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Felipe Machado


Give Peace a Chance: Lennon morreu há 30 anos, mas sua música e sua mensagem de paz vão durar eternamente. A vida e a obra de John vai tornar você uma pessoa melhor em 2011

É difícil escrever um texto sobre réveillon sem falar sobre as promessas de ano novo que a gente sempre faz (e nunca cumpre). Descobri que mentir para mim mesmo é a primeira coisa que acontece quando acordo (de ressaca) no dia 1º de janeiro. ‘Eu sei que prometi nunca mais beber refrigerante, mas me dá uma Coca-Cola gelada antes que eu morra’, costumo sussurrar.

Hoje vou falar sobre outro assunto. Lentilhas? Nah. Cueca branca? Na-na-ni-na-não. Vamos refletir sobre a origem do termo réveillon, palavra francesa que a gente usa todo ano e que a maioria de nós não sabe exatamente o que significa.

Quer dizer, todo mundo sabe que réveillon é a noite em que deixamos o ano velho para trás e entramos pulando sete ondinhas no ano que começa. Semanticamente, no entanto, a palavra tem um significado bastante interessante.

Ela vem do verbo réveiller, que, em português, quer dizer ‘despertar’. Pois é exatamente isso que eu desejo para você nesse ano que vai começar daqui a pouco: que você desperte.

‘Peraí, Felipe, se eu estou lendo esse texto é porque já estou acordado’, alguém vai reclamar. E eu vou responder: . Não é disso que estou falando.

Queria abordar esse despertar sob uma ótica mais metafórica, como uma pessoa que vive nas trevas e acorda para uma nova realidade. É a mesma sensação de ver alguém abrir os olhos pela manhã, guardar o universo dos sonhos debaixo do travesseiro e voltar ao mundo real. Pois é isso aí. Em 2011 eu quero ver você despertar.

Não estou dizendo que você está dormindo, nem que está apático em relação à vida. Mas aposto que existem alguns assuntos que você prefere não mexer e deixar como estão, mesmo que estejam te incomodando. Pois eu peço que você desperte para isso. Encare tudo de outra maneira. Deixe de ser acomodado. Se for mesmo para continuar como está, tudo bem. Mas se for para mudar, tenha consciência de que está mudando porque chegou a hora de… despertar.

Tem gente que passa pela vida e nem sabe por que passou. Não seja assim. Faça com que sua trajetória seja uma experiência mágica para todos ao seu redor. Isso não tem nada a ver com sucesso, fama ou dinheiro. Tem a ver com quem você é. Lembre-se: você sempre pode ser uma pessoa melhor. Em 2011, você será.

No dia 31, coloque todos os seus despertadores para tocar à meia-noite.

E feliz despertar.

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20.dezembro.2010 12:34:57

Ninguém é invisível

‘Papai, você é muito brilhoso.’
‘Brilhoso? Mas o que é brilhoso, minha filha?’
‘Ah, papai… brilhoso é quando é muito lindo.’

Toda vez que minha filha diz alguma coisa assim meus olhos se enchem d’água e eu agradeço aos céus por ter a criança mais linda do mundo como filha. Não sei se é só comigo, mas a intensidade desse amor por ela – e pelo resto da minha família – fica muito mais forte no fim de ano. Ainda mais nessa semana de Natal.

É claro que tudo conspira para isso: as árvores cheias de luzinhas brancas, as campanhas publicitárias emocionantes, a perspectiva metafórica de recomeço que o ano novo traz.

É uma época que traz muita alegria, mas também um quê de melancolia. Começamos a lembrar de quem não está mais com a gente; imaginamos como seria bom se toda a família estivesse reunida – todos mesmo – para celebrar o fim de ano.

Não se preocupe, é assim com todo mundo. As famílias nunca estão completas, até porque estar completa não é uma característica possível a uma família.

Famílias são incompletas por natureza. Há sempre alguém partindo e alguém chegando; essa é a própria definição de uma família. Não somos estáticos, mas dinâmicos – ou melhor, dinamicamente familiares. Famílias são obrigadas a andar para frente, como entidades ambíguas que mantêm o cérebro no futuro e o coração no passado.

Se você é daqueles que amam o Natal, aproveite. Se você não gosta muito dessa época… relaxe, ela passa rápido. Não pense em nada negativo, nada que possa derrubar sua emoção. Pense naqueles que se foram com carinho, porque é isso que eles gostariam que você pensasse se ainda estivessem entre nós. É o que eu faço. Acredite, funciona.

Costumo pensar também nas amizades ao meu redor, nos colegas de trabalho, nas pessoas com quem convivemos o ano inteiro e que só lembramos que existem quando alguém os menciona. A mocinha que serve café no escritório, o simpático faxineiro do prédio, o cara que cuida do estacionamento. Essas pessoas, de certa forma invisíveis em meio ao caos da cidade, estão mais presentes em sua vida do que você jamais imaginou. São personagens fixos no enredo do seu dia a dia. Lembre-se que não há ontem ou amanhã: vivemos sempre no hoje. E, portanto, no dia a dia.

Um beijo para os seus filhos, se você tiver algum. Um beijo para seus pais, se eles estiverem por aqui. Um beijo para você, que se considera uma pessoa sozinha. Você não é. Estamos todos aqui, juntos, convivendo nesse infinito dia a dia.

Feliz Natal.

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Is it a dream?

O que vou dizer é um clichê dos diabos, mas não consigo me segurar: o fascinante da vida é que ela muda de uma hora para outra. Quando menos se espera. Sem roteiro. Estale os dedos: sua vida acaba de mudar.

Algumas dessas transformações acontecem sem querer, é verdade. Estamos andando pela rua, assobiando, com as mãos nos bolsos, e simplesmente damos de cara com alguma novidade cruzando o nosso caminho. Não precisamos fazer nenhum esforço. Outras mudanças, no entanto, requerem mínimas condições básicas de temperatura e pressão: uma dose de bom humor aqui, um olhar mais sensível ali. Um coração aberto, enfim.

Você acredita em coincidências? Uma parte do meu cérebro diz que sim, a outra diz que não. Acho que no fundo elas são como as bruxas: a gente nunca acredita, mas que elas existem, existem. Ou será que esses estranhos acontecimentos só surgem quando abrimos a porta e as deixamos entrar? Não faz diferença. O que importa é que elas aparecem e nos forçam a tomar uma decisão. E tomar decisões é sempre uma coisa positiva, não?

Transformar-se é uma característica inerente a todo ser humano. Somos acostumados a transformações desde o dia em que nascemos. Estamos em constante evolução para sobreviver, e isso não é apenas uma observação darwinista tirada de algum livro de biologia. As espécies que se adaptam melhor ao seu habitat têm mais chances de sobreviver, aprendemos na escola.

Aplicando o conceito a nós, primatas inteligentes, podemos acrescentar também o aspecto psicológico dessa afirmação. Quem resiste melhor a pressões psicológicas têm mais chance de ser feliz. Ou achar que é feliz – o que é a mesma coisa.

Hoje sou isso, amanhã sou aquilo. Metamorfose ambulante. Não me peça para ser coerente: a coerência só é considerada uma qualidade pelos sem-imaginação. Revoluções por minuto, tudo ao mesmo tempo agora, o tempo não para.

Grandes histórias sempre te ensinam alguma coisa. É por isso que nunca devemos desistir: dá sempre para aprender algo novo. Tudo ensina. Somos esponjas emocionais absorvendo sentimentos e sensações através de cada poro.

De repente você abre os olhos e vê o futuro. Ele é divertido, lindo, brilhante. E daí você descobre que esse futuro sensacional sempre esteve lá, seus olhos é que estavam fechados. Por que você não abriu os olhos antes? Bem, porque quando a gente está dormindo… a gente não sabe que está dormindo.

Mas, afinal: foi ou não foi um sonho?

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Nada me deixa tão chateado quanto tomar uma decisão pessoal, irreversível, planejada – e descobrir que ela foi completamente equivocada.

Infelizmente, há erros enormes que só são percebidos como erros depois que acontecem. E como corrigir erros irreversíveis? Sei lá. Se você descobrir a resposta, fique à vontade: meu e-mail é  felipe.machado at grupoestado.com.br .

De qualquer jeito, será que existe alguém no mundo que realmente aprende com os próprios erros? Uau, eu adoraria ser uma dessas pessoas. Pena que minha disciplina mental ainda esteja engatinhando – pelo jeito, vou ter que comer muito arroz com feijão para atingir esse estado tão superior.

Sinceramente, tenho minhas dúvidas a respeito do efeito que os erros provocam no aprendizado. Até porque alguns dos maiores erros são cometidos conscientemente, não?

Talvez seja um defeito só meu, mas há erros que cometo toda vez que sou exposto a determinadas situações. Seria justo, então, chamar essas atitudes de erros? Ou seria mais honesto considerá-los características da minha personalidade? Ou o mais correto, mesmo, seria defini-los como traços da minha personalidade que são normais e aceitáveis para mim, mas que são vistos como erros por outras pessoas?

Relacionamentos são árvores. Altas, baixas, jovens, velhas. Temos que preservá-las não apenas porque são belas e imponentes, mas também porque dão solidez à vida. Nada mais triste do que uma enorme árvore deitada, sem vida, abatida pela falta de razão.

Desculpe se o tom deste texto está soando como autocrítica. Ele é, sim, uma forma de tentar entender porque erramos tanto. E é verdade que tenho, sim, tentado transformar a autocrítica em algum tipo de ação mais prática. O ruim é que nem sempre consigo. Será que sou só eu? É meio frustrante, tenho que admitir.

É preciso ser muito forte para transformar a frustração em volta por cima. O velho enredo do herói que sobe, cai, levanta e sobe de novo é lindo. Ascensão e queda, redenção e triunfo: tem que ser muito forte para realizar todo esse caminho. Quem consegue tem minha admiração.

Uma árvore pode ser transplantada de um lugar para o outro sem que isso provoque sua morte. Mas nem sempre ela se adapta. O que parece inicialmente uma operação bem-sucedida pode criar uma série de problemas mais tarde.

Relacionamentos são árvores, mas pessoas, não. Pessoas são humanas, portanto, passíveis de erros. Tomara que você consiga aprender com os seus.

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29.novembro.2010 09:00:45

Começos e recomeços

Começo, meio e fim. Todo relacionamento tem começo ( isso é meio óbvio, não?). Alguns deles têm meio, o que acontece após um começo bem sucedido. Quanto ao fim, depende de muita coisa para se tornar um happy end: há amores que se eternizam, há amores que são infinitos apenas enquanto duram.

Começo e recomeço são etapas da vida interligadas não apenas pela quantidade de letras semelhantes, mas pela profunda necessidade que uma delas provoca na outra. Não, isso não é só jogo de palavras. É que, embora nem todo começo seja um recomeço, todo recomeço… é um começo.

Recomeçar implica em ‘não começar do zero’, pelo menos é o que significa semanticamente o prefixo ‘re’. Recomeçar é dar uma nova chance ao que, de certa forma, falhou; é insistir que ali há algo inevitavelmente belo e necessário para se chegar à felicidade. Estou basicamente falando de relacionamentos, se ainda não deu para perceber.

Nem todo recomeço, no entanto, nasce de um fim. Eu sei, soa paradoxal, mas acredito que não é apenas possível, mas essencial promover recomeços constantes em qualquer relação. Melhorar alguma característica pessoal é um recomeço; apostar na sua intuição é outro. Há muitos recomeços possíveis, todos eles baseados numa única palavra mágica: vontade.

Vontade de recomeçar é o que motiva o recomeço, e não uma pressão abstrata qualquer que vem sei lá de onde. Querer nem sempre é poder, mas querer pelo menos indica que você deseja ir atrás dessa coisa que está faltando. E aí cada um empenha o que acha necessário para atingir o seu objetivo e vencer a batalha.

Desculpe se esse papo está ‘cabeça’ demais. É que nem sempre as coisas são tão claras, tão preto no branco. Quando se está em dúvida em relação a alguém, dizem que o ideal é colocar na balança os defeitos e qualidades dessa pessoa e ver se vale a pena seguir em frente. O problema é que esses dados nem sempre são tão claros quanto a gente precisa. E aí nos vemos obrigados a apelar para outras formas de solução.

Começar um relacionamento é a coisa mais fácil do mundo. Especialmente quando há atração física e intelectual, vontade de ficar juntos. Com o tempo, surgem situações boas (e ruins) que modificam a relação. E aí vemos se o que uniu o casal é forte o suficiente para resistir às novas situações. Se não for, há duas opções: o relacionamento segue o enredo ‘começo, meio e fim’ ou o casal investe num ‘começo, meio e… recomeço’. Depende da vontade de cada um.

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Foto: Ernesto Rodrigues/AE

Amigas e amigos,

ainda não estou completamente ‘curado’ em relação a ter perdido os shows do Paul em São Paulo. E também não acho que o meu texto sobre o tema (um anti-texto, na verdade) é suficiente para abastecer esse blog e informar seus leitores . Por isso, pedi ao meu irmão, um extremista Beatlemaníaco, que fizesse um relato sobre sua experiência. Aqui vai. Valeu, Nando! Bjs, F.

Paul in SP
Nando Machado

Caros,

Como meu irmão não pode ir ao show do Paul (sinto muitíssimo por ele), fiquei com a difícil tarefa de descrever duas noites muito especiais e emocionantes. Fui aos dois shows do Paul McCartney em SP e foram duas noites inesquecíveis. Impressionante como o mesmo show pode ter histórias tão diferentes umas das outras.

No domingo, fui sozinho na numerada coberta, lá atrás, bem longe. Bem cedinho, fui de carona com uns mineiros que haviam alugado um microônibus, amigos do Luiz ‘Téti’ Pimentel. Entre eles, Terence Machado, diretor do excelente programa ‘Alto Falante’, exibido pela TV Brasil. Gostei do papo imediatamente, todos eram profundos conhecedores dos Beatles e de Paul. Sentei na numerada, encontrei uns amigos, bati papo com desconhecidos (afinal, somos todos Beatlemaníacos, certo?). Assisti ao show com uma visão total do palco, da pista e do estádio. Busquei essa perspectiva pois já tinha visto Paul ao vivo duas vezes. Em 1990, fui um dos 184 mil fãs que foram ao Maracanã e que permaneceram durante muito tempo no Guiness book como parte do maior público em um show pago em todos os tempos (alguém sabe se ainda estamos no Guiness?). Em 93, vi Paul no Pacaembu, pertinho de casa, e me lembrava que o público do show é um espetáculo à parte.

O que mais me impressionou no show – além da banda, som, cenário e luzes perfeitos – é a emoção que essas músicas provocam nas pessoas. Você olha pra trás e vê pessoas felizes, de todas as idades, chorando, abraçadas, como se estivessem realizando um sonho – e estavam: o sonho de ver um Beatle cantando os maiores sucessos dos Beatles num show ao vivo. Isso durante muito tempo foi realmente um sonho, já que os Beatles pararam de se apresentar ao vivo em 66 e durante muito tempo Paul tocava apenas umas 3 ou 4 músicas dos Beatles por show. Paul só voltou a incluir Beatles para valer no repertório a partir da tour que o trouxe ao Brasil pela primeira vez, em 90 (não sei por que, sempre achei que os shows tinham sido em 89…). Na ocasião, fui de ônibus para o Rio com meu amigo Duda Soutello e ficamos na casa da avó dele em Copacabana, foi a primeira vez que tinha ido à Cidade Maravilhosa (deve ser por isso que eu adoro o Rio). Lembro de ter chorado ao ouvir o Maracanã inteiro cantando ‘Hey Jude’ e ‘Let it Be’.

Essas músicas nos fazem lembrar de tantos momentos e fazem parte das nossas vidas de tantas maneiras diferentes. A genialidade de um artista realmente pode nos transportar no tempo e nos elevar realmente a outra dimensão. Para quem gosta de Beatles como eu, essas músicas são como familiares que a gente ama, cada um do seu jeito. Interessante como a história dos Beatles pode servir de metáfora para a nossa vida real: o início inocente, puro; o amadurecimento com o passar dos tempos; e, no fim, o triste definhamento e a morte. É como uma história de amor que todos nós vivemos, até que o sonho realmente acabou com a morte de John Lennon em 80.

Voltando ao show: No primeiro dia, os primeiros acordes de ‘All My Loving’ me lembraram da inocência da minha própria infância; impossível não chorar com a homenagem a George Harrison e ver como ele também era cool, outro gênio. ‘The Long and Winding Road’ foi outro momento muito especial e emocionante, me lembro que tantas vezes andei por uma long and winding road até chegar a casa da minha amada – ‘the road’ pode simbolizar tantas coisas…

No segundo dia fui de Pista Premium. Quase não cheguei a tempo, entrei no Morumbi às 21:15 desesperado por causa da chuva e do trânsito.

O show do Paul é uma ocasião em que nem chego perto de uma cerveja para não ter que ir ao banheiro. Aliás, é difícil escolher um momento para ir ao banheiro. Nesse segundo dia o repertório já começou diferente: um show que começa com ‘Magical Mistery Tour’ não precisa de mais nada. Mas ele ainda tocou ‘Got to Get You Into My Life’, ‘Two Of Us’, ‘Bluebird’ (Wings). Paul tenta fazer um set list que agrade aos fãs de Beatles, aos fãs de Wings e aos fãs de sua carreira solo. Ele tocou até duas músicas do seu excelente projeto Fireman, além de algumas que divulgavam o relançamento de ‘Band on The Run’. Tocou ainda ‘Dance Tonight’, do ‘Memory Almost Full’. Difícil não se emocionar com a melodia de ‘My Love’, realmente é uma das melhores músicas de amor já escritas. A cada tour, Paul muda as músicas dos Beatles no setlist, inclui algumas inéditas (‘O Bla Di O Bla Da’), e renova as homenagens a John, com ‘A Day in The Life/Give Peace a Chance’ e ‘Here Today’, do álbum ‘Tug of War’.

O show teve outros momentos especiais: ‘Let it Be’ e ‘Hey Jude’, com 64 mil pessoas cantando, é muito emocionante. ‘Helter Skelter’, ‘Day Tripper’, ‘I’ve Got A Feeling’, ‘Back in The USSR’ e ‘Paperback Writer’ mostram o lado mais roqueiro de Paul e nos dão vontade de sair pulando (bom para mostrar para quem costuma dizer que Paul só fazia músicas melosas). Por outro lado, ‘Blackbird’ e ‘Yesterday’ mostram o lado de compositor simples e de melodias sensíveis. No primeiro dia, teve ‘Drive My Car’, as excelentes ‘Venus and Mars / Rockshow’ (que abriu o primeiro show), ‘Let Em In’, ‘Jet’, ‘Let Me Roll It’, ‘Band on The Ru’n e ‘Mrs Vanderbilt’ mostraram o melhor do Wings. No primeiro dia teve ainda ‘I’ve Just Seen a Face’, do ‘Help’; no segundo, ‘I’m Looking Through You’. ‘And I Love Her’ (só no domingo), ‘Eleanor Rigby’, ‘Lady Madonna’, ‘Get Back’, ‘Sgt Peppers’ (reprise).

O show termina com ‘The End’: ‘E, no final, o amor que você faz é igual ao amor que você leva’. É a melhor frase para encerrar um show, um álbum como Abbey Road, ou até uma banda como os Beatles. Por outro lado, senti falta do medley do ‘Abbey Road,’ uma sequência maravilhosa de canções. ‘We Can Work It Out’, ‘Penny Lane’, ‘Hello Goodbye’, tantas ficaram de fora… ‘Maybe I´m Amazed’ é uma das minhas preferidas, mas faltaram, ‘Pipes of Peace’,’ Calisco Skies’, ‘My Brave Face’, ‘Coming Up’, ‘Junk’, ‘Oh Darling’, ‘Gettin Better’, ‘Michelle’, ‘The Fool On The Hill’, ‘I Saw Her Standing There’, ‘Figure Of Eight’… Impossível tocar todas.

O único consolo em não termos mais John e George é saber que Paul está melhor do que nunca. Aos 68 anos, me deu a impressão de que só vai se aposentar quando completar 100. Como é legal ver alguém fazer uma coisa que sabe fazer tão bem… O cara é um entertainer nato e sabe o efeito que causa nas pessoas, ele vê essas mesmas cenas em todo lugar que vai há quase 50 anos. Mesmo assim, parece um cara normal que sai para andar de bicicleta em São Paulo (isso é ser um cara normal?) ou curte pegar o metrô lotado em Paris.

Vamos esperar pelo próximo show, com certeza ele acontecerá, se Deus quiser, antes de Paul fazer 100…

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No momento em que você estiver lendo esse texto, não estou mais por aqui. Calma, não pretendo passar desta para melhor: é que aproveitei uns dias de férias e viajei para o exterior. Bom? Mais ou menos.

Marquei a viagem há muito tempo e só descobri há algumas semanas que a data coincidiria com os shows de Paul McCartney no Brasil. Tentei, insisti, lutei, mas não consegui mudar a maldita passagem. Ou seja, não vi nenhum show de Paul McCartney no Brasil.

Para algumas pessoas, isso pode ter sido apenas uma pequena fatalidade. Para mim, não. Foi uma tragédia que vai me acompanhar por toda a minha vida. Amo Paul com todas as minhas forças. Para mim, Paul não é um ídolo. Ele é um deus.

Sim, é claro que sou Beatlemaníaco, com muito orgulho. Meu irmão Nando é até mais que eu, o que prova que bom gosto é uma coisa comum em nossa família.

Acho que as pessoas se acostumaram tanto com a imagem do Paul andando por aí, conversando com as pessoas, comendo nos restaurantes, que acreditam que ele é um homem normal. Mas nós, Beatlemaníacos, sabemos que isso não é verdade. Paul não é normal. Paul é uma entidade sagrada, um ícone popular. Poucos personagens tiveram a influência cultural global que ele teve. Paul é tão importante quanto Beethoven, Picasso, Einstein.

John foi o líder no início da carreira dos Beatles. Isso durou até 1966, mais ou menos, quando Paul começou a dividir o comando. Ele tinha um bom argumento para discutir com John: suas belas canções. John e Paul deixaram então de compor em dupla (apesar de manter a famosa assinatura ‘Lennon-McCartney’), e isso gerou uma dinâmica diferente na banda. Os Beatles ampliaram seus conceitos e revolucionaram ainda mais a cultura dos anos 60.

Se John era o cérebro, Paul sempre foi o coração. Sei que não podemos simplificar o estilo de dois gênios, mas eu diria que John sempre compôs para dentro, enquanto Paul escreve para fora. O equilíbrio perfeito dos dois acabou com o fim dos Beatles, e cada um teve que aprender a viver sem o outro. Conseguiram, e bem. Suas carreiras solos são quase tão sensacionais quanto o material imortal que criaram juntos.

Paul tocou domingo e segunda no Morumbi. Não estive lá fisicamente, mas em espírito, sim. No horário do show, imaginei meu ídolo entrando no estádio, as luzes, a gritaria. Milhares de brasileiros estavam felizes, e eu estava feliz por eles. Mas tenho certeza de que morri um pouco por dentro.

Foto: Ernesto Rodrigues/AE

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O figurino transformou Fergie em uma mulher muito especial, quer dizer, espacial

O Black Eyed Peas ama o Brasil, e o Brasil ama o Black Eyed Peas. Foi até constrangedor o número de vezes que o vocalista will.i.am falou sobre seu amor pelo nosso país, nossa música, nosso povo. E ele não disse da boca pra fora, como seria de se imaginar: o BEP foi uma das poucas bandas no topo do mundo que aceitou realizar uma verdadeira turnê pelo Brasil: passaram por Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo, ontem à noite, num show apoteótico no Estádio do Morumbi. A maioria das bandas vem para cá para tocar em Rio e São Paulo e olhe lá.

Além de dizer que o show de ontem foi o melhor da turnê, will.i.am prometeu que voltará no ano que vem porque quer comprar uma casa no Rio e um apartamento em São Paulo. Sabia que não pareceu puxação de saco? O discurso foi tão sincero que não acharei nem um pouco estranho ver o líder do Black Eyed Peas tomando um choppinho no Leblon ou passeando pela feirinha Benedito Calixto, na Vila Madalena. Ele já havia dito que torceria para o Brasil na Copa da África do Sul, até entrou com nossa bandeira no palco do show de abertura… Também gostei porque will.i.am subverteu a ideia de que todo gringo tem que gostar de encher a cara com caipirinha sempre que está no Brasil. ‘Não tomo caipirinha, prefiro guaraná com vodka’, brincou will.i.am. ‘Eu também’, gritei, mas não tenho certeza se ele me ouviu.

Perdoe o clichê, mas o Black Eyed Peas no palco não faz um show: faz uma festa, uma balada. A noite começou com o David Guetta, uma mistura de DJ com rockstar. O cara vai lá, aperta o botão de play no toca-discos… e todo mundo acha o máximo! Deve ser bom, né? Não precisa perder tempo aprendendo a tocar guitarra, cantar, tocar teclado, baixo, bateria… Mas tudo bem: David é meio pop demais para o meu gosto, mas sua apresentação teve pelo menos um momento genial: ‘Sexy Bitch’, com a participação do rapper-mela-cueca Akon.

Lights out. E o Black Eyed Peas surge das profundezas do palco-nave espacial, subindo por quatro elevadores (como o Michael Jackson fazia, diga-se de passagem) localizados sob a mega-estrutura. A primeira música do show é provavelmente uma das mais perfeitas introduções de todos os tempos: ‘Let’s Get it Started’ levanta até defunto. Há muito tempo eu não pulava tanto em um show (não que eu seja um defunto, claro). Infelizmente, não posso contar nada disso para meus amigos/fãs de heavy metal. Só garanto uma coisa: eu não dancei com os bracinhos pra cima. Juro.

Há uma história curiosa sobre a canção ‘Let’s Get it Started’; não tem nada a ver com o show, mas se eu não contar agora eu vou esquecer: na primeira versão que saiu do disco ‘Elephunk’, essa música se chamava ‘Let’s Get Retarded’ (Vamos ficar retardados). Era uma figura de linguagem, com o sentido ‘vamos ficar loucos’, etc. Mas pegou mal entre os politicamente corretos e o refrão teve que ser regravado com outra letra. Ficou então, bem mais light: ‘Let’s Get Started’ (Vamos começar).

Na sequência do show vieram ‘Rock That Body’, outra favorita da casa. Nesse caso, literalmente: minha filha adora essa canção, porque a Fergie canta com voz de robô. E aí a Bebel fica dizendo que a cantora é a ‘garota-robô’). Depois dela, veio a linda ‘Meet me Halfway’, que já foi até tema nesse blog

(Veja o repertório completo abaixo)

O visual do show – palco, figurino, cenário – é incrível e super futurista. O telão é enorme e a qualidade do som foi a melhor que já ouvi em um estádio (até porque o BEP deve ter muito material pré-gravado, o que facilita as coisas para os técnicos, mas tudo bem). Só não gostei muito das bailarinas que entravam no palco, ora vestidas de robôs, ora vestidas como mulatas de escolas de samba. Quer dizer, eu gostei delas, se é que você me entende. Mas que balé no palco é algo muito brega, ah, foi.

A quantidade de hits do BEP impressiona, mas, além do setlist-parada-de-sucesso, cada ‘ervilha’ (Peas, em inglês, é ervilha) ainda faz um showzinho ‘solo’ (o que deve ser ótimo para as outras ervilhas descansarem). Antes de falar sobre isso, porém, gostaria de comentar os nomes/pseudônimos/apelidos dos integrantes da banda. São super estranhos; só para começar, o DJ se chama ‘PoetNameLife’, ou seja, PoetaNomeVida. Não é exatamente o nome mais comum do mundo. (Imagina os amigos dele: “E aí, PoetaNomeVida, beleza?”)

E os integrantes do BEP, então? will.i.am se chama William, mas é tão cheio de graça que inventou essa sigla esquisita aí para complicar a vida de jornalistas brasileiros. O resultado é um apelido confuso que significa ‘Vou Eu Sou’ ou algo do gênero. Pronuncia-se ‘Uíu Ai Ém’, OK? É bom saber em caso de você encontrar com ele dia desses andando pela rua.

Daí veio o showzinho solo de apl.de ap. Eu não sei direito o que quer dizer. ‘apl’, mas acho que vem de ‘maçã’ (apple). O resto do nome eu não tenho a menor ideia, só sei que o tal do apl.de.ap é das Filipinas e seu nome verdadeiro é ‘Allan Pineda Lindo’ (não concordo com o último sobrenome, mas beleza). Na sequência veio o momento de glória-solo do cantor-rapper Taboo, um mexicano altão, branquelo e esquisitíssimo. E o gran finale não podia ficar com ninguém mais que não fosse ela: Fergie, a deusa.

Fergie merece um parágrafo especial. Não apenas porque ela é linda, carismática e canta bem, mas também porque… bem, isso tudo já é suficiente. Se você não acredita que no poder sexual que sua figura emana no palco, é só ver sua performance cantando ‘My Humps’. No vídeo já é bom, mas ao vivo é melhor. A Gretchen seria considerada uma freira perto dela.

O momento-solo mais divertido dos integrantes do BEP (fora o da Fergie, claro) foi o de will.i.am. O cara se transformar em DJ e toca várias introduções de canções conhecidas, como ‘Thriller’ (Michael Jackson), ‘Sweet Child O’Mine’ (Guns ‘N’ Roses) e até a inesperada ‘Time of my Life’, do filme clássico-cult-brega ‘Dirty Dancing’. As 60 mil pessoas que lotaram o Morumbi piravam a cada sucesso. E will.i.am dava risada, ê vida boa.

A última música do show também é a típica canção perfeita para encerrar um espetáculo desse tamanho. Além de achar que ela foi a música do ano (em 2009 e 2010, para falar a verdade), gosto porque acho que é uma espécie de hino da balada. Não foi à toa que ‘I’ve Gotta Feeling’ foi a primeira música a atingir a marca de seis milhões de downloads digitais. Seis milhões de pessoas compraram essa música pela internet, dá para acreditar? Dá. ‘I’ve gotta feeling that tonight is gonna be a good night…’ (Tenho a sensação de que hoje à noite vai ser uma boa noite… simples e perfeito).

No final do show, aquela chuva de papel picado nos lembrou com certa melancolina que a festa chegou ao fim. Dá vontade de apertar o botão do controle remoto e voltar aos primeiros acordes de ‘Let’s Get it Started’. Mas será que eu agüentaria mais uma festa dessas, assim, logo na sequência? Claro que sim. Afinal, se eu morresse de cansaço, o som ‘levanta-defunto’ do Black Eyed Peas garantiria minha ressurreição.

Setlist

Let’s Get it Started
Rock That Body
Meet Me Halfway
Alive / Don’t Phunk With My Heart
Solo de will.i.am
Imma Be
My Humps
Hey Mama / Mas Que Nada
Missing You
Solo de apl.de.ap
Solo de Taboo
Rockin To The Beat / La Paga
Solo de Fergie (Fergalicious / Glamorous)
Big Girls Don’t Cry
I.Am.Robot (DJ Set)
Pump It
Don’t Lie
Shut Up
Where is the Love?
Boom Boom Pow
I Gotta Feeling

Foto: Leonardo Soares/AE

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André Mattos é Fortunato, apresentador de TV que vira deputado. O personagem é muito engraçado; a realidade é que é triste

Hoje é dia de eleição.

Nunca antes na história deste País houve um filme como ‘Tropa de Elite 2. Se você é um dos sete milhões de brasileiros que viu o filme – nosso maior público em todos os tempos –, sabe do que estou falando. Se não viu, corra para o cinema e entenda melhor o País em que você vive.

Se Mazzaropi e Glauber Rocha imortalizaram em película o País de suas épocas, José Padilha faz uma radiografia perfeita do momento em que vivemos. Infelizmente, o resultado é podre.

Hoje é dia de eleição.

‘Tropa 2′ mostra como o Estado brasileiro é corrompido, como espalha seus tentáculos malignos sobre a sociedade e como, em contrapartida, a sociedade responde com o que há de pior no submundo de suas fileiras.

Na tela, o já lendário personagem Coronel Nascimento, do Bope carioca, torna-se Secretário de Segurança. O alvo são as milícias cariocas, formadas por policiais mais criminosos que os próprios criminosos. Traficantes e favelados pagam para não ser assaltados por policiais. Sim, é inacreditável.

Hoje é dia de eleição.

Não vou contar o final do filme; só que as pessoas aplaudem de pé. Há catarse, revolta, indignação, mas não sei por quê: a culpa por tudo isso é nossa, só nossa. Somos nós que elegemos os políticos que nos saqueiam.

Hoje é dia de eleição.

Acaba de sair uma lista da Transparência Internacional sobre a percepção da corrupção no mundo. Estamos muito mal, o que não é nenhuma novidade, somos corruptos mesmo. De 0 a 10 em honestidade, tiramos 3,7. Se a corrupção fosse uma matéria escolar pela qual os países seriam julgados, levaríamos bomba. Ué, um país que não passa de ano pode ser considerado… um país?

Hoje é dia de eleição.

Dos 178 países pesquisados , ficamos em 69º lugar. Ao lado de Cuba, veja só que coincidência. Em 2009, ficamos em 75º. Melhoramos? Não, os outros é que pioraram. ‘Não há algo de podre no reino da Dinamarca’, como diria o Hamlet de Shakespeare: a Dinamarca tirou zero em corrupção. Há algo de podre no nosso País. Se a corrupção é um crime (e é), somos um país criminoso.

Hoje é dia de eleição.

A canção ‘Sob o Mesmo Céu’ diz: Com quantos Brasis se faz um Brasil? Com quantos Brasis se faz um país, canta Lenine. Com quantos Brasis se faz um país? Com o Brasil que tira carteira de estudante falsa para pagar meia-entrada? Com o Brasil que compra DVD pirata? Com o Brasil que molha a mão do guarda para não pagar multa? Com o Brasil que paga impostos para ser assaltado pelos políticos? Com quantos Brasis se faz um país, mesmo?

Hoje é dia de eleição.

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Alinne Moraes, em cena da minissérie ‘As Cariocas’, baseada em textos de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Foto de Ique Esteves

Estive no Rio de Janeiro semana passada para o lançamento do meu livro ‘Bacana Bacana’ na belíssima livraria da Travessa, no Leblon. Não ia ao Rio há alguns anos, tempo demais até para mim, o mais urbanoide dos paulistanos.

Conheci bem o Rio nos anos 90, época em que cheguei a morar no mais carioca dos bairros cariocas: Copacabana. Desta vez nem fui à Copa; fiquei mesmo no Leblon, o bairro mais legal da cidade. E tive a sorte de contar com bons anfitriões.

Neo e Jill, Bia e Guto, todos carioquíssimos – apesar de nenhum deles ter nascido no Rio. Neo e Guto são mineiros, Jill é americana, Bia é curitibana. Mas todos amam a cidade como se tivessem respirado ali suas primeiras moléculas de oxigênio. Estar carioca se torna ser carioca com bastante rapidez. Carioca é um estado de espírito, não um endereço de maternidade.

O Rio está longe de ser perfeito, vamos deixar claro. Vamos por hora esquecer os problemas da cidade, que serão abordados no futuro próximo por este blog. O Rio é a mais cosmopolita das cidades brasileiras. Das diferenças entre cariocas e paulistas, uma é gritante: em São Paulo, o mineiro tem orgulho de ser mineiro. No Rio, ele se considera carioca. O Rio também é cosmopolita porque os estrangeiros estão lá porque desejam, e não porque são obrigados por seus negócios – o que é o caso dos estrangeiros que vem a São Paulo.

Quando eu era mais novo, adorava criticar o Rio e estimulava a rixa cariocas X paulistas. Hoje dou risada: cidades não são entidades comparáveis. Mesmo assim, é impossível para um paulista não tentar generalizar o Rio de alguma forma. ‘Lá no Rio é assim, lá no Rio é assado’, dizemos, como se as diferenças fossem tão óbvias que transformassem qualquer turista de fim de semana em antropólogo. O Rio não é assim, o Rio não é assado. O Rio é o Rio.

Sou viajado, consigo compreender uma cidade com certa rapidez. Mas confesso que as qualidades (e defeitos) do Rio e de seus moradores ainda me surpreendem. A única característica previsível nos cariocas é a sua informalidade.

Em São Paulo, o importante é ter dinheiro. Dinheiro para esbanjar em carros importados, baladas e luxos que compensem, psicologicamente, o excesso de trabalho e a vida estressante. No Rio, o bem mais valioso é o tempo. Tempo para dar um mergulho no final da tarde, tempo para correr na praia pela manhã, tempo para passear com os cães pelo calçadão. E não há dúvida de que o tempo é mais democrático que o dinheiro – e menos repressor. O tempo não tem idade, não tem sexo, não é do rico nem do pobre. O tempo é de quem sabe usá-lo. E ninguém sabe usá-lo melhor do que os cariocas – não importa onde eles tenham nascido.

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