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Felipe Machado

Lara Croft

Os textos que surgem nesse espaço nascem da observação das coisas do dia-a-dia. Foi daí que veio a idéia de trazer para a vida real um mecanismo virtual bem específico que existe apenas no mundo exato dos computadores. É uma idéia impossível, mas isso não a impede de ser extremamente sedutora. Afinal, se a máquina é ensinada a simular o que o homem tem de melhor… por que o homem não pode aprender a imitar a máquina no que ela tem de superior?

Antes que você imagine as conseqüências práticas (e divertidas) dessa idéia, já aviso: não, não estou pensando em melhorar o corpo de nenhuma amiga minha com Photoshop. E nem passa pela minha cabeça ‘deletar’ alguém da memória, expressão que substituiu o verbo ‘apagar’ por alguma razão que até hoje eu não entendi.

O que eu gostaria mesmo de fazer era copiar um outro truque que funciona muito bem no computador – e adaptá-lo à nossa vida.
Vamos ser mais didáticos: os programas de computador têm um recurso que apaga a última ação realizada pelo usuário, ou seja, corrige o que você acabou de fazer.
Na prática isso é chamado de ‘Control-Z’. Ou seja, você aperta o botão ‘Control’ e a letra ‘Z’ ao mesmo tempo e o computador voltra atrás no que tinha feito. Pois é exatamente essa a minha idéia: gostaria que existisse um ‘Control-Z’ na nossa vida.

Imagina só que maravilha… Você fez uma besteira? Aperte o ‘Control-Z’ e limpe a sua barra. Casou-se com a pessoa errada? Volte ao cartório e aperte o ‘Control-Z’. Pensou alto uma frase idiota? Não se preocupe, clique no seu ‘Control-Z’. Deixaríamos de cometer muitos atos pelos quais nos arrependemos amargamente no momento seguinte.

Acho que essa é a única característica que eu gostaria de copiar das máquinas. Sei que o erro é importante para o aprendizado; sei também que muito do conhecimento adquirido vem dessa seqüência de coisas positivas e negativas que constroem a nossa experiência, mas não importa. Eu queria um ‘Control-Z’ para a minha vida. Errar é humano, mas um pouco de inteligência artificial não faria mal a ninguém.

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24.agosto.2008 16:48:30

A mulher-logotipo

Diabo Veste Prada

O Diabo Veste Prada, mas a mulher-logotipo é pior: ela veste todas as marcas do mundo ao mesmo tempo

Passeando com minha mulher pela Oscar Freire, dei de cara com uma espécie cada vez mais comum na fauna da cidade: a mulher-logotipo.

Também chamada de mulher-etiqueta ou mulher-vitrine, a mulher-logotipo é fácil de reconhecer. Visualmente ela se destaca pelo número exagerado de marcas de luxo espalhadas pelo corpo, roupas e acessórios. Só para se ter uma idéia, a mulher-logotipo poderia facilmente ser multada pelo Cidade Limpa, aquela lei municipal que proíbe os outdoors.

A mulher-logotipo é coberta por símbolos literalmente dos pés à cabeça. O espécime solto na Oscar Freire usava um par de sapatos estampado com a marca que o diabo veste naquele filme de Hollywood, lembra? Você teria lembrado na hora se tivesse visto um logotipo daquele tamanho. Tive a impressão de que a mulher-logotipo calçava 52, mas tenho certeza de que era só impressão.

Vista de frente, sua calça jeans era até discreta; de costas, porém, esse espécime levemente acima do peso trazia nos bolsos traseiros um logotipo levemente acima do gigantesco. Ela usava um cinto que… bem, sinto muito. A fivela parecia tão pesada que não sei como a mulher se equilibrava sem cair para frente.

Sua camisa era especial: em vez de tecido, era inteirinha costurada com letras brilhantes – e os óculos escuros iam nessa mesma linha. Nem sei como mulher-logotipo conseguia enxergar através de lentes douradas tão… douradas.

Não consegui ver as marcas dos brincos ou do relógio porque estavam cobertos por milhares de cristais. A bolsa – seria mais justo classificá-la como mala – também não exibia nenhum logotipo, a não ser que você considere a pele de um onça-pintada uma espécie de logotipo.

Confesso que fiquei apreensivo por encontrar um espécime de mulher-logotipo à solta, assim, na rua. Eu achava que todas ficavam confinadas em condomínios fechados e shoppings de luxo.

A filosofia delas diz que não basta comprar: tem que mostrar. É uma pena que esses exageros não estejam em extinção, muito pelo contrário. Tenho certeza de que existem pessoas legais debaixo de tantos logotipos – pena que não dá para ver.

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Fernanda Machado

Fernanda Machado: Meu irmão se chama Fernando Machado, olha só que coincidência. Acho que vou ligar para ela pra contar

Por mais que a gente planeje a vida, é bom ter uma certa humildade e admitir: o mundo é feito de coincidências. Entre algumas das mais impressionantes, gosto de lembrar que minha mãe e meu pai se casaram na mesma igreja… e no mesmo dia. E eu e minha mulher também, veja só que coisa mais incrível.

Piadinhas à parte, vejo as coincidências como uma arma do destino para forçar a gente a tomar decisões. É claro que o que devemos fazer está sempre na nossa cara, mas as coincidências funcionam como, sei lá, um empurrãozinho. Se não for assim, como explicar aquele cara que encontra no trânsito a garota por quem era apaixonado desde os tempos da escola?

Isso se torna um fato tão importante na vida dele que não pode ter acontecido totalmente por acaso. Tem que haver alguma lógica nesse processo – só que eu não faço a menor idéia qual seja.

As coincidências parecem ainda mais bizarras quando a gente decide fazer alguma coisa diante de opções praticamente infinitas. Com tantos restaurantes em São Paulo, por que você tem que escolher justo aquele onde sua ex-mulher está jantando com o namorado novo? E que força estranha e poderosa é essa que obriga você a encontrar aquela vizinha maravilhosa no elevador bem no único dia em que você resolveu descer rapidinho de pijama para pegar o jornal? Talvez seja a mesma sádica entidade sobrenatural que leva o seu chefe a entrar com a esposa no barzinho da sua turma quando você está bêbado, com a gravata amarrada na cabeça e fazendo um strip-tease em cima da mesa.

Há um culpado disso tudo, sim, e ele se chama livre arbítrio. Temos que fazer escolhas, e essas escolhas definem o que acontece na nossa vida. Há milhares de caminhos na nossa frente, mas infelizmente só podemos seguir um deles. E se esse caminho nos joga em uma situação que parece aleatória, bem… o mais provável é que ela seja aleatória mesmo.

Também há a opção de colocar a culpa em alguém lá em cima. É mais fácil. Mas não seria mais justo admitir que tudo o que vivemos é nossa própria responsabilidade, para o bem e para o mal? O resto é coincidência.

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Gianne Albertoni e a natureza

Desde que olhei para essa foto não consigo mais pensar em outra coisa: como nós, brasileiros, temos sorte. Nossas mulheres são tão incríveis que conseguem deixar até os cartões-postais mais bonitos.

Gianne Albertoni (Nana Moraes/Paparazzo)

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10.agosto.2008 16:45:41

A tribo dos neutros

Há muitas tribos por aí: metaleiros, punks, patricinhas, playboys, hippies, emos, rappers. A mais numerosa delas, no entanto, nunca aparece nessas estatísticas – até porque quase ninguém presta atenção nessa turma. Eles são a tribo dos neutros.

Os neutros são aquelas pessoas que não fazem parte de nenhuma tribo específica. Mas isso não nos impede de classificá-los como uma tribo, muito pelo contrário. Os neutros são a tribo mais poderosa do mundo.
Eles são aqueles caras que lotam o show do Chitãozinho e Xororó na sexta-feira e no sábado à noite já estão dançando loucamente em alguma boate de música eletrônica. É isso que os faz tão poderosos: para eles, tanto faz.

O neutro é um ser tão astuto que até seu figurino é pensado estrategicamente para passar batido. Ele é tão esperto que muda de acordo com a moda vigente. Por exemplo, um neutro hoje se veste basicamente com calça-bege-camisa-azul-sapatos-marrons. Quantos caras que você conhece usam isso todo dia? Exatamente. Eles estão em toda parte.

Os neutros também podem ser considerados os responsáveis pelos fenômenos da cultura de massa. Paulo Coelho, por exemplo, só virou esse sucesso todo quando caiu nas graças dos neutros. No cinema, os neutros não gostam de filmes autorais como os de David Lynch ou Martin Scorsese… mas dá uma olhada no que eles fizeram com ‘Titanic’.

E nas eleições, então? Candidatos radicais não têm vez com os neutros. É por isso que Lula só teve uma chance quando aparou a barba.

Preste atenção na próxima vez que você der de cara com um neutro. Ele provavelmente vai tentar te converter com algum convite típico, como um ‘happy hour na Vila Madalena’, uma ‘balada na Vila Olímpia’, ou um ‘domingo no Ibirapuera’. Recuse educadamente. Os neutros gostam de ir sempre a esses mesmos lugares, até porque assim é mais fácil desaparecer na multidão. Para os neutros, quanto mais espremidinhos e juntinhos, melhor. Por isso, na próxima fila que você for obrigado a enfrentar, cuidado: a qualquer momento os neutros podem tentar roubar a sua personalidade.

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Antonio Banderas

No próximo domingo (10/7) é o aniversário do ator mais bem sucedido da Espanha: Antonio Banderas. Não vou dizer que o cara é um craque da atuação, até porque… não é. Ele tem uma meia-dúzia de filmes legais, entre eles ‘Áta-me!’, ‘Philadelphia’ e ‘Femme Fatale’. Mas no geral é um ator meio canastrão, na minha opinião.

Temos, porém, que tirar o chapéu para a determinação do espanhol. Banderas, que faz 48 anos, não foi para Hollywood com aquela mentalidade ‘puxa, vou tentar ser mais um ator latino’. Ele chegou, venceu e virou um ator internacional, um verdadeiro astro independente da nacionalidade e tipo físico. E essa é sua maior vitória.

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(Luzes piscando numa pista de dança, música eletrônica no último volume.)

Se tem uma coisa que a gente aprende com o tempo é que ninguém é invencível. Não preciso de bola de cristal para garantir que você, que hoje lê este texto alegremente, será daqui a algumas décadas apenas uma foto esquecida num porta-retrato dos netos de seus netos. Mas a humanidade não costuma ter humildade para admitir sua vulnerabilidade tão óbvia: lutamos com todas as forças para superar o passado; transformamos em heróis quem vence os próprios limites; vivemos cada vez mais obcecados pela vaidosa juventude.

Uma hora, porém, a vida cobra seu preço.

Um grande amigo nos deixou na semana passada. Foi uma morte tão rápida quanto inesperada. Ninguém pode dizer que ele não viveu a vida intensamente, pelo contrário. Foi até mais intensa do que era necessário. E foi justamente isso que o levou.

Não há nada mais triste do que um velório de um cara de 33 anos. Pais, irmãos e amigos parecem não entender o que está acontecendo, não compreendem que quem está ali não é mais o cara que eles tanto amavam, mas apenas um corpo jovem sem vida, descansando numa caixa de madeira. “Onde está a música?”, teria perguntado esse jovem, se seus lábios se movessem pelo menos mais uma vez. Mas isso não vai acontecer. Nunca mais haverá música, nem luzes, nem a festa aparentemente infinita em que a sua vida havia se transformado.

Os amigos não entendem como alguém tão alegre pode, de uma hora para outra, provocar tanta tristeza. Não combina. Não bate. A balada verdadeira deve estar acontecendo em outro lugar. Essa despedida é apenas a versão em preto e branco de uma vida incrivelmente colorida.

De tudo, porém, se aprende. E as boas lições são assim, duras de aprender, fundamentais para fazer crescer. Sem querer, nosso amigo nos ensinou que a vida é um sonho possível, perigosamente possível. Como aconteceu com Ícaro, quem voa muito alto pode queimar as asas no sol.

Até mais, Márcio.

(As luzes da pista se apagam e a música diminui, aos poucos, até o silêncio.)

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