Amanda perdeu os pais num acidente causado por um motorista bêbado. No mesmo dia, perdeu pai e mãe. Em outros dias Roberta perdeu o noivo, Vicente perdeu o irmão, Beatriz perdeu o filho. Cada um deles teve a vida marcada para sempre pela irresponsabilidade. A vida daqueles que eles amavam foi interrompida. Para sempre. Esses dias se repetem, embalados pela bebedeira de quem não sabe o que faz.
Leis severas não parecem ser suficientes para impedir que motoristas bêbados assumam a direção e coloquem vidas em risco, incluindo a própria. Todos os motoristas bêbados algum dia, sóbrios, receberam este conselho: “Se beber, não dirija”. Infelizmente, nem todos ouviram. Talvez, assim, o sensacionalismo seja uma estratégia mais adequada para conscientizar quem ainda não tem a menor consciência.
Em cada bar onde motoristas chegam dirigindo e começam a beber, poderíamos ter uma pessoa que perdeu alguém num acidente contando a sua história, a história da sua família. Poderíamos distribuir fotos de acidentes graves com vítimas fatais junto com a conta de quem passou da conta. Uma conversa franca com um cadeirante que perdeu para sempre os movimentos das pernas pode ser uma alternativa de campanha pela vida.
Pode soar absurda, mas a estratégia de mostrar exatamente o que pode acontecer quando alguém que bebeu decide dirigir tem surtido efeito ao redor do mundo. Na Inglaterra, vídeos criados pela TAC (Transport Accident Comission) fazem justamente isso. São chocantes, mas tem ajudado a diminuir o índice de motoristas bêbados ou drogados nas ruas. E diminuem o número de mortes. Salvam vidas mostrando as vidas que se perderam.
No Brasil, ainda não chegamos a este ponto de exposição da realidade. Nenhuma campanha é tão honesta, tão explícita. Os vídeos da TAC estão disponíveis apenas na internet, mas deveriam ser retransmitidos. Muitos podem considerar as imagens muito fortes. Imagens de mal gosto. E são fortes, mostram a dor absurda e o desespero de quem perde alguém em acidente de trânsito. Só quem passou por isso sabe como são realmente fortes as cenas mostradas. Mal gosto é continuar bebendo e dirigindo, como se estas imagens não fossem reais ou só acontecessem na família dos outros.
Repasso um vídeo sobre os 20 anos das campanhas da TAC e parabenizo a coragem de quem produz as campanhas que se fazem necessárias. Seria bom que o Brasil não precisasse de campanhas assim.
HYPERLINK “http://www.youtube.com/watch?v=Z2mf8DtWWd8″ http://www.youtube.com/watch?v=Z2mf8DtWW…
A quem assistiu, deixo a pergunta: Você concorda que precisa?
Confissões de rodapé: Fui ao cinema mal humorado, saí deprimido. Melhor não falar comigo.
Em maio de 2009, um ex-deputado estadual provocou um acidente de trânsito em Curitiba. A investigação policial concluiu que ele dirigia bêbado e numa velocidade entre 161 e 173 km/h. Seu carro chocou-se contra um automóvel em que estavam dois jovens, de 26 e 20 anos, que morreram na hora. Sua carteira de habilitação estava suspensa, a maioria das multas era por excesso de velocidade.
Dois meses depois, mensagens assinadas pelo ex-deputado se espalharam em outdoors na cidade de Guarapuava, onde seu pai é Prefeito. Nas mensagens o ex-deputado agradecia a Deus por estar vivo e a todos que oravam por ele. Seu pai, prefeito, agradeceu em entrevista coletiva todo o apoio que a família e o filho receberam e afirmava que nada impedia o ex-deputado de voltar a política. Hoje, a família ainda luta na justiça para que o caso seja tratado como um acidente de trânsito, uma fatalidade e não duplo homicídio, como tipificado pelo Ministério Público.
A atitude da família do ex-deputado foi alvo de muitas críticas. Por envolver políticos, pessoas públicas, o caso foi matéria em várias redes de televisão. Todos são categóricos ao afirmar que um motorista bêbado merece ser exemplarmente punido. Com certeza, antes do acidente, o prefeito de Guarapuava também defendia o mesmo ponto de vista. Até que seu filho se tornou o motorista bêbado, que merece apoio, orações e perdão.
A ética de conveniência, na qual os valores defendidos mudam de acordo com a situação – e o papel que cada um desempenha na situação – está presente em todas as esferas da vida social. Prova disso são os muitos brasileiros que repudiam políticos por cobrarem propina, mas andam com dinheiro guardado casualmente nos documentos do carro para eventuais multas.
Para aqueles que não subornam policiais, ou furam fila, ou defendem seus filhos antes de defenderem suas convicções, cabe o questionamento: até onde vão seus valores? Numa situação extrema, valores são postos à prova. Quando isso acontecer seus valores serão postos em prática, ou de lado?
Confissões de rodapé: Me pediram para escolher o mais belo homem do escritório. Ah! Tenha santa paciência…
2012
2011