Depois da denúncia sobre um esquema de propina estabelecido por um lobista no Ministério da Agricultura, o Deputado Federal Mendes Ribeiro assumiu a pasta. E, já como ministro, o próprio Ribeiro explicou: “Lobista é uma coisa, ladrão é outra”. E, para a surpresa de muitos, ele tem razão. Infelizmente é comum associar lobby e corrupção e acredito que isso acontece basicamente por duas razões. lobistas corruptos viram notícia, os corretos não ganham destaque…
O motivo? Lobby não é uma profissão regulamentada. E não existe legislação sobre o tema. E nisso, talvez, o espaço para a imoralidade e o jogo sujo: corrupção, propina, tráfico de influências, etc… A verdade é que o lobby nada mais é que a atividade de tentar influenciar as decisões do poder público em favor de interesses privados, que não necessariamente são escusos. Uma influência que pode ser positiva, inclusive.
Quando se votam leis que tratam do meio-ambiente, por exemplo, é importante a presença dos ecologistas, com informações pertinentes para o voto dos parlamentares. Um lobby pela sustentabilidade. E asim como os ecologistas, outros grupos deveriam procurar abertamente parlamentares e governantes para tratar de assuntos de seu interesse. Democrático, não? Nos Estados Unidos, por exemplo, ser lobista é uma profissão com legislação própria.
A área de tecnologia, ligada ao ensino e pesquisa, desenvolvimento industrial e criação de milhões de empregos, há duas décadas praticamente não existia em nosso país. Importantes representações de empresas e associações do setor garantiram políticas públicas, inclusive com incentivos fiscais e criação de um fundo de pesquisa, e ajudaram muito a desenvolver o setor. Mas, o trabalho destes lobistas não virou manchete. Ao contrário, foi quase anônimo.
Na União Européia quem vai fazer lobby é registrado e identificado antes de entrar no parlamento. Sua presença e suas intenções são claras, assim como a sua atuação – regida por normas de conduta. Aqui os lobistas não são reconhecidos oficialmente e usam outros crachás, quando usam…
Um impasse que se estende por décadas… O ex-Vice-Presidente e Senador Marco Maciel já propôs a regulamentação do ofício. Também o Deputado Carlos Zarattini (PT-SP), cujo projeto de lei deve discutido pela primeira vez em audiência pública. Mas, a pergunta é: iremos debater, de fato, a questão ou ainda os preferimos invisíveis e ireeversíveis protagonistas da vida pública nacional?
Confissões de rodapé: Eu acho que vi um gatinho…
Acabo de chegar do banco onde ouvi uma péssima piada… A crítica bem-humorada e a profusão de piadas sobre os costumes estão entre as características nacionais mais cultivadas. A piada é uma verdadeira instituição brasileira, não havendo assunto nem pessoa imune aos comentários jocosos, às observações agudas e cáusticas que surgem quase espontaneamente nas rodas de amigos. Políticos de qualquer matiz, padres, rabinos, pais de santo, professores, alunos, times de futebol, artistas de novela, joãozinhos, mariazinhas, calvos, narigudos, mineiros, caipiras, gaúchos, cariocas, … Qualquer um pode virar, e no Brasil, vira, motivo de piada nos bares, nas esquinas, nos cafés das empresas, nos velórios.
Recentemente vem ganhando espaço uma forma de gozação mais agressiva, que já há algum tempo não se via, a chacota escrachada e de baixo calão baseada quase exclusivamente nas características físicas, culturais e étnicas das pessoas. Humor de baixa qualidade, covarde como todo preconceito. É o humor à custa do insulto. Tolerar a intolerância travestida de piada é uma das contradições da Democracia moderna, pois se trata de garantir as liberdades de pensamento e de expressão que representam a pedra angular da sociedade verdadeiramente livre e democrática. Deixar que o governo decida o que é e o que não é adequado produzir em termos culturais é o primeiro passo rumo à tirania. Não cabe ao Estado regulamentar o humor nem definir critérios do que pode e do que não pode virar anedota, editando, por exemplo, uma tal cartilha do “politicamente correto”, a quintessência do ridículo. Ridendo castigat mores, pelo humor se modificam os costumes, já disse Molière, que nos palcos da Europa fazia a corte e a burguesia rirem de si mesmos, gostosamente.
Nas últimas eleições, sob a justificativa risível de “preservar a seriedade do pleito eleitoral, proibindo a sabotagem e os prejuízos à imagem dos candidatos durante o processo eleitoral”, o TSE quis censurar a produção e divulgação de tirinhas, cartuns, piadas e comentários sobre candidatos e candidaturas. Censurar os políticos seria mais eficiente, já que são eles os autores e protagonistas dos gracejos mais infames e que nos fazem chorar na vida real.
Ganharam a companhia de um palhaço – de verdade. Será que agora aprendem a diferença entre a graça e o deboche?
Confissões de Rodapé: Quando será que aboliremos o uso de uniforme europeu (terno e gravata) no Brasil?
A Dinamarca é considerada uma democracia moderna. Naquele país nórdico, forjado pelos famigerados Vikings, é livre e universal o direito ao voto, as instituições públicas são sólidas, os direitos fundamentais do cidadão, como liberdade religiosa, de opção sexual, de manifestação de pensamento e tantos outros são respeitados e garantidos. Igualmente, o acesso à educação e saúde de qualidade, bem como à qualificação profissional e aos demais benefícios sociais são exemplares e figuram entre os mais avançados do planeta. O dinheiro do petróleo explorado no Mar do Norte, as indústrias de tecnologia de ponta e o alto nível educacional colocam a Dinamarca há tempos entre as nações com melhor qualidade de vida do mundo.
Mesmo assim, ou até por isso, muitos dinamarqueses vêm defendendo a idéia de limitar a entrada de imigrantes, pois, segundo declarou recentemente seu Ministro da Integração, são eles os maiores consumidores de serviços essenciais promovidos pelos impostos dos dinamarqueses, que contudo não geram renda suficiente para custeá-los. Além disso, também declarou aquela autoridade, “alguns grupos de imigrantes são mais representados nas estatísticas de criminalidade.” Não se trata de segregação, mas da imposição de um “controle alfandegário”.
Para o ministro dinamarquês, os dinamarqueses que são favoráveis à adoção de um “controle alfandegário” visando dificultar o acesso de alguns grupos ao país entendem que não querem ver mudanças negativas em suas realidades, nem alterações no seu modo de vida, que tanto apreciam e que corre o risco de ser transformado pela cultura alienígena que livremente se instala naquele país.
São Paulo é a cidade mais rica e cosmopolita do Brasil e da América do Sul. Basta caminhar pelas suas ruas e praças para reconhecer rostos de toda parte do mundo. Parte dessa população, orgulhosa de sua história, das suas conquistas e de sua cultura, compartilha do sentimento expresso pelo ministro dinamarquês e não gostaria de facilitar aos imigrantes de sua própria cidade o acesso aos bairros mais sofisticados. Quer preservar suas famílias tradicionais daquela “gente diferenciada” que quer invadir sua praia exibindo seus rostos pelas praças, destoando da decoração das vitrines dos sofisticados shopping centers, marcos da elevada qualidade de vida à duras penas conquistada.
Pelo jeito, há algo de podre no reino na Dinamarca que Hamlet jamais pensou que fosse possível exportar para o Brasil.
Confissões de Rodapé: Jabuti não sobe em árvore …
2012
2011