Um amigo fotógrafo é freqüentador da Rua Santa Efigênia, no centro de São Paulo. Lá encontra bons preços e raridades em equipamentos fotográficos. Dia desses cruzei com ele, que me disse: “Alguém precisa fazer alguma coisa em relação a esta cracolândia, agora, sempre que vou à Rua Santa Efigênia tem um bando fumando e comprando pedra na rua, para quem quiser ver”. Ele tem razão. Alguma coisa precisa ser feita porque o problema dos usuários de crack está longe de ter uma solução.
O que foi feito gerou muita polêmica: a Polícia Militar se fez presente na região da cracolândia, que há décadas era palco aberto de consumo e comércio de drogas e uma série de outros crimes relacionados (assaltos, violência, abuso de menores, exploração de prostituição, etc…). Com isso alguns traficantes foram presos, uma certa quantidade de droga foi apreendida, o local foi limpo literalmente – toneladas de lixo foram retirados da região – e os usuários se espalharam por outras ruas de São Paulo, caso da Santa Efigênia.
Esta medida está longe de solucionar o problema. Porém é inegável que parte da questão passa pela atuação policial: estamos falando de tráfico de drogas, de uma onda de crimes praticados por dependentes químicos, que precisam sim de tratamento e cuidados, mas não podem assaltar e agredir outros cidadãos. Um caso emblemático, em minha opinião, foi de fotógrafos que estavam trabalhando no local quando foram agredidos e ameaçados com faca por um grupo de mais de 20 pessoas. Eles foram agredidos e tiveram seus equipamentos roubados, mas quando foram procurar a polícia souberam que os policiais que estão atuando na cracolândia não poderiam fazer nada. Porque o uso de força policial na região é considerado um desrespeito aos direitos humanos. Esse é um caso de policia? Ou não?
Inegavelmente houve uma antecipação na ação policial na cracolândia. A PM chegou lá antes que houvesse uma resposta para o destino correto dos dependentes. O ideal seria que a presença da PM fosse simultânea à oferta de tratamento nos centros médicos que ficarão prontos em março, por exemplo. Seria perfeito que os usuários de crack fossem tratados como doentes que são e não como criminosos. Mas, infelizmente, muitas vezes os viciados também são criminosos. Melhor ainda seria que a atuação do poder público estadual fosse articulada com os poderes municipal e federal. Vale lembrar que uma das bandeiras levantadas pela candidata Dilma foi o combate ao crack e até então nada foi feito, a não ser o anúncio de um programa que se iniciará em junho apenas em 2 ou 3 capitais, exceto São Paulo.
Mas estamos falando do mundo real. Hoje, o que a PM pode fazer é impedir que estes cidadãos se fixem nas ruas, impeçam a passagem de outros pedestres, carros ou até mesmo ônibus. O trabalho dos policiais consiste em dispersar quem é usuário e tentar prender quem é traficante. E, quando ocorrerem crimes como assaltos ou agressões é necessário que a polícia proteja as vítimas e atue no combate ao crime, seja ele praticado por dependentes químicos ou não.
Uma vez que o governo de São Paulo iniciou uma operação na região da cracolândia o que mais se vê na imprensa são especialistas criticando essa medida e apontando soluções para o problema. Pois bem, se estas soluções são conhecidas por estes profissionais, por que não foram postas em prática, ou pelo menos apresentadas, antes? Este é um drama social que se estende há anos e me espanta ver que existe tanta gente com opinião formada que não se manifestava publicamente até então.
O fato é que não existe uma solução simples. E eu estaria sendo leviano se apresentasse qualquer fórmula para se resolver a questão. Este drama social e policial envolve uma série de especialistas, que devem somar esforços e não apenas apontar erros da atuação dos outros. É fácil criticar algo que já foi posto em prática e falar sobre o que seria o ideal. Quando se compara o que se está fazendo em São Paulo com o que é planejado para outros Estados, por exemplo, estamos comparando o mundo real com idéias, uma vez que ainda não foi colocado em prática em nenhuma cidade do Brasil o programa de combate ao crack do governo federal.
O próprio tratamento para o vicio não tem uma fórmula ou uma receita infalível. É um processo muito pessoal e dificílimo. Precisamos lembrar que estamos falando de seres humanos, cada um com uma personalidade única. Na cracolândia existem pessoas de diferentes classes sociais, formações culturais e histórico familiar. E diferentes graus de comprometimento físico e mental em relação ao uso da droga. Muito me impressiona ver profissionais respeitados dando receitas prontas para se resolver o drama de um contingente tão diverso de seres humanos.
Vejo como aspectos positivos da presença da policia militar na região da cracolândia a discussão gerada a respeito de um tema que há muito devia ser pauta de debate. O número de pessoas procurando ajuda aumentou e, levando-se em conta cada uma delas, acho este um dado positivo. E acredito que a atuação policial seja um dos braços do trabalho de combate ao crack. Muita coisa precisa ser melhorada, muita coisa precisa ser mudada. Mas era preciso começar. E agora é hora de somar esforços, não de se apontar falhas simplesmente. As cracolândias do Brasil, e São Paulo tem a pior delas, são palco de um drama humano absurdo. Não devem ser palcos de disputas políticas.
Gostaria muito de encerrar este texto com uma boa sugestão para se solucionar o problema mas o que posso dizer é que concordo com meu amigo: alguma coisa precisa ser feita. Por muita gente, aliás. Frente à complexidade do problema (social, policial, econômico…) só me resta dizer que a única convicção neste caso é de que entrevistas polêmicas, soluções simples e fórmulas mágicas não vão ajudar em nada. E estas pessoas precisam de ajuda e não de polêmica.
Confissões de rodapé: Feliz ano novo (rs) …
Entre os dias 16 e 17 de abril de 2011, São Paulo recebeu cerca de mil atrações culturais em 24 horas. Um número impressionante, mesmo para uma cidade com uma agenda cultural sempre cheia. Foi a “Virada Cultural”, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, que criou 121 espaços para apresentações em São Paulo e reuniu cerca de 4 milhões de pessoas em sua 7a. edição. E o melhor de tudo é que todas as atividades foram gratuitas.
Eu já estou ansioso pela próxima edição. Não só pelos shows e outras apresentações, mas por tudo o que estas 24 horas de cultura representam para a cidade e para os paulistanos. As inscrições para quem quer se apresentar na virada cultural em 2012 já estão abertas no site do evento. Ou seja, o espaço está aberto para novos artistas apresentarem seu trabalho e para espectadores (que é o meu caso) descobrirem novos talentos.
Outro aspecto fundamental da virada cultural é o sentimento de pertencimento em relação à cidade que gera entre os milhões de paulistanos e moradores de SP que participam. O centro, muitas vezes visto como cenário de problemas sociais, se transforma em um mapa de palcos, um espaço destinado ao entretenimento e interação, área na qual a cultura é acessível a todos. Com isso, a população passa a respeitar mais o espaço público e as leis de civilidade. Afinal, cada um que está lá se beneficia diretamente do local e das atividades oferecidas – e também desfruta da convivência com amigos e desconhecidos.
Uma prova de que as pessoas passam a respeitar mais o local público e as pessoas que o ocupam quando enxergam nele um espaço de bem-estar e convivência agradável é o número de ocorrências registradas durante a virada cultural. Tendo em conta que o evento reúne milhões de pessoas, a quantidade de ocorrências é ínfima. A idéia é desfrutar o momento e todos que estão lá tem este mesmo propósito. Não existem, como nos jogos de futebol, grupos contrários. Os cambistas e a briga por ingressos também não têm espaço.
A virada cultural é um presente da cidade para os paulistanos. Está tudo pronto, montado, é de graça. A única ação de quem participa do evento é aproveitar. E muita gente que nunca vai ao centro da cidade, por exemplo, passa horas na região e passa a olhar não só para as apresentações mas para o lugar onde está, e faz isso com outros olhos. É um exemplo de como a cultura pode construir cidadania e ajudar a reconstruir a cidade onde vivemos. Eu vou na virada cultural deste ano prestigiar nossos artistas e nossa cidade. E você?
Confissões de rodapé: “O conhecimento é uma questão de ciência, não admite a menor desonestidade ou presunção. O que se requer é precisamente o contrário – honestidade e modéstia.” (Mao Tsé-Tung)
Agora é lei: os supermercados não podem mais distribuir aquelas sacolinhas plásticas aos consumidores. Se pensarmos que uma sacola plástica pode demorar até 400 anos para se decompor e que 2,4 bilhões delas (sim, bilhões!) deixarão de ser distribuídas por mês apenas no estado de São Paulo, essa é uma notícia maravilhosa para o planeta.
Muitos questionam a eficácia desta Lei, cada um com sua razão, entre os principais argumentos está o de que o comércio irá repassar ao consumidor o custo das sacolinhas (como se isso já não acontecesse) – agora quem quiser embalar suas compras deverá comprar sacolas biodegradáveis ao preço de R$ 0,19. Os lojistas dizem que venderão as novas sacolinhas pelo preço de custo e não estão lucrando com isso, porém, ainda não estão devidamente abastecidos com as sacolas biodegradáveis, motivando mais críticas à medida.
Mas, e se ao invés (ou além?) de reclamar do preço de venda dos sacos biodegradáveis, as pessoas voluntariamente reduzissem o dano que seus hábitos cotidianos causam ao meio ambiente? A lei das sacolinhas é um exemplo de como o Estado precisa regulamentar determinada situação por meio de leis, em casos em que não impera o bom senso e responsabilidade pelo bem coletivo. É mesmo tão ruim levar uma “ecobag” ou uma caixa para o supermercado? Com certeza essa medida é menos prejudicial ao consumidor do que as sacolinhas plásticas são para o meio-ambiente e, esta simples atitude, afasta a discussão econômica sobre o assunto.
Aliás, é fato que para se proteger o meio ambiente ou impedir a progressão de sua degradação, há que se dispender dinheiro (público e privado) e mudança de hábitos. Ou seja, de qualquer forma haverá custos para protegermos o planeta.
Há anos muitas redes de supermercados oferecem ecobags, destas que cabem mais mercadorias e pode ser reutilizada para seus clientes. Qual a adesão que o uso desta sacola teve quando era opcional? Acredito não foi o suficiente. Parar de usar embalagens que agridem o meio ambiente ou diminuir ao máximo seu uso é uma medida que deveria partir de cada um de nós, cidadãos. Assim como separar o lixo, economizar energia elétrica, não desperdiçar água e tantas outras atitudes que fazem toda a diferença quando adotadas por todos ( Já ouviu falar em pegada ecológica?).
No caso específico das sacolas, quem já adotou um comportamento ecologicamente correto não se arrepende. Em Jundiaí, o fim do uso de sacolas plásticas foi estabelecido há mais de um ano, não se vê mais sacolinhas espalhadas pelas ruas e calçadas com lixo. Se esta fosse a realidade de outras cidades haveria, por exemplo, menos enchentes: as sacolinhas além de poluírem, acabam entupindo bueiros e aumentando as inundações. Além disso, reduzem a vida útil dos aterros sanitários, impermeabilizando o terreno e dificultando a decomposição do lixo orgânico. Outro cenário triste são as ilhas de lixo que se formam com as “sacolinhas” que vão parar no oceano e causam a morte de vários animais marinhos.
Acredito que proibir as sacolinhas plásticas foi uma medida importante para suscitar outras medidas que devem ser adotadas por todos. Cabe a nós que estes hábitos ecologicamente responsáveis sejam adotados por livre e espontânea vontade – e consciência. Caso contrário, outras proibições serão necessárias, com bem mais impacto em nossas vidas do que o uso da sacolinha, como, por exemplo racionamento do uso de água e luz, restrição de locomoção por veículos automotores, etc…. Infelizmente, se chegarmos a este ponto, é porque já passamos de todos os limites. Podemos aproveitar o momento para mudar outros hábitos danosos ao ambiente. Qual hábito você pode mudar?
Confissões de rodapé: Sem sacrifícios não se alcança a glória …
Ponto para a presidente Dilma Rousseff. Ela fechou o ano com a aprovação de 56% dos brasileiros e 68% afirmam confiar nela. Mesmo entre tantos ministros acusados e demitidos por corrupção, Dilma foi bem avaliada pela população. A “tolerância zero” com a corrupção fez a presidente ser considerada por alguns como a grande faxineira, para usar uma palavra repetida durante estes últimos meses. Mas, o que muita gente parece esquecer é que foi ela quem colocou no poder os ministros que mais tarde “varreu” – foram sete ao longo de 2011.
Infelizmente, parece que a faxina ainda não terminou e tem mais sujeira por aí. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, está diariamente nas manchetes dos jornais brasileiros por denúncias – que vão de destinação política de verbas do ministério a nepotismo. O Estado de S. Paulo denunciou que Bezerra destinou cerca de 90% dos recursos anti-enchentes para Pernambuco, Estado do ministro. Num momento em que tragédias causadas pelas chuvas são noticiadas nos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, por exemplo, essa divisão de recursos soa ainda mais absurda.
Já o Ministério Público acusa Bezerra de usar verbas indevidamente na reconstrução de estrada em Petrolina e de ter comprado (com dinheiro público) duas vezes o mesmo terreno quando era prefeito da cidade. Nas duas vezes, o dinheiro foi para a mesma pessoa: o empresário José Brandão Ramos, primo do secretário de agricultura de Pernambuco, que é do PSB, partido do ministro. Entrando na questão dos laços familiares, temos a nomeação do irmão do ministro como presidente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaiba, a nomeação do tio de Bezerra como membro do comitê técnico-consultivo para o desenvolvimento da agricultura irrigada e o fato curioso de ter sido o filho do ministro (deputado Fernando Coelho do PSB de Pernambuco) o único congressista que teve todo o dinheiro de suas emendas empenhadas em 2011. Caem sobre Bezerra ainda denúncias sobre uma manobra do ministério para tirar R$ 50 milhões da obra da transposição do Rio São Francisco para a construção de barragens em Pernambuco.
Depois de dias seguidos lendo este tipo de notícias sobre o ministro, me pergunto: onde está a intolerância da presidente em relação à corrupção? Não faria mais sentido demitir um ministro que usou politicamente verbas públicas ao invés de, a partir daí, pedir que critérios técnicos fossem adotados? Quais os parâmetros – ou limite – usados pela presidente para definir intolerância e corrupção?
Acho importante também pensarmos por quê a faxina não chegou ao ministro de Desenvolvimento Fernando Pimentel, que enfrentou denúncias gravíssimas sem ter que se explicar ao Congresso – ou à população. Cito ainda Mario Negromonte, ministro das Cidades, apontado por alguns como próximo ministro a cair, mas que continua no cargo mesmo com obras e contratos da sua pasta sob suspeita. Fica então a pergunta: quando se fala da tolerância da Presidente Dilma Rousseff o número zero tem alguma escala de variação?
Confissões de rodapé: Absurda a vinculação de bebidas alcoólicas com eventos esportivos. Falta de ética de todo o lado …
Aproveito o início de ano para escrever sobre mudança. Nada de promessas pessoais ou mudanças individuais – sempre necessárias. Falo de mudanças em um país. Quando se pensa em mudar um país, só há duas maneiras: por meio de revolução (ruptura abrupta), que se provou utópica, ou por meio de reforma (alteração mais lenta de cultura e ações).
Acredito na reforma: primeiro instala-se o desejo de mudança em um pequeno grupo. Este grupo e este desejo vão crescendo alargando até tornarem-se representativos e, com o tempo e as devidas intervenções no processo político, altera-se um conjunto de leis para implantar a desejada mudança.
No Brasil democrático, a vontade de reforma em certas áreas é retardada demais pela letargia do sistema, incapaz de promover estas mudanças. Essa incapacidade, ao lado da questão ética, tem desacreditado a classe política. E pior, este descrédito se espalha para todo o processo político em cada um de seus níveis.
Para quem participou da vida política nos últimos 25 anos no Brasil, há senso comum com relação a certas mudanças, porém, também há consenso que estas não virão, pois na denominada classe política, o nível de comprometimento com a governabilidade (que descamba para clientelismo e fisiologismo) aliado aos problemas regionais da política brasileira, impedem que as reformas ocorram.
Reformas que precisam ser realizadas são relegadas a quinto plano – não interessam ao establishment político, por razões ideológicas, eleitoreiras ou cartoriais. Basta lembrar que as duas principais correntes ideológicas que dominaram a cena política nos últimos 16 anos foram igualmente incompetentes, para não dizer inertes, em realizá-las.
Vamos dar nome a algumas destas questões que precisam de reformas (e mudanças): previdência pública x previdência privada, representatividade da Câmara dos Deputados por habitante e não por estado-membro, reforma política, reforma tributária, estabilidade do servidor público, obrigatoriedade do Serviço Militar, regulação dos lobbies, mudança do código penal. E isso é só o começo.
Já temos uma massa crítica de assuntos a merecerem um tratamento especial – para não dizer urgente. Sou favorável, portanto, a uma Assembléia Nacional Constituinte, descolada completamente da vida ordinária do atual Congresso Nacional. Precisamos de mais debates e maior participação da sociedade (organizada ou não), com mais transparência e menos politicagem. Fazer a população participar mais do processo político também é outra questão fundamental. Não seria esta a energia que falta para que as mudanças ocorram?
Confissões de rodapé: Nossa São Paulo foi construída por mulheres, homens, homossexuais, índios, brancos, negros, imigrantes, paulistanos, paulistas, demais brasileiros e muitos estrangeiros. Parabéns São Paulo, uma boa parte do Brasil e do mundo comemorará seus 458 anos !!!
No final de 2011, o Brasil alcançou a sexta colocação no ranking da economia mundial segundo a Economist Intelligence Unit (EIU), empresa de consultoria e pesquisa ligada à revista The Economist. Traduzindo esta colocação: somos o país com o sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) medido em dólares à taxa de câmbio corrente. Sem entrar no mérito das flutuações bruscas deste mesmo câmbio (que podem fazer as diferenças entre um PIB e outro oscilar incrivelmente), uno-me ao coro de brasileiros que comemorou esta conquista da nossa economia.
Ao receber a notícia de que somos uma economia mais poderosa que do “ultrapassado” Reino Unido, veio-me à cabeça o célebre discurso do “vamos fazer crescer o bolo para depois dividir”. Pois é, o bolo realmente cresceu. Mas não vejo nisso um motivo tão grande de orgulho. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou o motivo da minha ressalva: vamos demorar de 10 a 20 anos para chegar à mesma qualidade de vida das populações dos países europeus. Os mesmos que estão “ficando para trás” no ranking.
O fato é que ter um PIB maior não significa por si só melhor qualidade de vida da população. Para isso, existe outra medida: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Para se chegar a este índice são levados em conta alguns outros números (que não se medem apenas em dólares): expectativa de vida, educação, e o PIB per capita – a fatia do “bolo” que cabe a cada cidadão, um indicador fundamental no padrão de vida das pessoas que vivem em determinado país. Antes de comemorar nossa 6ª posição na economia mundial, vale lembrar que segundo o próprio IBGE, cerca de 63% da nossa população recebe até 2 salários mínimos. Falta também cultura e educação.
Para voltar a falar de índices e rankings, cito alguns dos estabelecidos em 2010. Começo com uma boa notícia: o IDH do Brasil aumentou. Estava em 0,718 e, em 2010, subimos um degrau no ranking e terminamos o ano na 84ª posição. O Reino Unido, ao contrário, perdeu duas posições, com o IDH de 0,863 passou para a 24ª. Notem que são 60 os países que separam o nosso IDH dos pobres britânicos. Pobres? Parece que não.
Quando se fala em PIB per capita, a diferença entre o Reino Unido e o Brasil cresce ainda mais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB per capita por lá era de US$ 35.053,00 em 2010. No Brasil, US$ 11.289,00. A expectativa de vida no Reino Unido em 2010 era de 79,4 anos e no Brasil de 68,8 anos. Nesse ranking eles ocupam a 22ª posição e nós a 94ª. Já a taxa de alfabetização por lá chega aos 99% e aqui estava em 88,6%. Proponho a quem lê este texto um desafio: acompanhar pelo próximo ano (ou pelos próximos anos) atentamente estes indicadores sociais aqui no Brasil. A comparação com outros países não é o mais importante. Antes de comemorar um PIB maior que de outros países, seria bom termos um país melhor. Ou não?
Confissões de rodapé: Aprendi neste final de semana que o valor ideal da importância segurada do Seguro de vida – que todos deveriam ter - é o equivalente a 48 salários …
Doze cidades brasileiras foram escolhidas para sediar a Copa do Mundo de 2014: Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo vão receber pessoas do mundo inteiro. Durante todo o período da Copa propriamente dita são esperados cerca de 600 mil turistas nas cidades onde os jogos acontecerão e, no ano de 2014, o Brasil deverá bater o recorde de visitantes e chegar a impressionante marca dos 7,2 milhões.
E quando se fala em preparar o país para a Copa, a primeira imagem que temos são as obras faraônicas, reformas e construções de estádios com cifras que chegam aos bilhões de reais. Mas receber a Copa do Mundo e toda essa gente envolve muito mais que estádios de futebol. No plano da infraestrutura podemos citar os aeroportos, o transporte urbano e as vias de acesso aos estádios, para falar do fundamental. Mas, as cidades e os cidadãos brasileiros estão prontos para receber 7,2 milhões de pessoas? E, quando digo receber, quero dizer acolher não apenas aceitar a presença.
Voltando da minha última viagem vi a cena absurda de um funcionário da imigração brasileira se descontrolar com um turista chinês que não falava nosso idioma. Quanto maior a dificuldade de comunicação, mais alto o funcionário gritava – como se o problema fosse auditivo e não a língua. Pois bem, um projeto da Lei Geral da Copa de 2014 vai facilitar a entrada de estrangeiros no país e, até 31 de dezembro de 2014, serão concedidos, sem qualquer restrição quanto à nacionalidade, raça ou credo, vistos de entrada para todos que possuam ingressos ou estejam envolvidos no evento (funcionários da Fifa, imprensa, etc).
E como essas pessoas vão fazer na imigração? Depois de ter sua entrada facilitada pela “legislação da Copa”, como vai ser a chegada deste cidadão ao Brasil? Nós, brasileiros, muitas vezes temos problemas em desembarcar, pegar a bagagem, sair do aeroporto e chegar em casa depois de uma viagem. Trânsito, filas, esperas por táxis, linhas de ônibus inexistentes entre o Aeroporto e a cidade, confusões na hora de encontrar as malas, falta de informação, falta de acessibilidade… Já imaginaram esses mesmos problemas, enfrentados por milhões de pessoas que não falam português? Quem vai ajudar toda essa gente?
Na ausência de um número significativo de brasileiros que dominem o idioma inglês, um consolo seriam cidades bem sinalizadas para que os estrangeiros pudessem se deslocar sozinhos. Mas, um em cada quatro turistas que visitam o Brasil critica a sinalização das cidades brasileiras – dados de estudo realizado pelo Ministério do Turismo e pela Fipe. Em São Paulo, este número é de 32,7%. Sistemas multilíngües são uma medida simples e muito pouco usada. Assim como guias ou mapas em outros idiomas distribuídos gratuitamente em pontos públicos e privados de visitação. O metrô de São Paulo, por exemplo, tem um ótimo mapa, mas apenas em português.
Outra necessidade imperativa é a mudança de mentalidade de alguns brasileiros. Receber um estrangeiro em seu país deveria ser visto por todos como ter uma visita na própria casa. Mais do que isso, essa “visita” além de tudo ajuda no orçamento doméstico pois traz renda. Mas, enquanto alguns sentem orgulho de mostrar as belezas do nosso país para quem vem de fora, outros se aproveitam dessa situação para “faturar”. Taxistas que rodam sem necessidade ao notarem o sotaque do passageiro, vendedores que cobram mais caro de quem tem euros e dólares, funcionários público impacientes e intolerantes, além de todos os outros problemas que atingem inclusive a nós, brasileiros que vivemos aqui … Enfim, depois de voltar de viagem e ter sido muito bem recebido nos países por onde andei, coloquei-me no lugar do chinês na imigração brasileira e fiquei preocupado.
Confissões de rodapé: Bom ano novo, apesar dos desencantos ….
Andar pela Avenida Paulista na época de natal se tornou um desafio para quem, como eu, transita por lá diariamente por razões alheias às festas de fim de ano. Quem trabalha ou vive na região faz um exercício diário de paciência desviando de famílias que se aglomeram em volta dos palcos, corais, personagens natalinos e prédios decorados com esmero por instituições públicas e privadas.
Confesso que algumas vezes estou com pressa e gostaria que a região onde trabalho estivesse menos tumultuada. Mas, muitas vezes me detive com quem estava passeando pela Avenida Paulista para olhar crianças e adultos tirarem fotos com personagens alegóricos de natal, em frente aos prédios decorados ou assistirem à uma apresentação musical ou teatral. Um dia desses, entrei no Parque Trianon e fiquei por 10 minutos ouvindo um coral cantar. Tive a sensação de me desligar da correria cotidiana e voltei para o trabalho mais leve.
Definitivamente a Avenida Paulista, que recentemente comemorou seu próprio natalício, foi transformada em um espaço de convivência. Pergunto-me se essa mesma iniciativa não poderia – ou deveria – se espalhar para outras regiões de São Paulo e se manter ao longo de todo o ano. Vivemos em uma cidade gigante, com milhões de habitantes que precisam de momentos de lazer para se desligar do stress do dia-a-dia, de locais acessíveis para conviver com amigos e família – de uma cidade mais humana e acolhedora. E assim como a Paulista virou um “parque temático” neste natal, outros espaços públicos podem oferecer à população a oportunidade de desfrutar a nossa cidade.
Essa responsabilidade não ser precisa exclusiva do poder público. Todos podem colaborar com a construção de uma cidade melhor, mais acolhedora. Praças que são adotadas pela vizinhança são um exemplo disso. Com a ajuda de todos, bairros ganham centros de lazer, espaços de encontro que melhoram a qualidade de vida de quem passa um tempo ali. Quando crianças íamos, eu e meu irmão, diariamente a um parquinho perto de casa, na Praça 14 Bis. Era uma diversão, era gratuita e só dependia de um espaço bem conservado e da presença de outras crianças.
Com o cuidado pelos espaços da cidade de São Paulo – por parte do governo, das empresas e da própria comunidade – e posterior ocupação destes locais pela população nos seus momentos de lazer, a cidade seria outra. Vendo a movimentação em torno da Avenida Paulista no natal, pensei no espírito natalino usado para transformar meu local de trabalho em espaço de lazer para tanta gente. Esse espírito poderia ir mais longe. Afinal, o natal é uma das épocas do ano e a gente vive em São Paulo em todos os outros 364 dias. Eu conheço vários outros lugares que merecem uma mudança assim. E você, para onde levaria esse espírito de natal?
Confissões de rodapé: Para quem está na fase dos 40, impossível não se emocionar com a reprise do desenho animado, do final do ano de 1978, da Turma da Mônica, ”Feliz natal pra todos”.
A parada gay de São Paulo reuniu em 2011 nada menos que 4 milhões de pessoas na Avenida Paulista. É considerada a maior do mundo e, este ano teve como tema “Amai-vos uns aos outros. Basta de homofobia”. Infelizmente, outro número faz frente aos milhões de participantes da parada: a quantidade de ataques covardes (e impunes) a pessoas que circulam por São Paulo. Em 2011, foram registradas mais de 10 agressões gratuitas a homens na região da Avenida Paulista.
Onde milhões celebram a diversidade, alguns mostram sua face mais intolerante. E esses poucos mostram que o apelo de 4 milhões está longe de ser ouvido. A cidade que se orgulha de ser cosmopolita e abraçar a todos, assiste calada à uma onda de intolerância. Quantos agressores já foram presos? Quantos foram identificados? Quantas pessoas ainda vão ser agredidas sem nenhuma justificativa?
Na maioria dos casos os agressores chegam em maior número do que os agredidos, aproveitam-se do elemento surpresa (pois ninguém espera ser agredido gratuitamente) e vão embora sem dizer uma palavra. O único que fazem é ferir quem está na rua, pacificamente. Ou seja, sob o estigma de machos valentões, os agressores agem com uma covardia distoante até dos seus distortcidos conceitos e pré-conceitos.
Muitas vítimas não vão ao Distrito Policial registrar queixa para evitar exposição – o número de agressões é maior do que o registrado, e também por medo de não serem submetidos a um segundo constrangimento, embora neste aspecto seja forçoso reconhecer que a Polícia de São Paulo avançou muito.
A estupidez destes ataques sem sentido é um alerta a todos os cidadãos, pois cada ser humano é único e nenhum é igual ao outro – respeitar esta condição é premissa básica para a vida em sociedade. Isso é corolário da civilização antes da democracia.
Poderia tratar aqui da triste questão da incapacidade de aceitação humana, seja de um comportamento alheio, seja da auto aceitação. Mas como sou advogado e não psicólogo, tenho um raciocínio mais simples sobre o assunto: esses agressores têm que ser identificados e processados o quanto antes. Por respeito a cada um de nós e a cada uma das nossas diferenças, pois você que lê este texto também é diferente de mim, certo?
Confissões de rodapé: Um brinde ao inventor do Panetone sem uvas passas e frutas cristalizadas.
AVENIDA PAULISTA 120 ANOS EM CORES – Crédito: Fábio Bonini
AVENIDA PAULISTA 120 ANOS em PB – CRÉDITO: Fábio Bonini
2012
2011
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