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Felipe Machado

lennon

Em sua nova campanha publicitária, a marca britânica de botas Dr. Martens traz imagens de roqueiros mortos usando seus produtos… no paraíso. Entre eles, Kurt Cobain (Nirvana), Joey Ramone (The Ramones) e Joe Strummer (The Clash). Mau gostou ou jogada de marketing? Os dois, para falar a verdade. Pegando esse gancho, aqui vai uma lista dos dez roqueiros mortos que mais fazem falta ao rock atual.

R.I.P.: Rock in Peace.

1. John Lennon (The Beatles) (foto)
2. Jimi Hendrix (The Jimi Hendrix Experience)
3. Kurt Cobain (Nirvana)
4. Jim Morrison (The Doors)
5. Brian Jones (The Rolling Stones)
6. Elvis Presley
7. George Harrison (The Beatles)
8. Freddie Mercury (Queen)
9. John Bonham (Led Zeppelin)
10. Cliff Burton (Metallica)

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No último fim de semana, fui a um casamento de uma amiga no interior. Prosecco para lá, prosecco para cá, perguntei a alguém (depois de tanto prosecco, não lembro nem quem era) como os noivos haviam se conhecido. Foi então que ouvi a seguinte história.

A noiva – na época ainda não era noiva, claro – estava numa boate com umas amigas. Noite chata, daquelas que a gente fica enrolando para ver se a balada pega no tranco enquanto pensa qual será o filme que vem depois do Jornal da Globo. “Acho que vou fumar um último cigarrinho antes de ir embora”, decide, finalmente.

(É incrível como o cigarro serve como uma unidade de tempo para algumas pessoas.)

Foi aí que, em meio a uma nuvem mágica (fumaça de cigarro, para os menos românticos) apareceu do nada um cara alto de olhos verdes.
“Oi, tudo bem? Será que você tem um outro cigarro?”
“Deixa eu ver. Tenho, sim. Só que é light.”
“Não tem problema. Depois do dia que eu tive hoje aceito qualquer coisa light.”
“Seu dia foi tão ruim assim? Aconteceu alguma coisa?”
“Não, acho que estou exagerando. É que eu trabalho numa agência de publicidade e estou numa campanha de sabão em pó…”

Para bom entendedor, meio diálogo basta. Os dois começaram a conversar, ela acabou esquecendo do filme que vinha depois do Jornal da Globo e o dia dele, que tinha sido péssimo no trabalho, tornou-se um dos mais inesquecíveis de toda a sua vida. E tudo por causa do quê? De um cigarro.
Que conclusão podemos tirar? Que há males que vêm para o bem, por exemplo. Fumar é uma coisa péssima, faz mal à saúde, provoca câncer. Mas talvez minha amiga estivesse solteira até hoje se não tivesse acendido um cigarro naquele exato momento.

Acontece direto. A psiquiatra que se apaixona pelo maluco; o casal que se conhece na reunião dos Alcoólatras Anônimos; o hipocondríaco que se apaixona pela mocinha do balcão da farmácia. O amor não tem moral, ele não vê diferença entre o bem e o mal. E também não entende a ética: é um sentimento vale-tudo. O Deus do amor escreve certo por corações tortos. Ou por pulmões tortos, como no caso da minha amiga.

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25.maio.2007 10:31:58

Falta de educação

Dois comentários rápidos sobre falta de educação:

1. Acho que é até redudante falar sobre a ocupação da reitoria da USP por estudantes: está em toda a imprensa. Não quero nem entrar no mérito do protesto, embora seja contra manifestações em que uma minoria insignificante assume a liderança de um movimento e tenta vendê-lo com se fosse a vontade da maioria. Não é. E eles também não têm apoio dos professores, ao contrário do que querem indicar: dos 5 mil professores da USP, 575 querem a desocupação e 241 a apóiam. Mas alguém acha que eles sabem o que é democracia? Se sabem, imaginam que é um sistema de governo que só funciona para os outros. Mentalidade típica de quem admira regimes autoritários. Será que alguém ainda usa camiseta do Che Guevara nesses protestos? Ou será que é o Che Guevara by Daslu?

Só queria levantar outra questão. Se os alunos são intransigentes desse jeito para negociar enquanto ainda estão na faculdade, imagine quando chegarem ao mercado de trabalho. Não vão durar 24 horas empregados. Mas daí sempre sobra um empreguinho público, né? Eles exigem mais autonomia para a universidade. Pergunta: você colocaria a USP na mão daquelas pessoas?

Um conselho de um veterano bem mais velho (só não sou mais velho do que aqueles que repetiram várias vezes): vão para casa, peguem os livros e voltem para as aulas. Talvez vocês aprendam alguma coisa boa com tudo isso.

2. Alguém viu as cenas de selvageria da manifestação de professores tentando invadir a Assembléia? Tudo bem que esse tipo de protesto reúne todo tipo de gente, principalmente os MSTs de sempre. Mas se aqueles que estavam lá representam os professores da rede pública… coitadas das crianças.

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fab

Quer pagar quanto para ele não voltar? As Lojas Colombo, líder na venda de eletrodomésticos no Sul, vai investir pesado em São Paulo. Para competir com a líder por aqui, as Casas Bahia, a empresa pretende abrir 25 lojas até o final do ano. Até aí, tudo bem. O mercado é livre e todos por aqui apóiam a iniciativa privada.

Mas precisava contratar Fabiano Augusto, o garoto-propaganda-mala da concorrente? Zeca Pagodinho fez campanha publicitária e trocou uma cerveja por outra sem pestanejar. Seria Fabiano Augusto, então, o Zeca Pagodinho dos eletrodomésticos?

Está aberto o espaço para quem quiser sugerir um novo bordão para Fabiano Augusto. (inteligentes, please!)

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Terminei de ler na semana passada dois livros que não têm nada a ver entre si e, no entanto… têm. ‘Utz’, (103 págs., do autor britânico Bruce Chatwin), e ‘Em Louvor da Sombra’, (67 págs., do japonês Junichiro Tanizaki). O que eles têm em comum? São duas pequenas jóias literárias que abordam um mundo que não existe mais.

‘Utz’ conta a história de Kaspar Utz, um homem que suporta a opressão do regime soviético em Praga, Tchecoslováquia, no pós-Segunda Guerra apenas porque não pode retirar sua valiosíssima coleção de porcelanas do país. ‘Pô, Felipe, mas vou perder meu tempo lendo um livro sobre porcelanas?’, alguém pode perguntar. A resposta é que Utz é louco por porcelanas tradicionais Messien, mas sua coleção poderia ser composta por metralhadoras Uzi ou carrinhos de ferro Matchbox. Não interessam aqui, os objetos de seu desejo. O livro é mais sobre a obsessão do personagem por coleções, pelo mundo à parte que compõe sua mania. A coleção de Utz, para ele, é feita de figuras vivas, mais reais do que praticamente todo o resto de sua vazia existência.

Bruce Chatwin, infelizmente morto em 1989, tinha um estilo de texto enxuto e contemporâneo; suas frases sobre o papel têm a elegância de um mestre das artes plásticas espalhando tinta a óleo sobre uma tela.

Já no livro ‘Em Louvor da Sombra’, de 1933, Tanizaki fala sobre a diferença entre a cultura japonesa e a ocidental de uma maneira muito particular e original. Ele defende que os orientais culturalmente privilegiam a sombra, enquanto o Ocidente valoriza as cores vivas e a iluminação mais intensa possível. Na época em que o livro foi escrito, a tecnologia desenvolvida no Ocidente (luz elétrica, ventiladores e aquecimento) começava a se tornar popular no Japão. O autor elabora teorias sobre como seria o Oriente sem a influência ocidental, ou como essas invenções seriam diferentes se tivessem sido criadas de acordo com a ‘visão oriental’ do mundo.

Tanizaki escreve de maneira fácil, divertida e até mesmo ingênua. O livro acaba sendo lido com um sorriso nos lábios, onde a abordagem poética do assunto recria um mundo que desapareceu há décadas. “A beleza inexiste na própria matéria, ela é apenas um jogo de sombras e de claro-escuro surgido entre as matérias”, defende o escritor.

Bom, fica a dica. Não são best-sellers, mas garanto que são duas leituras bem agradáveis e perfeitas para se devorar de uma vez só.

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homer

Na estréia da minha coluna ‘Palavra de Homem’ no JT, há mais de um ano, (sai todos os domingos na Revista JT) afirmei que todo homem é metade Brad Pitt, metade Homer Simpson. Acho que exagerei. Com exceção do próprio Brad Pitt (que é 100% Brad Pitt, claro), acho que essa proporção é bem desequilibrada: estamos muito mais para Homer Simpson.

Eu, pelo menos, confesso que estou mais para Homer do que para Brad. Eu e ele temos 36 anos e somos casados, por exemplo (não casados um com o outro, antes que venha a piadinha). Em um dos meus episódios favoritos dos Simpsons, Homer dá de presente de aniversário à mulher, Margie, uma bola de boliche. Ele joga boliche, ela não, mas isso é apenas um detalhe. Isso me lembrou o aniversário da minha mulher, ocasião em que tentei comprar uma guitarra novinha de presente para ela. Era uma Fender Stratocaster ano 1957, utensílio doméstico que a gente precisava muito lá em casa. Não sei por que ela não concordou com a idéia.

Sou fã do Homer porque ele representa o homem comum, o cara cuja felicidade esconde-se em frente à TV e cabe num saco de salgadinhos. Ele não sabe, mas é um filósofo pós-moderno dos mais importantes. “Se uma coisa é muito difícil de fazer, então não vale a pena tentar”, costuma aconselhar o filho Bart. Esse niilismo existencial é claramente influenciado por Nietzsche. Antes de fazer uma prova na faculdade, Homer divaga: “Muito bem, cérebro, você não gosta de mim e eu não gosto de você. Vamos acabar logo com isso para eu poder voltar a matá-lo com cerveja”. Notou a teoria da lógica aristotélica aplicada ao mundo real?

Ontem, no canal pago Fox, começou a 18º temporada dos Simpsons. Foi muito bom, principalmente a participação do Metallica e das referências ao Poderoso Chefão. Minha mulher também adorou, principalmente porque o programa passa exatamente na mesma hora das mesas redondas de futebol – que ela, obviamente, odeia. Não chego ao extremo de dizer que troquei o futebol pelos Simpsons, mas hoje em dia a pele amarelada dos personagens me seduz mais que a amarelinha dos discípulos de Dunga. Pelo menos o Corinthians deu um show no Cruzeiro (3 a 0) e lavou a nossa alma.

Os Simpsons, para mim, são os Beatles do desenho animado. Homer pode não ter o talento de John Lennon, mas pelo menos Margie Simpson é mais engraçada que Yoko Ono.

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Li hoje na Folha de S. Paulo que na sua primeira audiência com o presidente Lula, a ministra do Turismo Marta Suplicy propôs a criação da ‘Cidade dos Automóveis’ no ABC. Se a informação é realmente verdadeira, acho difícil alguém superá-la no quesito ‘idéia mais ridícula do Brasil’.

Sério, será que é má vontade minha ou a proposta é uma das coisas mais irrelevantes já imaginadas por uma pessoa pública no País? (E olha que a competição é difícil) Por favor, me respondam. Quer dizer que essa é a melhor idéia que Marta conseguiu apresentar na sua primeira reunião como ministra do Turismo? Uma ‘Cidade dos Automóveis’ no ABC?

Praias paradisíacas? Nada disso. Serras maravilhosas, cortadas por cachoeiras repletas de vida animal exótica? Esqueça. O que o Brasil precisa para se tornar uma potência turística é mesmo uma ‘Cidade dos Automóveis’ no ABC. Mais precisamente em São Bernardo do Campo, teria sugerido o presidente, que “se mostrou simpático à idéia”.

Vamos imaginar o lindo passeio: o pai pega o filho pela mão e diz: ‘filhinho querido, vamos visitar a Cidade dos Automóveis de São Bernardo?’ E daí os dois entram no carro e vão até o ‘parque’ de carros. Chegam lá e param o carro num estacionamento maravilhoso. ‘Já começou o passeio, papai?’, pergunta o filho. ‘Claro, meu filho. O universo do automóvel começa no estacionamento’. E por aí vai: o Átrio dos Semáforos, com incríveis faróis de várias cores; o Espetáculo do Crescimento do Trânsito, onde pai e filho podem entrar num simulador e passar o resto do passeio… dentro do carro; Show de Buzinas, com buzinas tocando o hino do Corinthians e a Internacional Socialista. Próximas atrações do ‘parque’: Aventura no Farol, onde uma criança de rua faz malabarismo esperando o vermelho virar verde; Passa a Carteira, onde os ex-bandidos Zoínho e Bufunfa mostram como se defender de assaltantes que roubam no farol.

Veja bem: essa idéia genial não é para atender a lobby de sindicalistas do ABC, puxar o saco das montadoras ou qualquer outra razão mais nobre. De jeito nenhum. A idéia é realmente tão boa que não consigo imaginar um programa familiar mais legal para o fim de semana. Pauta da próxima reunião entre Lula e Marta: GaranhunsWorld.

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Isso é que é lugar civilizado. O Brasil precisa aprender muito com os países do primeiro mundo. Será que jornalistas brasileiros podem votar na Europa?

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Murilo

O papa foi embora no último domingo, mas meu líder espiritual, cultural e profissional me deixou alguns dias antes. Na sexta-feira às 11 da manhã, para ser mais exato. Murilo Felisberto não me deu apenas um emprego: ele me deu uma carreira.

Murilo, que com muito orgulho eu tinha intimidade para chamar de Mu, foi a pessoa mais interessante que já conheci. Primeiro, na DPZ, como Diretor de Criação, em 1997. Fui mostrar minha pasta (horrível) de redator, e não sei por que nem como, mas ele me convidou para ficar. Ele deve ter visto alguma coisa ali; não sei dizer o que era, porque o Murilo tinha isso de ser meio misterioso. Ou tímido, dizem alguns. Algumas vezes eu mostrava uma série com dezenas de títulos para anúncios; ele lia, olhava para mim e me devolvia o papel sem dizer nada. Era frustrante? Muito. Mas aí eu percebia que tinha que adivinhar o que era bom e o que era um lixo. Acredite, isso ensina muito.

Ensinar, aliás, é o que ele fazia de melhor. Por linhas tortas, mas ainda assim eram grandes aulas. Não no sentido professoral da palavra – ele não tinha paciência para isso -, mas no modo de contar uma história qualquer e ressaltar o que era importante e o que não era. Um detalhe pequeno, que você nem dava bola, podia ser a coisa mais interessante do mundo; bastava saber olhar. E isso foi uma coisa que o Murilo ensinou não apenas a mim, mas às dezenas de profissionais que choraram como eu na última sexta-feira: é preciso prestar atenção nas coisas importantes. Mesmo que elas estejam no pé da página.

Na DPZ, mais precisamente no 7º andar, o Murilo criou uma turma que mantém pouco contato mas muito carinho até hoje: Ilan, Dani, Rafa, Luiz Antonio, Fabião, Theo, Robson, Corina, Karin, Andréa, eu e vários outros. A gente se fala de vez em quando; gostaria que fosse mais frequente.

Saudades dói pra burro (ele ia odiar ler ‘pra’ em vez de ‘para’)… já estou com saudades de ver o Murilo olhando por cima dos óculos redondos de aro de tartaruga; das lapiseiras e canetas amontoadas no bolso da camisa; das revistas e jornais debaixo do braço ou se acumulando em pilhas e pilhas na sua mesa; do jeito com que ele conversava com você e, sem mais nem menos, sacava a lapiseira do bolso e rabiscava seu rosto num pedaço de papel em 15 segundos. E ficava genial. Ainda bem que guardei os meus desenhos.

Nada, no entanto, dava mais prazer ao Mu do que uma bela fofoca. E isso não tem nada de pejorativo. Murilo transformou a fofoca em forma de arte superior. Hoje vejo que aquilo não era fofoca: era uma base de informações pessoais sobre gente conhecida. E é o que move o mundo, acredite.

A última vez que falei com o Murilo foi no dia 28 de abril, dois dias antes de ele ser internado. Liguei para contar algumas novidades profissionais, mas nem precisava: ele já sabia de tudo. E com detalhes. Ele queria outros detalhes, outras histórias de amigos em comum, outros detalhes de histórias de amigos em comum. “Ando meio caseiro”, contei.

Hoje eu me arrependo: eu deveria ter contado mais histórias, eu deveria ter ligado mais para ele, eu deveria ter frequentado mais a tradicional mesa do Spot das quintas-feiras. Eu deveria ter ficado mais próximo do meu querido amigo e mestre Murilo Felisberto. Mas a vida é assim, a gente nunca sabe o que nos espera na manhã seguinte. Nunca dá tempo para nada, tudo que realmente importa é deixado para amanhã. Ou para a semana que vem.

Em 2000, o Murilo voltou ao Jornal da Tarde, inventado por ele, e me contratou como repórter. A cada texto, a cada frase que eu escrevia, eu imaginava o Murilo lendo e comentando. Às vezes, vinham broncas reais, sempre com razão. A culpa era sempre minha, mas eu só percebia os erros depois que ele me apontava onde eles estavam. E lá ia eu para o próximo texto, tentando imaginar o que eu poderia fazer para impressioná-lo, para que ele me chamasse na sala e dissesse: ‘aí, Felipão, gostei da matéria’, ou algo do tipo. Mas isso também não acontecia com frequência. Às vezes ele me chamava e dizia: “leia bem isso que você escreveu”. E só. Eu tinha que adivinhar o que era. Nem sempre adivinhava, mas a vida é assim mesmo.

Estou um pouco perdido em um mundo onde gente como o Murilo é cada vez mais rara. Sei que temos a obrigação de sermos os Murilos de amanhã, mas a responsabilidade é muito grande.

Agora só resta fechar os olhos, continuar a trabalhar e parar de vez em quando para se perguntar: “o que será que o Murilo acharia deste texto?” Ele abaixaria os óculos, olharia de volta para mim e não diria nada.

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Se ser católico é responder ‘sim’ quando perguntam ‘você é católico?’, então eu sou. Adoro igrejas, mas acho que isso tem mais a ver com o lado estético do que com o metafísico. No quesito admiração, prefiro Darwin a qualquer profeta religioso. Mas concordo que tenha sido necessária uma força lá de cima para apertar o botão do Big Bang e começar isso que chamamos de vida.

A visita do papa provocou sentimentos contraditórios. Se por um lado as multidões lotam as missas gigantescas, uma certa elite intelectual revela uma certa animosidade. A discussão sobre o aborto, por exemplo. Culpar o papa pela incapacidade mental dos nossos políticos em discutir o tema é de uma má fé absoluta, com o perdão (divino) do trocadilho. Se aborto é tema de saúde pública (e é), então que se discuta na esfera política. O papa não tem nada a ver com as leis brasileiras. Ninguém é a favor do aborto. Alguns como eu são, sim, a favor da legalização do aborto até um certo período. Um feto de um mês ainda não é uma pessoa, por mais que sua existência seja um fato biológico. E ter um filho que não se deseja é o primeiro passo para abandoná-lo logo após o seu nascimento. E onde uma criança largada vai parar? No farol, claro.

É inútil esperar que a Igreja discuta o aborto ou a camisinha. Nenhum papa fará isso, pelo menos não enquanto eu e você estivermos vivos. Bento 16 aceita a ciência, o que já é uma vitória. Em 1633, Galileu disse que a Terra girava em torno do Sol. João Paulo II só reconheceu que ele estava certo em 1992. A Igreja é lenta… como o papamóvel.

Existe, aliás, lugar mais solitário que o interior do papamóvel? Imagine o silêncio lá dentro. Gritos e histeria pelas ruas, mas na cabine sagrada ouve-se apenas a respiração de um homem e seus gestos humanos. Se isso não é solidão, então não sei o que é.

Solidão, inclusive, que ele não sentiria se dependesse do presidente Lula. Alguém reparou quantas vezes o Lula abraçou o papa, encostou no papa, puxou o para para cá e para lá? Alguém do Itamaraty poderia ter avisado que não se encosta no papa assim, como se ele fosse um colega de pelada. O papa não é ‘companheiro’ de Lula. Ainda bem.

Também ouvi por aí frases como ‘esse papa é muito alemão para o meu gosto’, como se a Alemanha tivesse gerado apenas o nazismo e não também Beethoven e Bach. Bach é a prova de que Deus existe.

Acho que estão pegando demais no pé desse papa. João Paulo II beijava o chão, mas condenava a camisinha do mesmo jeito. Pelo que vi na TV, Bento 16 parece ser um cara legal. Graças a Deus.

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