocô dos cachorros a mando da mulher.

Achei isso meio forçado porque essa foi justamente uma das cenas mais famosas do reality show. Ora, estamos falando de algo que a TV mostrou há anos. É inconcebível imaginar que a vida de Ozzy em casa ainda é pegar cocôs de cachorro no chão. Portanto, ao que parece, Ozzy ‘usa’ deliberadamente a imagem que o reality show exibiu, optando por divulgar uma imagem planejada vis-à-vis sua imagem real: a imagem de um tiozinho meio atrapalhado e inofensivo já está espalhada, não é preciso explicar muita coisa. Ao usar essa imagem conscientemente, Ozzy deixa de ser o Ozzy-vocalista-de-heavy-metal e se torna Ozzy-o-ídolo-da-cultura pop-personagem-de-reality-show. É mais fácil ser um Nosferatu pós-moderno do que um artista que continua se desafiando artisticamente após tantos anos de carreira.

Quando sobe ao palco, no entanto, qualquer resquício desse personagem desaparece. Lá não tem Sharon Osbourne para encher o saco, nem produtores de reality show ou marqueteiros. Lá é o lugar de Ozzy e sua banda de garotos que poderiam ser seus netos. E se tem um cara que sabe montar uma banda de rock pesado, esse cara é o Ozzy.

Ozzy já trabalhou com alguns dos melhores guitarristas do mundo. Ele tem faro, sabe escolher um desconhecido em transformá-lo em um guitar hero. Tudo bem, isso na Califórnia nem é tão difícil assim: lá os guitar hero crescem em árvores. Mas Ozzy tem o seu mérito; basta ver a lista de guitarristas que passaram por sua banda.

Depois de Tony Iommi, Ozzy descobriu Randy Rhoads. O baixinho loiro ex-Quiet Riot precisou de apenas três discos para entrar para a história do rock. Basta ouvir os riffs e solos de ‘Crazy Train’ e ‘Mr. Crowley’, considerados até hoje solos mais incríveis da história da guitarra. Rhoads morreu cedo, vítima de um estúpido acidente aéreo, e a partir daí outros grandes guitarristas começaram a se revezar no estúdio e no palco, sempre ao lado esquerdo de Ozzy: Brad Gillis, Jake E. Lee, Zakk Wylde e, agora, Gus G.

Ainda não chovia quando o Sepultura esquentou o público com seu repertório ultra-conhecido dos brasileiros. Ozzy entrou ao som de ‘Bark at the Moon’, mas infelizmente a lua não podia ser vista porque as nuvens já começavam a atrapalhar a das vinte mil pessoas da plateia.

Ao contrário do Iron Maiden, que tocou no show da semana passada um repertório composto basicamente por músicas novas, Ozzy foi mais populista e cantou praticamente apenas velhos sucessos. ‘Let me Hear You Scream’, a segunda do show, foi a única exceção. Mas a música é bem legal, então o ritmo do show não foi quebrado em nenhum momento. ‘Mr. Crowley’ dispensa comentários, e pudemos ver o talento do guitarrista grego Gus G. Quem é fã de Ozzy, gosta que seus guitarristas mantenham os solos originais, principalmente os de Randy Rhoads, que são inesquecíveis. Gus fez isso: tocou nota por nota a melodia imortal criada por Rhoads. O público até cantou o solo…

Foi nessa hora que a chuva começou a cair com mais força. E continuou assim até o final do show, incomodando todo mundo. Para mostrar que não tinha medo de água, Ozzy jogou um balde de água sobre a própria cabeça. ‘Fuck the rain!”, gritou, em mais um arroubo de sua já conhecida educação britânica.

Veio então outra do disco ‘Blizzard of Ozz’, a pesadona ‘I Don’t Know’. ‘Fairies Wear Boots’ foi a primeira do Black Sabbath, mas acho que a música poderia ter sido melhor escolhida (‘Sabbath Bloody Sabbath’, ‘Children of the Grave’ ou ‘Sympton of the Universe’ teriam sido mais legais, na minha opinião).

‘Suicide Solution’ e ‘Road to Nowhere’ vieram depois, preparando terreno para um dos grandes hinos do rock pesado: ‘War Pigs’. Sensacional! ‘Shot in the Dark’ é meio breguinha, mas foi hit nos Estados Unidos, e por isso Ozzy sempre dá um jeito de incluí-la na turnê.

‘Rat Salad’, outro cover do Black Sabbath, é o momento em que Ozzy vai para o camarim descansar (ou tomar uma injeção de vitamina, como fez aqui no último show, entre outras coisas divertidas). Solo de guitarra de Gus G., solo do batera (animal) Tommy Clufetos. Rob ‘Blasko’ Nicholson (baixo) e Adam Wakeman não fizeram solos, mas os dois também se revelaram músicos talentosos. Adam Wakeman, inclusive, tem a quem puxar: ele é filho de Rick Wakeman, o lendário ex-tecladista do Yes.

Ozzy volta ao palco com energia, afinal, ele é o homem de ferro… sim, ‘Iron Man’ é a próxima, outro hino do Sabbath. ‘I Don’t Want to Change the World’ é simpatiquinha, assim como ‘Mama I´m Coming Home’. Eu gostei mesmo de ‘Crazy Train’, e daí veio o final apoteótico: ‘Paranoid’. Finished with my woman ’cause she couldn’t help me with my mind…

Assistir a um show debaixo da chuva é péssimo, não importa que é o artista. Confesso que isso atrapalhou um pouco o show, apesar de Ozzy não ter a menor culpa, claro. Acho que mandar aquela quantidade de chuva deve ter sido uma vingança dos deuses, provavelmente inconformados com a popularidade do príncipe das trevas. Sagrado ou maldito, Ozzy é uma voz única, muito mais interessante e talentosa que a imagem de tiozinho meio atrapalhado e inofensivo vendida pela TV. Eu prefiro o Ozzy do palco.

Ozzy Osbourne na coletiva em São Paulo: ‘Sou apenas um cara normal’

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January Jones, a Betty Draper do seriado ‘Mad Men’: eu enfrentaria qualquer dragão para trazê-la para o meu castelo

As histórias infantis seguem invariavelmente o mesmo enredo. Por uma razão ou outra, a princesa se vê numa situação desfavorável, até que chega o príncipe, resolve tudo, blá, blá, blá e eles vivem felizes para sempre.

Para o público, a diversão consiste basicamente em assistir à princesa esperando pela chegada do príncipe encantado – e ele sempre chega. Imagine a frustração das crianças se não fosse assim.

Daí a gente cresce e vê que a vida não é bem assim. Ou é, dependendo da sua sorte. Mas o que eu queria falar a respeito de príncipes e princesas não é se esses enredos estão corretos ou não.

Desde os anos 60, as mulheres lutam por igualdade entre gêneros. Estão certíssimas, claro – e não sou nem louco de dizer o contrário aqui. Apesar disso, muitas delas ainda sonham com a chegada do príncipe encantado, o cara perfeito, lindo e maravilhoso que vai resgatá-las dessa vidinha besta e levá-las para um castelo – ou para uma mansão nos Jardins, sendo um pouco mais realista.

E foi aí que eu pensei: pôxa, as mulheres querem igualdade, lutam justamente por isso… então por que os homens também não podem esperar pela chegada de uma princesa encantada?

Eu acredito que temos o direito, sim. Arrisco até mais: nós merecemos.

Uma princesa encantada não precisa chegar em um cavalo branco nem trazer uma coroa na cabeça. Também não precisa se parecer fisicamente com a princesa Diana, que foi desprezada pelo idiota do príncipe Charles e trocada pela bruxa, numa total inversão dos valores que aprendemos na infância. Mas o que essa princesa precisa fazer é nos resgatar dessa vidinha e nos levar para algum lugar melhor. Metaforicamente, nesse caso.

Daí você vai dizer: ‘mas se você sabe que príncipe encantado não existe, por que esperar por uma princesa encantada’. Porque sim.

A vida não é lógica e as pessoas podem esperar por qualquer coisa. Tem gente que espera por um sinal de Deus; tem gente que espera por atendimento na fila do INSS. Tem gente que espera até por um milagre.
Por que um homem não pode esperar por uma princesa encantada?

Não pense que virei moralista, do tipo que acha que a princesa tem que ser virgem, pura, angelical. Não. A princesa encantada que alguns homens esperam é bonita, sim, mas também é inteligente, interessante, divertida. Uma princesa encantada muda a vida de um homem fazendo uma coisa muito simples: sendo quem ela é.

Estou sendo muito romântico? Pode até ser. É que eu acho que as coisas que a gente acredita quando é criança podem se tornar realidade em qualquer fase da vida.

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