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Felipe Machado

Mario Anzuoni/Reuters

O Metallica é provavelmente a banda que mais ouvi na vida. Claro que a maioria dessas audições foi feita quando eu era mais novo, mas confesso que de vez em quando ainda me pego ouvindo ‘Master of Puppets’ no som do carro no volume 10. E acho maravilhoso.

Se existe uma banda que não tem medo de ousar, essa banda é o Metallica. Para usar uma expressão bastante clichê no meio musical, eu diria que eles são ‘os Beatles’ do heavy metal: fazem uma revolução de estilo a cada disco, esbanjam criatividade e evoluem até mesmo quando erram a mão.

Eles praticamente inventaram o thrash metal, estilo mais pesado com guitarras superdistorcidas e bateria rápida e mortal que teve início na Califórnia nos anos 80. Quando o thrash surgiu, as quatro bandas ‘grandes’ do estilo eram Anthrax, Slayer, Metallica e Megadeth. Mas com o megasucesso do disco ‘Metallica’, também conhecido como ‘álbum preto’, a banda de James Hetfield (vocal e guitarra), Kirk Hammett (guitarra) e Lars Ulrich (bateria) deixou os outros headbangers comendo poeira.

Resumo da história: eles lançaram discos pesadões, enfrentaram a morte de um integrante (o baixista Cliff Burton), gravaram discos de hard rock, fizeram parceria com Marianne Faithful, regravaram covers de artistas tão variados como Mercyful Fate e Misfits, cortaram os cabelos, tocaram literalmente em palcos do mundo inteiro – até em um presídio -, gravaram com uma orquestra sinfônica, lançaram o documentário mais realista da história do rock (‘Some Kind of Monster’), assistiram ao líder da banda ser internado numa clínica de reabilitação… e sobreviveram.

Estou falando hoje sobre o Metallica porque a banda acaba de lançar um disco novo, o sensacional ‘Death Magnetic’. O disco já foi lançado no Brasil há alguns dias, mas confesso que não ainda não tinha escrito nenhuma linha sobre ele simplesmente porque não tinha conseguido tirar o disco do carro e trazê-lo para a redação, para poder escrever com calma. Toda vez que eu ia tirar o disco do carro, começava uma música nova e ele acabava ficando ali no CD player mais um pouquinho.

Imagine um caminhão cheio de explosivos sem freios descendo uma ladeira em alta velocidade. Agora imagine esse caminhão se chocando com uma usina nuclear. É mais ou menos a sensação que você terá ao ouvir ‘Death Magnetic’ pela primeira vez.

Depois do ‘álbum preto’ (1991), o Metallica caiu de produção consideravelmente, e fez os piores discos de sua carreira (que, mesmo assim, tinham coisas bem legais). Vieram ‘Load’ (1996), ‘Reload’ (1997), ‘S&M’ (ao vivo, 1999) e ‘St. Anger’ (2003). Ou seja, a banda ficou mais de dez anos sem lançar um disco incrível – o que eles definitivamente corrigiram com ‘Death Magnetic’.

O disco é produzido pelo famoso Rick Rubin, gordinho barbudão especialista pela versatilidade e por dar uma levantada na carreira de veteranos que perderam a mão. O cara é um dos maiores produtores da história do rock, o que é possível comprovar pela variedade de artistas com quem ele trabalhou: Red Hot Chili Peppers, Linkin Park, Shakira, Johnny Cash, Slayer, U2, Rage Against the Machine, System of a Down, Tom Petty, The Cult, Beastie Boys, Jay Z, Run DMC, AC/DC, Audioslave, Bob Dylan… (está bom ou quer mais?)

‘Death Magnetic’ tem alguns dos melhores riffs de toda a história do Metallica – e olha que de riff os caras entendem. ‘That Was Just Your Life’, que abre o disco, é um rock and roll tocado por uma banda de demônios; ‘The End of the Line’ e ‘Broken, Beat & Scarred’ seguem na mesma linha, enquanto ‘The Day That Never Comes’ tem uma introduçãozinha mais tranqüila – mas que depois fica pesadona.

(Veja o vídeo no link abaixo.)

‘All Nightmare Long’, ‘Cyanide’ e ‘Judas Kiss’ são perfeitos exemplos de como o Metallica se reinventou: elas têm trechos que nos remetem aos primeiros discos, como ‘Kill’em All’ (1983) e ‘Ride the Lightning’ (1984), mas com a complexidade das canções do ‘And Justice for All’ (1988). Ou seja: peso, técnica, energia, velocidade. ‘Unforgiven III’, mais na boa, é uma das minhas favoritas: ela dá um banho na ‘Unforgiven II’, do ‘Reload’. ‘Suicide & Redemption’ foi a única que achei meio chatinha: será que o mundo precisa de uma música instrumental de heavy metal com 10 minutos de duração? (Resposta: Não, não precisa. As músicas do disco, de uma maneira geral, são um pouco compridas demais). O disco fecha com ‘My Apocalypse’, uma porrada que me lembrou muito ‘Damage Inc.’, do disco Master of Puppets. Mas pelo menos é um autoplágio, né? Eles nunca copiaram ninguém e não será agora que vão copiar.

Adorei ‘Death Magnetic’, mas aconselho você a ouvir o disco apenas se já gosta de heavy metal. Do contrário, vai ficar com dor de ouvido. E de cabeça.

Posso contar três histórias engraçadas sobre o Metallica?

1. Quando a banda esteve no Brasil pela primeira vez, em 1989, um amigo meu ficou encarregado de levar o vocalista James Hetfield para uma tarde de autógrafos na loja Woodstock, antigo ponto de encontro dos headbangers paulistanos, bem no centro da cidade. Lá foram os três no carrinho Uno do meu amigo… quando chegaram perto da Woodstock, uma multidão se espremia na frente da loja. Quando descobriram que o James estava no carro, foi um desespero: queriam virar o carro, tirar o cara de dentro. “Acho que é melhor a gente ir embora”, disse o James. Meu amigo concordou.

2. Minha banda, o Viper, abriu dois shows da turnê do Metallica na turnê do ‘álbum preto’, em 1993. Foi sensacional tocar no estádio do Palmeiras para 30 mil pessoas por noite. Antes do show, fomos conhecer os caras do Metallica, que nos trataram superbem. Ficamos conversando um pouco, ganhamos umas camisetas e ainda combinamos de nos encontrar na Europa, já que o Metallica tocaria nos principais festivais europeus e o Viper embarcaria para mais uma turnê européia. Na hora de sair do camarim, eles nos abraçaram e disseram “nos vemos na Europa”. Claro que nunca nos encontramos na Europa, porque o nível de shows que eles iam fazer era obviamente muito diferente do nosso esquema. Mas combinar esse encontro, mesmo que tenha sido só educação por parte deles, foi um dos pontos altos da minha vida. Thanks, James.

3. Quando estávamos no camarim, também fiz questão de presentear o baixista Jason Newsted com uma camiseta do Viper superlegal, pintada à mão e tal. Eu tinha ouvido falar que o Jason costumava dar força para as bandas de abertura, então eu tinha esperança de que ele tocasse com a camiseta do Viper – seria uma honra e uma propaganda maior ainda. Bom, ele não tocou. No mês seguinte, o Viper foi tocar na Argentina e uma garota na platéia estava usando exatamente a camiseta que eu dei para o Jason! Pedi para um roadie convidar a garota para ir ao camarim depois do show porque queria saber como ela tinha conseguido a camiseta. Descobri que Jason deu a camiseta para um roadie, que ‘conheceu’ essa garota e deu de presente para ela (o Metallica tocou na Argentina uma semana depois dos shows no Brasil). Fiquei meio com raiva na hora, mas hoje dou risada da história. Até porque eu acabei me vingando um pouquinho do roadie do Jason, se é que você me entende.

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25.setembro.2008 17:13:10

Quando o amor acaba

De repente, a mulher tão familiar que está na frente dele do outro lado da mesa do restaurante se transforma numa desconhecida. Em um estalo de dedos, anos de convivência se apagam completamente, como se um gigante tivesse passado uma borracha no álbum de fotos criado pela memória dos dois. O rosto dela lembra vagamente alguém que ele conheceu há muito, muito tempo, mas aquela pessoa já não está mais ali. Se clones humanos existissem, a pessoa do outro lado da mesa do restaurante certamente seria um deles.

O mal-estar é recíproco, mas de natureza diferente. Ao contrário dele, ela sabe muito bem quem está na sua frente – bem até demais. Ela sabe que o que está sendo prometido nunca será cumprido; sabe também que a voz dele diz uma coisa, mas a realidade do cotidiano diz outra. Se houvesse uma máquina capaz de traduzir a alma desse homem, aí talvez ela pudesse acreditar no que ele está dizendo. Nessa noite, porém, as palavras soam mais uma vez como sons sem sentido, frios como os copos intactos sobre a mesa do restaurante.

Dizem que as mulheres se casam imaginando que vão mudar os homens; os homens se casam acreditando que as mulheres não vão mudar. Mas a verdade é que as coisas mudam, mas as pessoas, não. Por que, então, esses dois insistiram tanto tempo e esforço no amor? Porque é da natureza humana. Porque é da inevitável e desumana natureza humana.

Ao contrário do que dizem os poetas, amor acaba, sim. Não há nada de
romântico nisso, apenas uma verdade pragmática e palpável. Se você tem apenas um copo d’água para beber, é bom saciar a sede antes do copo ficar vazio. Às vezes apenas esse copo é suficiente, mas há ocasiões em que nem todos os mares do mundo podem acalmar seu coração.

Então é isso. Fim.

Quando o amor acaba, o monstro que estava escondido debaixo do tapete da
sala acorda e domina rapidamente o apartamento. Frases que nunca deveriam
ter sido sequer pensadas são pronunciadas com a determinação dos carrascos. Não se pode atravessar uma ponte que foi queimada; com as palavras acontece a mesma coisa.

Agora os dois se olham e sabem que não têm mais o que fazer. Dentro deles há uma dor contínua, uma tristeza que sai pelos olhos. Os dois corações estão vazios, porque no lugar daquele amor todo agora não existe nada. E a vida segue assim, imperfeita.

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Michael Haneke

Meu primeiro contato com a obra do cineasta austríaco Michael Haneke foi traumática. Li uma bela matéria numa revista americana sobre ‘Funny Games’ (1997) e fiquei interessado em conhecer seu trabalho. Eu sabia que seu estilo era difícil, mas a matéria ressaltava o lado psicológico e violento do filme, e aquilo me chamou a atenção.

Pois bem, um dia entro numa locadora e vejo o DVD de ‘Funny Games’ à venda por um preço bom, algo em torno de R$ 15. Pensei: ‘é quase o preço da locação…’ Levei o filme para casa, arrumei um saco de pipocas e comecei a assisti-lo.

Fiquei revoltado. Odiei. A história, basicamente, era a seguinte: dois jovens bonitões e bem educados passam o filme inteiro torturando uma família sem nenhuma razão. Parecia um filme de terror com o roteiro escrito pelo Kafka. Perto do final, uma coisa me chamou a atenção: um dos torturadores olha para a câmera: ‘está bom para você ou devo continuar?’, ele pergunta.

Essa sutil meta-crítica aos filmes violentos dentro de um filme ultra-violento ficou na minha cabeça. Quando o filme terminou, de volta à realidade, fiquei revoltado. Voltei na locadora na mesma hora e pedi o dinheiro de volta. Disse que o filme era horrível, podre, nojento, péssimo. Eu queria o dinheiro de volta e pronto. Eles disseram que não podiam me devolver o dinheiro, mas que eu poderia trocar ‘Funny Games’ por outro DVD do mesmo valor. Peguei ‘Scarface’ na prateleira e fui embora.

No dia seguinte, não parei de pensar no filme. Fiquei lembrando de detalhes – não em razão do sadismo dos personagens, mas da complexidade da mensagem que o filme passava em várias cenas. Voltei na locadora e comprei o DVD novamente. A vendedora achou que eu era louco – talvez ela esteja certa.

Virei, claro, fã do Michael Haneke, um dos diretores mais inteligentes do cinema mundial atualmente. Não perdi mais seus filmes, e alguns cheguei a ver várias vezes: ‘Código Desconhecido’ (2000), ‘A Professora de Piano’ (2001), ‘Le Temps du Loup’ (2003), ‘Cachê’ (2005) e, agora, a versão americana de ‘Funny Games’ (US).

O filme é estranho porque é um remake feito exatamente pelo mesmo diretor. (Gus Van Sant fez isso com ‘Psicose’, mas aí era uma homenagem ao Hitchcock). ‘Funny Games US’ tem até as mesmas tomadas de câmera de ‘Funny Games’ (1997), com a diferença de que esta versão tem atores famosos (Tim Roth, Naomi Watts, Michael Pitt) e é falado em inglês. De qualquer maneira, não é um filme para qualquer um. Se você quiser se divertir no cinema, por favor não vá ver ‘Funny Games’. Agora, se você quiser um filme forte, que vai continuar na sua cabeça depois que terminar, aí pode ver esse ou alugar qualquer um do Michael Haneke. Não será uma experiência fácil – se quiser um filme fácil, há várias comédias românticas em cartaz.

(Parênteses: Fiquei com pena dos casaizinhos que vi no cinema, acho que eles devem ter comprado ingresso achando que era um filme de terror convencional. Não sou sádico, mas confesso que dei risada do rosto de terror deles quando as luzes se acenderam.)

Só mais uma coisa: em português o filme se chama ‘Violência Gratuita’, o que eu acho um absurdo. O filme não mostra violência gratuita; há uma razão para a violência do filme. E é óbvio que o diretor batizou o filme de maneira irônica (‘Funny Games’ = Jogos Divertidos), portanto eu acho que os tradutores deveriam respeitar esse desejo. Chamar ‘Funny Games’ de ‘Violência Gratuita’ é uma violência gratuita contra a intenção do diretor.

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O Prêmio Jabuti acaba de divulgar seus vencedores. Bati um papo com o crítico do jornal O Estado de S. Paulo, Ubiratan Brasil, sobre a premiação mais tradicional do Brasil – para ver o vídeo da TV Estadão, clique aqui.

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Mark J. Terrill/AP Photo

A melhor cena da entrega do 60º prêmio Emmy, o Oscar da TV americana, foi protagonizada ontem à noite por Tom Bergeron e Heidi Klum. Veja a foto acima e imagine o seguinte diálogo:

Bergeron: “Vou dar uma aula bem curta sobre cinema: isso é drama.”

Daí ele abre os braços e deixa a modelo Heidi Klum se esborrachar no chão.

“E isso é comédia.”

Uma zapeada rápida pelo Emmy:

Paul Giamatti - Mark J. Terrill/AP Photo

1. Os grandes vencedores da noite foram as séries ‘Mad Men’, sobre a revolução da publicidade americana nos anos 60, e ‘John Adams’, minissérie histórica sobre o segundo presidente dos Estados Unidos. Não vi nenhuma das duas, mas acho que ‘Mad Men’ deve ser mais interessante. Não sei se eu conseguiria segurar o riso vendo um cara neurótico como Paul Giamatti (acima) interpretando um personagem de época, todo engomadinho, com aquelas roupinhas, peruquinhas, etc.

Robyn Beck/AFP Photo

2. Uma série que eu acho muito legal não ganhou nenhum prêmio: ‘Lipstick Jungle’, com Brooke Shields (acima, linda desde menininha), Kim Raver e Lindsay Price. Também baseada em livro da Candice Bushnell (Sex and the City), a série exibida pela Fox conta a vida de três mulheres ricas, maravilhosas, descoladas… Não, não é igual a Sex and the City com uma mulher a menos. Para falar a verdade, elas estão mais parecidas com o Mr. Big. São mulheres um pouco mais velhas que a turma da Carrie, não sonham com o homem ideal (já sabem que isso não existe), tem amantes, são mesquinhas e falam mal de todo mundo pelas costas. Pensando bem, é mais ou menos como Sex and the City daqui a alguns anos.

Lucy Nicholson/Reuters

3. Eu adoro a Tina Fey. E os críticos americanos também, pelo jeito, já que a série estrelada por ela e Alec Baldwin, ’30 Rock’, ganhou os principais prêmios de comédia. Tina não é apenas uma atriz engraçada, mas uma roteirista sensacional – ela também ganhou o Emmy por um roteiro que escreveu, o episódio ‘Cooter’. Não sei se você concorda, mas uma mulher tão inteligente e bem-humorada nem precisa ser tão linda assim para conquistar. E olha que ela ainda é…

Recount - Kevin Spacey e Laura Dern

4. O filme ‘Recount’ teve 11 indicações e levou o prêmio de melhor filme para TV – muito merecido, pois é muito legal. O filme é uma mistura muito bem feita de ficção/documentário sobre a eleição presidencial americana que deu a vitória a George W. Bush contra Al Gore (ainda esse assunto? Pois é). ‘Recount’ fala especificamente da estranha eleição na Flórida, estado governado pelo irmão de Bush, que teve problemas na contagem dos votos… e por aí vai. O filme é estrelado por Kevin Spacey, Dennis Leary, Laura Dern, enfim, é para a TV, mas tem elenco de Hollywood.

Beverly Hills 92010

5. Durante os comerciais da transmissão ao vivo do Emmy, descobri que está prestes a estrear um remake da série ‘Barrados no Baile’ (Beverly Hills 90210). Lembra? Eu não.

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18.setembro.2008 17:47:13

Quarta insana

Não consigo entender até agora porque eu nunca tinha ido a um espetáculo do Terça Insana. Conheço gente da produção, já tinha ouvido várias recomendações sobre a qualidade dos atores e dos textos… e, mesmo assim, nunca tinha ido. Besteira, claro. Ainda bem que eu consertei isso.

Ontem, quarta-feira, estive na festa de lançamento do DVD do ‘Terça Insana 2 – Ventilador de Alegria’, no Avenida, em Pinheiros. Fazia tempo que eu não ria tanto. Os atores Grace Gianoukas, Roberto Camargo, Agnes Zuliani, Guilherme Uzeda, e Marco Luque são todos muito bons, mas fiquei impressionado com o talento do Marco Luque. Acho que no CQC o cara não está sendo bem aproveitado, porque ele é muito, mas muito engraçado.

Como ontem foi uma festa, a trupe não apresentou o show completo. Cada um dos atores escolheu apenas um personagem para levar ao palco. Abaixo está o link para o vídeo do Marco Luque como o taxista Silas Simplesmente, em alguma outra noite do Terça Insana. Por favor, tire uma folga de dois minutos no trabalho e assista a esse vídeo. Seu dia vai melhorar muito, confie em mim. É hilariante.

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Tem coisa mais verdadeira do que um velho ditado? Outro dia ouvi críticas ao comportamento desses herdeiros milionários que saem toda semana em revista de celebridade, dizendo que quem ganha dinheiro fácil também gasta fácil. Com todo o respeito aos corações quebrados do mundo inteiro, acho que podemos aplicar o velho ditado ao amor.

Vamos imaginar uma cena: você conhece alguém no finalzinho de uma balada superlouca, quase de manhã. No dia seguinte, acorda e descobre no bolso da calça um guardanapo amassado com um número de telefone rabiscado. Seus neurônios ainda estão meio com sono, mas então você se lembra de que beijou uma garota, apesar de não se lembrar nem do rosto nem do nome dela. Convenhamos que essa pode até virar uma história de amor maravilhosa, mas a verdade é que provavelmente você estará diante de um típico caso de apenas uma noite de duração. E o guardanapo amassado, salvo raras exceções, deve parar mesmo é no lixo.

(O que? Você conheceu seu marido assim? É claro que eu acredito. O amor não tem lógica nenhuma, tem?)

Há casos de relacionamentos que vêm da maneira mais fácil do mundo e, na hora de ir embora, nos deixam daquela maneira estranha, difícil, com um sentimento que a gente não aceita de jeito nenhum. Por outro lado, há amores que chegam truncados, complicados, com o casal lutando contra tudo e todos para ficar juntos… até que o relacionamento se concretiza e os dois percebem que não era nada daquilo. A guerra para mantê-lo aceso acaba se tornando apenas uma decepção para contar aos amigos numa mesa de bar.

Não há uma receita para saber qual desses dois tipos de fim terá o seu amor, se algum dia (toc, toc, isola) ele terminar. Porque é fácil dizer como esse amor nasceu; é só lembrar se foi fruto de uma conquista brava ou se você apenas estalou os dedos e a outra pessoa caiu de quatro. Mas você só vai descobrir o tipo de memória que seu amor deixará depois que ele disser adeus. E aí o sentimento estará fora das suas mãos. Como sempre esteve, aliás.

Um amigo me disse outro dia uma frase que me marcou. Ele falou que se um relacionamento chega ao fim, não é porque ele não deu certo: é porque deu certo durante o tempo que tinha que dar. De certa forma, é uma variação do famoso ‘Soneto da Fidelidade’, de Vinícius de Moraes: ‘Que (o amor) não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure’. Mas é uma outra formulação bem interessante, não? Um pouco mais otimista do que casais que terminam seus relacionamentos estão acostumados a ouvir.

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Fernando Meirelles e Julianne Moore

A imprensa já falou muito (e com razão, claro) de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, então vou me ater ao que mais me chamou a atenção: a direção de Fernando Meirelles.

Quem já leu algum livro de José Saramago pode imaginar a dificuldade que é tirar um roteiro dali – um filme, então, nem se fala. Saramago escreve em um ritmo diferente de tudo, extremamente prolixo, um jorro de idéias concatenadas e sentimentos profundos expressos em frases imensas separadas por dezenas de vírgulas. (Estou resumindo seu estilo, é claro que é muito mais complexo que isso.)

Daí chega Meirelles e consegue colocar tudo isso na tela, numa adaptação intensa e emocionante.

Na minha opinião, o conceito de cegueira branca descrito no livro é até mais assustador que qualquer escuridão, pois pelo menos estamos acostumados a ela quando chega a noite. Esse mar de leite, esse nada em estado puro, essa tela sem tintas ganhou tanto destaque que foi transformada com maestria em personagem no filme de Meirelles, em grande parte graças também ao talento do fotógrafo César Charlone, seu parceiro de longa data.

O que me chamou a atenção na direção é que o filme é muito mais ambicioso e original do que os padrões dos últimos lançamentos de Hollywood. As pinceladas de branco que cobrem a tela de cinema nos levam ao núcleo do sofrimento dos personagens, assim como as tomadas propositalmente fora de foco ou com cortes de câmera estranhos; uma hora a cabeça do personagem está fora da tela, outra hora é a metade de seu corpo que não conseguimos ver. Meirelles quis que o próprio espectador estivesse vivendo aquela cegueira, ou, pelo menos, imaginando a aflição que ela provocaria. É como se alguém que está prestes a ficar cego estivesse segurando uma câmera e filmando um documentário, tamanha é a crueza das cenas e a falta de música (há uma trilha do grupo Uakti, mas é quase feita só de sons e melodias hipnóticas).

Fernando Meirelles prova com ‘Ensaio’ que é um dos melhores diretores do mundo, e não digo isso porque sou brasileiro (até porque elogiar o cara só porque ele é brasileiro é uma grande bobagem). ‘Cidade de Deus’ já havia mostrado que ele era incrível; ‘O Jardineiro Fiel’ apresentou ao mundo um diretor competente e capaz de segurar um filme com astros internacionais no coração da África; com ‘Ensaio’ ele mostra que não é apenas um bom diretor, mas um ‘auteur’, um artista que imprime sua marca pessoal por onde passa. E com muito talento.

Destaque também para as atuações de Gael Garcia Bernal, Danny Glover e Alice Braga, mas principalmente para as de Julianne Moore e Mark Ruffalo. Ele é o homem comum, bom, um representante do povo que é facilmente manipulado pelo poder vigente no momento. Mas ela é que é a grande personagem do filme. Sua personagem sem nome (como todos os personagens, aliás, o que deve ter dificultado ainda mais a elaboração do roteiro) deve levar Julianna Moore a ser indicada ao Oscar – a não ser que a Academia seja cega. Ela é a mulher do médico que lidera (metaforicamente) a humanidade rumo à… humanidade. A construção psicológica do seu personagem permite uma abordagem totalmente não-maniqueísta da vida, o que prova que nós, grandes primatas, fazemos o que temos que fazer para sobreviver – e inevitavelmente temos que deixar a moral em segundo plano.

Durante o filme, imaginei o que teria acontecido se Stanley Kubrick tivesse feito essa adaptação. Teria sido diferente da visão de Meirelles, com certeza, mas a filmografia do gênio americano estava repleta de exemplos interessantes da intrínseca maldade do homem, o que também é o caso em ‘Ensaio’. Em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo na última sexta-feira, o diretor Walter Salles fez uma referência a ‘Laranja Mecânica’ no texto sobre o filme de Meirelles – o que eu achei muito pertinente. Mas só para correção, o filme de Kubrick é de 1971, e não de 1961, como Waltinho disse.

‘Ensaio’ não recebeu críticas muito boas até agora, pelo menos não nas grandes publicações internacionais como a Variety. Acho que esss críticos realmente estão cegos. O filme de Meirelles não é um filme agradável de ser visto, mas é um filme necessário para o mundo. É necessário para discutir a condição humana, já que a cegueira é uma metáfora que cai ainda melhor hoje do que na época em que o livro de Saramago foi lançado, em 1995. Será que estamos cada vez mais cegos? Ou será que somos os mesmos cegos de sempre? O filme, assim como o livro, discute isso de maneira inteligente e original. ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ emociona porque mostra o que somos na essência, quando todas as luzes se apagam – ou, nesse caso, quando se acendem.

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11.setembro.2008 19:20:28

O fim do papel

Já vi link para esse vídeo em vários sites, mas faço questão de publicá-lo aqui para ter certeza de que você vai ver: é a coisa mais revolucionária que já vi desde que naveguei pela internet pela primeira vez, em 1995.

Estou falando do E-ink (algo como ‘tinta eletrônica’), que a revista Esquire usou na capa de sua nova edição. A idéia foi bancada pela Ford, que usa a mesma tecnologia em um anúncio… deixa para lá, o melhor é você clicar e ver o vídeo para entender do que estou falando.

Dá para imaginar o que será possível fazer quando essa tecnologia estiver um pouquinho mais avançada? Uau.

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Ni hao! Foi um prazer de participar da cobertura da Olimpíada, um trabalho intenso e muito interessante, principalmente pelas enormes diferenças culturais entre China e Brasil. O idioma, no entanto, foi uma barreira quase sempre tão intransponível quanto a Grande Muralha. Digo ‘quase sempre’ porque nossa equipe contou com o apoio informal de uma jornalista brasileira que mora em Pequim há pouco mais de um ano.

Quando se encontra um brasileiro em um lugar tão distante, a pergunta ‘como você veio parar aqui?’ é praticamente inevitável – ainda mais para um curioso profissional como eu.

Ela me contou que o pai é biólogo e que sua família morou no Japão quando ela era criança. Eles voltaram logo depois para o Brasil, mas a experiência foi tão marcante que ela passou a se interessar por assuntos ligados ao oriente e à cultura asiática.

Há um ano, a jornalista disse que ‘apareceu’ uma oportunidade para morar e trabalhar na China. E ela aceitou. Coloquei a palavra ‘apareceu’ entre aspas porque acho que seria um desrespeito com o destino acreditar que tudo isso aconteceu na vida dela por acaso.

Cada um desenha o seu próprio plano de vida numa prancheta imaginária. O acaso, a sorte e as outras variáveis fora do nosso alcance podem até interferir, mas acho que isoladamente elas não têm tanto poder assim.
No caso da jornalista brasileira-chinesa, acho mais provável acreditar que sua viagem foi um sonho que ela foi buscar depois de acordada, uma memória que nunca saiu da sua cabeça, um sentimento infantil que ela queria visitar novamente com o coração de adulta.

Isso acontece com todos nós, mas nem sempre com tanta clareza. Quem tem vocação para cuidar dos outros acaba virando médico; o cara apaixonado por esportes se torna atleta ou comentarista esportivo. Só que esse tipo de chamado não acontece apenas na carreira profissional: a vida constantemente também nos chama a agir de determinada maneira, a viajar para algum lugar, a sair e conhecer alguém.

Para as pessoas de sorte, esse aviso acontece de maneira cristalina, quase como uma carta escrita a mão pelos deuses da felicidade. Para os outros, a mensagem vem truncada, difícil de ler como um ideograma chinês. Mas temos a obrigação de tentar decifrar o que a vida está tentando nos dizer. Aí, então, podemos escolher o melhor plano e colocá-lo em prática. A nossa vida vai atrás da gente, mas a gente também tem que ir atrás da nossa vida.

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