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Felipe Machado

A nova Miss São Paulo, Karla Mandro. Se ela quiser fazer algum acordo, estamos aí

A nova Miss São Paulo, Karla Mandro, de Piracicaba. Se ela quiser fazer algum acordo, estamos aí

No altar, não há cena mais forte do que o momento em que o padre pede aos noivos que digam que ficarão juntos ‘na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe’.
Tudo bem, concordo que o texto é forte e tão emocionante que provoca nos parentes mais próximos as lágrimas mais pesadas e afluentes. Mas, esquecendo o ritual, convenhamos que isso tudo é puro simbolismo, e essa frase aparentemente tão especial não passa de uma promessa.

O que existe na vida real, mesmo, é outra coisa, bem diferente. O que manterá (ou não) essa relação nasceu muito antes, talvez até desde o primeiro beijo. Envolve sentimento, carinho, afeto. E outro pequeno item muito importante, pelo menos na minha humilde opinião.

O que faz com que as pessoas cheguem ao altar e se mantenham juntas depois que descem dele é um acordo. Um grande acordo.

Qual é a diferença entre a promessa ao padre e esse acordo? Vamos dizer apenas que é a mesma entre o político num palanque eleitoral e o presidente que assina um acordo entre dois países.
Permita-me reformular o conceito um pouco, porque acho que a comparação ficou meio esquisita. Quer dizer, ela até faz sentido, mas soou, sei lá, muito diplomática. E os diplomatas que me perdoem, mas uma relação entre duas pessoas é muito mais complexa que uma relação entre dois países.

O importante é que esse acordo entre o casal seja definido desde o início. O sucesso de um relacionamento pode ser medido pela clareza das normas de seu acordo, e pelo interesse das partes envolvidas em segui-lo. Se, em algum momento da vida a dois, uma das partes deixar de seguir o acordo da maneira como ele foi preestabelecido, pode ter certeza de que haverá ali uma ruptura.

Temos que ser honestos e lembrar que esse acordo pode sofrer reajustes, porque isso é da natureza da vida. Não chega a ser um problema. Cláusulas pequenas são fáceis de serem adaptadas a novos cenários. O que um acordo não pode perder é sua essência, porque é aí que está a sua solidez, sua confiabilidade. Todo mundo muda, e é normal constatar que os acordos devem ser revistos de tempos em tempos. O que eles não podem é ser anulados, como se nunca tivessem existido. Não dá.

Peço desculpas pelo caráter técnico deste texto e chamo sua atenção para um último detalhe. Apesar de todas as formalidades, não há nenhuma evidência de que esse acordo precise ser registrado em cartório. Ele pode ser verbal, espiritual, sensorial. Basta que ele exista e seja respeitado por ambas as partes. O resto é promessa.

Foto: Leandro Soares/AE

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João Caetano de Oliveira: Um velho amigo que eu e meu primo Lívio não vimos

João Caetano de Oliveira:

Publicar textos sobre a minha família não é nenhuma novidade para quem frequenta esse blog. A novidade é que desta vez publico o texto de um primo ‘inédito’ por aqui. Lívio Oliveira é poeta e tem um blog bem legal (Blog de Lívio Oliveira), onde ele escreve sobre a cultura brasileira, com ênfase na cena cultural de Natal, onde mora.

Recentemente, recebi por e-mail um texto dele sobre nosso avô, João Caetano de Oliveira. Achei o texto superbonito, emocionante, e me identifiquei bastante com ele até porque também não conheci meu avô. É um texto bastante pessoal, uma pequena homenagem que faço por meio das palavras do meu primo Lívio. Espero que você goste do tema já que, no fundo, todas as famílias são iguais. Quer dizer, como disse Tolstói, ‘todas as famílias felizes são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira’.

Só para deixar registrado, a nossa é a primeira opção.

Lívio, valeu pelo texto.

Abs, F.

Carta a um velho amigo que não vi

Natal, 2 de abril de 2010.

Meu avô João Caetano,

Desculpe-me pelo imenso atraso. Já se passaram – eu sei – 40 anos. Mas, é que somente agora atinei para o fato de que precisava lhe mandar minhas impressões e aquilo que tenho sentido acerca dessa longa aventura sobre a Terra, lugar estranho e curiosamente sedutor, solo por onde temos que andar longa e arriscada travessia. Para onde? Ainda não sei. Certamente onde está já tenha sabido que destino tomamos. Talvez aí, onde você está – você, não, que o senhor não é dado a essas intimidades –, onde o senhor está, possa compreender melhor e com mais conhecimento de causa as minhas preocupações, minhas dores, meus sofrimentos. Também deverá saber melhor avaliar as minhas alegrias, realizações, metas por atingir…

É, meu avô, sei que nada é fácil e por isso tenho lutado como ninguém. Às vezes esmoreço. Às vezes me fragilizo. Mas, quando a vida menos espera, fortaleço-me de um jeito que pareço um leão. Por falar nisso, esse é meu signo: Leão. Nascido em agosto de 1969. Lembra daquele mês de agosto em que eu nasci, aqui nessa ensolarada cidade chamada Natal? Pois é…soube que o senhor se preparava para vir me visitar, vindo de Parelhas, numa viagenzinha de um pouco mais que 100 quilômetros. Mas, aí, antes que isso acontecesse, decidiu fazer uma viagem mais longa, bem mais longa. E eu que pensava que Natal ficava a caminho do céu…

Papai me disse uma vez, se não me engano, que o senhor não acreditava muito que o homem tinha chegado à lua. Logo o senhor, João Caetano? Logo o senhor, que foi diretinho pro céu??!!

Não quero, meu avô, tomar o seu tempo, não. Por sinal, não sei nem se por aí existe esse tal de tempo. Taí um troço que me deixa perturbado. Às vezes, não consigo entender direito o sentido do relógio. Não é nada fácil! E olha que, como advogado público, tenho que ficar de olho nos prazos, todo santíssimo dia.

Acredito, meu avô, que o senhor gostaria de nos ver hoje. Talvez, até esteja vendo. Papai e mamãe estão fortes e vigorosos e vão completar aniversário de casamento. Vovô, olha que é mais tempo do que eu tenho de vida, eh!eh!eh! Óbvio, né? E os meus irmãos estão todos bem. Jaime Júnior fez uma cirurgia no umbigo, dia desses. Morreu de medo, mas deu tudo certo. Não fugiu. E Janair tá lá na Europa, no Velho Mundo (no início deste ano estive, com Alciléa, por aqueles lados frios) onde morou meu queridíssimo Tio Gabriel, que está aí por cima, junto com Vovó Clotilde, Tia Eunice, Tio Zé, Tio Adelson, Tia Anna. A hora do almoço de vocês deve ser muito animada. Não é? Sim, Jaiana está decidindo se vai trabalhar em Angicos, terra de Aluísio Alves. E eu e Jansênio não nos temos visto mais, meu avô. Coisas da vida…

Também acho que o senhor gostaria de prosear com o genro e as noras de papai e mamãe. Ele gosta muito de Caicó e é do seu Seridó e todas elas (as noras Alciléa, Anita, Naury e Sânzia) são mulheres corretas e trabalhadoras. Operosas e dedicadas. Às vezes falam pelos cotovelos. Como toda mulher, né, meu avô? A minha se chama Alciléa, que tem um nome que junta o do pai e da mãe (naquele tempo, vocês gostavam de fazer isso, né?). Ela tem me estendido a mão e me ajudado a ir pra frente. Sem ela, a coisa ficaria muito mais dura. Muito mais dura! Estou aprendendo, dia-a-dia, a amá-la mais e melhor.

Agora, meu avô, o senhor precisa saber mesmo é dos seus bisnetos. Vou dizer todos os nomes pela ordem decrescente de idade: Kelvin, Brenda, Gabriel, Bruno, Daniela, Carolina, Jaiminho, Beatriz, Larissa. Gente bonita, saudável e animada que só! A meninada é divertidíssima e é tudo de boa índole. Precisa ver quando está todo mundo em Tabatinga, terra do Barão Jaime e da Baronesa Ana Maria. Ah! E são estudiosos. Todos são. Assim como o senhor gosta. O senhor que, quando estava por estas bandas de cá, esforçou-se ao máximo para que os filhos estudassem e trabalhassem. A sua visão – mesmo no chão tórrido e esturricado do sertão seridoense – era de águia, num voo sempre altaneiro. Conseguiu colocar gente pra estudar até no Rio de Janeiro (cidade pela qual me apaixonei), como foi o caso de Tio Adones, que encontrou logo Tia Helô. Sim, tenho estado com ele, vez ou outra, e hoje ele mora em São Paulo, onde estão seus filhos Luís Felipe e Luís Fernando (envolvidos com música e jornalismo de primeira) e o Pedro Jorge, filho de Tio Adelson, que toca na Orquestra Sinfônica de São Paulo e já esteve até na Filarmônica de Berlim, a melhor orquestra do mundo. Não é fraco, não! Parece-me, vovô, que a Adriana também está lá por São Paulo ou nos “States”. Todos bem. Todos bem e com sucesso.

Na Paraíba e em Pernambuco tem muita gente sua. Muita gente nossa. Fábio, vez por outra, me manda um e-mail. É um cara bem-humorado. A gente conversa. O cara é um flamenguista doente! Mas, o Flamengo merece, mesmo, né? Fabíola e Gustavo, primos queridos, moram, também, em João Pessoa. As prezadíssimas tias Arlete e Elzenita vão aproveitando a vida, da melhor forma, em meio a viagens e fazendo o bem. Ana Luiza mora e trabalha no Recife das velhas pontes. Luciana deu um passinho além na geografia e está nos Estados Unidos, morando com seu marido americano e filharada. Chique, né? E não custa afirmar que toda a prole de meus primos e irmãos tem nos dado imensas felicidades!

Vovô, não estranhe se eu não perguntar sobre como tem passado por aí. É que eu sei que as coisas no lugar onde está são, certamente, muito boas. Afinal, o senhor merece, por toda a luta que travou por aqui e pelas vitórias que obteve. E, hoje, deve estar satisfeito de ver as coisas em ordem entre nós, sua família, seu centro.

Olhe, vovô Caetano! Mandamos, também, um beijo para os meus avós maternos Miguel e Senhora. Já deve ter tomado um cafezinho com eles por aí, né?

Meu avô João Caetano (por sinal, sabe que é o nome de um teatro lá no Rio?), acredito que lhe enviarei outras missivas nos próximos dias, nos próximos anos, mostrando o que estou aprendendo e como estou desempenhando meus esforços diante da vida. A vida é, mesmo, um contínuo e frenético aprendizado. E sei que o senhor vai me ajudando. Me ajuda mesmo, vai!

Por aqui, vou me despedindo porque o sábado já raiou e tenho um monte de obrigações para fazer. Principalmente, estudar. E sei que o senhor respeita muito esse tipo de tarefa.

Um beijo, meu avô.

Peço a bênção!

De seu neto: Lívio

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Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Forrest: sim, são três caras

Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Forrest: sim, são três caras

Mais um fim de semana intenso em São Paulo, com várias opções culturais interessantes… e outras também interessantes, mas não tão culturais assim. Várias opções de baladas, para falar um português claro. No Via Funchal tocou o Social Distortion, show que levaria às lágrimas alguns velhos punks brasileiros – isso, claro, se punks tivessem lágrimas. Agora, se você passou perto do Anhembi no sábado à noite, gostaria de avisar que aquilo que você viu não era um congresso de médicos e enfermeiras: era o pessoal do Skol Sensation, evento de música eletrônica em que o público vai vestido de branco.

Fui a outro show, Placebo, no Credicard Hall. O Placebo é uma banda inglesa formada em 1994, mas que só começou a chamar minha atenção após o lançamento do último disco, ‘Battle for the Sun’. Ouvi tanto esse disco no último volume do meu carro que estava curioso para descobrir como ele soaria cara a cara.

Foi uma excelente escolha: o Placebo ao vivo é muito mais legal e pesadão que no estúdio. Já disse antes aqui que não há nada melhor do que ver uma banda de rock no auge tocando em um belo palco, com bom equipamento e divulgando o repertório de um bom disco. Foi tudo isso que aconteceu no show do Placebo.

A banda liderada pelo esquisitíssimo guitarrista/vocal Brian Molko abusa das guitarras distorcidas, mas está longe de ser considerada heavy metal. Em primeiro lugar graças ao vocal de Molko, que é daqueles arrastados, únicos, do estilo ‘ame ou odeie’. Confesso que na primeira vez que ouvi eu odiei, mas que aprendi a gostar e hoje acho bem interessante. É um registro médio, quase nasalado, impreciso, mas que cria uma sonoridade bastante original. Bandas com guitarras pesadas e vocais gritados soam de uma maneira; bandas com guitarras pesadas e vozes guturais soam de outra.

O Placebo está no meio do caminho, com um tipo de som ‘andrógino-mucho-macho-sensível’. Não sei se os integrantes da banda são gays (eu apenas suspeito, mas não estou interessado em descobrir), só sei que eles têm uma sexualidade bastante difícil de definir.

Em termos de estilo, imagine se você montasse um power trio com um integrante do Smashing Pumpkins, um do Sisters of Mercy e um dos Smiths: o Placebo é mais ou menos assim. Pena que no show de São Paulo eles não tocaram as versões pesadonas de ‘Big Mouth Strikes Again’ (Smiths), ’20th Century Boy’ (T-Rex) ou ‘I Feel You’ (Depeche Mode). Fica para a próxima.

O Placebo ao vivo, ao contrário do que eu imaginava vendo os clipes, não é apenas um trio. Além de Brian Molko, Stefan Olsdal (baixista/guitarrista) e Steve Forrest (novo na banda e excelente baterista), a banda tem mais dois guitarristas, uma violinista e um tecladista. Ou seja: o som vira uma parede sonora, complementado por bases eletrônicas que adicionam um groove dançante às guitarras. Isso acaba até atenuando a melancolia de algumas das canções, principalmente as antigas, que soam meio deprê. Mas é legal ressaltar que, apesar do visual meio ‘dark’, o Placebo não é uma banda ‘emo’. É um glam rock moderno e visceral. Só para se ter uma ideia de como os caras são respeitados lá fora, o maior fã da banda é ninguém mais ninguém menos que David Bowie. Além de parcerias em músicas e convites para abrir sua turnê, Bowie fez questão de convidar pessoalmente o Placebo para tocar em sua festa de 50 anos, no Madison Square Garden, em Nova York, em 1997.

Outra coisa que me chamou a atenção no show foi a qualidade do som. O começo do ano foi marcado por muitos shows em estádios, onde o palco enorme e a animação da galera muitas vezes acaba prevalecendo sobre a perfeição do som. Mas em uma casa fechada como o Credicard Hall o Placebo teve o palco e a plateia (cerca de quatro mil pessoas) perfeitos para o seu som: o volume estava bom, os timbres estavam perfeitos, o vocal estava cristalino. E o cenário estava bem bonito, com um telão alternando a exibição de vídeos ‘artísticos’ e imagens filmadas em película (simuladas, claro) da banda no palco.

Tenho certeza de que o show do Social Distortion e a balada Skol Sensation foram muito legais. Mas, em pleno sábado à noite, eu não me arrependo de ter trocado punks e eletrônicos por um belo show de uma banda de rock no auge.

Set List

For What it’s Worth
Ashtray Heart
Battle for the Sun
Soulmates
Speak in Tongues
Follow the Cops Back Home
Every You Every Me
Special Needs
Breathe Underwater
Julien
The Neverending Why
Bright Lights
Devil in the Details
Meds
Song to Say Goodbye
Special K
The Bitter End

Bis

Trigger Happy
Infra-Red
Taste in Men

Veja o clipe de ‘Battle for the Sun’:

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Pit, eu, André Matos, Yves e Cássio: Tiramos a foto no cemitério para fingir que éramos maus. (Foto:Helô Machado/1986)

Pit, eu, André Matos, Yves e Cássio: Tiramos a foto no cemitério para fingir que éramos maus. (Foto:Helô Machado/1986)

‘Vamos comemorar que o amor existe
Que estamos vivos e temos amigos
Quero deixar alguma coisa para você
Uma canção para você não esquecer’

Pit Passarell

Na última quarta-feira o quadradinho do calendário marcou o dia 8 de abril de 2010. Quando subi ao palco do então lendário teatro Lira Paulistana em 8 de abril de 1985, no primeiro show do Viper, essa data era tão distante que eu não imaginava nem que ela existia. Pois é, estamos aí. Ou melhor, 25 anos depois, estamos aqui.

Confesso que sempre que eu ouvia um velhinho dizer ‘nossa, parece que foi ontem’ eu sorria com o canto esquerdo da boca e olhava com aquela cara de ‘ah, então tá’. Hoje vejo que é exatamente isso que acontece. A memória é uma coisa tão viva, tão orgânica, que dá até medo. Não interessa quantos anos se passaram: lembro do show de 1985 e penso: nossa, parece mesmo que foi ontem.

Outra coisa que me chama a atenção é como nossa memória é seletiva. Lembro de detalhes do camarim do Lira Paulistana (um corredor meio sujo e estreito, com um espelho grande e uns restos de madeira no chão), mas não tenho a menor ideia sobre outros fatos que poderiam ser considerados muito mais importantes. Por quê? Por que minha cabeça escolheu se lembrar de uma coisa e não de outra? Quem decidiu isso? Acho que nem o melhor neurologista do mundo saberia responder.

A banda nasceu no meu antigo prédio, em Higienópolis. Os irmãos Pit e Yves Passarell moravam no oitavo andar, eu morava quatro andares abaixo. Quando tínhamos pouco mais de dez anos, aprendemos a tocar violão e montamos a banda inspirados por Beatles e Queen. Nunca imaginávamos que as brincadeiras no playground do prédio nos levariam aos Estados Unidos, Europa, Japão. Isso era um sonho tão impossível de ser realizado quanto marcar um show no Lira Paulistana.

Mas os sonhos são sonhos apenas enquanto ainda não se realizam. Quando se tornam realidade, abrem espaço para novos sonhos, como se as lacunas de nossos corações e mentes fossem alimentadas por esses desejos conscientes (e inconscientes, às vezes) que nos motivam a acordar pela manhã. Tem algo mais gostoso do que conquistar o que se sonha? Se isso não é felicidade, então não tenho a menor ideia do que é felicidade.

Digamos que a banda não está mais na ativa, mas isso não vem ao caso. O que importa é que 8 de abril é uma data para celebrar. Montamos a banda porque éramos amigos, e continuamos amigos. Cada um seguiu seu caminho, mas estaremos eternamente juntos graças aos discos, às viagens, à memória. Alguns irmãos nascem dos mesmos pais, outros não. Seremos uma banda mesmo quando não existir mais nenhuma banda.

E quem diria que 25 anos passariam tão rápido?

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Meu amigo Luiz Antonio me ligou para dar uma dica cultural para o fim de semana. Perguntei: ‘por que você não me manda um e-mail para eu ver o que é?’ Ele fez melhor: se ofereceu para escrever um texto. Como sei que ele tem ótimo gosto e ainda escreve super bem, compartilho aqui com você.

Grande Luiz! Nos vemos na peça. Qual é o melhor dia?

Abs, F.

Cabaré da Rrrraça: Spike Lee teria inveja
Luiz Antonio

A discussão sobre ‘arte engajada’ só acontece em um tipo de situacão: quando o objeto artístico é fraco e só o que sustenta sua existência é um discurso. Aí, sim, críticos aparecem aos montes dizendo que a arte deve ser livre, que não precisa passar mensagens e todas essas outras coisas a que estamos acostumados. Quando alguém observa a Guernica, de Pablo Picasso, não usa esses argumentos. Quando lê ‘As Vinhas da Ira’, de Steinbeck, também não. Quando ouve ‘Strange Fruit’ na voz de Bilie Holiday muito menos. E o mesmo acontece quando alguém assiste a uma peça do Bando de Teatro Olodum.

Em primeiro lugar, temos que lembrar que estamos falando de teatro. O teatro é o lugar para as pessoas pensarem. Mais que o cinema, muito mais que a televisão. Nos palcos, os questionamentos surgem de todas as formas. A política está lá, os relacionamentos, as ideologias. A grande maioria dos textos teatrais tratam de assuntos polêmicos de forma incisiva, cortante. E a questão do negro no Brasil é um desses temas tabus que o teatro deve tratar.

O Bando de Teatro Olodum é uma das principais companhias teatrais brasileiras. Como está fora do eixo Rio-São Paulo, não é tão badalada por aqui. É um grupo talentosíssimo, formado por uma equipe de dar inveja a quaquer companhia teatral. Já montaram mais de 20 peças, entre elas uma versão maravilhosa de ‘Sonho de uma noite de verão’, de Shakespeare, que ganhou o Prêmio Braskem em 2006. O Bando nasceu do Grupo Cultural Olodum em 1990, tendo à frente os mais que competentes diretores Marcio Meirelles e Chica Carelli.
Os atores e atrizes são espetaculares. Atores, com A maiúsculo- não modelinhos para enfeitar a novelinha juvenil. São todos negros e isso não é um detalhe. A música dos espetáculos é sempre forte e bem colocada. E as coreografias estão a cargo de ninguém menos do que Zebrinha, um dos maiores bailarinos e coreógrafos do nosso país (só para o leitor ter uma ideia, Zebrinha lecionou danças na Stadeliyk Conservatoriam en dans Academie te Arnhem, na Academie Internationale de Paris na França, no Project Studio em Munich e na Federatie Friy Tiyed na Bélgica e dividiu o palco com os maiores dançarinos do mundo).

Essa turma, ou melhor, esse Bando estará em São Paulo, no SESC Vila Mariana a partir deste final de semana. Oportunidade rara para ver seus espetáculos na terra da garôa.

A programação começa com Cabaré da Rrrrraça. Espetáculo inteligente e bem-humorado que trata a questão do negro no Brasil como poucas vezes se viu. Todos os estereótipos, todas as situações constrangedoras, está tudo lá. A peça tem cenas hilárias e faz pensar, dando porrada em todo mundo. Se Spike Lee vivesse nossa realidade e entendesse português, ia morrer de inveja. Ah, você acha que não existe racismo no Brasil? Garanto: você é quem mais deve ir.

Na próxima semana, tem ‘Ó paí, ó’, o sucesso “comercial” do Bando. Virou filme, série de televisão. Divertido, sem perder a crítica social, vale a pena nem que seja para você ver a ‘peça que deu origem à série’. Nas telas, ‘Ó paí, ó’ conta com Lázaro Ramos, um dos maiores atores brasileiros da atualidade. Ator que surgiu adivinhem onde? No Bando de Teatro Olodum.

Junto com ‘Ó paí, ó’, temos uma surpresa a mais. Será um final de semana especial, com a linda peça Áfricas. Uma simples peça infantil? As coreografias, o figurino, as músicas, os atores. A direção segura. Não, não é uma ‘pecinha’ infantil, não. Essa viagem pelo nosso passado, pela nossa herança africana e pelos vários países, reinos e diferenças culturais existentes na África é para crianças e adultos de todas as cores.
O Brasil esconde até hoje nossa herança negra e nossos heróis negros. Aqui em São Paulo temos a Avenida Rebouças, a Rua Teodoro Sampaio- e ninguém sabe que eles eram negros. O negro só pode ser destaque nos locais ‘reservados’ a ele: no carnaval, no samba, no futebol, na capoeira. O Teatro Experimental do Negro e Abdias do Nascimento tentaram mudar isso na década de 40 (mas você também provavelmente nunca ouviu falar deles). O Bando de Teatro Olodum está aqui em São Paulo e é hora de você conhecê-los.
Mas espere um segundo. De acordo com o raciocínio do meu primeiro parágrafo, nada disso que escrevi aqui valeria seu ingresso se as peças fossem fracas. E eu garanto: elas são absolutamente fantásticas. Vai lá, negão.

Bando do Teatro Olodum no SESC VILA MARIANA
Rua Pelotas, 141. Ingressos à venda em todas as unidades do SESC.
‘Cabaré da Rrrraça’: dias 9, 10 e 11 de abril
‘Ó paí, ó’: 16, 17 e 18 de abril
‘Áfricas’: 17 e 18 de abril

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8 de abril de 2010. Quando subi ao palco do Lira Paulistana em 8 de abril de 1985, no primeiro show do VIPER, essa data era tão distante que eu não achava nem que ela existia. Pois é, estamos aí: 25 anos depois do primeiro show, o VIPER está em estado de hibernação (nós nunca usamos a palavra ‘acabou’, porque o Pit e eu sempre jogamos a responsabilidade para o outro… e o outro sempre joga de volta) e com chances cada vez mais remotas de voltar. Quer dizer, vamos relançar todos os CDs e podemos fazer um show de vez em quando, mas voltar mesmo… Mesmo assim, acho que hoje é uma data para comemorar: continuamos todos amigos, fizemos uma obra maravilhosa lançada praticamente no mundo inteiro, viajamos por vários países, nos divertimos infinitamente.

E, por último mas não menos importante, tivemos coragem para mudar. As bandas que sempre admiramos nunca se repetiram, e tentamos fazer a mesma coisa. Acertamos e erramos, mas nunca ninguém poderá nos acusar de ter ficado sentado num canto, escondidos atrás das guitarras. Artistas sem coragem não sobrevivem. E temos sobrevivido graças aos fãs que sempre nos acompanharam, sempre estiveram lá quando precisamos. Um grande obrigado a todos vocês. Tem sido uma bela viagem… e quem diria que 25 anos passariam tão rápido?

Um beijo,

Felipe

PS. Dois vídeos que nos marcaram: o primeiro, ‘A Cry From The Edge’, e o último… ’8 de Abril’

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Isaac Newton

Não, o cara aí em cima não tocava em alguma banda alemã de heavy metal dos anos 80

Domingo de Páscoa é uma daquelas datas que fazem a gente pensar, independente da religião que seguimos. Para os cristãos, marca a ressurreição de Cristo; para o Judaísmo, representa a passagem do Egito até a Terra Prometida. Acho que essa palavra é uma tradução do espírito da data: ‘passagem’.

Apesar dos significados diversos, é possível perceber características comuns nas expressões ‘ressurreição’ e ‘passagem’, não? Ambas dizem respeito a mudanças radicais, formas diferentes de encarar a existência… enfim, novas visões de vida.

Dito isso, vamos a outro ponto: acredito que o homem tem a tendência de permanecer no estado em que se encontra. É físico, mas também psicológico. É por isso que muitas vezes qualquer mudança é vista como negativa. Discordo. Acho que mudanças são invariavelmente boas, ou pelo menos têm seu lado positivo.

De acordo com a primeira Lei de Newton, ‘todo corpo continua no estado de repouso ou movimento retilíneo uniforme, a menos que seja obrigado a mudá-lo por forças a ele aplicadas’. Traduzindo isso para a nossa vida prática, eu diria que existem em nós a tendência a nos acomodar na situação em que nos encontramos, a menos que sejamos obrigados por alguma ação externa.

A teoria de Newton fala ainda em movimento retilíneo uniforme, que pode ser traduzido para o popular ‘devagar e sempre’. A atitude pode ser vista como uma série de mudanças lentas e constantes que geralmente nos ajudam e facilitam a adaptação ao novo.

Newton não explicou como isso se aplica ao comportamento humano, mas vou arriscar: há pessoas com tendência maior ao repouso; outras se identificam mais com o movimento retilíneo uniforme.

Acostumados ao repouso, os ‘acomodados’ sofrem mais com mudanças. Para eles, mudar envolve um esforço doloroso que pode até desestabilizar outros aspectos da vida durante o processo. Já os acostumados com o movimento uniforme estão acostumados a evoluir, e por isso se adaptam melhor a novos cenários.

Tudo isso para dizer o quê? Que ser acomodado é perigoso, porque é aí que entra a parte final da Lei de Newton, ‘a menos que seja obrigado a mudá-lo por forças a ele aplicadas’. E ninguém está imune às forças aplicadas a nossa vida por agentes externos. Pode ser sua família ou seu chefe, mas também pode ser um evento sobre o qual não se tem controle nenhum. É impossível fazer planos contra o acaso.

Aproveite a Páscoa para pensar nessa ‘passagem’: saia do repouso e entre em movimento. Você vai estar mais preparado quando a mudança bater na sua porta.

Feliz Páscoa.

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Paulo Rocha acaba de lançar o 'Number Uno Project'

Paulo Rocha acaba de lançar o ‘Number Uno Project’

Para quem vai ficar em São Paulo no feriado, aqui vai uma bela sugestão de balada no sábado à noite: ver a apresentação do Autorall, projeto de Paulo Rocha que mistura rock & roll e música eletrônica.

O Nine Inch Nails é uma das minhas bandas favoritas, e sempre me perguntei por que não existem mais representantes desse estilo (rock eletrônico, meio industrial) no Brasil. Tudo bem, não é dos estilos mais comerciais do mundo, mas acho que é possível ser criativo juntando bits e beats – a maior prova disso é o próprio Trent Reznor. O líder do NIN é dos caras mais inteligentes e talentosos que surgiram na música nos últimos tempos.

Paulinho, que veio de Santos e aparece agora na cena de SP, está com um trabalho bem legal nessa linha. Ele é o cérebro (além das guitarras e computadores) por trás do Autorall, o projeto que se apresenta nesse fim de semana no Matilha Cultural, no Centro, lançando o ‘Number Uno Project’.

Além do som bastante, digamos, ‘intenso’, o Autorall tem umas letras bem legais. ‘Quem não te ama não te merece’ é um frase simples e inteligente, como a maioria das músicas do cara. Fiquei orgulhoso quando ele me convidou para gravar umas guitarras. Se você quiser conferir o resultado, é só acessar o site dele no MySpace (myspace.com/autorall ) e clicar na música ‘A.L.E.R.T.A.’ .

Até sábado.

Autorall
Matilha Cultural
Sábado (3/4) às 19h
R. Rego Freitas, 542 – São Paulo
Tel: (11) 3256.2636
Grátis

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