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Felipe Machado

29.dezembro.2008 12:30:49

Dando a volta por cima

Britney Spears

Depois de fazer amor, os amantes se deitam abraçados, ofegantes. O homem respira fundo, vira para o lado e pega o maço de cigarros que repousa sobre o criado-mudo. Isqueiro em chamas, ele sopra um círculo de fumaça que se dissipa lentamente no quarto ainda quente de amor. “Foi bom para você?”, ele pergunta.

Pois é exatamente isso que estou fazendo agora com você. Só que sem esses clichês de cinema de quinta categoria, claro. Então… 2008 foi bom para você? Não reclame nem comemore: pense bem antes de responder.

É sempre difícil escrever um texto de réveillon, porque é inevitável cair na história das resoluções de ano-novo ou nas mudanças de estilo de vida que a gente sempre promete para nós mesmos e nunca cumprimos (uma vida mais saudável no ano que vem, Felipe, por favor). Apesar da noite de ano-novo ser daqui a alguns dias, quero que você pare para pensar nas coisas boas e ruins de 2008. O que você pode melhorar em 2009? Será que você poderia cometer menos erros?

Se 2008 foi bom, ótimo. Agora, se foi um ano que você quer esquecer, não se preocupe. Ele acaba daqui a três dias. E tenho certeza que em 2009 você vai dar a volta por cima. Isso, porém, não acontece por acaso. Você tem que fazer alguma coisa.

Em 2007, Britney Spears ficou louca, raspou a cabeça e passou a perseguir fotógrafos com tacos de beisebol. Em 2008, ela lançou ‘Circus’, um dos melhores discos de sua carreira, ganhou três prêmios da MTV e termina o ano em primeiro lugar nas paradas americanas.

Em 2007, Amy Winehouse lançou o genial disco ‘Back to Black’, que a levou para as paradas de todo o mundo e lhe rendeu seis prêmios Grammy. Onde está Amy hoje? Em uma clínica de reabilitação à espera do marido, que acaba de voltar para a prisão.

É claro que não estamos falando de talento aqui. Nem tenho bola de cristal para adivinhar o que vai acontecer com as duas. Pode ser que Britney morra amanhã de overdose de talco infantil e Amy vire a nova Madre Teresa de Calcutá. Sei lá. Só sei que uma deu a volta por cima; a outra ainda não.

Resolver nossos problemas só depende de nós mesmos. Se o problema for muito sério, tudo bem, pedimos a ajuda da família e dos amigos. Sim, é para isso que eles servem. Mas antes de tudo precisamos querer melhorar. Ninguém vai querer melhorar pela gente.

Adeus, 2008. Para mim, foi mais ou menos. Vivi coisas boas e ruins, como todo mundo. Agora posso virar para você e perguntar: ’2008 foi bom para você?’ Tenho certeza que sim. Mas tenho ainda mais certeza que 2009 será muito, muito, muito melhor.

Feliz ano-novo!

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Véspera de Natal. Toca a campainha. O tio entra com um saco de presentes e a tia carrega uma bandeja embrulhada com papel alumínio – dentro dela há um tender. Os dois filhos deles, de nove e dez anos, entram correndo e derrubam a filha dos donos da casa, de sete anos, que brinca sozinha com o presépio.

A prima solteirona cumprimenta o casal e reclama de alguma coisa, mas ninguém ouve o quê. O irmão dela, também solteiro, elogia o vestido da tia e volta a comentar a novela com a dona da casa. Ninguém nunca disse nada, mas pelo jeito do primo todos sabem porque ele nunca se casou.

O dono da casa está na cozinha tentando abrir um maldito espumante, mas a rolha não quer sair de jeito nenhum. Ele perde a paciência e empurra a cortiça despedaçada para dentro da garrafa. Problema resolvido, ele grita o nome da mulher para que ela conte onde estão as taças de vinho empoeiradas há exatos 365 dias – desde o último Natal.

Em volta do presépio, as crianças perguntam por que Jesus não está lá; a dona da casa explica que ele ‘vai nascer’ à meia-noite. Eles aceitam a resposta e correm para a árvore de plástico verde cheia de luzinhas, onde os presentes descansam à espera da hora certa.

Quase meia-noite. Com honras de chefe de estado, o tender é levado para a mesa, onde se junta à maionese de atum e ao arroz com passas, uma receita da qual a prima solteirona se orgulha há anos e não dá para ninguém nem sob tortura.

Os olhos da menina de sete anos já estão quase fechados, ela só agüenta porque quer conhecer Papai Noel. Os outros dois garotos não acreditam mais nisso; a desilusão veio há dois anos, quando pegaram o pai vestindo a tradicional roupa vermelha no banheiro.

O jantar está uma delícia. O dono da casa abre o terceiro espumante. A prima solteirona conta mais uma vez a história do amor não-correspondido pelo colega de trabalho; o tio também lembra mais uma vez dos tempos em que jogava futebol. “Se eu tivesse me dedicado mais, esse Natal seria na Europa”, ele repete. Exatamente como no ano passado.

À meia-noite, todos se cumprimentam. Os dois garotos saltam em cima dos presentes, mas a menina de sete anos não resistiu e dormiu no sofá.

O ano que vem será igualzinho, com uma ou outra pequena mudança. A vida seguirá sem segredos, sem surpresas, como uma noite de Natal. Feliz Natal para todas as famílias do mundo: que sejamos sempre iguais, sempre diferentes. E sempre em frente, com muito amor.

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Há algumas semanas contei aqui a história do garoto que foi para os Estados Unidos e se apaixonou por uma americana; dez anos depois, o casal se reencontraria para reviver esse amor no topo do Empire State, em Nova York.

Achei que era um final aceitável, mas os leitores não concordaram. Recebi vários e-mails pedindo mais detalhes sobre a história. Então aqui está: prometo que essa é a última parte – a não ser que algo aconteça no futuro. Afinal, não tenho bola de cristal. Vamos lá.

Após o beijo que esperou dez anos, o casal desceu os 102 andares do Empire Stante e caminhou pela Quinta Avenida até o hotel. Nem bem entraram no quarto, deixaram as malas no chão e colocaram o amor em dia. Quem disse que ‘saudade’ só existe em português?

O fim de semana inesquecível teve passeios de mãos dadas pelo Central Park, visitas às galerias do SoHo, beijos elétricos sob os totens eletrônicos da Times Square. Se a vida fosse perfeita, ela seria exatamente assim.

Infelizmente para os casais apaixonados, o tempo não perdoa sua lógica inevitável de minutos após minutos, horas após horas. E chegou o dia do adeus. Os dois estão no aeroporto, esperando a voz apática do alto-falante chamar o número do vôo dele. O último beijo, o último carinho no rosto, a última troca de olhares. Próximo encontro? Ninguém tem coragem de sugerir.

O tempo passa e os e-mails e telefonemas vão ficando mais raros, até que desaparecem. E aquele fim de semana maravilhoso vira apenas uma memória distante, uma idéia abstrata do que pode ser a felicidade.

O ciclo desse casal parece girar em décadas. Dez anos depois, ele é convidado para ir novamente a Nova York, desta vez a trabalho. Resolve mandar um e-mail – não custa nada saber como anda a vida dela. Surpresa: ela mora em Nova York.

Muita coisa, porém, mudou. Ele se casou, tem filhos. Ela se casou, está grávida. Mesmo assim, ela o convida para jantar. Quer vê-lo; quer apresentá-lo ao marido.

Ele chega para o jantar com o mesmo nervosismo daquela tarde no Empire State, não sabe por quê. Ela também está suando frio, acha estranho vê-lo em casa conversando com o marido.

Duas da manhã, ele precisa ir embora. Agradece o jantar e, na hora da despedida, o velho casal troca um olhar cúmplice de quem sabe o que aquela noite representa. Um beijo no rosto marca o fim da história de amor. Ou não: nunca se sabe o que o futuro reserva para casais apaixonados… apenas que eles merecem ser felizes.

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capa Ping Pong / Daniel Kondo

‘Você vai pra China.’

Minha viagem começou em maio, quando meu chefe decidiu me enviar a Pequim para fazer uma cobertura multimídia para os portais do Estadão, com vídeos, textos, áudios… e um blog.

Durante o mês de agosto, escrevi todos os dias sobre minha experiência na China olímpica, um lugar muito mais diferente e fascinante do que eu jamais poderia imaginar. O resultado chega agora às livrarias: um livro que é um retrato desse período único na história chinesa, o auge da ‘Revolução Olímpica’ pela qual o país passou.

‘Ping Pong’ é uma edição revista dos textos do blog, com imagens incríveis do fotógrafo Nilton Fukuda e um serviço completo sobre todos os locais visitados, o que o transforma também numa espécie de guia de Pequim/Xangai.

Gostaria, então, de convidar todas as minhas amigas e amigos deste blog para o lançamento do meu novo livro ‘Ping Pong – Chinês por um mês’, edição com formato inspirado no ‘pequeno livro vermelho do Mao’ e com projeto gráfico de Daniel Kondo.

O lançamento será na quarta-feira, dia 17 de dezembro, das 19h às 21h30 na Livraria Cultura – Loja de artes do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, tel. 3170-4033, São Paulo).

Quem quiser comprar pela internet, clique aqui para a loja virtual da Editora Arte Paubrasil.

Zaijian xie xie,

Felipe

FM Mao

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Foto: Karin Malmhav

Ai, que inveja boa quando a gente encontra algum escritor sensacional, não? Pois foi isso que aconteceu depois que li ‘Rimas da Vida e da Morte’, do israelense Amós Oz. Confesso que nunca tinha lido nada de Oz, apesar de sempre ouvir falar bem dele. Ainda bem que ainda dá tempo de corrigir esse problema.

‘Rimas da Vida e da Morte’ conta a história de um escritor que se prepara para dar uma palestra sobre sua obra em um centro cultural. Enquanto não entra em cena, ele observa as pessoas da platéia e começa a imaginar (e inventar) as histórias de vida de cada uma delas. A garçonete que lhe serve um café; os dois homens suspeitos que conversam na porta do local; o rico que estaciona o carrão na porta; todos viram personagens de um romance que se escreve na cabeça do próprio escritor, em meio às relações que ele tem com essas mesmas pessoas na vida real.

Literatura é isso, não? Quem escreve ficção está sempre tentando criar vidas para seus personagens, existências que nascem na cabeça do escritor e ganham vida no momento seguinte no papel. Oz faz isso com talento e elegância. Ah, como é bom descobrir um novo ídolo literário…

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08.dezembro.2008 12:40:53

Momentos diferentes

Feche os olhos e pense que você está em uma pista de dança lotada. Agora imagine que a noite está ótima, o DJ é incrível, e das caixas de som começa a tocar a maravilhosa ‘Let’s Get it on’, de Marvin Gaye. Difícil ficar parado, não? Comece então a reparar nas pessoas ao seu redor.

Apesar de estarem todos ouvindo a mesma música, você vai perceber que cada corpo interpreta a melodia de uma maneira única; o cara balança um pouco para cá, a garota rebola um pouco para lá…

Isso nos leva a uma conclusão bastante simples (e a uma bela frase de efeito).

Viver é como dançar: cada um tem o seu ritmo.

Uma outra analogia possível – um pouco mais clichê, é verdade – é o das duas linhas que correm em uma mesma direção. Às vezes o destino faz com que elas se encontrem e sigam juntas; em outras ocasiões, elas chegam a se cruzar, mas se separam logo depois. Quase sempre, infelizmente, as retas seguem a simetria perfeita das linhas paralelas e nunca se encontram.

Deixando para trás a pista de dança e os desenhos geométricos, voltamos à realidade. E, conseqüentemente, a um fenômeno que tenho visto com cada vez mais freqüência: os casais que sofrem porque estão vivendo momentos de vida diferentes. Nesse caso, é algo tão forte que nem importa se os dois estão superapaixonados, pois a força do ritmo pessoal de cada um é maior do que a dos ritmos dos dois juntos. E quando é assim, invariavelmente acontece o inevitável: a separação.

Na prática, é a velha história do cara que está totalmente focado na vida profissional exatamente no mesmo momento em que a mulher sonha em ter filhos e uma vida mais tranqüila; ou aquele conhecido caso da garota que acabou de sair de um relacionamento traumático e se apaixona por um desesperado que quer se casar na semana seguinte. Não é culpa de ninguém, mas do relógio biológico-emotivo de cada um. Não adianta: quando os dois não estão na mesma vibração, tudo conspira contra.

Tem gente que consegue ter o desprendimento (ou uma paixão muito forte) para deixar de lado seu momento e se adaptar ao momento do outro. Será que vale a pena? Para alguns certamente dá certo. Para outros, é apenas uma forma cruel e lenta de assassinar a própria personalidade.

Saint-Exupéry dizia que “amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção”. Eu acrescentaria que é bom torcer para as linhas paralelas se encontrarem no momento certo… para os dois.

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Meg Ryan
Meg Ryan encontra o personagem de Tom Hanks em ‘Sintonia de Amor’, filme inspirado em ‘Tarde Demais Para Esquecer’

Com passagem marcada para Nova York, o brasileiro pensava na melhor maneira de marcar o encontro com a antiga namorada de high school, que morava numa cidadezinha no interior da América. E aí veio a idéia, inspirada em ‘Tarde Demais Para Esquecer’.

No filme, um casal se conhece num cruzeiro e se apaixona perdidamente à primeira vista. Decidem então largar seus respectivos pretendentes, que os esperam no desembarque do navio. Para não deixar pistas do romance iniciado à bordo, porém, combinam de terminar os relacionamentos alguns meses depois. E então marcam o reencontro no topo do edifício Empire State, em Nova York.

Voltando à realidade – e ao nosso casal –, a idéia hollywoodiana caiu como uma luva: ele chegaria no Aeroporto Internacional JFK; ela pegaria um ônibus até Port Authority, a rodoviária de Nova York. E os dois se encontrariam no topo do Empire State. Perfeito.

Finalmente o tal dia chegou. Ele já acordou preocupado: será que ela vai me reconhecer? Será que ela ainda está bonita? Será que engordou? Enquanto isso, ela caminhava pela Big Apple fazendo planos para o futuro e lembrando do passado: os jogos de futebol americano, a viagem ao Brasil, os beijos na porta da escola.

Quinze minutos para a hora H. Final de tarde quente, um daqueles verões nova-iorquinos que esquentam o concreto dos arranha-céus e arrancam suor dos corpos cosmopolitas dos habitantes da capital do mundo.

Ele chegou primeiro ao mirante do Empire State. Era a primeira vez dele ali, e sua atenção dividiu-se entre o apaixonado nervoso e o turista deslumbrado – até que o apaixonado nervoso dominou a situação.

O pôr-do-sol transformava o céu de Nova York numa gigantesca planície vermelha quando ela saiu do elevador de mochila nas costas e óculos escuros. Mas ele não teve dúvidas: ela estava igual. Não, estava muito mais linda. Ele gritou seu nome; alguns turistas japoneses interromperam os cliques curiosos para descobrir o que estava acontecendo.

Os japoneses, o concreto dos arranha-céus, o céu vermelho de Nova York, todos pararam para ver um sincero e emocionado abraço, seguido por beijos ardentes de lábios que esperaram uma década para se reencontrar. E quando os lábios finalmente se afastaram, foi a vez dos olhos carinhosamente se surpreenderem, dos sorrisos brotarem facilmente, das mãos tocarem o outro. Se há na vida momentos que duram para sempre, este certamente foi um deles.

(Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Se alguém se interessar, posso publicar daqui a alguns dias a parte 3 dessa história de amor. Ou não…)

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Cary Grant

Cary Grant: Ele é o astro de ‘Tarde Demais Para Esquecer’, filme que serviu de inspiração para ‘Sintonia de Amor’,com Tom Hanks e Meg Ryan

Era uma vez um adolescente brasileiro que foi morar nos Estados Unidos para estudar na high school e aprender inglês. Alguns meses depois, esse cara conheceu na escola uma americana muito especial, uma daquelas garotinhas maravilhosas que parecem ter saído diretamente das telas de
uma sitcom.

Os dois se apaixonaram à primeira vista e começaram a namorar. Ele ficou fascinado por seu sorriso de cheerleader, os cabelos meio loiros meio ruivos, a pele branca como a neve que ele nunca tinha visto de perto. Ela também gostou de alguma coisa nele, talvez a personalidade extrovertida,
talvez o jeitinho brasileiro de quem está sempre de bem com a vida.

O namoro foi ficando sério, quer dizer, tão sério quanto pode ficar um namoro entre dois jovens de dezessete anos. O casalzinho, no entanto, sabia que o fim do relacionamento tinha data marcada.

Afinal, ele voltaria para o Brasil no fim do ano letivo e ela seguiria com
sua vida pelas planícies da América. Mas ainda faltava alguma coisa nessa história… e aí a americana deu um jeito de escrever uma nova página dessa love story. Apaixonada e curiosa, ela entrou para um programa de intercâmbio. O destino foi óbvio: Brasil. Em vez do jovem casal se despedir com um ‘adeus’, trocaram apenas um beijo de ‘até logo’.

Dois anos depois, foi a vez dela pegar um avião para conhecer o país dele.
Infelizmente a garota não conseguiu uma família para hospedá-la na cidade onde ele morava. O resultado foi um ano em que os dois passaram de rodoviária em rodoviária, alternando visitas à cidade do outro.

O ano acabou e eles se despediram novamente. Desta vez, porém, o próximo encontro não chegou a ser combinado.A vida ‘real’ estava prestes a começar, teriam agora que depender dos próprios salários para comprar as passagens…

Mas, como sempre acontece na ficção – e na vida real também –, o destino
não entrega os pontos facilmente. E armou mais uma para o casal: exatamente dez anos após a primeira despedida, ele conseguiu descolar uma viagem para os Estados Unidos.

Como nada é fácil nessa vida,a passagem dele era para Nova York, enquanto ela ainda morava em um pequeno estado no interior da América. Foi aí que ele pensou que, se a arte imita a vida, a vida também pode imitar a arte. E teve uma idéia genial: ir à locadora para alugar o filme ‘Tarde Demais Para Esquecer’.

(Continua na sexta-feira)

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