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Felipe Machado

62nd Primetime Emmy Awards - Arrivals

Lea Michele: Não conheço a atriz do seriado ‘Glee’, mas não seria nada mau se ela fizesse parte do meu futuro

Foto: Chris Pizzello/AP Photo

É possível sentir saudade de uma situação que nunca se viveu? Opa, espera um pouco, talvez ‘saudade’ não seja a palavra certa. Vamos reformular: é possível sentir uma forte ansiedade por não ter vivido alguma coisa bastante específica que você teve a oportunidade de ter vivido? Ah, isso é possível, sim. Mais que possível, isso é bastante comum. Ou então eu devo estar ficando louco.

Não sei se acontece somente comigo, mas já me peguei pensando como a vida teria sido se eu tivesse tomado a decisão X em vez da decisão Y. E se eu tivesse feito isso, como teria sido aquilo? Mas, talvez, se eu não tivesse feito aquilo, certamente não teria acontecido isso… e por aí vai.

Confesso que me dá uma certa frustração pensar que a gente só tem uma vida, uma única chance de acertar. Será que sou só eu que erro tanto? Por outro lado, tenho certeza de que pessoas bem intencionadas levantarão os braços para pedirem sua vez de falar. E daí dirão clichês horríveis argumentando ‘que é justamente essa a beleza da vida, e por isso temos que pensar muito bem antes de fazer as coisas’. Mas o que dirão esses seres tão equilibrados para alguém que pensa muito antes de fazer as coisas, analisa todos os cenários possíveis e imagináveis, repassa mentalmente todas as consequências… e, ainda assim, comete erros? De quem é a culpa por isso?

Vamos baixar um pouco a bola, porque hoje é domingo e daqui a pouco sua família vai chegar para o almoço. Você vai olhar em volta e ver pessoas que você ama, pessoas com quem você tem muito em comum. E, num singelo segundo, vai imaginar como essa família seria diferente se o seu pai não tivesse beijado sua mãe naquele determinado baile, ou se o pai do seu pai não tivesse beijado sua avó no portão da velha casa.

E daí talvez seu pensamento possa ir ainda mais e mais longe, e você se lembre dos seus bisavós, maternos ou paternos, ou os dois, e imagine como as vidas deles se cruzaram. E as vidas dos que vieram antes dele – são tantas variáveis que você ficará louco.

Mesmo que você passasse o dia inteiro pensando nisso (e não vai passar, claro), não seria suficiente para refazer mentalmente a árvore genealógica de toda a sua família desde o Homem de Neanderthal, ou antes disso, desde que o primeiro girino da primeira gota d’água saiu do mar para habitar a primeira floresta.

Não podemos esquecer as crianças. Você acha que seu filho tem infinitas opções pela frente, mas, na verdade, elas não são tantas assim, já que ele só poderá seguir uma delas, sem nunca saber como seriam as outras. E você? Você também não terá milhões de futuros, apenas um. E é possível sentir saudade dos outros futuros que você não viverá? Pensando bem… sim, é possível.

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Há vários tipos de cinema: de um lado, o cinemão hollywoodiano, com seus efeitos especiais e estouros de bilheterias. Do outro, há o pequeno cinema artesanal, feito com muito amor e pouco dinheiro e que, muitas vezes, desaparece no meio da multidão.

‘Once’ (Apenas uma vez) está na segunda categoria. É um filme incrivelmente simples, com poucas locações, poucos atores, mas uma força poética incrível. Não gosto muito de musicais, mas ‘Once’ é um musical moderno. Não há pessoas dançando pelas ruas ao simples cair de uma gota de chuva, nem diálogos que se transformam em cantoria num passe de mágica. ‘Once’ é um filme musical porque ele é construído a partir de canções, a música é o fio condutor do roteiro. E é lindo.

De qualquer maneira, como um David contra Golias, ‘Once’ ganhou o Oscar de melhor canção por ‘Falling Slowly’, que você confere acima.

Antes de seguir, tenho que dar crédito ao meu irmão Nando, que me indicou (e emprestou) o filme. ‘Once’ é mágico também porque sua história de ficção acabou se tornando realidade: o casal de atores, o irlandês Glenn Hansard (ele era guitarrista do filme ‘The Commitments’, lembra?) e a tcheca Markéta Irglová, se casou depois das filmagens (hoje eles são separados, mas tudo bem). Tudo isso para dizer que a dupla não divide mais o mesmo teto, mas continua dividindo o palco sob o nome de Swell Season: eles se apresentam hoje no Rio e amanhã no HSBC, em São Paulo.

Leia mais sobre a dupla aqui. E vá ao show, se quiser se emocionar.

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kylie-minogue

Kylie Minogue: A cantora australiana tem uma ligação misteriosa com ‘Aphrodite’, a deusa do amor. Na verdade, nem é tão misteriosa assim: é apenas o nome do novo disco dela

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. A frase é um clichê, mas não consegui evitar. Porque o tema da coluna de hoje é, inclusive para mim, um grande mistério. Com um agravante: quando se trata de amor, o número de mistérios é ainda maior. Você saberia dizer por quê, por exemplo, um casal se apaixona?

‘Porque foram feitos um para o outro’, algum romântico vai dizer. ‘Porque suas personalidades se completam e criam um outro ser mais evoluído’, arriscaria o psicólogo de plantão. Já os mais empolgadinhos não teriam dúvidas: diriam, entre risinhos, que é ‘porque estão tão atraídos um pelo outro que não veem a hora de ir para a cama’.

Tudo isso é verdade. Ou, pelo menos, poderia ser. Porém, é óbvio que não há uma única razão, mas uma combinação de fatores e momentos propícios. Ou, em linguagem popular, acontece quando você encontra a pessoa certa no lugar certo.

Há, no entanto, um outro componente que dificilmente apareceria nessas listas. Um amigo meu chama esse componente de ‘liga’. Apesar de ser uma expressão esquisita – e denominar algo ainda mais abstrato –, tenho certeza de que você sabe do que eu estou falando.

A ‘liga’ é aquela luzinha que acende quando estamos perto de alguém que nos atrai. Essa abreviação de ‘ligação’ representa o que está por trás desse sentimento tão inexplicável.

Vamos à parte prática, que é sempre mais interessante. Imagine duas loiras maravilhosas conversando em um bar (você pode imaginar dois morenos saradões, se for mulher). Você chega como quem não quer nada, oferece uma bebida, pergunta se a cadeira está vazia, tenta puxar um papo de alguma maneira. Aí você descobre que as duas são ainda mais lindas de perto, simpáticas, divertidas. E daí rola o inevitável: você se apaixona por uma delas. Por que você caiu de amores por uma e não pela outra? Bem, pode haver uma série de razões. Mas tenho certeza de que você não saberia definir com palavras pelo menos uma dessas razões : é exatamente isso que é a ‘liga’. Você criou uma ligação com uma delas e não com a outra. Por quê? Sei lá, mas boa sorte.

Infelizmente, a ‘liga’ também funciona negativamente. É isso que impede casais legais de dar sequência a eventuais romances. O cara convida a garota para jantar. Ambos são bonitos, bem sucedidos, interessantes. E daí a coisa não vai para a frente. Por quê? Porque tudo estava certo, menos a ‘liga’.

Só não me pergunte o que fazer para a ‘liga’ aparecer na sua vida: há mais mistérios entre a razão e o amor do que sonha a nossa vã filosofia.

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Angelina Jolie tem uma grande qualidade: ela nunca me decepcionou. A foto é de Jens Kalaene

Angelina Jolie tem uma grande qualidade: ela nunca me decepcionou. A foto é de Jens Kalaene

Qual é a influência que eventos que marcaram nossa infância têm sobre a gente? Depende, claro.
Obviamente não estou falando aqui de nenhum trauma sério, desses que deixam rastros pela vida inteira. Estou imaginando as consequências que pequenas coisas do passado trazem para a nossa experiência pessoal. Se você fizer essa pergunta a algum psicanalista, pode se preparar para passar os próximos anos da sua vida deitado em um divã ou confortavelmente sentado em uma poltrona moderninha.

Após algum tempo, você vai descobrir que aquilo que você nem lembrava direito que aconteceu tem algum efeito em quem você é hoje, para o bem ou para o mal. Como nunca fiz análise, não sei como isso se aplicaria às minhas experiências. Mas sou positivo: acredito que qualquer decepção pode ser superada.

É só a gente querer muito, e lutar por isso. Se eu fizesse análise, contaria para minha psicóloga que quando eu tinha 7 anos, era apaixonado por uma linda garotinha da escola. Ela era um ano mais velha, ou seja, nem sabia que eu existia. Mas sempre fui uma criança paciente, sabia que minha hora ia chegar.

Um dia aconteceu uma eleição, concurso, algo assim. Só sei que por alguma razão eu ganhei e fui eleito o ‘príncipe’ da escola. Você imagina o que isso pode fazer com a cabeça de um pirralho de 7 anos?

Acertou. O prêmio me trouxe poder, autoconfiança. Achei que era a hora perfeita para revolucionar minha existência: durante a minha ‘coroação’, tomei coragem e convidei a garota de 8 anos para ser a minha princesa. Enchi o peito, agi como se fosse o herói da história da Branca de Neve.

Ela disse não.

Não sei exatamente que tipo de impacto isso teve na minha vida. Provavelmente nenhum, já que a única pessoa que se lembrava disso era a própria garota. Sim, eu a encontrei anos mais tarde, em uma balada. Já éramos adultos, claro. Começamos a conversar, dar risadas e lembrar sobre os velhos tempos. Alguns dias depois, começamos a sair.

O que dizer desse episódio?

Não gosto de usar a palavra vingança porque acho muito forte. Mas confesso que sair com a garota por quem eu era apaixonado quando tinha 7 anos teve um gosto especial,como se o Felipe adulto tivesse provado que era possível superar a decepção do Felipe criança. E ainda dar a volta por cima.

Lembrei dessa história outro dia, nem sei porquê. E sorri, porque vi que coisas que parecem extremamente importantes em algum momento da vida nem sempre resistem ao teste do tempo. Decepções acontecem, mas passam. Ainda bem.

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Ferreira Gullar: O poeta maranhense fez 80 anos, mas mostrou na FLIP que continua com a vitalidade e lucidez de um garoto. Foto de Fábio Motta

Ferreira Gullar: O poeta maranhense fez 80 anos, mas mostrou na FLIP que continua com a vitalidade e lucidez de um garoto

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o poeta Ferreira Gullar contou a origem de uma de suas frases mais famosas. Disse que, dia desses, discutiu tanto com a sua companheira que uma hora ela se levantou e abandonou o local.

Na opinião do poeta, ele até ganhou a discussão. Ganhou, mas não levou: ficou falando sozinho. E foi aí que ele cunhou a pérola: ‘Não quero ter razão, quero ser feliz’. A genialidade da frase dispensa explicações. Aliás, as frases geniais são geniais justamente porque não precisamos explicá-las.
Podemos, porém, refletir sobre ela. É para isso que servem as frases geniais.

Nós, mortais, não elaboramos pensamentos como Ferreira Gullar, e é por isso que nós somos mortais e o Ferreira Gullar é o Ferreira Gullar. Imagine só soltar uma frase dessas no meio da conversa: é o fim de qualquer discussão, não importa quem está com a razão.

A sociedade chegou a um nível de egocentrismo tão grande, que parece que todo mundo quer ter razão o tempo inteiro. Há muito tempo não ouço alguém dizer ‘puxa, você tem razão, eu estou errado’. Será que ainda há espaço para a humildade nesse reality show que se tornou o mundo? Será que admitir um erro é visto como sinal de fraqueza?

A frase de Gullar chama a atenção justamente porque revela que é fundamental ceder, abrir mão de disputas mesquinhas em nome da felicidade. Não é esse objetivo da vida, ser feliz?

Pode parecer ingenuidade, mas juro que vou pensar duas vezes antes de entrar em uma discussão. Porque a gente sempre sabe como uma discussão começa, mas nunca sabe como ela vai terminar. E se pode terminar mal… para que começar? Já fiz isso tantas vezes, tantos confrontos desnecessários… Quem ganha uma discussão, ganha o quê?

Discutir com quem a gente ama só serve para minar a relação. Não estou pregando a apatia generalizada: é bom ter opiniões, são elas que constroem nossas personalidades. Mas querer impor essas opiniões a alguém tem um preço muito alto, que não acho que vale a pena pagar. Ou vale, para quem estiver disposto a pagá-lo. Infelizmente, não é como checar a etiqueta numa loja de roupas: a gente só sabe quanto a discussão ‘custou’ quando ela termina.

Gullar, eu também não quero ter razão, eu também só quero ser feliz. Pensando bem, ter razão nem é tão bom assim, porque significa que, se você está certo, a pessoa que você ama está errada. E será que é necessário expor o erro do outro de maneira tão evidente? Talvez seja por isso que vemos por aí cada vez mais gente com razão – e infeliz.

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Sempre gostei do Dia dos Pais, aquela coisa de almoçar com a família, dar presente, etc. Há quatro anos, no entanto, passei a curtir ainda mais da data: continuo dando presente, mas desde então eu também passei a ganhar.

Já escrevi aqui sobre meu pai, sobre outros pais, sobre os queridos avôs, que são pais duas vezes. Hoje, quero aproveitar a data para defender os pais ‘em carreira solo’, que já não dividem o teto com as mães.

Isso leva a uma questão que tira o sono de muita gente: será que pais separados têm mais dificuldade na hora de educar uma criança? Uma análise inicial (e superficial) indicaria que sim. Mas, sinceramente, tenho a esperança de que a resposta possa ser ‘depende’.

Acredito que depende das circunstâncias sociais, das famílias. Mas acredito que depende, principalmente, dos próprios pais.

Quando um casamento chega ao fim, é natural que exista mágoa entre os envolvidos. Ninguém é tão insensível a ponto de ficar imune a isso. O importante é evitar que essa mágoa vire um monstro alimentado pelo passado infeliz. E não permitir que os problemas causados pelos adultos cheguem às crianças.

Mães separadas que realmente se importam com seus filhos devem estimular o maior contato possível da criança com os pais, e pais separados têm que estar preparados para exigir essa proximidade. O fundamental é não ser egoísta: seu filho tem o direito de dar certo, mesmo que seu casamento não tenha dado.
Já que estamos falando de casais separados, somos obrigados também a falar sobre os eventuais novos integrantes que essa família passa a ter. São duas figuras geralmente vistas como vilãs pela ficção, mas que muitas vezes são tão presentes na vida das crianças quanto os seus pares oficiais: o padrasto e a madrasta.

Mães legais deveriam encaram com naturalidade o fato de que os ex-maridos não vão se dedicar ao sacerdócio apenas porque se separaram, até porque ex-mulheres também não costumam entrar para conventos. A vida recomeça a cada ciclo, impõe novas experiências, se transforma. Não há bem ou mal absoluto: é preciso seguir em frente. Com respeito, amizade ou, pelo menos, civilização.

Quando eu era criança, havia um comercial na TV que dizia ‘não basta ser pai, tem que participar’. Nunca esqueci essa frase, acho que ela é muito mais complexa do que parece. Temos que participar da vida dos nossos filhos, da formação de quem eles vão ser. Não basta ser pai: para merecer presente pelo dia de hoje, tem que participar.

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FM40 Obama

Há muitos anos ouço que a vida começa aos 40. Sempre achei estranho, desde criança. “Quer dizer que eu ainda não nasci?”, perguntava aos mais velhos, em arroubos de existencialismo – muito antes de saber o que era existencialismo.

Pois é, hoje, quarta-feira, 4 de agosto, às 4 da tarde, fiz 40 anos.

Quando conto isso, costumam me perguntar se estou sentindo alguma diferença, se meus ombros ficaram mais pesados com a chegada de uma data tão simbólica.

Talvez ainda não tenha caído a ficha, mas juro que me sinto exatamente igual. Não estou enfrentando nenhuma crise da meia idade, não estou preocupado em saber qual é o sentido da vida. Sou apenas isso que sou, ou sou tudo isso que sou, não importa. Outro dia, minha filha Isabel disse uma frase que me fez refletir: ‘Papai, eu sou eu’. Deve ser a frase mais complexa que ouvi nos últimos quarenta anos.

Aliás, fiz muita coisa nesses quarenta anos. Escrevi livros, gravei discos, conheci lugares interessantes. Casei, separei, talvez case de novo. Tenho uma filha linda, amigos maravilhosos, uma família que sempre me apoiou. E daí vem um velhaco metido a filósofo e diz que hoje é que minha vida vai começar? Não quero que minha vida comece: quero apenas que ela continue. E por um bom tempo.

Se me perguntassem uma década atrás o que eu me daria de presente hoje, as respostas poderiam variar entre uma casa na praia, um Mercedes conversível ou uma viagem de volta ao mundo. Mas sabe o que eu me dei na vida real? Uma máquina de lavar. O dia a dia é muito mais poderoso do que jamais sonhariam nossos sonhos. Como disse John Lennon, a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Se não é a frase mais perfeita do mundo, é a mais adequada para dizer a alguém que vai fazer 40 anos.

Também me perguntam o que acho de estar ficando velho. A resposta é simples: é melhor fazer 40 anos do que não fazer 40 anos.

A grande verdade é que a vida não começa aos 40, mas também não termina (pelo menos é o que eu espero). Os sonhos é que diminuíram: há, certamente, menos tempo para começar tudo de novo. Já sei, por exemplo, que não serei um piloto de Fórmula 1, um astro de Hollywood ou um toureiro de Madri. Nunca farei um gol numa Copa do Mundo; nunca atravessarei a nado o Canal da Mancha, nunca escalarei o Everest. Mas quem disse que eu quero?

Quero apenas continuar na minha estrada, mesmo com os pneus um pouco mais gastos. A vida não começa aos 40, ela começa quando você olha no espelho e diz para si mesmo: eu sou eu.

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