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Maria de Medeiros na capital: Uma Diva da arte

fatimalacerda

domingo 17/08/14

Copyright: Pedro Ferreira No último fim de semana do Festival Wassermusik na Casa das Culturas do Mundo, o ápice da programação era claro, cristalino. Maria de Medeiros, atuante na obra-prima de Tarantino, “Pulp Fiction“, aquela que fez a inesquecível personagem de  “Anäis Nin” no filme “Henry & June” dirigido por Philip Hoffmann, viria a Berlim [...]

maria_de_medeiros_imgsize_M.jpgCopyright: Pedro Ferreira

No último fim de semana do Festival Wassermusik na Casa das Culturas do Mundo, o ápice da programação era claro, cristalino. Maria de Medeiros, atuante na obra-prima de Tarantino, “Pulp Fiction“, aquela que fez a inesquecível personagem de  “Anäis Nin” no filme “Henry & June” dirigido por Philip Hoffmann, viria a Berlim mostrar suas qualidades de cantora, intérprete, compositora.

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Na época de “Henry & June” eu comprei o disco (na época era vinil mesmo), por causa dela. A divulgação no site da Casa das Culturas prometia repertório übereclético, com músicas de “Chico Buarque, Caetano Veloso, Victor Jara, de Lenine a José Afonso”. Não rolou. Que bom!

Maria de Medeiros venho com uma banda de formação intimista, a qual contou com Leo Montana nos teclados, Ricardo Feijão no baixo e com Edmundo Carneiro que até ousou passos de Flamenco no palco para dar à música, a dramaturgia necessária. 

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Maria de Medeiros é filha do pianista, compositor e escritor Antonio Victorino D’Almeida. Passou a infância na Áustria, morou em Lisboa e hoje mora em Paris. No show de quase duas horas, Medeiros desestruturou qualquer expectativa de um programa composto de fado, na noite chuvosa do verão berlinense. A primeira canção “Entre as ilhas” (Zwischen den Inseln), de autoria do seu pai, foi o número que abriu um espetáculo de irreverente sofisticação na forma  e sublinhado por esmero prussiano na escolha e complexidade do arranjo das músicas.

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De vestido preto colado no corpo, uma sandália também preta que, num primeiro momento parecia impedir qualquer movimento mais abrangente e cabelos negros, ela entra no palco. A escolha de “Entre as ilhas” não foi somente para sublinhar o lema do festival, “Lusofonia”, nem somente para homenagear o pai, mas para “juntar as duas pontes” como ela revelou no final da música, que, longa e de difícil execução, surpreendeu/irritou o público em pé num salão envidraçado com alguns cubos nos cantos servind de assento, em suma, um lugar frio. Pelo requinte da forma e conteúdo, o show era para ser degustado com a possibilidade de erupção dos 5 sentidos, merecia um lugar mais à altura da delicatesse musical: Por exemplo, o auditório.

https://www.youtube.com/watch?v=M5DyT5NDITM

Depois de “Nasce o dia na cidade” e antes de cantar “Aos nossos filhos“, composição de Ivan Lins, ela disse, em alemão: “Para todo cantor, essa música é eterna”, uma alusão à atemporalidade do texto:

Perdoem

A cara amarrada

Perdoem

A falta de abraço

Perdoem

A falta de espaço

Os dias eram assim

https://www.youtube.com/watch?v=38BgT1464sE

“Aos nossos filhos” não foi o Fado que muitos esperavam, mas estava recheado de melancolia, era profundo. Na sequência, com o mesmo guarda-roupa e usando a mesma sandália, da postura de contemplação filosófica ela mandou “24 MIla Baci“. Enquanto Adriano Celentano, autor da música, a executa com uma indubitável influência elvispresleyana, Medeiros encarnou uma italiana fogosa, que, gesticulando com os braços sem medo de ser feliz, lembrou-me de cenas de filmes italianos dos anos 60.

“Trapichana”, a quinta música, “conta a história de um espanhol que se apaixonou pela alma carioca”, anunciou Medeiros em português. Uma cadência de samba misturado com flamengo e incluindo Performance de Edmundo Carneiro no palco como seu par na dança espanhola, já regozijou os ouvidos, mas nada comparado aos poucos minutos, quando a português, mesmo com saldo de 10 cm, se virou de costas pro público, possibilitando o vislumbrar de um decote estonteante, mandou o samba no pé, como dizem os cariocas “miudinho”, enquanto Edmundo judiava do snare com vassouras robustas na forma e exatas na batida. Ao entonar “O Trapichana é cariooooooooccccca!” ela enfatizou que na dúvida, só pode haver a escolha mesmo pelo samba. Em “Minha comandante”, sobre a história de uma menina que tem o sonho de pilotar aviões, ela, brincando, da uma rasteira nos preconceitos:

Menina, não me diga, que você quer pilotar

Se em uma ocasião, eu for seu avião

Te prometo loucuras

É toda exibida, tem cara de metida, ela sabe o que quer

Vou voar, voar, voar, pra muito distante

Te buscar no azul do céu, minha Comandante!

Liberdade cai do céu e chove na gente

Faz unir o nosso amor, que é diferente”

 Enquanto o seu alemão falado mostra sinais de ferrugem causado pelo tempo, o cantado possue dicção perfeita. Nos tons graves, uma intonação dietrichiana, nos agudos, priorizando articulação exacerbada, me fez lembrar da islandesa Björk, de sua dicção recheada de urgência em fazer contato com o mundo.

Não havia como não matar a curiosidade e indagar Medeiros sobre o que a influenciou concernente as cancoes em alemão. Quanto à Marlene Dietrich, não ouve influência direta, mas Medeiros afirmou ter sido influenciada pelo cabaret, o alemão. Entre as canções em português, espanhol, italiano, inglês, alemão, foi (para mim, surpreendente) o francês, a menos usada. Quase en passant, na música “Quem é você?”, uma crítica à anonimidade que nos permitem as mídias sociais.

Com a interpretação de “Lass es zu” (Deixa que aconteça), um  poema de Erika Pilhau, mais uma vez, se exibia a atriz Medeiros. Numa linha reta e imaginária no palco, ela percorria pra cima e pra baixo com gestos resolutos, instigando a platéia:

Deixe que, por amor, você quebre em pedaços/Deixe que você, de tanta saudade, só fale bobagens
Deixe que se olhe profundo na sua alma/Deixe que a pessoas tentem mudar por livre e espontânea vontade
Deixa que você seja ferido no seu orgulho/Deixe que a sua raiva impeça o teu ódio

Mais uma vez me saltaram aos olhos as características da “Garota de Berlim”, Marlene Dietrich, que no fim da carreira, já com o status de Diva, era econômica nos movimentos, mas quem tirar da gaveta o “Anjo Azul”, vai rever outra Marlene, a guria berlinense, direta, audaciosa, sem papas na língua.

No Bis, Medeiros, de novo, surpreendeu. Dessa vez com ousadia americana: Uma brincadeira de cão e gato com o texto “Should I stay or should I go”. Antes do finalzinho do show, Medeiros, percorrendo o palco com a exatidão como se tivesse feito isso uma vida inteira, presenteia com um beijo carinhoso, em cada músico, dos quais (claro!) angariou um sorriso e, como mencionado no início do artigo, de Edmundo, uma renovação da declaração de amor.

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“Existe alguma inspiração especial, dependendo do lugar onde vocês se apresentam?” Lançei a pergunta na roda de músicos, pouco antes do jantar, no camarim. “É a paixão por tudo!”, disse Edmundo, enquanto ganhava um balançar afirmativo de Ricardo Feijão e Leo Montana. “De quem é a direção musical?”, perguntei. “De todos”, responderam em unissono.

O amor pelos detalhes dos arranjos e a  matemática na execução, não são atributos antagônicos à paixão, pelo contário, a completam e isso é o mais instigante na linguagem musical desse quarteto. Ao contrário de muitas formações, onde a vaidade pessoal e o “fazer uma bela figura” é o foco, nesse quarteto, entre a lealdade dos músicos à Maria e a cumplicidade entre eles próprios, não passa nem azeite. Um verdadeiro leque, uma plataforma é preparada para ela, que nasceu para os palcos e sabe usar de forma impactante, não somente sua voz, mas seu corpo, como instrumento de atuação. Maria de Medeiros não é atriz aqui e cantora lá. A aura de artista é tão plena, tão natural e tão de sempre, que a simples tentativa de uma separação seria de cunho pueríl, tentando engavetar aquilo que é irrotulável. Maria de Medeiros nasceu para os palcos. Para o que ela quiser, para o que ela sonhar. Simples assim.

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Edmundo Carneiro, que está partindo hoje (17) para o Brasil para shows em São Paulo nos próximos dias. Em setembro, será lançado o CD “Ritmos & Timbres“, pelo sêlo Arlequim.