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Felipe Machado

Iron Maiden detona o Estádio do Morumbi, em imagens de J.F. Diório

Não foi meu primeiro show do Iron Maiden e, se tudo der certo (e o Eddie permitir), não será o último. Mas todo show do Iron Maiden é especial, não apenas porque é uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, mas porque é uma verdadeira viagem para ‘somewhere in time’.

A noite de sábado começou cedo e com um encontro bastante inusitado. Um evento organizado pela gravadora EMI levou alguns (sortudos) jornalistas para um tempo e se divertir no Rod’s Room. O camarim do empresário do Iron Maiden, Rod Smallwood, é um espaço onde ele e a banda recebem informalmente amigos, patrocinadores e alguns fãs. Em meio a cervejas e caipirinhas, é uma verdadeira festinha pré-show. E adivinha quem era um dos convidados? Sim, ele, o Iron Maiden em pessoa: Steve Harris. O baixista e líder da banda bateu papo e tirou fotos com a galera, entre eles o pessoal do WikiMetal, programa em podcast na internet que está se tornando febre entre os headbangers. Um dos editores, Daniel Dystyler, veio conversar comigo para saber qual é minha música favorita do Maiden. Tive que citar duas, uma com cada vocalista: ‘Phantom of the Opera’, com Paul Dianno, e ‘Hallowed be Thy Name’, com Bruce Dickinson.

Um show do Iron Maiden é uma viagem para ‘somewhere in time’ porque me leva de volta à minha adolescência, quando eu idolatrava a banda (hoje eu apenas amo). Quando formamos o Viper, queríamos deliberadamente ‘ser’ o Iron Maiden. Eu, pessoalmente, queria ser o guitarrista Adrian Smith: ele era cool, meio quietão, tinha guitarras incríveis e fazia solos memoráveis. A gente sempre quer ser alguém na adolescência, não é fácil descobrir que isso nunca vai acontecer.

Encontrar amigos de infância no show reforça essa viagem ao passado. Ser fã do Iron Maiden é fazer parte de uma família diferente, por exemplo, de quem é fã do Metallica ou do Slayer, outras bandas importantes de heavy metal. As canções do Iron Maiden são mais dramáticas, mais épicas, mais próximas da sonoridade das bandas dos anos 70. Elas são mais especiais, porque funcionam bem até quando tocadas no violão. Tente tocar uma música do Slayer no violão e você vai entender o que estou falando.

Rod Smallwood apareceu finalmente em sua própria festa para dar um abraço na galera, e o baterista Nicko McBrain passou correndo porque estava atrasado para fazer seu aquecimento (Nicko tem uma bateria no camarim para aquecer os músculos antes do show – faz sentido, já que o cara tem quase 60 anos e tem que tocar heavy metal durante duas horas). De perto, o nariz de Nicko é ainda mais parecido com o de um ex-boxeador. E ainda bem que ele trocou de roupa e não tocou no show com aquela camisa-de-turista-inglês-no-Caribe. Os 55 mil metalheads achariam graça.

Infelizmente, o horário me fez perder o show do Cavalera Conspiracy, que eu estava curioso para ver. Deu para ouvir de longe que a banda lembra muito o Sepultura do começo da carreira, com músicas rápidas e com vocal gutural. Para saber mais sobre a banda, veja aqui a entrevista da TV Estadão feita pelos headbangers Gabriela Valente, Bruno Salvagno e Anderson Bellini:

Devidamente calibrados e prontos para o show, o Rod’s Room foi esvaziado e fomos todos para a plateia. O Iron Maiden entraria em campo, quer dizer, no palco (confundi um pouco porque o baixista-boleiro Steve Harris estava de bermuda).

As luzes se apagam. ‘Doctor Doctor’, clássico da banda UFO, explode nas caixas de som, como no show de 2009, anunciando que está tudo pronto. A longa intro de ‘Satellite 15… The Final Frontier’ começa nos telões, um pouco anticlimática, mas tudo bem. Até que nada, eu repito, nada, supera a entrada do Iron Maiden em um palco. Steve Harris correndo, Dave Murray e Adrian Smith sérios e compenetrados detonando nos riffs, Nicko McBrain fazendo caretas, Janick Gers exagerando nas suas macaquices e Bruce Dickinson pulando como um louco. “Scream for me, São Paulo!”, grita Bruce. O Iron Maiden está no palco.

O disco novo da banda, ‘The Final Frontier’, é legal. Não é tão bom quanto os discos até ‘Seventh Son of the Seventh Son’, o último que eu realmente acompanhei como fã. Mas é um disco bom, muito melhor que o de 99% das bandas atuais de heavy metal. Depois de ‘Satellite 15’, a banda emenda em outra nova, ‘El Dorado’. Dizem que é uma homenagem à Rádio Eldorado, mas não consegui confirmar a informação.

Lá pelas 10 da noite, ou seja, duas horas adiantada, a banda começa ‘2 Minutes to Midnight’ e o Morumbi quase vem abaixo. Sensacional. Depois disso veio uma sequência que eu não conhecia muito bem, ‘The Talisman’, ‘Coming Home’ e ‘Dance of Death’, canções de discos mais recentes. É duro ser velho e querer ouvir só as antigas, mas é assim que eu sou. Só fui ficar realmente em êxtase com a incrível ‘The Trooper’, até hoje uma das melhores músicas de heavy metal da história. E o que é aquele refrão? ‘Ô ô ô ô ô ô ô ô ô…’ Um estádio inteiro cantando um hino de guerra, uma ode a Inglaterra e aos soldados ingleses. Me deu saudades do show de 2009, quando a banda entrou ao som do discurso de Winston Churchill emendado em ‘Aces High’. Mas estamos em 2011, vamos seguindo em frente.

Mais novas: ‘The Wicker Man’, ‘Blood Brothers’ e ‘When the Wild Wind Blows’. Não conheço nenhuma delas, boa hora para pegar mais cerveja. Ouço Bruce falando sobre Egito e a ‘primavera árabe’ no norte da África e Oriente Médio. Iron Maiden sempre foi cultura. Eu, por exemplo, aprendi que Alexandre, o Grande, era filho de Filipe da Macedônia graças à canção ‘Alexander The Great’. Bruce também falou do tsunami/terremoto no Japão, até porque eles quase sofreram na própria pele: o Iron Maiden a dez minutos de pousar em Tóquio quando foram avisados da catástrofe. Mudaram a rota e conseguiram pousar em Nagoya, mas alguns shows tiveram que ser cancelados.

‘The Evil That Men Do’ é boa, mas não está na minha lista de ‘best of’. Nem ‘Fear of the Dark’, que o público adora. Eu acho apenas OK. O show termina, pelo menos por enquanto, com ‘Iron Maiden’. Depois de Eddie passear pelo palco, sua cabeça surge enorme, parecendo um vampiro, com os dentinhos de fora e tal. Nossa, o Eddie está parecendo o Predador…


O Eddie está parecendo o Predador. Para os mais velhos, o Eddie está parecendo o ‘Capi, Capiva… Capivara’, mascote do programa Clip Trip, do Mister Sam

A banda sai, finge que foi embora… e volta para a melhor parte do show. ‘Woe to you, oh Earth and Sea…’ 666, ‘The Number of the Beast’! Quem acha que o Iron Maiden é satanista não tem um pingo de humor (negro). ‘Hallowed be Thy Name’, inesquecível como sempre, e outro hino, desta vez da liberdade: ‘Running Free’. Bruce deveria ter dedicado esta canção ao povo árabe que luta para depor seus ditadores criminosos.
Fim do show, nostalgia e ressaca começam a surgir imediatamente. Mais um show do Iron Maiden, mais lembranças que ficarão para sempre. E que vão renascer, ‘somewhere in time’, na cabeça de um eterno headbanger. Tenho orgulho de ser fã do Iron Maiden.

PS. O Iron Maiden faria show no domingo, no Rio de Janeiro. Mas, por um problema de segurança, o show foi adiado para hoje (segunda-feira, 28 de março). A seguir, a nota oficial da gravadora EMI: IRON MAIDEN – RIO DE JANEIRO

O show do Iron Maiden na HSBC arena que aconteceria neste domingo, dia 27, foi adiado para hoje, segunda-feira, dia 28 de março, às 21:00 hs por problemas técnicos com a montagem da barricada em frente ao palco.
Essa decisão foi tomada em conjunto pelo staff da banda e pela HSBC Arena por ser prioridade de ambos a segurança dos fãs.
A banda irá permanecer no Rio de Janeiro mais um dia para poder realizar o show e não deixar de fora o Rio de Janeiro nesta parte da turnê.
Todos os fãs poderão entrar no show de segunda-feira com os mesmos comprovantes dos tickets do show de hoje.
Os que não puderem comparecer ao show de hoje poderão solicitar o reembolso a partir do dia 4 de abril:
Os que compraram ingressos na bilheteria da Arena e nos demais pontos de venda deverão se dirigir à bilheteria com os comprovantes dos tickets a partir do dia 4 de abril para o reembolso.
Os que compraram ingressos através do Call Center e da Internet, deverão entrar em contato com  sac at livepass.com.br ou pelo telefone 4003.1527, munidos dos comprovantes dos tickets, também a partir do dia 4 de abril, para a solicitação do reembolso.
A banda naturalmente está consternada pelos fãs que não poderão retornar hoje e promete um grande show para os que puderem comparecer.
HSBC Arena e a banda agradecem aos incríveis fãs por entenderem a dificuldade da situação e por sua colaboração. O Iron Maiden está ansioso para fazer um grande show!
Para mais informações sobre Iron Maiden, visite:

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Elizabeth Taylor: A morte da grande estrela de Hollywood
TV Estadão | 23.3.2011
Em entrevista a Felipe Machado, os críticos de cinema do Caderno 2, Luiz Zanin e Luiz Carlos Merten, falam sobre a vida e a carreira de uma das maiores atrizes de Hollywood

Fiquei bastante triste com a morte da Elizabeth Taylor. Ela não era minha atriz favorita, mas seu rosto é tão conhecido que a gente sente como se tivesse perdido uma pessoa conhecida, uma amiga (a amiga mais linda do mundo, no caso).

Mais uma vez, pensei em apelar para uma jornalista que acompanhou a carreira de Liz Taylor de perto: minha mãe, Helô Machado. Foi aí que meu telefone tocou:

“Felipe, estou com vontade de escrever um texto sobre a Elizabeth Taylor, o que você acha?”

“Hummm… acho ótimo!”

Aqui está. Obrigado, Helô. Bye, Liz.

Adeus para a mais linda de todas
Helô Machado

Aprendi na infância que o Empire State era o prédio mais alto do mundo. Rockfeller era o homem mais rico do mundo. O dólar era a moeda mais forte do mundo. Caviar era a iguaria mais cara do mundo. Rolls-Royce era o carro mais valioso do mundo. Diamante era a pedra mais preciosa do mundo.

E Elizabeth Taylor era a mulher mais bonita do mundo.

Durante a minha juventude, outros objetos e pessoas ‘as mais do mundo’ foram surgindo e desaparecendo, dependendo da época e dos modismos. Só Elizabeth Taylor permanecia como mito da beleza, recheada do talento que eu pouco a pouco descobria nas telas do cinema.

Filha de americanos, Elizabeth Taylor, a mais bela atriz de Hollywood, nasceu em Londres em 1932 e desde os sete anos, quando se mudou com seus pais para Los Angeles, chamou a atenção dos caçadores de talento. Aos 10, estreou no cinema e aos 11 entrou para o time das celebridades, onde permaneceu durante toda a sua vida, sem perder o prestígio – mesmo depois de abandonar o cinema.

A beleza não atrapalhou a carreira da atriz. Nas dezenas de filmes que fez, destacou-se em vários, como ‘Um lugar ao sol’ (1951), ‘Assim caminha a humanidade’ (1955), ‘A megera domada’ (1967), ‘Os comediantes’ (1967) e em outros, que lhe valeram três anos seguidos indicações ao Oscar de melhor atriz: ‘A árvore da vida’ (1957), ‘Gata em teto de zinco quente’ (1958), ‘De repente no último verão’ (1959). Recebeu dois Oscars por suas atuações em ‘Disque Butterfield 8’ (1960) e “Quem tem medo de Virginia Woolf?’ (1965).

Durante alguns anos, nas décadas de 70 e 80, a atriz teve a carreira interrompida devido ao uso de drogas, álcool e problemas de saúde. Em 1993, foi premiada com um Oscar honorário. Seus últimos filmes ‘A Maldição do Espelho’ (1980) e ‘O Jovem Toscanini’ (1988) já não causaram tanto impacto e foram pouco comentados.

Liz Taylor – ela odiava ser chamada pelo apelido – foi também a atriz mais bem paga do cinema: em 1963, ela recebeu 1 milhão de dólares para ser a belíssima ‘Cleópatra’, no filme igualmente milionário. Foi neste trabalho que ela conheceu o maior amor de sua vida: o ator Richard Burton.

Na área da paixão, bateu outro recorde. Elizabeth Taylor também foi a celebridade que mais se casou: teve oito maridos. O primeiro, em 1950, era o rico herdeiro da famosa cadeia de hotéis Hilton; o último, em 1991, construtor, de quem também se divorciou.

Na sua extensa lista matrimonial constam tragédias, escândalos e muitas brigas: seu 3° marido, o produtor de cinema Mike Todd, morreu num desastre de avião. Consolada nesta época por um casal de amigos, os atores Debbie Reynolds e Eddie Fisher, pouco depois Elizabeth Taylor ‘roubou’ o marido da amiga e se casou com ele.

Já a paixão arrebatadora e as brigas famosas entre Taylor x Burton levaram a dois casamentos e divórcios, que, no total, duraram 20 anos e renderam muitas jóias raras à estrela, como o famoso diamante Krupp, de 33,19 quilates; a pérola La Peregrina, que passou pelas mãos de Maria Tudor, rainha da Inglaterra e o diamante Taj-Mahal, em forma de coração, datado de 1627, presente do imperador indiano Shan-Jahan à sua mulher favorita, em cuja memória mandou construir o imponente Taj-Mahal.

Elizabeth Taylor, aliás, era apaixonada por jóias valiosas, que sempre ostentou em todas as ocasiões, até nas suas últimas aparições em público. Também amava os cachorros – levava sempre um deles no colo – e os perfumes –“Jamais fiquei um dia sem perfume”, costumava dizer. Tanto que lançou os seus, três perfumes – Paixão, White Diamonds e Pérolas Negras, que ganharam o mundo e lhe renderam milhões de dólares.

Elizabeth Taylor viveu intensamente os seus 79 anos, apesar dos inúmeros problemas de saúde. Teve quatro filhos, dez netos e quatro bisnetos, Manteve casas em Palm Springs, Londres e no Havaí, além da sua residência em Los Angeles. Publicou dois livros: ‘Elizabeth takes off’ (Elizabeth levanta voo), em 1988 e ‘My love affair with jewelry’ (Meu caso de amor com as joias), em 2002.

Conhecida internacionalmente por sua beleza, especialmente por seus olhos cor de violeta, representou o glamour de Hollywood durante anos e anos, atravessando gerações. Amiga íntima de Michael Jackson, que lhe dedicou vários de seus trabalhos, inclusive a canção ‘Liberian Girl’, a atriz recebeu inúmeros prêmios pelas campanhas que promoveu contra a AIDS, desde o seu envolvimento na luta contra a doença, em 1985, com a morte de seu grande amigo, o ator Rock Hudson, vítima do HIV.

Antes de se internar com sérios problemas cardíacos, que a levaram à morte, Elizabeth Taylor, mesmo fora de forma, com muitos quilos a mais, mantinha a altivez e as joias ao comparecer em eventos e homenagens, sempre na cadeira de rodas, que utilizava nos últimos cinco anos.

Joias que ela tratava com amor e traduziam o seu pedido: “Sei que após minha morte minhas joias poderão ir à leilão, como aconteceu com a coleção da duquesa de Windsor. Talvez se espalhem pelos quatro cantos do mundo. Espero que quem as compre ame e cuide de cada peça, como eu fiz. A verdade é que as joias têm donos provisórios, somos apenas seus guardiões”.

Para terminar, uma frase de Elizabeth Taylor que sempre me vem à cabeça:

“Quando as pessoas dizem ‘ela tem tudo’, eu respondo: ‘eu não tenho o amanhã’”.

A mulher mais linda do mundo era também a mais ingênua: ela não sabia que seria eterna.

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Algumas pessoas poderiam dizer que a atriz Lea Michele, de Glee, tem o nariz um pouco grande. Eu responderia: é o que temos para o momento

Uma coisa inusitada aconteceu na semana passada: dois amigos meus, completamente opostos em termos de personalidade e modo de vida, usaram exatamente a mesma expressão quando conversavam comigo. Um deles é publicitário, diretor de uma grande agência. O outro é um roqueiro, compositor de uma famosa banda de rock.

O que eles têm em comum? O branco dos olhos, no máximo. E, no entanto, me deixaram de olhos arregalados quando ouvi os caras dizendo a mesmíssima coisa.

“É o que temos para o momento”, disseram, diante de situações completamente diferentes. Isso me chamou a atenção, em primeiro lugar porque eu não imaginava que dois caras com vocabulários tão diversos pudessem compartilhar sequer uma simples frase. Em segundo, porque é uma frase que pode ter um significado muito mais complexo do que nos permite compreender a simples soma de suas palavras.

Tudo bem, você vai dizer que isso acontece com frequência com expressões que estão na moda, joias poéticas como ‘enfiar o pé na jaca’, ‘soltar a franga’ e outras belas contribuições da informalidade das ruas ao vocabulário brasileiro. Mas, nesse caso, acredito que a frase pode ser interpretada com teor um pouco diferente. Para mim, simboliza uma tendência muito mais complexa dos dias em que vivemos.

“É o que temos para o momento” simboliza, antes de tudo, uma aceitação pragmática de um fato. É um pouco fatalista? Pode ser. Mas, antes de tudo, é uma expressão realista, que não tinge de cores vivas o que é preto e branco. É uma prova de que há ocasiões em que não adianta a gente tentar reinventar a roda. Há uma outra expressão que diz o seguinte: “o cara que não sabia que aquilo era impossível foi lá e fez”.

Sim, é claro que isso acontece. As pessoas se superam. Quebram recordes. Explodem limites. Mas, na maioria dos casos do dia a dia, é necessário enfiar a viola dentro do saco e aceitar: é o que temos para o momento. Talvez tenha sido por isso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou um livro com o título ‘O Brasil do Possível’. Era o que ele tinha para o momento.

Isso revela também essa atual tendência ao imediatismo. Quem consegue refletir sobre a vida? Tudo tem que ser agora, não há tempo para esperar. Temos algo melhor para oferecer? Temos, mas vai demorar um pouco. Coisas bem feitas precisam de carinho e capricho. Está com pressa? Come cru. Os japoneses estavam com pressa quando inventaram o sushi.

Espero que você tenha gostado do assunto da coluna desta semana. Se não gostou, desculpe. Era o que tínhamos para o momento.

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Olha aí: até a cara da Sandy já mudou. E esse negócio na cabeça, então? Será que vem aí um vídeo no estilo Sandy Gaga? A foto é de Bertrand Linet

Querida Sandy,

não pude deixar de vê-la em sua nova versão, digamos, mais ‘saidinha’. Afinal, você estava em todas as revistas, comerciais de TV e fotos de camarotes do carnaval. Quer dizer, pelo menos a legenda da foto dizia que era você. Era mesmo?

Na TV, você diz que ‘todo mundo tem um lado devassa’. Sério? Você tem mesmo um lado devassa? Qual é, o esquerdo ou o direito? Quer dizer que, antes de você voltar a cantar com seu irmão, o que vai irremediavelmente acontecer em breve, você está pensando em gravar um vídeo como Sandy Gaga?

Cuidado, as coisas não são tão fáceis assim. Você não pode sair dizendo que tem um lado devassa por aí sem mostrá-lo. Vão exigir que você dê uma turbinada nos seios, coloque aplique no cabelo (esse loiro fraquinho não é suficiente) e vista microssaias de couro. Depois vão querer que você faça aulas de poledancing. E não vão demorar para lançar a campanha ‘Sandy na Playboy’. Só digo uma coisa: se alguém chamar você de ‘Sandy Popozuda’ eu vou dar porrada.

Sei que artista é profissional e tem que ganhar a vida. Mas imagina você num boteco, enchendo a cara de cerveja enquanto vê o jogo do Timão com um bando de manos numa rodinha de samba. Não rola. Não seria melhor ter escolhido uma marca de champanhe para anunciar? Ou de suco de laranja?

Não estou te julgando, longe disso. É que você não é devassa. Devassa é aquela Paris Hilton, que tem vídeo pornô correndo pela internet. Devassa é a Bruna Surfistinha ou as sambistas que aparecem na TV usando apenas tapa-sexo. Você não é assim. Você é a Sandy. A nossa Sandy. Se você tiver mesmo esse lado devassa, isso significa que a humanidade está perto do fim. Por favor, me escreva um e-mail dizendo que tudo não passou de um engano. Não sei se conseguiria viver num mundo onde você simboliza a mulher devassa. Assumir que você tem um lado devassa não é apenas um golpe fatal para as mulheres ‘pra casar’. É uma ofensa às devassas, que também têm uma reputação a (não) manter.

Eu sei, esses publicitários são meio loucos mesmo. Você viu que colocaram a Gisele Bündchen como dona de casa para vender TV por satélite? Imagina você chegar em casa do trabalho e dar de cara com a Gisele de avental, com cabelo cheio de bob, cheirando à fritura? Não dá, né? Agora, se ela estivesse em um bar, linda, loira, enchendo a cara de cerveja como uma verdadeira devassa, aí eu não comprava só a TV: eu comprava o satélite.

Aguardo seu e-mail garantindo que tudo não passou de uma grande confusão e que você voltou a ser a nossa Sandy de sempre.

Beijos, F.

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No início dos anos 80, quatro bandas de rock pesado foram convidadas para fazer uma turnê pelo Japão: Scorpions, Whitesnake, Bon Jovi e Anvil. Pouco depois, todas atingiram o estrelato, conquistaram milhares de fãs e foram para o topo das paradas de sucesso. Peraí, eu disse todas? Não. Todas, menos uma. O Anvil.

O Anvil é uma banda canadense que continuou lançando discos, fazendo shows (em lugares cada vez menores e mais vazios) e tentando emplacar algum sucesso. Mas nada aconteceu.

Em 2008, Sacha Gervasi lançou o documentário ‘A História do Anvil’. O filme mostra a banda nos dias de hoje, sem glamour: O vocalista Lips trabalha com merenda escolar; o baterista Robb Reiner é pedreiro. Ensaiam à noite e tocam em buracos nos fins de semana. Detalhe: fazem isso há trinta anos.

O filme dá um pouco de pena, mas é sensacional. Na verdade, é bem mais do que um relato sobre uma banda fracassada. É sobre amizade, sobre como é importante correr atrás de um sonho – mesmo quando esse sonho parece nunca se realizar. O filme é uma obra-prima da condição humana. É tão emocionante que cativa até quem odeia heavy metal. Eu chorei.

O Anvil tocou na semana passada em São Paulo, e é claro que você nem ouviu falar. O local até que estava cheio, com mais de mil fãs de heavy metal. Mas logo no primeiro acorde, descobri por que o Anvil nunca fez sucesso: a banda é muito, muito ruim.

É triste constatar que alguém sem o menor talento sonha em fazer sucesso como artista. As músicas do Anvil são péssimas, não tem a menor criatividade ou originalidade. O fracasso de público do Anvil nunca foi uma injustiça. Eles não fizeram sucesso porque não mereceram fazer sucesso.

Enquanto eu via o show, caiu a ficha: e daí que eu não gostei? O Anvil estava no palco, fazendo o que gostavam, apresentando o que tinham de melhor. Percebi que o importante para aqueles tiozinhos não era o sucesso comercial, mas a capacidade de continuar vivendo o sonho. Eles não querem sair na capa das revistas; eles querem apenas continuar tocando sua música ruim pelo resto da vida. Não importa a minha opinião – não importa a opinião de ninguém. Mesmo sem público, eles estariam tocando com a mesma garra. O sonho aqui não é chegar a nenhum lugar, alcançar um objetivo. O sonho é a jornada, não o lugar para onde ela leva. É ser quem você é, mesmo que você não seja a melhor pessoa do mundo.

Aceitar que a vida é o que se faz dela é uma bela lição de humildade. Se a vida te deu três limões, você faz uma limonada, não um champanhe. Não é triste, nem feliz. É o que é. Sucesso? Sucesso é viver.

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