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Festival de Poesia – Criolo em Berlim

fatimalacerda

06 junho 2014 | 10:10

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O Poesie Festival em Berlim, que já teve representantes como Arnaldo Antunes, Chico César e o não menos talentoso poeta mineiro, Ricardo Aleixo, nesta 15a edição, se superou na diversidade programática. 149 poetas de ao todo 21 países, vieram à capital para recitar e interagir com leitores, igualmente abertos e famintos por uma jornada literária.

https://www.youtube.com/watch?v=6lMFr4DGhUg

A nota política, também não foi esquecida. Sábado, dia 07, é o “Dia Tema” da Turquia. No próximo dia 12, poetas ucranianos discutem no painel “Lírica em tempos de guerra”.Rimas à beira da zona de conforto” é o painel aberto para a discussão entre poetas e leitores.

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No discurso de abertura, na noite de quinta-feira (05), o diretor Thomas Wohlfahrt, não escondeu o orgulho sobre os 15 anos, mas também dos 8 deles tendo como sede do evento, a Academia das Artes, uma relíquia arquitetônica e cultural. O Hansaviertel, é um bairro de imensa importância na arquitetura urbana, importância sacramentada durante a Exposição de Arquitetura em 1957, quando arquitetos de renome internacional como Paul Baumgarten, Walter Gropius, Max Taut e o incomparável Oscar Niemeyer, conceberam projetos para esse bairro, totalmente destruído pelos bombardeios. A ideia, era contrapropor a arquitetura austera da parte oriental de Berlim. Hoje, os prédios construídos nesta época, são patrimônio histórico. É no Hansaviertel,  privilegiadamente rodeado pelo pulmão de Berlim, o Tiergarten, que está localizado o prédio da Academia de Artes.

A Chegada

Enquanto prendia a bicicleta, a retina, fazia um apanhado do pátio. Cheio de gente. Uma comedida euforia pairava pela noite de um início de verão. Tomavam café, cerveja, conversavam. Alguns tinham no peito um crachá. Era o pessoal das oficinas. Peguei o ingresso, entrei no salão principal, poucos minutos depois das 19 horas. Onde a retina passava, os lugares todos lotados. Fui até a primeira fila, totalmente descrente de encontrar ali um lugar que não estivesse reservado, mas, antes de chegar alcançá-la, vislumbrei, na segunda fileira bem na ponta, Criolo. Passei por ele. Em discreta reverência, disse “Boa noite”, que foi respondido com um sorriso, surpreendido, e aberto, digo, Inconfundivelmente brasileiro.

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 Paixão pelas letras

Ao contrário da área de cinema, onde a Alemanha teima com um poderoso mercado de sincronização e frequentemente torna impossível assistir ao filme em versão original com legendas, os organizadores do Poesie Festival se mostram bem mais corajosos. Todos os poemas são apresentados em língua original, possibilitando a aproximação sensorial e não, primeiramente, intelectual. Em contrapartida, foram distribuídos, gratuitamente, livros com os poemas na versão alemã. Os poemas de autoria de Criolo, foram traduzidos do português para o alemão por Timo Berger, que provou maestria e talento no ofício de alta responsabilidade que exige o transporte da bagagem cultural-linguística.

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De quebra, foi distribuída gratuitamente, uma lâmpada à ser fixada na cabeça do livro, possibilitando assim, a leitura. Mas o deleite linguístico não parou por ai. O Festival se faz vitrine de outras formas de expressão, que acompanham a leitura dos poemas. Ko Un, grande voz literária da Ásia, esbrabejava frases acompanhadas de movimentos da mão direita no ar, nos transportando sensações de surpresa, indignação, amor. A sul-africana Phillippa Ayy de Villiers, falou de Mandela e transportava seus poemas em forma de lamento.

A dinamarquesa, Ursula Andkaer Olsen, conquistou a plateia quando chegou ao palco como se fosse uma ativista política. Cabelos despenteados, visual naturalista e totalmente despretensiosa, bem a cara de Berlim. Poemas como “Com a testa virada para o ocidente”, “A alegria do capitalismo” e “Quando você já vendeu alguma coisa para alguém”, igualmente magnetizaram e divertiram a platéia. Amante dos idiomas escandinavos, me deliciei na sonoridade.

https://www.youtube.com/watch?v=1k5uhY5PcZU

Presença brasileira

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Criolo, teve a incumbência de fechar a noite de abertura e o fez, com bem-vindo contraponto a mais de 2 horas de “leituras secas”. Juntamente com seu produtor Daniel Ganjaman, o paulista fez uma fenomenal e impactante colagem multimidiática, composta de trechos do filme de João Wainer, sobre os protestos em junho de 2013 em São Paulo. Poesia falada e ritmos vindos da mesa de Daniel e seu laptop com o símbolo da maçã.

https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=mMHKEbK93Ew

A voracidade em tudo o que é relacionado ao Brasil, é onipresente na Alemanha: Nas mídias em ritmo diário, nas conversas entre amigos e colegas e, como não poderia ser diferente, na sala da Academia das Artes. Entre os intervalos das estrofes, Criolo se virava para a tela, fitava atentamente as cenas do filme, virava de frente e continuava…

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Criolo chega à Berlim, respectivamente depois de um show no Circo Voador (RJ), participação na Virada Cultural em São Paulo. No intervalo da primeira noite, um dos mais instigantes artistas brasileiros da atualidade, conversou exclusivo com o Estadão.

FL: Você chega a Berlim depois de shows de grande público. Como é chegar em Berlim, sem banda, para fazer parte do Festival de Poesia? Como você se sente ?

Criolo: Muito tranquilo e grato porque fui convidado para ler alguns textos, alguns poemas que eu construí com o passar do tempo. Saber que pessoas de um outro lugar, se interessam pelos meus textos, é maravilhoso, então, aqui estou…

Existe uma ponte estilística que ligue o Hip-hop e a poesia?

Eu acredito que tudo o que você percebe como manifestação e que possibilita que a sua alma apareça uma pouco, o que fica cada vez mais difícil, faz uma ligação com esse balbucio que é a palavra. Ela é como uma roupa que você veste. Quantas vezes tentamos enganar alguém com nossas roupas, ou mesmo com um sorriso e o dia está tão difícil? As palavras são como roupas, que tentam expressar o nosso “Eu”, ao mesmo tempo que são falhas, por jamais poderem expressar o sentir. A verdadeira poesia é o sentir, o perceber vivo. Eu não consigo ver separação entre os dois estilos. Quando você fala da palavra, todos estão unidos. A diferença está no sotaque, na construção linguística e na estética do que chega aos seus ouvidos, da forma como é a grafia, mas estamos todos, de uma certa forma, ligados no gesto de se comunicar.

Um referencial no formato desse evento, é que os poemas são lidos nos idiomas em que foram escritos. O que você acha disso?

Eu achei de uma delicadeza muito grande. Faz, sim, diferença você ter o teu sotaque, teu timbre, tua sonoridade, que também faz parte desse conjunto de coisas que e compõe a expressão.

O Brasil é uma pauta constante na mídia alemã sobre a convulsão na qual o país se encontra? Os conteúdo dos teus textos é repleto de questionamentos e críticas sociais. Como você percebe a atual situação do Brasil?

É uma situação que acontece, desde que me entendo por gente. Há 38 anos, quando eu nasci e levei um tapa para respirar, eu percebi que muitas coisas poderiam estar bem melhores.

Por exemplo?

Não dá pra mensurar em palavras o sofrimento de todo um povo, assim como não da para mencionar a esperança de todo um povo.

O que o povo espera?

O povo espera dias melhores, porque ele faz por onde. É só isso, dignidade. É uma vergonha ter que esperar por dignidade, porque nós como brasileiros, sabemos, o quanto o nosso povo é digno. É vergonhoso deixar chegar a este ponto. O que eu posso dizer, é dar um aceno (toca a campainha anunciando a II parte do evento de abertura). A vida me chama. É assim, não temos tempo nem pra sorrir.

Eu te agradeço pela entrevista e desejo grandes encontros e experiências no Festival em Berlim.

Eu que agradeço por esse canal de comunicação, já que poucas pessoas estão sabendo desse nosso momento, quando participamos de um encontro mundial de poesia. Isso tem um significado muito especial pra mim. Minha Mãe, escreve desde que se entende por gente, lá no Grajaú, bairro onde eu moro. É maravilhoso, um dia, quando eu envelhecer, poder contar essa história. Quando jovens, as pessoas ainda acham que estamos aqui para competir. Estar no Festival em Berlim, é uma honra absurda! Que a luz que se faz por onde a poesia chega, possa chegar ao coração de quem domina o nosso país e que os dominantes tomem vergonha na cara…(enfático) tomem vergonha na cara…Chega de corrupção e de tanta maldade com um povo (!), que faz de tudo para ter dias melhores. Para dizer isso, não precisamos de poesia.

https://www.youtube.com/watch?v=mMHKEbK93Ew

O Festival, que segue até o próximo dia 13, se faz presente também fora das dependências da Academia das Artes. “Esquinas poéticas” em vários bairros da cidade. Nelas, poetas apresentam seu trabalhos, discutem, interagem. É só chegar.

http://www.literaturwerkstatt.org/en/literaturwerkstatt-berlin/events/current-events/

 https://www.youtube.com/watch?v=5DU1m8JF…

 https://www.youtube.com/watch?v=XTrTtflZ…

 https://www.youtube.com/watch?v=jeh2G0t8…

 

Com o Angolano MC Diamongdog:


 


 


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