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Fim do jejum musical de 8 anos – Rolling Stones em Berlim

fatimalacerda

10 junho 2014 | 10:58

3w985c0.bild_.jpg Copyright: David Fischer/REX

Chegou o dia mais esperado do ano para fãs incondicionais dos Setentões mais queridos do universo musical. Rolling Stones marca presença hoje na capital europeia da cultura. Além da própria história ímpar daqueles que, há 50 anos, fazem do mundo um lugar melhor, o inconfundível Design da língua pra fora, símbolo mor da irreverência, apaixona gerações no mundo inteiro. Em Berlim, não poderia ser diferente.

Se hoje vivemos um alto estágio de globalização, também na música, os fãs dos Stones já praticavam isso com naturalidade, muito antes dos cientistas sociais inventarem esse termo. Norte, Sul, Leste, Oeste do mundo. A paixão ultrapassa barreiras culturais e políticas.

Depois de 8 anos, o doloroso jejum musical chega ao fim. A passagem dos Stones pela Alemanha é curta. Inclui somente Berlim e Düsseldorf (noroeste do país). A procura da imprensa é gigante. Até mesmo os jornalistas do sul do país, escolheram para assistir ao show em Berlim.

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O diferencial histórico

21 mil pessoas cabem no anfiteatro Waldbühne, que fica dentro de uma floresta. Os ingressos já estão esgotados há meses. Em 1965, a sociedade alemã vivia uma disputa ideológica entre construir uma sociedade democrática ou manter a regente da época, com estruturas rígidas de comportamento e contra qualquer tipo de questionamento político. A rebeldia estudantil, que teria seu ápice na Europa em 1968, já se delineava na Berlim na época. O Muro de Berlim existia há 4 anos e as sequelas da divisão se faziam cada vez mais transparentes na cidade, que vivia em permanente estado de convulção.

O Abenschau, noticiário da então TV local, SFB, condenou de forma veemente o show: “A juventude se rendeu a psicose das massas, que, frente ao som martelante, não sabiam mais o que faziam”. Entretanto, testemunhas oculares afirmam que mesmo antes do início do show, a polícia e os membros da equipe de apoio teriam atacado os fãs de forma severa e proposital. O show dos Stones era percebido como uma provocação à Ordem, e quem estava lá, compactava com ela.

Veja aqui a reportagem:

http://www.youtube.com/watch?v=-XM-tUB-Y58

Depois desse show memorável, houve uma proibição que durou longos anos parar qualquer evento de Rock no local. Hoje, é a DEAG , potente agência de entretenimento, liderada pelo não menos influente empresário Peter Schwenkow, que mantem a concessão do Waldbühne.

O excêntrico Mick Jagger

Para o camarim, ele exigiu lírios, flores selvagens e rosas brancas. Cortinas, móveis e tapetes (esses últimos, com certeza escolhidos pessoalmente por Keith Richards), a banda traz na bagagem composta de 70 caminhões. Uma equipe de, ao todo 170 pessoas, garante a perfeição de todos os (mínimos) detalhes do show.

Na tarde de segunda-feira (09), sobre a temperatura tropical de 35 graus, Mick Jagger e Ron Wood (67), marcaram presença no café do Hotel Adlon, que na época (também) dos anos 20, era o hotel de prestígio em Berlim. Não deixando nada ao acaso, Mick Jagger se mostra simpático, bem disposto. Na mesa, somente café e água (provavelmente o único alimento que ele consome) e um Ron Wood não menos fotogênico. Juntamente com os acompanhantes mais próximos da equipe, o grupo alugou, digo, bloqueou, 2 andares do hotel. Como não poderia ser diferente, Mick Jagger ficou com a suíte presidencial, que tem o valor de 15.000 Euros (aprox. 20.000 reais) a diária, além de oferecer um mordomo exclusivo, a suite tem uma vista inigualável do deslumbrante do Portão de Brandenburgo e da Praça Paris (Pariser Platz).

A febre vermelho e preta

Quem passeia hoje pelo centro de Berlim, constata um mar preto e vermelho nas ruas. A língua estirada pra fora é presença constante estampada em camisas, bonés, pulseiras, chaveiros e lenços enrolados na cabeça.

O tabloide Bild, vem acompanhando os Stones desde o recente show em Oslo. Na sequência, fotos de Mick Jagger na varanda do hotel de luxo em Zurique, com a possível nova namorada, esquentaram a cozinha dos boatos e rechearam o campo de comentários do tabloide, sempre à procura de novas sensações. Também o primeiríssimo show da banda em Israel foi motivo de manchete, atestando que, lá,  não se falou em política. Também a notícia de que a “morena”, o novo Affair de Jagger, também está em Berlim. “Será que ela também vai se esbanjar hoje à noite?”, indaga o artigo no portal na manhã desta terça-feira (10).

Que bom que essas pseudo-informações passam bem ao largo (para dizer ao mínimo), pelos fãs de carteirinha. O que eles querem mesmo ver, é um Mick Jagger e seus companheiros em grande forma, fazendo o que eles vieram ao mundo pra fazer e fazendo o que eles sabem fazer de melhor. Quando Jagger iniciar a maratona incessante de correr de um lado pro outro do palco, gesticulando com braços em formato liquidificador e a voz inconfundível esbravejar no microfone, ai é o coração que fala e todo o resto simplesmente tanto faz. Mesmo com a recente tragédia da morte de sua companheira L’wren Scott há poucos meses atrás, Jagger, que já provou várias vezes renascer das cinzas, vai mostrar, de novo, que é um profissional e que o show deve continuar. Também por isso, terá, mais uma vez, a eterna gratidão dos seguidores.

Berlim não é Lisboa

Enquanto no recente show do Rock in Rio/Lisboa os fãs puderam votar pela Internet, as músicas que queriam ouvir (no melhor da filosofia “Todo o artista tem de ir, aonde o povo está”). Em Berlim isso nao foi abrangentemente comunicado. Andei torcendo para que a primeira música seja “Start me up“. Comentei com Christian, esse exímio conhecedor de toda a história, dramaturgia e cronologia da Banda e perguntei o que ele achava. Para o meu desapontamento, ele foi taxativo: “Nein!”. Em Berlim, devido à conexão histórica com o Waldbühne, eles vão escolher outra música para abrir o show”.

O dia de hoje tem tudo pra ser perfeito. Nas últimas semanas, São Pedro, aquilo que os alemães chamam de Wettergott, economizara nas temperaturas tropicais , mas hoje, a temperatura é de 36 graus, é verão em Berlim e os Setentões estão na área e vão tocar a trilha trilha sonora das nossas vidas. Nessa ordem!

O último show dos Stones na capital foi em 2006 no Estadio Olímpico. A arquitetura nazista e sua austeridade foram literalmente desestruturadas pelo balanço irresistível dessa música. Hoje, serão os pássaros e a folhas da inúmeras árvores, que de camarote, vão se esbaldar com essas maravilhosas pedras rolantes. O show na Berlim de hoje não é político, mas ratifica (e isso é o melhor de tudo), que os caras estão na estrada e nem pensam em parar e nos passam a bemvinda ilusão de que isso nunca vai acontecer. “…never stop never never never stop…”.

Mesmo para quem não está hoje em Berlim, pode compartilhar aqui no Blog a sua “Experiência Stones”. Onde você já os assistiu, teve autógrafo, foto, foram necessários milagres para você conseguir ingresso? Quem esteve no show histórico de Copacabana em 2006? Vamos interagir!