Abro minha caixa de emails e o que encontro? Mais de 35 convites para aderir às chamadas redes sociais. No mundo globalizado a enxurrada diária de informações virtuais afoga mesmo o usuário mais sedento de notícias. Os fatos e as pessoas ganham e perdem notoriedade na velocidade de um clique. “Me manda um e-mail”, “me adiciona no seu Facebook”, “me convida para o Orkut?”
Nesse tsunami midiático parece impossível resistir à exposição, ser conhecido, lembrado e reconhecido por amigos, parentes, ex-colegas, pretendentes, clientes, empregadores, e até mesmo pelos milhões de desocupados que simplesmente navegam na internet apenas para passar o tempo.
De outro lado, o Estado, tal qual o Grande Irmão criado por George Orwell em sua obra “1984”, usa da tecnologia para intensificar cada vez mais os meios de controle e de monitoramento sobre os cidadãos, sempre sob a alegação da necessidade de ampliar a proteção social. Exemplo: Segundo um boletim emitido pela respeitada Scotland Yard (a Polícia Metropolitana de Londres ou simplesmente Met), no ano de 2010, graças a os sistemas de CFTV (Circuito Fechado de Televisão), foram identificados 2512 (dois mil quinhentos e doze) “procurados”; mais especificamente: 574 suspeitos de roubos, 427 de arrombamentos, 199 de homicídios ou lesões corporais e 23 de delitos sexuais.
A equipe de vídeo-identificação da Yard afirmou que esse resultado é 25% superior ao do ano anterior; ou seja: O sistema está funcionando bem e certamente será ampliado. Ao contrário das tecnologias mais tradicionais de identificação de suspeitos como a papiloscopia e a moderna identificação de DNA, as imagens colocam o suspeito no cenário e no momento da ação criminosa, aumentando a eficiência do sistema punitivo.
É praticamente impossível escapar do Grande Irmão londrino: O sistema de CFTV de lá é totalmente integrado, ou seja, a Yard tem câmeras próprias mas se vale das imagens dos demais sistemas públicos e privados como os do departamento de trânsito e os das lojas e condomínios, que podem ser acessados diretamente pelos policiais, a qualquer tempo. São, portanto, centenas de milhares de olhos – e ouvidos, em alguns casos-, que vasculham permanentemente todos os momentos da vida londrina, pública e privada. Detalhe: Trata-se de uma adesão da população ao modelo, não de coação do governo. Os atentados terroristas sem dúvida colocaram a melhoria da eficiência do sistema na ordem do dia, e a população londrina, que no início questionava veementemente a opção pelo monitoramento compulsório, capitulou e aceitou o fardo da vigilância obrigatória. O Inspetor-Chefe do departamento responsável pela captura e análise das imagens garantiu que Met faz uso apropriado desses sistemas, que seus comandados obedecem a protocolos rigorosos e são duramente fiscalizados, de modo a eliminar o risco de interferir na privacidade e no direito das pessoas de bem levarem suas vidas normalmente. Será?
O inglês George Orwell, que escreveu o livro ao tempo do final da 2ª Guerra Mundial, baseou a eficiência do sistema policial de Oceania (o Estado controlado onde se passa a história) não somente na força coercitiva do Estado, mas, sobretudo na aceitação das suas premissas pelos cidadãos que, desse modo, fariam de tudo para que ele funcionasse perfeitamente. Nesse sentido, o sistema londrino, assim como outros mundo afora, conta com um website para que o público possa ver as imagens dos procurados e, caso os identifiquem, informem seu paradeiro às autoridades por meio de uma ligação anônima, algo semelhante ao Disque-Denúncia que temos no Brasil.
Seria esse o custo de viver plenamente a democracia das relações humanas, de garantir a livre circulação de pessoas e informações? Mais liberdade e menos segurança, ou mais segurança à custa de maior controle da liberdade? Todos juntos na luta contra o crime, ou deixe que o Estado resolva mais este problema?
Confissões de rodapé: Entendo pouco de cinema e menos ainda de cinema sul-coreano. Assisti Poesia há mais de um mês e o que posso dizer é que desde então tem um silêncio no meu peito.
O acesso à informação nunca foi tão rápido, fácil e diversificado. E mesmo na comunicação “moderna”, um hábito antigo se faz presente: a mídia dá preferência ao que é negativo, pejorativo, trágico, errado. A mídia alimenta a sociedade com as informações que a sociedade devora.
Infelizmente, são hábitos “alimentares” pouco saudáveis e nutritivos. A boa notícia (sim, elas existem) é que com a quantidade de informação disponível na internet, cada um pode selecionar para si o que há de melhor.
Longe de defender que escândalos políticos não sejam denunciados, defendo que políticos que se destacam pelo trabalho sério tenham o mesmo espaço. Na última eleição o palhaço Tiririca e sua expressiva votação tiveram um espaço incrível na mídia. Mesmo depois de eleito, Tiririca foi pauta obrigatória com seu suposto analfabetismo, seu voto “errado” sobre o valor do salário mínimo, seu primeiro dia de trabalho. Não podemos deixar de lado o fato de um comediante ter recebido a maior votação para Deputado Federal do país. Devemos inclusive pensar bem no que levou o brasileiro a escolher um palhaço, em detrimento de tantos políticos.
Mas o fato é que outros deputados também merecem destaque. José Antônio Reguffe (PDT-DF) foi proporcionalmente o mais bem votado do país com 18,95% dos votos válidos do DF. Estreou na câmara em grande estilo: abriu mão dos 14º e 15º salários que os parlamentares recebem, de toda verba indenizatória, de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia, tudo em caráter irrevogável. Reduziu sua verba de gabinete, o número de assessores e a cota interna do gabinete em mais de 80%.
Em quatro anos de mandato, o deputado vai economizar mais de R$ 2,3 milhões dos cofres públicos. “Esses gastos excessivos são um desrespeito ao contribuinte”, explicou Reguffe em discurso no plenário. Se os outros 512 deputados pensassem assim, a economia aos cofres públicos seria superior a R$ 1,2 bilhão. Quem não gostaria de ler esta notícia?
Talvez esta seja a pergunta fundamental: Quem gostaria de ler boas notícias? Se a resposta parece óbvia – todos – a realidade é outra. Como exemplo, podemos citar o youtube, onde o internauta escolhe o vídeo ao qual quer assistir. O site é responsável por “fabricar” celebridades na internet. A última foi um garoto australiano, que reage a uma agressão. Todos sabem quem é Casey Heynes, ou pelo menos já viram o vídeo do “gordinho” que se tornou ídolo por reagir ao bullying escolar. O vídeo correu o mundo, gerou matérias, entrevistas com o garoto e sua família e até games.
No mesmo youtube, encontramos diversos vídeos sobre Ryan Hreljac. O garoto canadense que com 6 anos descobriu que crianças morriam de sede no continente africano. Com 8 anos, Ryan conseguiu arrecadar na comunidade onde vivia os 2 mil dólares necessários à perfuração de um poço de água numa vila ao norte de Uganda. Aos 19 anos, ele tem sua própria fundação e já entregou mais de 400 poços de água que fornecem água para cerca de 500 mil pessoas. Uma história verdadeiramente heróica, mas que foi vista por menos de 1/10 das pessoas que vibraram com Casey.
Possivelmente as pessoas não estejam acostumadas a buscar boas notícias, mas o mundo está cheio de bons profissionais, ativistas com histórias incríveis, exemplos de solidariedade, inteligência, feitos extraordinários. Quem recebe informações positivas tem uma perspectiva mais estimulante e tende a ter atitudes coerentes com isso.
Os políticos normalmente tornam-se notícia por desvios de conduta. Divulgar os feitos positivos dos homens públicos pode ensinar à população que existe essa possibilidade dentro da política. Se boas condutas fossem melhor divulgadas – e pesquisadas pelos eleitores – talvez também fosse outro o desenho do nosso congresso. Quem tem coragem para atirar a primeira rosa?
Confissões de rodapé: Leio meu jornal na padaria. Às vezes tenho a sensação de que faria bem também a alguns jornalistas frequentar mais padarias pela manhã.
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