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Novo filme de Fatih Akin provoca a ira dos nacionalistas turcos

fatimalacerda

quarta-feira 27/08/14

 Copyright: DPA Sempre que perguntado sobre sua origem, o diretor Fatih Akin mostra orgulho na voz, quando diz: Nasci em Hamburgo. Filho de imigrantes turcos, ele cresceu no bairro de Altona, tradicionalmente com grande percentual de imigrantes, muitos deles que chegaram para trabalhar na Alemanha com o status de “Trabalhadores convidados” (Gastarbeiter) e, ao contrário [...]

 Fatih-Akin-erhaelt-Douglas-Sirk-Preis-2014.jpgCopyright: DPA

Sempre que perguntado sobre sua origem, o diretor Fatih Akin mostra orgulho na voz, quando diz: Nasci em Hamburgo. Filho de imigrantes turcos, ele cresceu no bairro de Altona, tradicionalmente com grande percentual de imigrantes, muitos deles que chegaram para trabalhar na Alemanha com o status de “Trabalhadores convidados” (Gastarbeiter) e, ao contrário do anteriormente previsto pelo governo, se radicaram definitivamente no país.

No filme “Almanya – Bem-vindo a Alemanha“, as  diretoras Yasemin e Nesrin Şamdereli eternizaram, de forma auto-irônica e muitíssimo bem humorada, a saga dos “trabalhadores convidados”, seus choques culturais e atropelos no caminho tortuoso de adaptação.

http://www.youtube.com/watch?v=DyNTNhUTuXs

Hoje, 53 anos depois da chegada do primeiro trabalhador turco no país, estatísticas mostram tendências contrárias: Turcos nascidos na Alemanha, decidem se radicar no país de seus antecessores.

Na família Akin, o cenário foi bem típico para a época: Seu pai imigrou primeiro, 3 anos depois, a mãe o seguiu. Ná época, o procedimento burocrático-jurídico de “juntar a família”, em alemão, denominado Familienzusammenführung, era bem mais complicado e demorado.

Já no tempo de escola, Akin escrevia pequenas histórias, roteiros e na juventude se tornou membro do grupo OFF do Teatro Thalia (Thalia Theater) palco legendário que lançou um número incontável de atrizes e atores no olimpo do cinema e teatro e cabaret-político na Alemanha.

Posicionamento político

Desde o início de sua carreira, Akin recusou o rótulo de ser exclusivamente um cineasta turco. Vamos combinar que, quando você se chama Fatih Akin é bem mais difícil se estabelecer no cenário (com todo o trocadilho) na cena de cinema da Alemanha. O outro lado da moeda é que muitos turcos residentes na Alemanha, ao contrário dos imigrantes de há 50 anos atrás, louvam e cultivam de forma rígida as tradições. Alguns deles encontram esse “resgate cultural” no extremismo ético e/ou político e, na pior das hipóteses, no nacionalismo.

Akin nunca fez segredo algum de ter uma postura muito crítica em relação a Turquia, gerando a ira daqueles que acham que não é aceitável qualquer posicionamento crítico.  Oportunamente, e o nome ajuda bastante, se faz vista grossa que Akin é um “garoto hamburguês”, como ele próprio não deixa de enfatizar sempre que possível. Seu sentimento de “pertencer a sociedade turca”, pode parecer contraditório, mas é a junção dos “pedaços”, de ontem e hoje, postura condizente com o que eu gosto de chamar de  “aspecto mil folhas”, referente à grande complexidade que é estar entre ou fincado, paralelamente, em duas culturas tão antagônicas, do processo de imigração como um todo.

Freio de mão puxado

Aquele que é um dos diretores mais instigantes da cinematografia alemã contemporânea, teve seu novo trabalho, “The Cut” escolhido, primeiramente, em Cannes. Entretanto, durante a divulgação da listas dos filmes da competição, o diretor do festival na Costa Azul, Thierry Frémaux, comentou, “en passant”, que em última hora, Akin teria retirado seu filme.

“The Cut” tematiza o massacre dos armênios na região sul da Turquia em 1915, sobre a máscara de I Guerra Mundial. “O filme conta a história de um homem da cidade de Mardin que sobreviveu ao massacre e inicia uma longa viagem à procura de suas 2 filhas”. (Fonte, Hamburger Abendblatt, 06.08.)

Depois de uma entrevista ao jornal turco-armenio “Agos”, na qual explicava as razões do filme, o diretor foi ameaçado por ultranacionalistas turcos: “Esse filme não será exibido em nenhum cinema da Turquia. Nós ameaçamos o jornal ‘Agos’, os fascistas armênios e os autoproclamados intelectuais”, revelava a nota publicada na internet. 

Tentando relativizar, Akin declarou: “Quem tem medo daquilo que eu digo, deve refletir que se trata de um filme. Ao mesmo tempo, eu tenho certeza de que parte da sociedade turca, da qual eu,sim, me sinto pertencente, já está preparada para esse filme”, conclui.

Agos” é um oásis midiático na Turquia tão controlada pela mão de ferro do presidente recém-reeleito Erdogan que já ousou probir acesso ao Twitter e ao Facebook, num tiro no pé, sem precedentes.  Pela sua postura contra os hardliners do governo turco, o jornal não escapou da represália que alcançou seu ápice com assassinato do seu redator-chefe, em plena luz do dia no meio da rua. Motivado por isso, Akin planejava, para 2007, um filme sobre a história do jornalista. Entretanto, com medo de represálias e um rótulo negativo para futuros trabalhos em solos turcos, não foi possível encontrar nenhum ator que topasse fazer a personagem do redator Hrant Dink.

Non para Cannes, para Veneza

“The Cut” finaliza a trilogia de Akin: Depois de “Contra a parede” (Urso de Ouro na Berlinale 2004) e “Soul Kitchen“, “The Cut“, que tem no papel principal o ator Tahar Rahim, francês de origem argeliana, será o único filme alemão concorrendo aos leões no Festival do Lido, que inicia hoje, com a película do mexicano Alejandro González Iñárritu.

Links relacionados:

http://www.youtube.com/watch?v=DyNTNhUTuXs

http://www.youtube.com/watch?v=B6-L1liqpFk

http://www.thalia-theater.de/en/