Os paulistanos convivem resignados com uma onda de crimes que acontece regularmente, nos mesmos locais, em horários variados (e constantes). Crimes praticados por pessoas que são parte do cenário da cidade de São Paulo e estão por toda parte – nas ruas onde existem delegacias, inclusive. Ficam lado a lado com policiais e faturam alto com a impunidade. Os flanelinhas, estas pessoas que cobram para que outras pessoas estacionem nas ruas públicas, das quais tomam posse e tiram vantagem.
A cena de um “flanelinha” cobrando de um cidadão que quer estacionar seu carro em uma região movimentada se tornou normal, comum, aceita. Mas é crime: extorsão. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa. A definição do crime de extorsão não está muito distante da situação que tanta gente enfrenta. Ou paga, ou o flanelinha que vai ficar na rua onde você estaciona o carro “não se responsabiliza pelo que vai acontecer”. O que vai acontecer é justamente o que o próprio ou um comparsa vão fazer com o seu carro. A situação é essa: pagamos para que as pessoas não furtem ou danifiquem nossos veículos, em via pública.
No show da banda U2 e na disputa final da Copa Libertadores, por exemplo, as pessoas pagavam R$ 50,00 para não terem seus veículos furtados ou quebrados ou danificados. Os flanelinhas lotearam as ruas por onde circulavam centenas de policiais, que não faziam absolutamente nada quanto à isso. À vista de todos os policiais os motoristas são extorquidos, num silêncio cúmplice entre quem cobra, quem paga e quem aceita essa situação absurda.
Quer absurdo maior? Na Rua Marques de Paranaguá há uma delegacia e, no entorno, pelo menos 3 flanelinhas que, há anos, recebem dinheiro após tomarem posse da via pública, se declarando responsáveis pela segurança do local. Na delegacia de Perdizes, a mesma situação. Os “donos da rua”, responsáveis pela segurança de quem estaciona perto da delegacia, esfregam na cara dos policiais e dos cidadãos a sua autoridade paralela. E recebem por isso.
O poder público combate a pirataria, os vendedores ambulantes, as passeatas irregulares e tantas outras irregularidades. Mas assiste calado à esta situação que é parte do dia-a-dia da cidade, mas nem por isso deixa de ser completamente descabida. Uma ação contra esta prática tão banal quanto inaceitável seria um exemplo incrível de consciência civil, de resgate da cidadania dos paulistanos que pagam para não serem lesados por criminosos. Um resgate da via pública, por parte do poder público – será que é pedir demais?
Confissões de rodapé: Constato: Pode-se ser cavalheiro sem jogar tênis, mas não se pode jogar tênis sem ser cavalheiro.
Confesso que não sou muito de assistir a reality show. Mas, depois da absolvição da Deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) passei a contemplar a proposta destes programas com outros olhos. A idéia de exposição total dos participantes poderia ser aplicada aos parlamentares brasileiros. Seria um sucesso. Eu pelo menos faria questão de acompanhar esta realidade bem de perto.
No melhor estilo “Big Brother”, Jaqueline foi filmada recebendo um maço de notas de dinheiro. No entanto, o vídeo não foi suficiente para condená-la. A data da filmagem foi a principal justificativa. Sem entrar no mérito jurídico da absolvição, o que me intriga é a ampla maioria que “inocentou” Jaqueline, mesmo depois de um flagrante gravado e amplamente divulgado.
E daí vem a minha curiosidade em conhecer cada um que votou pela absolvição. Com relação ao programa, a imagem já é bem popular na televisão: tem o dia da votação pela eliminação de um dos participantes “da casa” e o confessionário. Os votos são conhecidos por todos. Fico imaginando como seria bom se este modelo de votação fosse aplicado aos parlamentares em dias decisivos. Se não quiserem justificar, deveriam pelo menos declarar seu voto. Olhar para a câmera e dizer: eu sou contra a cassação de Jaqueline Roriz. Essa decisão dos deputados seria usada na definição do nosso voto – de eleitor.
O Voto Secreto de Parlamentar tem sua origem em uma boa intenção: Proteger os políticos oposicionistas, principalmente em momentos de Regime de Exceção. Ocorre, porém, que desde 1988, com a promulgação de nossa Constituição Federal, não há mais sentido em defender o voto secreto para nenhum assunto parlamentar, em qualquer esfera (Deputados Federais e Estaduais, Senadores e Vereadores).
Aliás, desta boa safra de intenções também se pode colher as origens de outros institutos que não mais se justificam em minha opinião: a Imunidade Parlamentar e o foro privilegiado, entre outros. No máximo admitiria a Imunidade Parlamentar com relação às suas opiniões e manifestações, porém, proteger atos de natureza de crime comum e o foro privilegiado para quaisquer tipos de crimes, parece absurdo por afrontar o princípio da igualdade, pressuposto da Democracia Brasileira e escrito em nossa Carta Maior. Passou da hora de nosso Congresso acabar com esses absurdos.
A verdadeira eliminação dos nossos representantes, ou sua reeleição, acontece a cada 4 anos. Assim, como nos programas de “reality show” televisivos, na democracia é o povo quem decide quem sai e quem fica – por mais conchavos que se faça dentro das “casas”. E por isso, sigo firme na minha idéia do voto aberto, do “confessionário” dos parlamentares. Não seria ótimo que cada político declarasse seus votos antes de pedir os nossos?
Confissões de rodapé: Muttley, faça alguma coisa….
Os resultados dos exames sobre a morte de Amy Winehouse foram inconclusivos, não se pode afirmar o que matou Amy, aos 27 anos. Mas pode-se dizer que, em vida, ela sofreu muito pela dependência de drogas e álcool. Agora, não se pode fazer mais nada por ela. Mas, depois de perder a filha, o pai declarou que vai criar uma fundação com o nome de Amy para ajudar os dependentes de álcool e drogas a combater o vício. “Se a pessoa não tem como pagar uma clínica privada, a espera pode chegar a dois anos para quem precisa de ajuda”, explicou.
Com esta espera de 2 anos, o sistema público de saúde para quem é dependente químico é um convite à tragédia, mesmo num país como a Inglaterra, referência de “primeiro mundo”. Mitch, pai de Amy, tem alguma responsabilidade neste cenário? Nenhuma. Mas vai fazer a diferença na vida de muita gente com a sua iniciativa. Num momento de dor extrema, decidiu fazer pelos outros, ao invés de culpar o mundo.
No Brasil, uma situação bem diferente e uma atitude igualmente empreendedora. Paiva Junior, jornalista, pai de Giovani e Samanta, enfrentou o diagnóstico de autismo dado ao filho com um pequeno luto e um grande gesto. Ao pesquisar a doença, descobriu que não existiam fontes de informação sobre autismo para os brasileiros, dentre os quais estão cerca de 2 milhões de autistas. Paiva, jornalista que é, criou a revista Autismo: publicação de distribuição gratuita com conteúdo riquíssimo que muito tem ajudado aqueles que, como ele, estavam em busca de informação e opções de tratamento.
No Brasil, não há políticas de saúde pública para o tratamento e diagnóstico do autismo – e o diagnóstico precoce é importantíssimo. Paiva e os outros pais que trabalham pela publicação e distribuição gratuita da revista poderiam passar anos reclamando e apontando essa falha grave. Sim, eles também cobram ações do poder público. Mas antes de tudo, criaram a primeira revista sobre a doença em toda a América Latina e única publicação sobre o tema em língua portuguesa do mundo. Não era responsabilidade deles, mas era o que eles poderiam fazer. E fizeram.
E, se ao se deparar com uma situação difícil, as pessoas parassem de procurar culpados e se perguntassem: o que eu posso fazer? Não uma pergunta retórica, destas que servem como um atestado de vítima, mas como um questionamento real, possível. O que podemos fazer? Na verdade muito mais do que imaginamos. Mesmo nos casos em que a responsabilidade não é nossa (e, talvez, principalmente nesses casos), sempre podemos fazer alguma coisa – por nós e pelos outros. Todo mundo tem problemas. O que eu posso fazer? E você?
Confissões de rodapé: Acho engraçado empresários utilizarem o campus da USP para correr e os estudantes usarem a Paulista para protestar ….
No dia 11 de setembro de 2011, o Estado de S. Paulo trazia na capa manchete sobre os 10 anos do atentado terrorista às torres gêmeas, “Cidade inaugura memorial às vítimas…”. E, abrindo a edição daquele domingo, deparei-me com muitas outras vítimas, em situações que não foram marcadas por um dia fatídico, mas que se já se estendem pelos mesmos 10 anos da tragédia de Nova Iorque e estão longe de terminar a contagem dos mortos.
Uma reportagem especial falava sobre a fome na Somália, “terrorismo e fome” era o título. Para resumir: extremistas do Al-Shabaab ainda dominam grande parte da Somália e agora infiltram seus radicais no maior campo de refugiados do mundo, em Dadaab, no Quênia. Dez anos depois, a guerra contra o terror (ou do terror) segue monstruosa e se faz presente para muito além da big apple.
Longe de qualquer centro financeiro, o cenário é um campo refugiados na África. Ali, onde cerca de 440 mil pessoas depositam suas últimas esperanças de vida – no sentido mais literal possível – continua o conflito entre o Al-Qaeda, que financia o Al-Shabaab, e o governo americano, que financia, juntamente com alguns países europeus, o governo central que assumiu o poder. Cada um com suas justificativas, os líderes deste conflito são indiferentes a apelos humanitários.
Segundo a reportagem, em agosto, três homens vestidos com burcas entraram no principal mercado do local e abriram fogo contra um líder religioso que, segundo a ONU, não aceitou a determinação do Al-Shabaab de recrutar jovens para a milícia entre os refugiados. E, se é odioso o recrutamento de pessoas que estão buscando ajuda humanitária pelos extremistas, é igualmente inaceitável que ele aconteça por quem está lutando contra organizações terroristas. Mas, segundo a Human Rights Watch, o governo queniano também vem buscando soldados entre os jovens de Dadaab.
De todas as fotos que vi no jornal daquele dia, entre elas as de Edward Keating que fotografou os escombros do WTC, a que mais impressionou foi a dos somalis rezando no campo de refugiados. Uma multidão que se estende ao horizonte. Vítimas que ainda vivem. São 440 mil ameaçados pela fome, pela seca e, além de tudo, pelo terrorismo e pela guerra que usa o extremismo como justificativa – e que se iguala a ele, em intolerância e violência.
As vítimas do atentado de 2001 merecem seu memorial e justiça. Nova Iorque e o resto do mundo têm que chorar pelos mortos e lembrar, sempre. A memória é uma arma contra a repetição de barbaridades. A cena dos aviões contra os prédios e toda a tragédia que se seguiu é inesquecível (e inaceitável). No entanto, neste 11 de setembro de 2011, o que mais me assombrou foi ver os que vivem no terror, ainda e depois de 10 anos. Muito se fala na guerra contra os terroristas, mas me pergunto quem são as verdadeiras vítimas desta empreitada. O terrorismo ainda está vivo. Quem vai pagar o preço desta guerra e quem vai lucrar com ela?
“O Brasil é o país do futuro”, “ninguém segura este país” foram mantras repetidos à exaustão por décadas, principalmente durante os governos militares. Realmente, sobretudo para quem via de fora, parecíamos uma nação fadada ao sucesso: a vocação para ser o “celeiro do mundo” (outro mantra, ou sub-mantra corolário dos primeiros) parecia inevitável.
Cunhou-se o neologismo “supersafra” para nomear os seguidos sucessos no aumento da produção de grãos visando à exportação (“exportar é o que importa!” – haja mantra!). Entre idas e vindas, contribuímos para que nosso país se tornasse referência obrigatória no cenário internacional e uma peça indispensável no xadrez geopolítico mundial.
Que se trata de um gigante, ninguém duvida; mas, depois de levantar do berço esplêndido, para onde nosso “Adamastor” caminhará? Será o país das commodities, cujo crescimento baseia-se na exportação de produtos brutos como cereais, minério e petróleo? Uma plataforma avançada das indústrias de ponta com a abertura da economia às multinacionais? Terá desenvolvido uma intelectualidade própria, autônoma, apta a competir em igualdade de condições com as economias mais avançadas? Aproveitará o enorme mercado interno para implementar serviços de alta competitividade? Criará uma infraestrutura sustentável para desenvolver seu potencial turístico?
Ao que parece, abraçamos todas as opções acima; e, talvez, nenhuma delas completamente. Uma das premissas fundamentais para desenhar qualquer projeto, seja ele pessoal ou coletivo, é dizer aonde se quer chegar. Em síntese, trata-se de saber para onde ir – os objetivos do projeto- e como fazer para chegar “lá”, seja onde for. Daí, estabelecemos estratégias (como ir), metas claras, ações definidas e prazos de realização, que funcionam como indicadores para sabermos se estamos realmente caminhando no rumo desejado, de forma a validar o planejamento proposto ou alterá-lo face às intercorrências do trajeto percorrido. Em síntese, um projeto nada mais é que um mapa a ser seguido, um roteiro detalhado a partir do qual se desenvolvem as ações necessárias para alcançar os objetivos.
Com um país acontece exatamente a mesma coisa – ou, deveria. Para uma nação cumprir seu destino é preciso planejamento responsável, acompanhamento efetivo, transparência nas ações e determinação para alcançar resultados. Não há como fugir desse desafio, por mais difícil que seja estabelecer um projeto de país que contemple todas as necessidades, desejos e anseios de uma sociedade tão plural e desigual como a nossa. Mas sem projeto, qualquer ação, qualquer estratégia, qualquer sacrifício e qualquer vitória tendem a perder o sentido já que não se sabe ao certo para onde caminhamos.
Erradicar a pobreza, oferecer moradia decente, multiplicar as vagas nas creches, aumentar a oferta de emprego e garantir saúde de qualidade não são projetos de país. São metas fundamentais para a construção de uma sociedade digna, sem dúvida, mas não substituem a definição clara dos rumos e dos objetivos maiores de uma nação. Em se tratando do futuro da nação, não vale a lição poética do sevilhano Antonio Machado:
“Caminhante, são tuas pegadas/o caminho, e nada mais;
Caminhante, não há caminho,/se faz o caminho ao andar.
Ao andar se faz o caminho.”
Confissões de rodapé: Quem poupa tem …
Depois da denúncia sobre um esquema de propina estabelecido por um lobista no Ministério da Agricultura, o Deputado Federal Mendes Ribeiro assumiu a pasta. E, já como ministro, o próprio Ribeiro explicou: “Lobista é uma coisa, ladrão é outra”. E, para a surpresa de muitos, ele tem razão. Infelizmente é comum associar lobby e corrupção e acredito que isso acontece basicamente por duas razões. lobistas corruptos viram notícia, os corretos não ganham destaque…
O motivo? Lobby não é uma profissão regulamentada. E não existe legislação sobre o tema. E nisso, talvez, o espaço para a imoralidade e o jogo sujo: corrupção, propina, tráfico de influências, etc… A verdade é que o lobby nada mais é que a atividade de tentar influenciar as decisões do poder público em favor de interesses privados, que não necessariamente são escusos. Uma influência que pode ser positiva, inclusive.
Quando se votam leis que tratam do meio-ambiente, por exemplo, é importante a presença dos ecologistas, com informações pertinentes para o voto dos parlamentares. Um lobby pela sustentabilidade. E asim como os ecologistas, outros grupos deveriam procurar abertamente parlamentares e governantes para tratar de assuntos de seu interesse. Democrático, não? Nos Estados Unidos, por exemplo, ser lobista é uma profissão com legislação própria.
A área de tecnologia, ligada ao ensino e pesquisa, desenvolvimento industrial e criação de milhões de empregos, há duas décadas praticamente não existia em nosso país. Importantes representações de empresas e associações do setor garantiram políticas públicas, inclusive com incentivos fiscais e criação de um fundo de pesquisa, e ajudaram muito a desenvolver o setor. Mas, o trabalho destes lobistas não virou manchete. Ao contrário, foi quase anônimo.
Na União Européia quem vai fazer lobby é registrado e identificado antes de entrar no parlamento. Sua presença e suas intenções são claras, assim como a sua atuação – regida por normas de conduta. Aqui os lobistas não são reconhecidos oficialmente e usam outros crachás, quando usam…
Um impasse que se estende por décadas… O ex-Vice-Presidente e Senador Marco Maciel já propôs a regulamentação do ofício. Também o Deputado Carlos Zarattini (PT-SP), cujo projeto de lei deve discutido pela primeira vez em audiência pública. Mas, a pergunta é: iremos debater, de fato, a questão ou ainda os preferimos invisíveis e ireeversíveis protagonistas da vida pública nacional?
Confissões de rodapé: Eu acho que vi um gatinho…
De uns anos para cá, um tipo diferente de “pedinte” circula pelas calçadas da Avenida Paulista ou outras de grandes cidades brasileiras. É praticamente impossível cruzar certos trechos sem ser abordado por essas pessoas. São ativistas de ONGs que atuam nas áreas humanitárias, ecológicas, culturais, entre outras. Uma atitude nobre? Não sei dizer…
Perguntas como: “Você tem um minuto para mudar o mundo?”; “Oi, quer salvar uma vida hoje?” são deflagradas a todos que estejam passando, tenham estes tempo ou não, para pensar, refletir, reagir e responder. Em grande parte, a resposta ao ativista é negativa. Isso, não necessariamente, acontece por desacordo com sua causa. Quem diz não pode estar simplesmente com pressa ou ainda já efetua sua contribuição de outra forma. Mas, a abordagem, o apelo e a gravidade do tom utilizado pode deixar uma sensação contrária…
Existem hoje no Brasil (e no mundo) diversas maneiras de se levantar fundos para instituições e organizações não-governamentais. Empresas reconhecem a importância de associar sua marca a boas causas. Em sua maioria, têm inclusive um orçamento anual destinado à responsabilidade social, por exemplo. Uma conversa franca e direta com os responsáveis dentro dessas empresas não seria uma maneira mais produtiva de se conseguir dinheiro?
É claro que o cidadão também pode – e deve – contribuir com as instituições nas quais acredita. Defendo a participação social, a militância. Assim como o uso da comunicação: as redes sociais, por exemplo, tem se mostrado bastante eficientes na mobilização das pessoas… E sim, são questões urgentes para as quais toda ajuda é bem vinda e necessária. Porém, o peso da chantagem emocional na conquista de simpatizantes ou colaboradores para estas causas, me causa um certo desconforto.
Sinal de que os ativistas e suas causas deixaram sua marca… Prova de que o marketing da culpa cumpre seu objetivo? E, se sim, é por que é realmente necessário? Eu, sinceramente, preciso de mais que um minuto para responder.
Confissões de rodapé: Eu olho as orquídeas da varanda e as invejo.
Trabalho na Avenida Paulista e convivo diariamente com todas as “tribos” de São Paulo. Sair na hora do almoço inclui cruzar com pessoas de várias idades, posturas, profissões, hábitos. Do advogado engravatado ao motoboy, da secretária ao estudante, todo tipo de gente passa pela Paulista. E passa a pé, de moto, de carro, de ônibus e metrô.
Tão eclética quanto a identidade das pessoas por aqui, é a variedade de meios de transporte – esqueci de falar dos ciclistas e skatistas, cada vez mais abundantes. Por isso é normal ver uma disputa quase selvagem entre pedestres, motos, carros, ônibus. Todo mundo no limite do espaço alheio, e da própria segurança.
Talvez por isso, a Avenida Paulista esteja entre as áreas escolhidas pela Prefeitura como “Zonas Máximas de proteção ao Pedestre”, uma campanha pela redução de atropelamentos. Nestas áreas, orientadores de tráfego vão fiscalizar intensamente as faixas de pedestres, colocar bandeiras em frente aos carros para as pessoas passarem. Agentes da CET também irão atuar, e as multas para quem não respeitar a faixa de pedestre serão aplicadas.
Mas o que fazer com quem insiste em atravessar fora da faixa? Faixas de pedestre existem aos montes na Avenida Paulista, maior ainda é o número de pessoas que preferem “cortar caminho”. O Edifício Scarpa (entre a Rua Peixoto Gomide e a Alameda Ministro Rocha Azevedo) fica entre duas faixas de pedestre, que estão no mesmo quarteirão. Mas tem gente que trabalha lá e escolhe atravessar entre as duas faixas, ao invés de andar cerca de 8 metros, para a esquerda ou para a direita, e cruzar a avenida como manda o figurino e a lei. Não vou citar nomes, porque são amigos meus, que inclusive já entraram em discussões tensas com os motoboys com quem cruzaram – no meio da avenida e fora da faixa de pedestre.
Este é apenas um exemplo, entre tantos outros que denunciam os maus hábitos dos pedestres. No ano passado foram mais de 7 mil atropelamentos só no município de São Paulo. A cidade lidera este triste ranking com mais do dobro de atropelamentos que o segundo colocado, o Rio de Janeiro, com cerca de 3 mil casos. Parte mais vulnerável na “guerra do trânsito” de São Paulo, os pedestres representam quase 50% dos mortos em acidentes.
Culpa dos motoristas que não respeitam as normas e abusam da velocidade e culpa dos pedestres que se arriscam desnecessariamente. Na frente dos Shoppings Eldorado e Morumbi, outros exemplos cotidianos de irresponsabilidade: sempre tem alguém atravessando a rua por baixo de uma passarela. Sim, tem uma passarela que liga os Shoppings aos pontos de ônibus e as pessoas cruzam a rua por baixo das passarelas – por baixo!
Além destes lamentáveis exemplos, gente imprudente atravessando ruas e avenidas sem medir riscos pode ser encontrada em todo lugar, infelizmente. São dezenas de flagrantes diários de atropelamentos que poderiam ser evitados se o pedestre optasse por andar um pouco mais até a faixa, ou subir na passarela, ou esperar o farol fechar para os carros.
A faixa, o semáforo e a passarela estão lá para você que quer atravessar a rua. Use-os. É para o seu próprio bem. Não adianta educar motoristas se o pedestre não for educado e inteligente. Na disputa por espaço com carros, motos e ônibus, quem se dá mal necessariamente é o pedestre. Entendeu?
Confissões de Rodapé:Pô….
Acabo de chegar do banco onde ouvi uma péssima piada… A crítica bem-humorada e a profusão de piadas sobre os costumes estão entre as características nacionais mais cultivadas. A piada é uma verdadeira instituição brasileira, não havendo assunto nem pessoa imune aos comentários jocosos, às observações agudas e cáusticas que surgem quase espontaneamente nas rodas de amigos. Políticos de qualquer matiz, padres, rabinos, pais de santo, professores, alunos, times de futebol, artistas de novela, joãozinhos, mariazinhas, calvos, narigudos, mineiros, caipiras, gaúchos, cariocas, … Qualquer um pode virar, e no Brasil, vira, motivo de piada nos bares, nas esquinas, nos cafés das empresas, nos velórios.
Recentemente vem ganhando espaço uma forma de gozação mais agressiva, que já há algum tempo não se via, a chacota escrachada e de baixo calão baseada quase exclusivamente nas características físicas, culturais e étnicas das pessoas. Humor de baixa qualidade, covarde como todo preconceito. É o humor à custa do insulto. Tolerar a intolerância travestida de piada é uma das contradições da Democracia moderna, pois se trata de garantir as liberdades de pensamento e de expressão que representam a pedra angular da sociedade verdadeiramente livre e democrática. Deixar que o governo decida o que é e o que não é adequado produzir em termos culturais é o primeiro passo rumo à tirania. Não cabe ao Estado regulamentar o humor nem definir critérios do que pode e do que não pode virar anedota, editando, por exemplo, uma tal cartilha do “politicamente correto”, a quintessência do ridículo. Ridendo castigat mores, pelo humor se modificam os costumes, já disse Molière, que nos palcos da Europa fazia a corte e a burguesia rirem de si mesmos, gostosamente.
Nas últimas eleições, sob a justificativa risível de “preservar a seriedade do pleito eleitoral, proibindo a sabotagem e os prejuízos à imagem dos candidatos durante o processo eleitoral”, o TSE quis censurar a produção e divulgação de tirinhas, cartuns, piadas e comentários sobre candidatos e candidaturas. Censurar os políticos seria mais eficiente, já que são eles os autores e protagonistas dos gracejos mais infames e que nos fazem chorar na vida real.
Ganharam a companhia de um palhaço – de verdade. Será que agora aprendem a diferença entre a graça e o deboche?
Confissões de Rodapé: Quando será que aboliremos o uso de uniforme europeu (terno e gravata) no Brasil?
Depois de escrever sobre as matérias básicas, que são pouco assimiladas pelos alunos da rede estadual aqui em São Paulo, fiquei com essa figura na cabeça, de que alguns políticos – e até alguns educadores – valorizam demais o “topo da pirâmide” educacional. A prioridade não está na educação fundamental.
Infelizmente, minha teoria se comprova com dados oficiais: o Estado de SP gasta cerca de 8,5% do orçamento com universidades e 22% com ensino fundamental. São números que parecem corretos, levando em conta as porcentagens: mais investimento no ensino fundamental, certo? Não. Infelizmente, quando se analisa os números relativos descobrimos que nas universidades estão 400 mil pessoas e no ensino fundamental, 5 milhões. Logo, o investimento no ensino fundamental deveria ser, relativa e efetivamente, muito maior.
Mais uma vez me pergunto por que não começar pelo começo, simples assim. Pelos resultados do Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do estado de São Paulo) fica claro que os estudantes não aprendem como devem as matérias básicas. Logo não tem condições de brigar por uma vaga nas universidades. Numa equação injusta, as públicas são as mais concorridas e as mais indicadas para quem, por falta de recursos, cursou o ensino fundamental e médio na rede pública. A política de cotas não resolve o problema.
Um investimento maior no ensino superior se justificaria totalmente se todos tivessem acesso à esta etapa da formação educacional/profissional. Quantos estudantes da rede pública estadual efetivamente vão para uma universidade? Uma parcela pequena, deste impressionante universo de 5 milhões de alunos. Muitos saem da escola sem “conhecimento suficiente”, como nomeia a própria avaliação do governo, em matérias fundamentais como matemática e português.
Esses vão direto para o mercado de trabalho, no qual sua escolaridade não é testada como nas provas de vestibular e podem ganhar algum dinheiro em funções que não exijam diploma de curso técnico ou superior. Pior do que isso é a descrença que a maioria dos estudantes têm na importância da educação para seu futuro. “Faculdade não enche barriga. O que enche barriga é a correria que dou todo dia”, assim resumiu o Felipe, um dos motoboys que presta serviços aqui para o escritório.
Ele completou, por uma exigência da mãe, os estudos – em uma escola da rede estadual. Muitos como Felipe não viam a hora de terminar o ensino médio para poder trabalhar período integral. Para eles, a escola era vista como um atraso de vida. A pergunta que deixo é: quando iremos, efetivamente, avançar?
Confissões de Rodapé: Quem muito fala acaba dando bom dia pra cavalo…
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