ir para o conteúdo
 • 

Felipe Machado

‘Dream on’ ao vivo numa apresentação no Japão em 2002: A melhor música do show em São Paulo, uma das melhores da história do rock

Se alguém tinha dúvidas de que o Aerosmith é maior banda da história do rock norte-americano, elas viraram fumaça de gelo seco no fim de semana. Os shows da banda de Boston no Brasil sempre foram muito bons, então não foi nenhuma novidade vê-los detonar o palco do Parque Antártica no último sábado.

Todos os músicos do Aerosmith são competentes, mas é bastante óbvio constatar que os fãs só compram ingressos há 40 anos (sim, a banda tem 40 anos) graças ao vocalista Steven Tyler e ao guitarrista Joe Perry. A dupla é uma versão americana (ou seja, profissional ao extremo) da estrutura artístico-musical que marcou as bandas inglesas nos anos 1970: um vocalista sexy-andrógino-de-calças-justíssimas e um guitarrista bad-boy-com-atitude-guitar-hero.

O exemplo que vem primeiro à cabeça é o de Mick Jagger e Keith Richards, com uma característica impressionantemente semelhante e outra bem diferente. A semelhança: o quesito ‘tamanho da boca do vocalista’, compartilhada coincidentemente (ou não) por Jagger e Tyler. A característica que tem mais ver com a postura no palco do que com a musicalidade é o talento dos guitarristas: enquanto Joe Perry é sensacional, Richards sempre foi um músico apenas mediano. De maneira geral, inclusive em termos de estilo e peso, a dupla Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin, é mais parecida.

No mundo do rock & roll, não se tem 40 anos de estrada à toa. Steven Tyler teve o público nas mãos desde ‘Eat the Rich’, que abriu o show. Aliás, é impressionante ver o número de clássicos que o Aerosmith tem e que a gente nem se lembra direito até o primeiro acorde da música explodir nos amplificadores vintage de Joe Perry.

O som de Joe Perry é outro dos destaques do show: nunca vi tantas guitarras incríveis no mesmo lugar desde que visitei uma loja de instrumentos raros em Los Angeles. Steven Tyler pode ser ‘a boca’, mas Joe Perry é que é ‘o cara’.

O show do Aerosmith não tem nada efeitos sonoros, não tem loops eletrônicos, ou outra modernidade. É um rock and roll puro, cantado com a garganta. As guitarras têm som de guitarra; o vocalista pede para o público cantar. E as letras são perfeitas para quem quer tirar as ansiedades de dentro do peito e jogá-las ao vento em um estádio com 38 mil pessoas. Como resistir a Dream on, dream on… Dream until your dreams come true… (Continue sonhando, continue sonhando… até que seu sonho vire realidade). O rock tem uma mensagem tão profunda que muitas vezes o reduzimos a algo simplista. Não é.

Voltando ao assunto, não é a boca (nem as luzes loiras nos cabelos, nem o Botox no rosto inteiro) do Steven Tyler o que mais chama a atenção no show do Aerosmith: é o repertório. Os caras desfilam uma bela mistura de clássicos do hard rock dos anos 1970 e 1980 com canções recentes que ficaram famosas entre os mais jovens graças a uma série de videoclipes muito legais. Foi uma estratégia marqueteira tão eficiente para ganhar as novas gerações que só poderia ter sido colocada em prática por uma banda americana de rock. A maior delas.

comentários (23) | comente

  • A + A -

Vídeo: Vanessa da Mata e Ben Harper desejam ‘Boa Sorte/ Good Luck’

No excelente filme espanhol ‘Intacto’, de Juan Carlos Fresnadillo, uma confraria de pessoas com muita sorte aposta entre si, criando situações estranhas e até meio macabras. O personagem principal é Tomas, o único sobrevivente de um acidente aéreo em que morreram centenas de pessoas.

Lembrei imediatamente do filme na semana passada, quando ouvi a notícia de que um menino holandês de 9 anos havia sobrevivido após um acidente aéreo que deixou 103 mortos na Líbia. As imagens do avião destroçado tornaram a história ainda mais inacreditável. Como é possível alguém sair vivo dali? Não sei, mas Ruben van Assouw saiu. Isso só prova uma coisa: o impossível só é impossível até acontecer.
A primeira coisa que vem à cabeça é que foi muita sorte do garoto. Mas fico imaginando: como será a vida dele quando virar um adulto? Além de perder a família, qual será a influência que essa sorte terá sobre o resto de sua vida?

O que costumamos chamar de sorte é realmente uma coisa muito interessante. Alguém já definiu sorte como ‘talento + oportunidade’, o que acho que faz sentido para algumas aplicações, como a vida profissional ou o sucesso na carreira artística. Mas, às vezes, sorte é simplesmente uma coisa positiva que acontece com você. Tem gente que tem a sorte de ser sortudo, mesmo.

Já ouvi muitas vezes a expressão ‘sorte no jogo, azar no amor’, mas nunca consegui entender a relação entre as duas coisas. Talvez seja porque tanto o amor quanto o jogo são coisas que podem ser muito boas ou muito ruins para a vida de alguém. Se alguém tem um dos dois, não poderia ter o outro. Seria um fenômeno, sei lá, injusto com o resto de nós, pessoas normais.

Para falar a verdade, nem sei se existe realmente algo como ‘sorte no amor’. Tudo bem, em Hollywood o mocinho dos sonhos sempre bate na porta (sem querer, claro) pedindo açúcar para a mocinha. Mas na vida real acho que tem sorte quem merece ter sorte, quem teve ‘talento + oportunidade’ de atrair a pessoa dos sonhos.

É a mesma coisa com o azar, não? Todo mundo tem qualidades ou defeitos, depende de quem vê. Às vezes dizem: ‘Que azar aquela garota teve em se apaixonar por um cara tão péssimo…’ Na minha opinião isso não tem nada a ver com azar: alguma coisa na personalidade do cara péssimo fez com que ela se apaixonasse. Mas ninguém tem qualidades ou defeitos isolados do resto da personalidade: eles são parte de quem a pessoa é. Portanto, se ela achasse o cara realmente péssimo, nunca se apaixonaria. Agora, se o defeito não a incomoda tanto assim… sorte dela.

comentários (12) | comente

  • A + A -
Hayden Panettiere

Hayden Panettiere

A atriz de ‘Heroes’ deu um belo presente para o namorado: um strip-tease. Se depender dela, pelo jeito o cara nunca vai ter hipertensão na vida

Há alguns dias, o ministro da Saúde José Gomes Temporão recomendou atividade física para combater a hipertensão. Para complementar, recomendou também que os casais fizessem sexo porque isso poderia ajudar na prevenção. Foi o bastante para o País inteiro falar sobre o assunto.

Na minha opinião, isso é demagogia. Não sei por que fingimos ser tão puros em algumas áreas, se somos tão promíscuos em outras. Por que será? Por que será que sexo é um assunto ainda tão tabu, se é algo praticado por 99,9% dos casais que a gente vê na rua de mãos dadas?

Acho esquisito a maneira como encaramos o sexo. Olhe pela janela e veja as pessoas na rua. Imagine só que coisa, elas fazem sexo! Sabe a professorinha da escola da sua filha? Ela também faz sexo. Sabe a sua bisavó, tão velhinha? Ela também fez sexo. Sei que parece idiota o que estou dizendo, mas é só para a gente refletir: todo mundo faz sexo. E o mundo não acabou. Ao contrário, aliás.

Talvez você diga que as pessoas de mais idade não fazem mais. Engano seu: muitas fazem, principalmente os homens desde que descobriram a famosa pílula azul (e como a patente do remédio acaba de ser quebrada, aguarde as festas nos asilos da cidade quando chegarem os primeiros genéricos). Daí você vai dizer: ‘os padres não fazem’. E aí eu prefiro nem comentar, porque entraremos em outra polêmica.

Posso até acreditar que tem gente que não faça. Mas é a minoria. A grande maioria tira a roupa, deita na cama, abraça o parceiro e faz sexo. Ou amor, como você quiser chamar. Se todo mundo faz, por que é um tema tão difícil de se abordar?

Não tenho a menor ideia, mas me chama a atenção quando vejo gente falando de sexo como se fosse uma coisa de outro mundo. Não é. Se fosse, aliás, eu não estaria escrevendo isso aqui. O importante é praticá-lo com consciência.

Pode soar bizarro, mas até sua mãe fez sexo. Com seu pai, olha só que coincidência (só não olhe para os dois agora porque eles estarão vermelhos). Não quero faltar com o respeito, nem quero que imagine coisas. Só quero dizer que isso é uma coisa óbvia, que faz parte da nossa vida. E não preciso nem dizer que é uma coisa linda, maravilhosa. Ao mesmo tempo em que não existe nada mais humano do que o ato sexual, ele não deixa de ser uma espécie de ritual sagrado, uma forma física e espiritual de transferência da vida.

Não tenho problemas com hipertensão, mas vou seguir o conselho do ministro. Faz bem para o corpo, para a alma, não tem contraindicações. E traz um outro benefício que não está em nenhuma cartilha do Ministério da Saúde: é uma delícia.

comentários (25) | comente

  • A + A -
Ronnie James Dio: 'A Voz' do heavy metal morreu ontem aos 67 anos. Como ele cantou no Rainbow... 'Long Live Rock & Roll'

Ronnie James Dio: ‘A Voz’ do heavy metal morreu ontem aos 67 anos. Como ele cantou no Rainbow, ‘Long Live Rock & Roll’

Para quem é de fora, é tudo a mesma coisa: barulho. Mas quem conhece heavy metal a fundo sabe que o estilo é bastante segmentado, e que as aparentemente pequenas diferenças estilísticas entre as bandas dividem os fãs tanto quanto os unem. O cara que ama Iron Maiden odeia Slayer; a garota que acha o Bon Jovi lindo passa mal quando ouve Sepultura.

Pelo menos um artista, no entanto, sempre foi unanimidade entre todos. É o vocalista Ronnie James Dio, conhecido simplesmente – e sem o egocentrismo que o nome pode invocar – , como Dio, ‘deus’ em italiano. E não apenas em italiano, mas em todas as línguas, Dio foi um deus do metal.

Os roqueiros hoje estão de preto, e isso não é um pleonasmo, muito menos uma figura de linguagem. Dio morreu ontem aos 67 anos de câncer. Há exatamente um ano atrás, nesse mesmo dia, ele fazia seu último show no Brasil, no Credicard Hall, à frente do Heaven & Hell (Black Sabbath, para os íntimos, impedido de usar o nome verdadeiro graças ao poder de Sharon Osbourne, mulher de Ozzy). Eu estava lá, claro, e o pequeno grande vocalista foi sensacional como sempre. E como nunca mais será.

Todo mundo sempre gostou do Dio, e não apenas porque ele era vocalista do Rainbow, de Ritchie Blackmore, ou do Black Sabbath, duas das bandas mais importantes e influentes do estilo. Dio cantava com a alma, com o coração. Quem conhece um pouco de rock sabe que se Ozzy Osbourne é chamado de ‘Prince of Darkness’ (Príncipe da Escuridão), Dio sempre foi o Rei.

Na verdade, eu não saberia dizer por que Dio é tão amado entre os fãs de rock pesado. Se fosse tentar adivinhar, diria que é porque ele combinava uma credibilidade artística total e um talento vocal bastante incomum. A voz do cara era demais, resumindo. Era, não. É. A única coisa que importa sobre os grandes artistas é que eles são imortais, não importa se são de heavy metal, samba ou jazz.

Dio ficou conhecido também porque há uma certa ambigüidade em sua voz, uma versatilidade que lhe permitia variar dinamicamente entre o sagrado e o profano, com o perdão do trocadilho. Em alguns trechos, Dio pode soar diabólico, quase como um porta-voz das profundezas do inferno. No trecho seguinte, na mesma canção, sua voz se eleva de maneira tenra, sensível até, como se ele tivesse sofrido um exorcismo-relâmpago e não fosse não mais apenas um pequeno demônio. E daí seu timbre muda completamente e fica celestial, límpido. Belo, enfim, se ‘belo’ fosse um adjetivo que a gente pudesse usar para descrever uma canção de heavy metal.

Acho que é por tudo isso que a canção que melhor expressa quem foi Dio é ‘Heaven and Hell’, o clássico do Black Sabbath.

É tão difícil falar sobre um cara que a gente parece conhecer tão bem, não? Lembro do Dio cantando ‘Long Live Rock and Roll’ e ‘Kill the King’, do Rainbow; lembro do Dio cantando ‘Rainbow in the Dark’, primeiro hit de sua bem-sucedida carreira solo; lembro do Dio imortalizando o ‘chifrinho’ com as mãos, símbolo que virou sua marca registrada; lembro do Dio cantando em um dos melhores álbuns ao vivo do rock, ‘Live Evil’, do Black Sabbath (banda que ele deixou logo depois que o disco saiu porque o guitarrista Tony Iommi havia abaixado o volume dos vocais); lembro do Dio organizando o projeto ‘Hear ‘N’ Aid’ e lançando a música ‘Stars’, uma espécie de ‘We Are The World’ do heavy metal, com renda beneficente para a África.

O heavy metal tinha (e tem) orgulho de Dio. Ele era um vocalista de verdade, um cantor no melhor sentido da palavra. Sabe o que seria legal? Ver o baixinho Dio cantando músicas de outros estilos. Por quê? Só para mostrar para o grande público que ele, na verdade, era um gigante.

Adeus, Dio. Não sei se você foi para Heaven ou Hell, nem estou preocupado. Onde quer que você esteja, anjos e demônios estarão juntos na plateia, aplaudindo de pé.

Rest in Peace, Man on the Silver Mountain.

Duas histórias legais sobre o Dio:

1. Sabia que se você virar o logotipo ‘Dio’ de ponta-cabeça é possível ler a palavra ‘Devil’?

Dio

Dio

2. Em 1984, a hoje extinta revista brasileira ‘Roll’ publicou uma ‘entrevista’ com Vivian Campbell, guitarrista da banda do Dio. A matéria era tão inventada que trazia uma resposta dizendo que era ‘muito difícil ser uma mulher e tocar numa banda de heavy metal.’ Detalhe: Vivian Campbell é homem. Um excelente guitarrista, aliás, hoje no Def Leppard.

comentários (53) | comente

  • A + A -
Murilo Felisberto

Murilo Felisberto

Há exatos três anos, em 11 de maio de 2007, um grande amigo nos deixou. Murilo Felisberto não era apenas um amigo, mas um profissional que me ensinou quase tudo do pouco que eu sei. O mais incrível é que ele fez isso muitas vezes sem dizer uma só palavra, apenas com o olhar. Quem o conheceu sabe do que estou falando.

No dia em que ele morreu, escrevi um texto bastante emocionado. Acabo de dar uma olhada e vejo que ele continua atual, por incrível que pareça. Se eu fosse arriscar uma razão, diria que é porque é foi inspirado por um sentimento de perda que não se perdeu.

Murilo era um cara amado; tão amado que existe até um blog com textos dedicados a ele. Se não me falha a memória, foi ideia do ilustrador Daniel Kondo, que trabalhou com ele (e comigo) na DPZ. Tem histórias divertidíssimas de nomes como Washington Olivetto, Mauricio Kubrusly, Nirlando Beirão e outros caras legais, do jornalismo e da publicidade. Tenho orgulho de dizer que meu texto também está lá.

Murilo foi uma pessoa importante para mim, e é por isso que presto aqui essa pequena homenagem a ele. Para mim, escrever é uma forma de falar em voz alta sem precisar abrir a boca.

E só isso o que eu queria dizer: Murilão, você faz falta.

comentários (5) | comente

  • A + A -
Manowar: Banda não tocou nenhum sucesso e fãs saíram enfurecidos

Manowar: Banda não tocou nenhum sucesso e fãs saíram enfurecidos

Foto: MRossi

Uma das melhores frases do escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw diz o seguinte: ‘Se aos 20 anos você não é comunista, você não tem coração. Se aos 30 você não é capitalista, você não tem cérebro’. Há mais semelhanças entre o comunismo e a banda americana Manowar do que imagina a sua vã filosofia.

Fui ao show do Manowar na última sexta-feira no Credicard Hall, em São Paulo. Não foi apenas um show ruim: foi um dos shows mais ridículos que já vi na vida – e olha que eu já vi shows na vida. Se você é um fã radical de Manowar e acha que o que eu estou dizendo é um absurdo, por favor leia o texto até o final.
Vamos começar pelo começo: eu sempre fui fã de Manowar. Eu deveria ter vergonha de dizer isso, mas acho que temos que ser honestos com quem somos e, mais importante ainda, com quem éramos. Em 1986, minha banda de rock, o VIPER, se apresentou em um bar chamado Ácido Plástico, um buraco horroroso bem ao lado do (in)esquecível presídio do Carandiru (diziam que fugitivos se escondiam lá, para você ter uma ideia do nível do local). Bem, isso tudo para dizer que terminamos esse nosso show com uma versão de ‘Battle Hymns’, um épico do primeiro disco do Manowar.

Confesso que na época a gente não conhecia o visual dos caras, já que eles não tinham clipes e era muito difícil ter acesso a shows em vídeo. A gente sabia que eles se vestiam como vikings, que adoravam o deus Odin, etc. Mas víamos isso apenas como uma escolha temática da banda, assim como as maquiagens do Kiss ou os demônios do Slayer. Muitas bandas sempre abusaram de personagens e temas, e o Manowar era apenas mais uma delas.

Lembrando ainda que estamos falando da época em que o filme ‘Conan, o Bárbaro’ havia acabado de ser lançado… Portanto, o tema ‘viking’ não era uma coisa tão distante assim do que rolava na época, dá para dizer que era quase uma ‘modinha’. (Acabo de saber que morreu o ilustrador de Conan, Frank Frazetta. Leia a matéria aqui.) Manowar e Conan, inclusive, influenciaram o VIPER a escrever uma canção sobre o tema, ‘The Law of the Sword’ (A Lei da Espada). Na época, a média de idade da nossa banda era de 16 anos e a gente achava isso o máximo. Tinha uma coisa de ‘guerreiros’, de ‘honra’, que era muito legal quando transposto para a nossa realidade, uma coisa de acreditar no heavy metal como forma de manter sua personalidade dentro de uma sociedade opressiva e massificante. Quando se é adolescente, faz todo o sentido se sentir ‘parte uma turma’, de uma ‘gangue’. Alguém viu o filme ‘Warriors’? Pois é.

O VIPER não tocava apenas ‘Battle Hymns’. No nosso repertório havia ‘All Men Play on Ten’, ‘Animals’, ‘The Oath’, ‘Sign of the Hammer’, ‘Blood of my Enemies’, ‘Army of Immortals’ e várias outras. Ou seja, conheço a banda desde o seu início. E foi justamente esse sentimento de nostalgia que me fez ter vontade de ver o show.

Na véspera, entrevistei o baixista Joey DeMaio, líder do Manowar. Ele se portou de maneira profissional, como um verdadeiro rockstar. Até mais do que ele é, para falar a verdade. Um assessor ficava o tempo inteiro pedindo para eu apressar as perguntas, como se o baixista do Manowar tivesse muitas atividades importantes. Não tinha. Além de mim, o único interessado em entrevistá-lo era o vocalista do Massacration, Bruno Sutter, também conhecido como Detonator. O assessor do Manowar deve achar que trabalha para o Metallica ou para o Iron Maiden. Pensando bem, o Metallica e Iron Maiden são bem mais simpáticos.

(Parênteses: Há no site Whiplash, especializado em heavy metal, uma das histórias mais hilárias dos últimos tempos. Ela diz que, segundo um morador da mesma cidade do Manowar, no norte do estado de Nova York, a banda é totalmente falida, seus integrantes moram com os pais e fazem bicos na construção civil. Eu, pessoalmente, acho que a história é inventada, até porque nos Estados Unidos qualquer bandinha média consegue ganhar uma grana. De qualquer maneira, vale a pena ver porque é muito engraçada.)

Foi minha memória de fã adolescente que me levou ao show do Manowar. Logo na porta, encontrei alguns amigos ‘das antigas’. Todo mundo brincando um com o outro, fazendo piadinhas com as barrigas salientes e as cabeleiras que se transformaram em penteados ‘normais’. Havia algumas pessoas fantasiadas com elmos e espadas, o que considerei até uma mostra de senso de humor explícito, impensável na minha época. Me senti numa convenção do Star Trek, mas com vikings no lugar dos Spoks. Um clima legal, divertido, acabei até ficando satisfeito por ter ido ao show. Tudo isso até o show começar.

O Manowar entrou no palco ao som de uma música nova, o que é normal para uma banda americana que está em turnê pela América do Sul: eles querem vender o disco mais recente, ‘Thunder in the Sky’ (‘Trovão no Céu’, um singelo pleonasmo-metal). Eu não conhecia essa música, mas até fiquei feliz em ver Joey DeMaio e Eric Adams (vocalista) no palco. Certamente o show ficaria legal quando tocassem alguma música conhecida.

Infelizmente, isso não aconteceu. Um amigo meu conseguiu uma cópia do repertório do show, e lá dizia que o Manowar não tocaria nenhum ‘clássico’. Fiquei revoltado. O Manowar tem uns 15 discos, mas lá dizia que só tocariam músicas dos três últimos. Não tocariam sequer a música ‘Manowar’, que batiza a banda e é do disco de estreia deles. Achei muito esquisito porque, apesar de ver que havia no show vários fãs mais novos, é óbvio que uma banda com 25 anos não pode desprezar totalmente seu passado. A não ser que haja alguma pendência judicial em relação a direitos autorais, que é o que imagino. Não pode haver outra explicação. Não tocar absolutamente nenhuma música conhecida seria muita falta de respeito com quem pagou de R$ 100 a R$ 300 pelo ingresso.

Quando vi que isso ia, sim, acontecer, decidi ir embora. Eu já estava achando o show ruim, mas até aí não havia nada absurdo: era apenas um show ruim de uma banda formada por bons instrumentistas, mas que apresentava um som datado e clichê. Comparado com o Manowar, o Spinal Tap é uma banda que deve ser levada a sério.

Foi aí que começaram os exageros. As luzes se acenderam, a música parou, e o baixista Joey DeMaio veio ao microfone falar com o público. Ele começou o discurso dizendo que o Manowar era a banda mais pesada do mundo, a melhor, a mais verdadeira. “Se você não é fã do Manowar, fuck you” foi a frase mais profunda do discurso. O desagradável não foi vê-lo falar bem da própria banda, o que já seria esperado. O difícil foi agüentar o papo de ‘pastor do heavy metal’ de Joey DeMaio, exatamente como se eu tivesse ligado a TV em um daqueles programas de charlatões-fanáticos religiosos.

Era um discurso de lavagem cerebral sem um pingo de humor, totalmente arrogante e autoritário. Imagine um imã islâmico com o cabelo até a cintura e o rosto da Mona Lisa. Ele agia como se os fãs de heavy metal fosses pessoas manipuláveis, corpos vazios esperando um pseudo-ídolo para preenchê-lo com bobagens e frases de efeito de quinta categoria. Imagine um pastor evangélico vestido como um viking: você entendeu.

Antes de sair do palco, em um ato de populismo-metálico, DeMaio convidou um fã para tocar uma música no palco. Muito legal, o cara subiu, empolgado, etc. Daí DeMaio deu uma cerveja para o cara, fez um concurso de quem bebe mais rápido e mandou o cara tirar e jogar a camiseta do Iron Maiden para a plateia, porque ele daria uma camiseta de uma ‘banda de verdade’ (não precisamos dizer que banda seria essa, não?).

O fã vestiu a camiseta do Manowar e começou a tocar com a banda. DeMaio então convidou algumas ‘garotas brasileiras’ para dançar no palco, porque faltava o lado sexista ao discurso de pastor heavy metal. Nunca vi uma coisa tão apelativa, e olha que esse blog se chama ‘Palavra de Homem’. Começou o show de strip-tease, com três groupies brasileiras se beijando e realizando outras baixarias que não cabem em um blog família como esse. Nesse momento, fiquei pensando se eu ia escrever a crítica do show dentro da editoria ‘Trilha Sonora’ ou ‘Borracharia’. Fiquei meio com pena das garotas, até porque conhecia duas delas. Elas não tinham noção do espetáculo bizarro de que estavam participando: dançando peladas no Credicard Hall durante um show do Manowar para quatro mil pessoas. Como consolo, resta dizer que as garotas eram bem bonitas.

Mas peraí, eu não devia estar falando de um show de rock? Essa não era a melhor banda de heavy metal do mundo, do universo… de Asgard, terra de Odin? Eles não eram os Reis do Metal? “As outras bandas tocam, o Manowar mata”, era o slogan deles nos anos 80. “As outras bandas tocam, o Manowar apela” seria mais honesto.

Pode ser que o Manowar ache que um bom show de rock deve ter mulheres peladas no palco, músicos errando tudo porque exageraram na bebida e discurso de líder religioso de quinta categoria. Eu não acho, mas isso é só minha opinião. É por causa de bandas como o Manowar que as pessoas têm preconceito com o heavy metal. Não deveria ser assim: é um estilo pesado, radical, mas formado por bandas musicalmente boas e fãs inteligentes.

Não fui o único a ir embora do show na metade. Gosto tanto de ir a shows que o show tem que ser muito ruim para eu ir embora antes do final. Outros amigos também foram quando souberam que eles não tocariam nenhuma música famosa. Mais tarde, recebi mensagens dizendo que o Manowar foi vaiado no final do show e os fãs revoltados gritaram ‘Iron Maiden, Iron Maiden’. Me contaram até que uns caras queimaram camisetas do Manowar na saída do show. Também não precisava fazer isso. Fã de rock não é membro de torcida organizada, não precisa radicalizar. Música deveria ser arte, mesmo quando nos inspira rebeldia e reflexão. Mas é isso que acontece quando uma banda assume um discurso radical, que promete e não entrega, que incita a divisão entre jovens que estão lá apenas para se divertir e curtir um bom show. Não precisava queimar a camisa do Manowar. É bom guardá-la para lembrar quem são os ídolos da adolescência que vale a gente manter. Mesmo quando deixa a adolescência.

comentários (35) | comente

  • A + A -
Foto: Divulgação VIP

Foto: Divulgação VIP

Juliana Paes: A atriz está grávida… seria hoje seu primeiro Dia das Mães? Na dúvida, mandei umas flores para garantir

‘Ah, filho, não precisava.’

Foi assim que 99,9% das mães responderam quando chegamos com o presente há algumas horas, provavelmente na hora do almoço. Tem evento mais clássico que almoço com a mãe no segundo domingo de maio?

Sim, hoje é Dia das Mães. E é bom você ter comprado alguma ‘lembrancinha’, por menor ou mais simbólica que seja. Afinal, você sabe perfeitamente bem que quando sua mãe quer dizer uma coisa, na verdade ela quer dizer… outra.

Isso acontece por duas razões. Em primeiro, porque antes de ser sua mãe ela é uma mulher, e mulheres não falam exatamente aquilo que parece estar saindo de suas bocas. Em segundo, claro, porque ela é sua mãe. Ela quer o seu bem. Ela sabe o que é melhor para você. E ela finge que acha que você deveria gastar seu dinheiro com você mesmo, não com ela.

As mães são uma espécia à parte do resto da humanidade porque têm um vocabulário exclusivo, que consegue ser único e universal ao mesmo tempo. Se alguém escrevesse um dicionário ‘Mãe-Português-Português-Mãe’ ficaria rico. Não entendeu por quê? Então deixa para lá. Se você pedir para sua mãe explicar a piada, ela usaria o mesmo vocabulário… ou seja, você não entederia do mesmo jeito. É preciso ser mãe para entender outra mãe.

Desculpe pela obviedade, mas se você está lendo esse texto, é porque é alfabetizado. E se você é alfabetizado, aumentam as chances de já saber o que sua mãe vai dizer antes mesmo de ela abrir a boca.

Veja bem, não importa se o filho em questão tem quatro ou quarenta anos. Minha mãe, por exemplo, me diz as mesmas frases desde que tenho quatro (ainda não tenho quarenta, mas já estou perigosamente perto e tenho certeza de que isso não vai mudar nem quando eu chegar aos sessenta).

“Você está agasalhado, flho?” é uma das mais populares. “Almoçou direito?”é outra bem famosa. Mas minha favorita é uma mais recente, simples e direta ao ponto: “Filho, cuidado com tudo”.

Imagina só o número enorme de expressões que minha mãe conseguiu unificar: ‘cuidado com tudo’. Abrangente, não? Não precisa dizer mais nada.

É uma frase bem útil porque se aplica a qualquer situação. Para evitar especificidades, ela simplesmente pede que eu tenha cuidado com qualquer coisa que possa acontecer nesse ‘mundo louco que a gente vive’. Mulheres com TPM? Cuidado com tudo. Sequestro relâmpago? Cuidado com tudo. Leões africanos soltos pela Vila Madalena? Cuidado com tudo.

Por mais que pareçam semanticamente diferentes, todas as frases citadas nesse texto, sem exceção, significam a mesma coisa: ‘filho, eu te amo’. E é exatamente por isso que a gente discorda delas.

“Presente? Mas é claro que precisava, Helô. Você é o máximo.”

Feliz Dia das Mães para a minha… e para a sua.

comentários (21) | comente

  • A + A -
Neymar, atacante do Santos: Show de bola e irreverência

Neymar, atacante do Santos: Show de bola e irreverência

Não costumo falar muito sobre futebol por aqui. Em primeiro lugar, porque o Estadão tem caras muito melhores que eu escrevendo sobre o assunto na seção de Esportes. Em segundo, porque acho muito clichê discutir futebol em um blog chamado ‘Palavra de Homem’. Fica muito fácil para elas reclamarem que a gente só sabe falar disso, né? Pois é.

Hoje vou abrir uma exceção. Mas você vai perceber que o texto não é exatamente sobre futebol, apesar de ser sobre um personagem intimamente ligado a esse tema. Esse é um texto em homenagem a um cara de quem tenho ouvido falar muito nos últimos tempos. O nome dele é Neymar.

Não vou puxar o saco do moleque: depois do título Paulista conquistado ontem, já deve haver gente suficiente fazendo isso. Só estou aqui para falar de um cara que tem sido chamado de ‘gênio’, ‘sucessor do Pelé’… e acabou de fazer 18 anos.

Eu sei um pouco sobre o assunto, afinal, já tive 18 anos – até falei aqui sobre essa época há pouco tempo. Já se passaram alguns anos, mas lembro bem da sensação de poder que emana da energia de alguém que tem 18 anos. É tudo muito rápido, intenso. Não existe nada mais importante que a palavra agora.

Imagino o que anda passando pela cabeça do Neymar. O cara deve estar se achando o melhor do mundo – e isso nem é culpa dele. Hoje em dia a mídia (nós, jornalistas, principalmente) é tão influente que deve ser difícil para Neymar ficar imune a tanta injeção de egocentrismo artificial em suas jovens veias.

Deve mesmo ser muito bom ter 18 anos e estar no topo do mundo. E Dunga tem, sim, que convocá-lo para a Copa do Mundo, simplesmente porque ‘futebol é momento’, como diriam os frequentadores de mesas-redondas. Não adianta levar jogadores que estavam arrebentando há seis meses e que hoje estão… arrebentados.

Claro que Neymar tem que aproveitar essa boa fase. Não quero soar paternalista (nem chato) e dizer que o garoto ‘tem que colocar a cabeça no lugar’, ‘ficar longe das más companhias’, etc. Quer dizer, ele tem, sim, que fazer isso. Mas também tem que se divertir, curtir o momento. O mais importante é ter a noção de que nada é para sempre: seu sucesso só vai durar enquanto durar seu brilho em campo. O Brasil está cheio de exemplos de jogadores que fazem escolhas erradas e acabam encerrando a carreira mais cedo. Quase aconteceu com o amigo dele, o Robinho.

Cabeça no lugar, Neymar. Não vai se achar, cara. Seja humilde; eu sei que é difícil. Você tem talento para se tornar um dos grandes nomes do futebol mundial. E uma última coisinha: você já pensou em jogar no Corinthians? Seria a melhor jogada da sua vida.

comentários (26) | comente

  • A + A -

Arquivos

Blogs do Estadão