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O centro da capital entre as compras de sábado e um cenário de guerra

fatimalacerda

domingo 03/08/14 10:26

Ao invés de turistas (mais ou menos perdidos) e berlinenses esbaforidos fazendo as compras de sábado, Potsdamer Platz, localizada no centro da capital, serviu de palco para um protesto, uma simulação do horror da guerra entre Israel e Palestina.

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A frente da estação de trem que vai pela superfície foi espalhada com caixas cobertas por um  saco de lixo preto, imitando caixões. Ao lado, o nome e idade da vítima ou dizeres como “Israel, assassino de crianças” ou “O massacre nas crianças e mulheres em Gaza”.

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Enquanto uma jovem mulher de origem árabe imitava o som de alarme e de gritos de desespero no megafone, jovens, usando camisas brancas, manchadas de sangue, caiam no chão em formato dominó e ali ficaram durante mais de 15 minutos. Durante esse tempo, simpatizantes, curiosos, equipes de TV, passeavam entre os “mortos” com o objetivo de tirar fotos, documentar com a lente da câmera, mas também de tentar compreender o que ali se passava. 

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Um rapaz usava uma camisa com as letras “Tokio” (Tóquio). Outro, que também andava antres os “mortos”, usava a camisa que foi lançada em apoio à seleção alemã para o jogo da final: “An Eurer Seite” (Ao lado de vocês). Se o rapaz a tirou do armário para ratificar sua solidariedade com os palestinos é provável, mas como diz a minha amiga escocesa, “May be we’ll never know”.

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 Quando a realidade brutal de uma guerra, em formato tratamento de choque, nos transporta pra realidade e da uma sacudida na nossa percepção de mão única, é difícil digerir, mais difícil ainda compreender. Mostra também como toda a pressa e urgência de uma compra de sábado se revela, senão obsoleta, irrelevante. Ao redor do miolo humano, faixas de cor vermelha estampavam: “Acabem com a Guerra na Palestina”.

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Foi difícil sai dalquele lugar, de dentro daquele miolo humano. De repente, o que tinha a forma de simulação, ganhou conteúdo, profundidade, como um efeito A-ha, transportando o terror de uma guerra e a impotência de quem se vê no meio dela, para o centro de Berlim, resultando medo e perplexidade.

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Até os motoristas de um ponto de táxi, localizado ali perto, sairão do carro pra ver. Me senti no dever de ficar ali, como se isso simbolizasse a minha solidariedade com as vítimas de uma guerra, já tantas vezes perdida. Retornar ao ritmo insano do dia a dia me pareceu frívolo frente aquelas pessoas ali, deitadas no chão, “mortos” sobre um sol à pino de 33 graus.

De certo que essa simulação da guerra no centro da capital não nos fez entender melhor a complexidade disso tudo, mas com certeza, nos causou um  frio na espinha, a sensação de estarmos no meio de um conflito armado. Me vejo impotente no procurar as palavras que possam expressar o que senti. É ultrajante, é burrice, é crueldade. Der certo. Mas nem que a lista de adjetivos ocupasse 3 folhas de A4, nada disso poderia expressar o horror daquela cena. Faz sentido: Tudo concernente à guerra é irracional, é impalpável.

A verosimilidade da simulação se deu à preparação com esmero, sem que os protestantes se deixassem seduzir pelo polêmico. Desta forma, cruel mas verdadeira, os berlinenses puderam, neste sábado (02) constatar que a guerra não é tão distante como parece. Israelenses e Palestinos estão entre nós: Nas sinagogas, nas mesquitas, nas ruas da cidade, que até hoje, exibem as feridas abertas e as cicatrizes das guerras ao longo de sua história.