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Felipe Machado

Got Milk man

De vez em quando, minhas amigas acessam este blog e reclamam que eu ando muito machista. É Borracharia pra cá, Filosofia de Boteco pra lá… temas que não interessam às mulheres e, pior ainda, escritas com um tom que volta e meia é criticado.

OK, vocês venceram. (Batata frita)

Cansada dos meus posts monotemáticos (segundo ela), minha colega Ana Lúcia Araújo escreveu um texto emocionante sobre o que as mulheres realmente querem na vida. Quem quiser ler outros textos dela pode acessar o blog Publicáveis, sobre coisas da vida com uma pitada de literatura, ou sobre a vida prática no Cabana Bacana.

A imagem acima foi escolhida pela Analu; no final do texto, uma imagem para os caras (só para mostrar quem ainda manda por aqui. ;-)

Enjoy.

Eu só queria um litro de leite
Ana Lúcia Araújo

Mês passado, li em várias revistas femininas e nos jornais da cidade teorias interessantes sobre o que querem as mulheres. Linhas e mais linhas para tentar explicar afinal de contas por que somos tão insatisfeitas. Em alguns momentos tenho a sensação que somos o Mal do Século, ou pior: o Mal de TODOS os Séculos.

Os chavões vão nessa linha: as mulheres são independentes financeiramente, fizeram dos homens uns bananas, mas ainda querem que eles abram a porta do carro. É verdade? É. É mentira? É também.

Eu não sei o que as mulheres querem, até porque é uma questão pessoal. Mas o que eu percebo, entre minhas amigas, minha mãe, amigas da minha mãe, minhas primas mais novas, amigas das minhas primas mais novas é que nós só queremos um litro de leite.

Entendeu? Então explico. Outro dia um amigo me contou uma história bobinha, mas que me deu a luz para esse texto. Durante uma conversa normal do dia-a-dia com a namorada, por telefone, ela lamentou: “Estou trabalhando tanto que nem tive tempo para comprar leite”. Meu amigo (que ganhou muitos pontos comigo por isso) não pensou duas vezes. Passou na padaria, comprou uma caixinha de leite, colocou num envelope do trabalho e deixou na portaria do prédio da namorada. Simples assim.

Não precisamos de diamantes, de mansões ou viagens ao redor do mundo. Um litro de leite (na hora certa) tá bom demais.

Got milk woman

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JOSE PATRICIO/AE
Roberto Carlos e Elas: Fãs no palco… e na plateia (foto de José Patrício/AE)

Mais uma vez apelo para o lado jornalístico-maternal de Helô Machado, que compareceu ao evento em homenagem aos 50 anos de carreira Roberto Carlos ontem à noite no Teatro Municipal, em São Paulo.


Divas cantam o Rei

Helô Machado

O Rei gostou tanto que quase chorou. Afinal, foi a primeira vez que, mesmo sendo Sua Majestada, Roberto Carlos dividiu o palco com 20 fãs (muito) conhecidas do público, ou melhor, 20 mulheres totalmente apaixonadas por ele. Melhor ainda, 20 cantoras brasileiras cantando os sucessos que ele angariou com justiça nos primeiros 50 anos de sua carreira.

O show ‘Elas Cantam Roberto: Divas’, promovido pela Rede Globo e parte do Projeto RC 50 Anos, teve renda totalmente revertida para a Américas Amigas, instituição de prevenção ao câncer de mama (a R$ 1.200 o convite, deve ter arrecadado uma bela soma). O evento reuniu no Teatro Municipal de São Paulo um público variado de celebridades, socialites, jovens, casais elegantes e, no palco, uma seleção de mulheres, cantoras e intérpretes dos mais variados estilos e preferências, unidas por uma característica unânime: a admiração pelo Rei.

Com a tradicional orquestra RC ao fundo e um cenário de módulos variados e brilhantes, digno de uma noite de estrelas, o desfile de cantoras – e de vestidos à moda de cada uma – foi espetacular. Como a lista é grande, aqui vai apenas um registro da performance de cada uma e a música escolhida:

Hebe Camargo (a maior estrela): ‘Você Não Sabe’
Luiza Possi (a mais simplezinha): ‘Canzone per Te’
Zizi Possi (a mais estilosa): ‘Canzone per Te’ e ‘Proposta’
Alcione (a mais simpática): ‘Sua Estupidez’
Fafá de Belém (a mais irreconhecível): ‘Desabafo’
Celine Imbert (a mais nada a ver): ‘À Distância’
Daniela Mercury (a mais convencida): ‘Se Você Pensa’ e ‘Esqueça’
Wanderléa (a mais gata): ‘Esqueça’ e ‘Você vai ser o meu Escândalo’
Rosemary (a mais elegante): ‘Nossa Canção’
Fernanda Abreu (a mais descolada): ‘Todos Estão Surdos’
Paula Toller (a com look mais jovem): ‘As Curvas da Estrada de Santos’
Marília Pêra (a mais dramática): ’120, 130, 150 por Hora’
Marina Lima (a mais certinha): Como Dois e Dois’
Sandy (a mais sem sal): ‘As Canções que você fez pra mim’
Martinália (a mais na dela): ‘Só você não sabe’
Adriana Calcanhoto (a mais meiga): ‘Do Fundo do meu coração’
Cláudia Leite (a mais nada): ‘Falando sério’
Nana Caymmi (a mais séria): ‘Não se Esqueça de mim’
Ana Carolina (a mais aplaudida): ‘Força Estranha’
Ivete Sangalo (a mais convencida parte 2): ‘Os Botões da Blusa’ e ‘Olha’

Ao final, Roberto emplaca mais uma vez sozinho com as suas ‘Emoções’. Público de pé. Ele emenda um emocionante ‘Como é Grande o meu Amor por Você’, com todas as Divas no palco, cada uma cantando um trecho com ele. Fecham-se as cortinas e se abrem novamente para o bis: ‘É Preciso Saber Viver’, com as 20 cantoras e… Sua Majestade.

Apesar do esforço tamanho e da belíssima homenagem às mulheres (e das mulheres), chega-se a uma conclusão rápida: ninguém canta Roberto Carlos como Roberto Carlos. Mas valeu. E se alguém duvidar do que foi dito aqui, que veja esta noite de gala na TV, no Especial da Globo, no próximo domingo, logo depois do Fantástico. Eu estarei lá. Roberto, espero ansiosa para ver as canções que você fez para mim. E para todas nós.

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Nicole Kidman

Nicole Kidman: A atriz foi a estrela de ‘Os Outros’. O filme não tem nada a ver com fofoca, mas a Nicole tem tudo a ver comigo

Como todo grande primata urbano, adoro shopping center. Mas de uns tempos para cá, esse ex-templo voltado para o consumo virou apenas um lugar onde ficam salas de cinema, restaurantes e áreas com atrações infantis – pelo menos para mim.

Lembrei que o shopping é um lugar onde se faz compras na semana passada, quando encontrei umas amigas e descobri que as mulheres adoram se olhar no espelho e arrumar o cabelo quando estão experimentando… sapatos. Não me pergunte qual é a lógica por trás disso. Nunca entenderei como a decisão de comprar ou não um sapato está relacionada ao penteado da consumidora.

Mais tarde, já no restaurante, passei o almoço inteiro praticamente quieto, só ouvindo conversas que poderiam ser tiradas de qualquer episódio de Sex and the City. Como o mundo ficou parecido, não? Como as pessoas falam e desejam as mesmas coisas, não importa em qual grande metrópole do mundo elas vivem…

As pessoas, aliás, de uma maneira geral, conversam apenas sobre dois assuntos: a própria vida e a vida dos outros. Falar sobre a própria vida só é interessante quando a pessoa em questão é extraordinária; na maioria das vezes, o assunto dura pouco e fica restrito a fatos específicos de interesse geral. Agora, quando a conversa é sobre pessoas que não estão lá…

“Lembra daquele fulano da nossa classe? Pois é, acaba de se separar…”

“Sério? E ele tem filhos?”

“Ouvi falar que a mulher foi embora de casa.”

“Não foi esse que viajou para Paris com a secretária?”

Todo mundo sempre tem uma informação adicional sobre o assunto em questão. E daí eu fiquei me perguntando: falar dos outros é fofoca? Ou só é fofoca quando falamos mal dos outros?

O costume faz parte da natureza humana – e não me refiro à brincadeira que fiz aqui outro dia (Mulheres fofocam; homens conversam). Falar sobre amigos em comum humaniza a conversa, traz essas pessoas para a mesa da gente. Às vezes rola uma maldade; confesso que até eu faço isso de vez em quando. Mas quando alguém ‘traz’ um amigo para o papo, geralmente é porque o personagem poderia estar ali, opinando e dividindo o assunto com a galera.

Estou sendo ingênuo? Estou esquecendo as milhares de pessoas que só se lembram dos amigos na hora de criticá-los? No dicionário Aurélio, a fofoca é definida como “difamação, murmuração, maldizer; dizer mal; blasfemar; falar mal de alguém”. Que absurdo. Vou convidar o Aurélio para almoçar e provar que ele está completamente errado.

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REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Sou fã do cineasta austríaco Michael Haneke desde a primeira vez que vi ‘Violência Gratuita’. É um diretor cerebral, inteligente, que adora deixar o final aberto de suas obras para que o público as interprete. Isso cria filmes autorais sofisticados, onde as camadas de análise se sobrepõem e criam interessantes retratos da sociedade.

Outra coisa que gosto muito de Haneke é que ele, invariavelmente, trata da maldade do ser humano – coisa que meu ídolo supremo, Stanley Kubrick, também adorava fazer.

Bom, tudo isso para quê? Para parabenizar Michael Haneke por toda sua carreira e, mais especificamente, para parabenizá-lo pelo prêmio mais importante do cinema em termos artísticos (o Oscar leva muito em conta a indústria; Cannes é mais voltada ao cinema puro): Haneke acaba de ganhar a Palma de Ouro em Cannes com seu novo filme, ‘The White Ribbon’ (A Fita Branca).

Glückwunsch, Michael.

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Essa é para o Alex, que achou que o post anterior era sobre o Depeche Mode. Quer dizer, até era, mas concordo que quem queria ouvir um som e teve que se contentar com um texto sobre ‘frágil tensão’ deve ter ficado decepcionado.

Por isso, aqui vai o meu vídeo favorito do Depeche Mode: ‘In Your Room’, ao vivo em Paris. O cenário do show, criação do gênio Anton Corbjn, é simplesmente um dos mais legais que já vi na vida. A única coisa que eu não gosto é o da roupa do guitarrista Martin Gore, figurino do Jean Paul Gaultier. Em compensação, na hora em que entra o tubarão no telão…

(Não vou contar para não estragar a surpresa. Assista, você não vai se arrepender.)

Aproveitando para falar sobre o novo do Depeche, ‘Songs of the Universe’. É muito bom. É por isso que muitas vezes eu vou contra a opinião dos meus colegas críticos, que acham que a última banda é sempre a melhor. Não é. Ser novo não significa ser bom, me disse uma vez o jazzista Branford Marsalis numa entrevista. concordo plenamente. Quem ouve o novo do Depeche MOde, ou o novo do U2, ou o novo do Morrissey, vai ver que os caras estão no auge da sua criatividade.

Claro, isso não vale para todos. E muitos artistas têm altos baixos, o que temos que compreender e criticar quando é necessário. Há artistas que têm carreiras mais curtas que outros. Outros estão aí até hoje e ninguém sabe direito por quê. Pouca gente presta atenção em um disco novo dos Rolling Stones, embora todo mundo queira ver os caras ao vivo. Eles são importantes, mas não estão interessados em apresentar nada novo em termos de gravação. O U2, pelo contrário, está sempre na vanguarda, pronto para revolucionar a música quantas vezes for necessário. Isso não vai durar para sempre, é humanamente impossível. Mas ficar aclamando bandinhas inglesas que não gravaram nem uma fita demo não é comigo. Eu espero a banda me descobrir, não tenho interesse nenhum em descobrir bandas novas. Quando a banda é boa, ela aparece pelo seu talento. E não precisa de mim.

Artistas com carreiras sólidas merecem respeito. O resto é música efêmera.

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Depeche Mode
Depeche Mode: Será que entre os membros da banda também há uma ‘frágil tensão’? Provavelmente

No novo disco do Depeche Mode, o sensacional Sounds of the Universe, há uma canção chamada Fragile Tension, que vai mais ou menos assim: “Uma frágil tensão nos mantém juntos / Pode até não durar para sempre, mas é incrível enquanto a vivemos.”

A letra continua mais ou menos nessa linha, como se o cara estivesse conversando com a mulher sobre o relacionamento dos dois. E daí eu comecei a pensar: será que uma frágil tensão é necessária entre um casal? Será que um pouquinho de conflito é positivo, será que é necessário para manter acesa a chama da paixão?

Apagando a minha última frase, extremamente brega, acho que o Depeche Mode pode estar certo. É inevitável rolar uma briguinha do casal de vez em quando, não é? Nada muito forte, nada sério. Apenas algo como uma… frágil tensão.

Conheço casais que brigam o tempo inteiro e continuam juntos. Talvez sejam masoquistas; talvez tenham medo de se tornarem reféns da também inevitável apatia que toma conta das nossas vidas quando passamos muito tempo ao lado da mesma pessoa. Ou talvez sejam apenas um casal de chatos mesmo.

Por outro lado, acho bastante estranho quando ouço casais dizendo que nunca brigam. Sério, será que é possível viver com uma pessoa sem nenhuma desavença, os dois concordando com tudo o tempo inteiro? Uau, que inveja.

Quer dizer, inveja em termos. Nem tanto ao sol nem tanto à lua… In Medio Stat Virtus (a virtude está no centro), já dizia Aristóteles.
Pensando bem, o relacionamento nada mais é do que um ajuste entre duas pessoas diferentes, entre dois pontos de vista diferentes, entre duas vidas diferentes. Graças ao amor, que funciona como uma espécie de cola espiritual, superamos essas diferenças e vivemos em paz, aceitando o outro como ele é, com seus defeitos e idiossincrasias (adoro usar essa palavra – vem do grego e significa ‘temperamento peculiar’).

Voltando ao que interessa… sim, aceitamos o outro como ele é, mas isso não significa que temos de concordar com tudo o que ele pensa. É importante manter algumas posições e opiniões justamente para não anular quem você é, para ser coerente com você mesmo. Lembre-se de que o outro também se apaixonou por você exatamente porque você era assim, do seu jeito.

Há uma frase que brinca com essa história de mudança da personalidade: a mulher se casa achando que vai mudar o homem; o homem se casa achando que a mulher não vai mudar. Como se vê, entre as duas ideias há uma… frágil tensão.

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Beto Barata/AE
Ronnie James Dio tem mais de 60 anos, cerca de 1,50m de altura e deve pesar uns 45 kg no máximo. Será que esse cara fez algum pacto para ter uma voz tão poderosa? Tenho até medo de perguntar. A diabólica foto acima é de Beto Barata/AE

O show do Heaven & Hell, na última sexta-feira no Credicard Hall, foi um retrato perfeito do que é a banda. Para quem não sabe, ‘Heaven & Hell’ significa ‘Paraíso e Inferno’. Pois é, o repertório foi ‘heaven’; o som, ‘hell’.

Nunca pensei que fosse falar isso, mas o som estava muito alto. A voz estava tão insuportável que me arrependi de não ter levado meus protetores auditivos (vários amigos meus estavam usando). Será que estou velho? Talvez. Ou talvez o som estivesse muito alto mesmo, principalmente para quem estava na Pista VIP.

(Pista VIP, aliás, funciona muito bem em estádios e ginásios grandes. Mas em uma casa como o Credicard, obriga o público a ficar muito perto do palco, o que seria ótimo se não significasse também que o público fica em frente ao P.A., o sistema de som. Ou seja: você vê o Tony Iommi de pertinho, mas fica surdo.)

O Heaven & Hell nada mais é do que o que a gente antigamente chamava de ‘Sabbath com o Dio’. O Black Sabbath tem duas formações clássicas (três, se contar a com o Ian Gillan, que gravou apenas o ‘Born Again’). Uma delas é com o Ozzy, com repertório com canções como ‘Paranoid’, ‘Iron Man’, ‘Sympton of the Universe’. A segunda é com o Ronnie James Dio, com músicas dos discos ‘Heaven and Hell’ (1980) e ‘Mob Rules’ (1981). Para alguns pode até ser um sacrilégio, mas musicalmente a segunda formação é bem melhor (Dio canta muito mais do que Ozzy e, em relação aos bateristas, Vinnie Appice, da formação 2, também é muito mais técnico que Bill Ward, da formação 1).

O show tem apenas músicas da formação com Dio, e ainda conta com algumas músicas novas. O repertório foi muito legal, com canções como ‘Mob Rules’, ‘Die Young’, ‘Neon Knights’ e o coro ‘ô, ô, ô, ô…’ de ‘Heaven & Hell’. Cantei com toda a força dos meus pulmões, apesar de não ouvir nem a minha própria voz.

Dois comentários que eu faria (como fã, não como jornalista):

1. Por que eles só tocaram a introdução de ‘Country Girl’? É uma das minhas favoritas do ‘Mob Rules’…

2. Por que eles não tocam algumas músicas da carreira solo do Dio? Aposto que os 6 mil headbangers que estavam na plateia adorariam ter ouvido ‘Rainbow in the Dark’ ou ‘Don´t Talk to Strangers’.

Não posso reclamar muito, porque afinal de contas, é sempre um privilégio ver os mestres do metal tocando por aqui. Tive a oportunidade de abrir para o Black Sabbath em duas ocasiões, em 1992 e 1994, e foram experiências maravilhosas e motivos de muito orgulho. Enfim, apesar dos probleminhas de som, o show do Heaven & Hell vai ficar na minha memória durante um bom tempo. E não apenas enquanto durar o zumbido do meu ouvido.

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Ernesto Rodrigues/AE

Jimmy Cobb’ So What Band: Recriando o lendário ‘Kind of Blue’ em São Paulo (Foto de Ernesto Rodrigues/AE)

Inesquecível.

Tudo bem, eu sei que começar um texto com a palavra inesquecível é manjado. Mas se você não gostou desse início, pode trocar inesquecível por mágico, incrível ou sensacional. Qualquer um desses adjetivos representa bem a primeira noite do Bridgestone Music Festival, ontem à noite em São Paulo.

A apresentação começou com o Robert Glasper Trio, formado pelo pianista que batiza a banda, o baixista Vicente Archer e o batera Chris Dave. O nova-iorquino Glasper é um daqueles virtuosos do teclado contemporâneo, com excelente gosto para melodias e melhor ainda para temas e climas. O power trio de Glasper apresentou um jazz moderno e fascinante, com canções repletas de contratempos interessantes e dinâmicos. Ele é moderninho com conteúdo, talvez influência de seus dias como aluno da New School University, onde estudou com Terence Blanchard e Roy Hargrove, e depois misturou tudo o que aprendeu tocando com rappers como Jay Z e Kanye West.

Bem-humorado e carismático, Glasper detonou seu piano Steinway & Sons ao lado de uma banda formada por outras feras: o baterista Chris Dave é muito bom, o que foi comprovado por um solo de bateria muito bom, principalmente pelo aspecto minimalista: ele ficou restrito ao bumbo, chimbau e caixa, o que muito raro, ainda mais em um solo de bateria. Vicente Archer também se mostrou um ótimo baixista, embora eu tenha achado seu estilo muito dissonante nos momentos de solo (fisicamente, achei ele parecido com o Ronaldinho Gaúcho gordinho). A apresentação terminou com o ‘cover’ (a palavra cover está entre aspas porque foi muito mais do que um simples cover, mas uma versão diferente que acrescenta à original) de ‘Everything is in Right Place’, do Radiohead. É a segunda vez que vejo um jovem e talentoso pianista de jazz tocando Radiohead – a primeira havia sido Brad Mehldau.

No bis, Glasper tocou uma canção bastante percussiva, batendo nas teclas no piano elétrico Rhodes como uma espécie de Thelonious Monk pós-moderno (e mais contido, claro).

Na sequência veio a grande atração da noite: a So What Band, liderada pelo baterista Jimmy Cobb, último remanescente da lendária formação que gravou ‘Kind of Blue’, o maior disco da história do jazz. Como essa turnê celebra os 50 anos de gravação do disco, a expectativa era que tocassem o disco inteiro na sequência e na íntegra. E foi o que aconteceu: liderados pelo baterista de 80 anos, o saxofonista Vincent Herring (no papel de ‘Cannonball Adderley’, o saxofonista tenor Javon Jackson (‘John Coltrane’), o trumpetista Wallace Roney (‘Miles Davis’), o baixista Buster Williams (‘Paul Chambers’) e o pianista Larry Willis (‘Bill Evans’) tocaram a obra-prima inteira. Portanto, também vamos na ordem correta:

1. So What: Talvez seja um sacrilégio dizer isso, mas a versão que a ‘So What Band’ fez da minha música favorita do disco não ficou tão boa. Eles tocam uma versão muito rápida, muito diferente do disco. Tudo bem, o Miles Davis também tocava bem mais rápido ao vivo, como podemos ver em gravações como ‘Live in Stockholm’ e ‘Paris’ (ambos de 1960). Mas confesso que é estranho não ouvir as frases exatamente iguaizinhas ao disco, já que é um disco que todo mundo conhece de trás pra frente. Eu não queria que tocassem igualzinho, porque aí seria quase uma banda cover. Mas eu queria que tivessem mantido, sim, algumas frases maravilhosas do disco…

(Veja o vídeo de ‘So What’ feito pela TV Estadão)

2. Freddie Freeloader: A versão foi um pouco mais parecida com a original, embora a So What Band tenha acrescentado um pouco de suíngue. E ficou bem legal. É engraçado porque até os caras se parecem fisicamente um pouco com os originais (com exceção do pianista Larry Willis, que é negro, enquanto Bill Evans era branquelo; Wallace Roney também é bem mais, digamos, ‘cheinho’ que Miles. Mas, pelo jeito, tem o mesmo péssimo gosto para ternos). Já que estamos falando do pianista, gostaria de ver o Robert Glasper, que é super ‘nova geração’, tocando com esses veteranos feras…

3. Blue in Green: A melhor do show. O fraseado de Miles Davis é tão característico e tão fundamental para a construção da canção que Wallace Roney não teve alternativa a não ser… tocar como o disco. Essa é uma das baladas mais lindas da história da música. É tão sublime que tentei fechar os olhos e imaginar o paraíso, mas as lágrimas não deixaram.

4. All Blues: Outra maravilha, emocionante. Se ninguém me contasse, eu não acreditaria que Jimmy Cobb tem 80 anos: eu queria ser esse cara. Imagina ter tocado com Billie Holiday, Dizzy Gillespie, Wes Montgomery, Stan Getz… e Miles Davis. Uau, que carreira. E, 50 anos depois, fazer uma turnê mundial tocando o disco que você ajudou a imortalizar. Um detalhe dessa música: o pianista Larry Willis inclui o tema de ‘Norwegian Wood’, dos Beatles, no meio do solo. Outro momento mágico…

5. Flamenco Sketches: A segunda melhor do show. Acho que a So What Band foi melhor nas baladas, acho que conseguiram reviver melhor os climas do ‘Kind of Blue’. O nome do disco, aliás, sempre dá discussão entre os puristas do jazz. Alguns traduzem como ‘Um tipo de blues’, outros como ‘Um tipo de tristeza’, outros ainda como ‘Mais ou menos triste’. Flamenco Sketches é uma jóia da música. Sabe gente que usa a expressão ‘obra-prima’ para qualquer coisa. Pois é: nesse caso, ela é merecida.

O show acabou e eles ainda foram generosos e voltaram para um bis. Não lembro o que tocaram. Não lembro nem como cheguei em casa. Só sei que cheguei em casa feliz: nunca pensei que ia ouvir ‘Kind of Blue’ ao vivo com o Jimmy Cobb sentado no banquinho. Miles não estava lá, Coltrane não estava lá. Mas eu não senti nenhum ‘tipo de tristeza’. Pelo contrário: meu coração estava nas nuvens. Bem perto dos mestres.

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Bernard Schlink

Bernard Schlink é professor de Direito e Filosofia na Universidade Humboldt, em Berlim

Acabo de ler um livro curtinho mas bastante interessante: ‘O Outro’, de Bernhard Schlink. Talvez você conheça ele por outro livro, ‘O Leitor’, que virou filme com Kate Winslet e Ralph Fiennes e ganhou até um Oscar. Bem, ‘O Outro’ também virou filme, ‘O Amante’, com Liam Neeson, Laura Linney e Antonio Banderas. Não vi, por isso vou comentar apenas o livro.

Como alguns escritores alemães (sem generalizar, apenas contextualizando, please), Schlink é bastante objetivo e se preocupa mais com a história que está contando do que com o estilo do texto. É a aplicação da lógica à literatura, de certa forma.

‘O Outro’ conta a história de Bengt, um viúvo que tenta se adaptar à nova e solitária vida após a morte da mulher. Um dia, chega pelo correio uma carta para a mulher, de alguém que, obviamente, não sabe que ela morreu. Movido pela curiosidade, Bengt abre a carte e descobre que é de um antigo amante dela.

Além de não saber que ela morreu, o cara ainda diz que está com saudades porque não a vê há muitos anos, etc. Bengt, então, começa a imaginar as circustâncias em que aquele relacionamento ocorreu, e nasce aí uma certa (justificável, sejamos justos) e leve paranóia.

O marido traído (quem seria ‘o outro’ no coração da mulher, ele ou o amante?) responde a carta como se fosse a mulher. Nasce daí um diálogo entre os dois homens, um diálogo falso, claro, mas verdadeiro em alguns aspectos relacionados à mulher que os dois amaram.

Depois de um tempo, o marido anota o endereço do remetente e parte em direção ao seu encontro. Não sabe o que vai fazer; quer apenas conhecê-lo pessoalmente. E vai. O resto eu não vou contar, claro.

Como se vê, não é coisa mais original do mundo, mas é uma ótima trama. Na mão de um escritor mais estilístico e caprichoso seria uma obra-prima. Na mão de Schlink, parece apenas um texto descritivo das ações dos personagens, sem muita emoção ou complexidade. É um livro curto, com umas 90 páginas em Times New Roman tamanho 14. Mas funciona bem visualmente, talvez seja por isso que gostam tanto de adaptar suas obras para o cinema. De qualquer maneira, um livro interessante que dá para ler rapidamente.

Por que, então, ‘eu queria ser esse cara’? Imagina a grana que ele recebeu pelas duas adaptações para o cinema.

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Murilo Felisberto

Nossa, como passou rápido… Em 11 de maio de 2007, há exatos dois anos, morria Murilo Felisberto, um grande amigo meu. Na verdade, ele não era exatamente ‘meu amigo’, apesar de ser (deu para entender?). Murilo foi muito mais um mestre, um professor, um cara a quem eu perguntava o caminho quando não sabia direito para onde ir.

Pois é, na época em que ele morreu, em 2006, escrevi um texto. E muitas outras pessoas fizeram a mesma coisa, justamente porque ele foi o guru de um grande número de profissionais da área do jornalismo e publicidade. Para ler o meu texto, clique aqui. Para acessar o blog dos amigos do Murilo, clique aqui.

Murilo, você faz falta.

Um abraço, amigo.

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