De uns anos para cá, um tipo diferente de “pedinte” circula pelas calçadas da Avenida Paulista ou outras de grandes cidades brasileiras. É praticamente impossível cruzar certos trechos sem ser abordado por essas pessoas. São ativistas de ONGs que atuam nas áreas humanitárias, ecológicas, culturais, entre outras. Uma atitude nobre? Não sei dizer…
Perguntas como: “Você tem um minuto para mudar o mundo?”; “Oi, quer salvar uma vida hoje?” são deflagradas a todos que estejam passando, tenham estes tempo ou não, para pensar, refletir, reagir e responder. Em grande parte, a resposta ao ativista é negativa. Isso, não necessariamente, acontece por desacordo com sua causa. Quem diz não pode estar simplesmente com pressa ou ainda já efetua sua contribuição de outra forma. Mas, a abordagem, o apelo e a gravidade do tom utilizado pode deixar uma sensação contrária…
Existem hoje no Brasil (e no mundo) diversas maneiras de se levantar fundos para instituições e organizações não-governamentais. Empresas reconhecem a importância de associar sua marca a boas causas. Em sua maioria, têm inclusive um orçamento anual destinado à responsabilidade social, por exemplo. Uma conversa franca e direta com os responsáveis dentro dessas empresas não seria uma maneira mais produtiva de se conseguir dinheiro?
É claro que o cidadão também pode – e deve – contribuir com as instituições nas quais acredita. Defendo a participação social, a militância. Assim como o uso da comunicação: as redes sociais, por exemplo, tem se mostrado bastante eficientes na mobilização das pessoas… E sim, são questões urgentes para as quais toda ajuda é bem vinda e necessária. Porém, o peso da chantagem emocional na conquista de simpatizantes ou colaboradores para estas causas, me causa um certo desconforto.
Sinal de que os ativistas e suas causas deixaram sua marca… Prova de que o marketing da culpa cumpre seu objetivo? E, se sim, é por que é realmente necessário? Eu, sinceramente, preciso de mais que um minuto para responder.
Confissões de rodapé: Eu olho as orquídeas da varanda e as invejo.
Trabalho na Avenida Paulista e convivo diariamente com todas as “tribos” de São Paulo. Sair na hora do almoço inclui cruzar com pessoas de várias idades, posturas, profissões, hábitos. Do advogado engravatado ao motoboy, da secretária ao estudante, todo tipo de gente passa pela Paulista. E passa a pé, de moto, de carro, de ônibus e metrô.
Tão eclética quanto a identidade das pessoas por aqui, é a variedade de meios de transporte – esqueci de falar dos ciclistas e skatistas, cada vez mais abundantes. Por isso é normal ver uma disputa quase selvagem entre pedestres, motos, carros, ônibus. Todo mundo no limite do espaço alheio, e da própria segurança.
Talvez por isso, a Avenida Paulista esteja entre as áreas escolhidas pela Prefeitura como “Zonas Máximas de proteção ao Pedestre”, uma campanha pela redução de atropelamentos. Nestas áreas, orientadores de tráfego vão fiscalizar intensamente as faixas de pedestres, colocar bandeiras em frente aos carros para as pessoas passarem. Agentes da CET também irão atuar, e as multas para quem não respeitar a faixa de pedestre serão aplicadas.
Mas o que fazer com quem insiste em atravessar fora da faixa? Faixas de pedestre existem aos montes na Avenida Paulista, maior ainda é o número de pessoas que preferem “cortar caminho”. O Edifício Scarpa (entre a Rua Peixoto Gomide e a Alameda Ministro Rocha Azevedo) fica entre duas faixas de pedestre, que estão no mesmo quarteirão. Mas tem gente que trabalha lá e escolhe atravessar entre as duas faixas, ao invés de andar cerca de 8 metros, para a esquerda ou para a direita, e cruzar a avenida como manda o figurino e a lei. Não vou citar nomes, porque são amigos meus, que inclusive já entraram em discussões tensas com os motoboys com quem cruzaram – no meio da avenida e fora da faixa de pedestre.
Este é apenas um exemplo, entre tantos outros que denunciam os maus hábitos dos pedestres. No ano passado foram mais de 7 mil atropelamentos só no município de São Paulo. A cidade lidera este triste ranking com mais do dobro de atropelamentos que o segundo colocado, o Rio de Janeiro, com cerca de 3 mil casos. Parte mais vulnerável na “guerra do trânsito” de São Paulo, os pedestres representam quase 50% dos mortos em acidentes.
Culpa dos motoristas que não respeitam as normas e abusam da velocidade e culpa dos pedestres que se arriscam desnecessariamente. Na frente dos Shoppings Eldorado e Morumbi, outros exemplos cotidianos de irresponsabilidade: sempre tem alguém atravessando a rua por baixo de uma passarela. Sim, tem uma passarela que liga os Shoppings aos pontos de ônibus e as pessoas cruzam a rua por baixo das passarelas – por baixo!
Além destes lamentáveis exemplos, gente imprudente atravessando ruas e avenidas sem medir riscos pode ser encontrada em todo lugar, infelizmente. São dezenas de flagrantes diários de atropelamentos que poderiam ser evitados se o pedestre optasse por andar um pouco mais até a faixa, ou subir na passarela, ou esperar o farol fechar para os carros.
A faixa, o semáforo e a passarela estão lá para você que quer atravessar a rua. Use-os. É para o seu próprio bem. Não adianta educar motoristas se o pedestre não for educado e inteligente. Na disputa por espaço com carros, motos e ônibus, quem se dá mal necessariamente é o pedestre. Entendeu?
Confissões de Rodapé:Pô….
Acabo de chegar do banco onde ouvi uma péssima piada… A crítica bem-humorada e a profusão de piadas sobre os costumes estão entre as características nacionais mais cultivadas. A piada é uma verdadeira instituição brasileira, não havendo assunto nem pessoa imune aos comentários jocosos, às observações agudas e cáusticas que surgem quase espontaneamente nas rodas de amigos. Políticos de qualquer matiz, padres, rabinos, pais de santo, professores, alunos, times de futebol, artistas de novela, joãozinhos, mariazinhas, calvos, narigudos, mineiros, caipiras, gaúchos, cariocas, … Qualquer um pode virar, e no Brasil, vira, motivo de piada nos bares, nas esquinas, nos cafés das empresas, nos velórios.
Recentemente vem ganhando espaço uma forma de gozação mais agressiva, que já há algum tempo não se via, a chacota escrachada e de baixo calão baseada quase exclusivamente nas características físicas, culturais e étnicas das pessoas. Humor de baixa qualidade, covarde como todo preconceito. É o humor à custa do insulto. Tolerar a intolerância travestida de piada é uma das contradições da Democracia moderna, pois se trata de garantir as liberdades de pensamento e de expressão que representam a pedra angular da sociedade verdadeiramente livre e democrática. Deixar que o governo decida o que é e o que não é adequado produzir em termos culturais é o primeiro passo rumo à tirania. Não cabe ao Estado regulamentar o humor nem definir critérios do que pode e do que não pode virar anedota, editando, por exemplo, uma tal cartilha do “politicamente correto”, a quintessência do ridículo. Ridendo castigat mores, pelo humor se modificam os costumes, já disse Molière, que nos palcos da Europa fazia a corte e a burguesia rirem de si mesmos, gostosamente.
Nas últimas eleições, sob a justificativa risível de “preservar a seriedade do pleito eleitoral, proibindo a sabotagem e os prejuízos à imagem dos candidatos durante o processo eleitoral”, o TSE quis censurar a produção e divulgação de tirinhas, cartuns, piadas e comentários sobre candidatos e candidaturas. Censurar os políticos seria mais eficiente, já que são eles os autores e protagonistas dos gracejos mais infames e que nos fazem chorar na vida real.
Ganharam a companhia de um palhaço – de verdade. Será que agora aprendem a diferença entre a graça e o deboche?
Confissões de Rodapé: Quando será que aboliremos o uso de uniforme europeu (terno e gravata) no Brasil?
Depois de escrever sobre as matérias básicas, que são pouco assimiladas pelos alunos da rede estadual aqui em São Paulo, fiquei com essa figura na cabeça, de que alguns políticos – e até alguns educadores – valorizam demais o “topo da pirâmide” educacional. A prioridade não está na educação fundamental.
Infelizmente, minha teoria se comprova com dados oficiais: o Estado de SP gasta cerca de 8,5% do orçamento com universidades e 22% com ensino fundamental. São números que parecem corretos, levando em conta as porcentagens: mais investimento no ensino fundamental, certo? Não. Infelizmente, quando se analisa os números relativos descobrimos que nas universidades estão 400 mil pessoas e no ensino fundamental, 5 milhões. Logo, o investimento no ensino fundamental deveria ser, relativa e efetivamente, muito maior.
Mais uma vez me pergunto por que não começar pelo começo, simples assim. Pelos resultados do Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do estado de São Paulo) fica claro que os estudantes não aprendem como devem as matérias básicas. Logo não tem condições de brigar por uma vaga nas universidades. Numa equação injusta, as públicas são as mais concorridas e as mais indicadas para quem, por falta de recursos, cursou o ensino fundamental e médio na rede pública. A política de cotas não resolve o problema.
Um investimento maior no ensino superior se justificaria totalmente se todos tivessem acesso à esta etapa da formação educacional/profissional. Quantos estudantes da rede pública estadual efetivamente vão para uma universidade? Uma parcela pequena, deste impressionante universo de 5 milhões de alunos. Muitos saem da escola sem “conhecimento suficiente”, como nomeia a própria avaliação do governo, em matérias fundamentais como matemática e português.
Esses vão direto para o mercado de trabalho, no qual sua escolaridade não é testada como nas provas de vestibular e podem ganhar algum dinheiro em funções que não exijam diploma de curso técnico ou superior. Pior do que isso é a descrença que a maioria dos estudantes têm na importância da educação para seu futuro. “Faculdade não enche barriga. O que enche barriga é a correria que dou todo dia”, assim resumiu o Felipe, um dos motoboys que presta serviços aqui para o escritório.
Ele completou, por uma exigência da mãe, os estudos – em uma escola da rede estadual. Muitos como Felipe não viam a hora de terminar o ensino médio para poder trabalhar período integral. Para eles, a escola era vista como um atraso de vida. A pergunta que deixo é: quando iremos, efetivamente, avançar?
Confissões de Rodapé: Quem muito fala acaba dando bom dia pra cavalo…
A Dinamarca é considerada uma democracia moderna. Naquele país nórdico, forjado pelos famigerados Vikings, é livre e universal o direito ao voto, as instituições públicas são sólidas, os direitos fundamentais do cidadão, como liberdade religiosa, de opção sexual, de manifestação de pensamento e tantos outros são respeitados e garantidos. Igualmente, o acesso à educação e saúde de qualidade, bem como à qualificação profissional e aos demais benefícios sociais são exemplares e figuram entre os mais avançados do planeta. O dinheiro do petróleo explorado no Mar do Norte, as indústrias de tecnologia de ponta e o alto nível educacional colocam a Dinamarca há tempos entre as nações com melhor qualidade de vida do mundo.
Mesmo assim, ou até por isso, muitos dinamarqueses vêm defendendo a idéia de limitar a entrada de imigrantes, pois, segundo declarou recentemente seu Ministro da Integração, são eles os maiores consumidores de serviços essenciais promovidos pelos impostos dos dinamarqueses, que contudo não geram renda suficiente para custeá-los. Além disso, também declarou aquela autoridade, “alguns grupos de imigrantes são mais representados nas estatísticas de criminalidade.” Não se trata de segregação, mas da imposição de um “controle alfandegário”.
Para o ministro dinamarquês, os dinamarqueses que são favoráveis à adoção de um “controle alfandegário” visando dificultar o acesso de alguns grupos ao país entendem que não querem ver mudanças negativas em suas realidades, nem alterações no seu modo de vida, que tanto apreciam e que corre o risco de ser transformado pela cultura alienígena que livremente se instala naquele país.
São Paulo é a cidade mais rica e cosmopolita do Brasil e da América do Sul. Basta caminhar pelas suas ruas e praças para reconhecer rostos de toda parte do mundo. Parte dessa população, orgulhosa de sua história, das suas conquistas e de sua cultura, compartilha do sentimento expresso pelo ministro dinamarquês e não gostaria de facilitar aos imigrantes de sua própria cidade o acesso aos bairros mais sofisticados. Quer preservar suas famílias tradicionais daquela “gente diferenciada” que quer invadir sua praia exibindo seus rostos pelas praças, destoando da decoração das vitrines dos sofisticados shopping centers, marcos da elevada qualidade de vida à duras penas conquistada.
Pelo jeito, há algo de podre no reino na Dinamarca que Hamlet jamais pensou que fosse possível exportar para o Brasil.
Confissões de Rodapé: Jabuti não sobe em árvore …
“É melhor não querer saber como são feitas as leis e as salsichas”. Esse dito, ou seu sentido, parece ter inspirado matéria recente da revista EXAME (ed. 0990, de 20/4/2011), sobre um escritório de advocacia recém-formado que desenvolveu uma nova forma de prestação de serviços advocatícios segundo o modelo de negócios dos grandes varejistas e das empresas aéreas de baixo custo, focadas de forma obssessiva na redução das despesas.
Algumas medidas para alcançar esse objetivo: Abdicar do glamour associado aos grandes escritórios de advocacia, estabelecendo-se fora dos centros comerciais mais valorizados; criar uma infraestrutura enxuta visando o melhor aproveitamento dos espaços e equipamentos; tirar o máximo proveito dos recursos disponíveis, até o limite da capacidade instalada; organizar a mão-de-obra em modo multitarefa, e, claro, estabelecer uma política de remuneração baseada em resultados por volume de trabalho.
Numa rede de supermercados ou mesmo na linha de produção de uma salsicharia (comparação usada pela revista), essas medidas soam adequadas, e, mesmo, necessárias para a sobrevivência do negócio. É quase um modelo moderno de gestão. Em grande parte dos setores de serviços, também. Veja-se o caso dos Planos de Saúde: A legislação básica, o Código de Defesa do Consumidor e a Lei dos Planos de Saúde os classificam como “produto” ou “serviço”, mas com a qualidade de servir ao interesse público superior, que é cuidar da saúde, garantir a vida e preservar a dignidade humana.
No Brasil, a Ordem dos Advogados proíbe a prestação de serviços de advocacia na forma de plano, com pagamento de boleto (carnês) e o recebimento dos honorários por meio de cartão de crédito. Para a OAB não se pode “mercantilizar” a advocacia, conceito inspirado pela lição de Rui Barbosa, na sua lapidar “Oração aos Moços”; naquele discurso, o já experiente advogado dirigia-se aos juízes recém-empossados, alertando-os para “Não fazerem da banca, balcão, ou da ciência, mercatura”. Romântico? Sim, mas, na essência, correto. Tratar a defesa da dignidade ou da vida como mercadoria é realmente aviltante. Contudo, há uma parte significativa dos serviços jurídicos que, realmente, pode ser comparada com uma mera prestação de serviços para os quais esse desenho de negócio funciona.
Não se trata de simplesmente criticar os escritórios que adotaram esse modelo, nem desqualificar os profissionais que neles atuam. Trata-se de um alerta: Reduzir todo e qualquer serviço à relação consumerista, na qual a defesa de direitos se resume aos limites impostos pelos “produtos” vendidos segundo as leis do mercado, não pode dar boa coisa. Sobretudo num país que tem ainda tanto a consolidar em termos de garantia efetiva de direitos dos cidadãos.
Mas há casos em que a prestação deste serviço (Justiça) pode ser mais digna e eficiente se estiver ao alcance de mais cidadãos, não?
Confissões de Rodapé: Se o boi engordasse apenas com o olho do dono, o codigo florestal não dava tanta briga…
Natália, sobrinha de uma conhecida, anda feliz com seu resultado no SARESP. Assim como ela, todos os alunos da rede estadual de ensino de São Paulo passam por essa avaliação anualmente. O Saresp é o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. Os resultados do ano passado indicaram uma piora nas notas de estudantes da 9ª série do ensino Fundamental e da 3ª série do Ensino Médio, em comparação com 2009. A queda no resultado do Saresp trouxe também uma diminuição do Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (Idesp), que usa as notas do Saresp e os dados de aprovação, reprovação e abandono escolar em sua análise.
Entre muitos números, médias e considerações, um dado me chamou a atenção: apenas 0,3% dos estudantes da 3ª série do ensino médio apresentaram conhecimentos avançados em matemática e 0,6% em língua portuguesa. A 3ª série do ensino médio é o último ano em que os estudantes estão na escola, depois vem o vestibular e, com sorte, a faculdade. Desta avaliação, podemos concluir que menos de 1% dos alunos que terminam os estudos em escolas estaduais em São Paulo, tem conhecimento avançado em matemática e português – matérias básicas em qualquer vestibular e na vida social destes alunos.
Ainda mais grave do que constatar que pouquíssimos alunos têm conhecimentos avançados em português e matemática é descobrir os índices de insuficiência de conhecimento nestas disciplinas: 57,7% dos examinados tiveram resultado insuficiente em matemática e 37,9% em língua portuguesa. Ou seja, os alunos da 3ª série do ensino médio, que estão deixando a escola estadual para tentar uma vaga no vestibular, ou no mercado de trabalho, não aprenderam bem as matérias básicas.
O que também acontece todos os anos são as propostas de inclusão de disciplinas na grade curricular do ensino público. Projetos de lei são elaborados por Deputados Estaduais e decidem a inclusão de matérias como filosofia, língua espanhola, sociologia, educação ambiental, teatro e outras muitas na grade regular das escolas públicas. Em São Paulo, onde os alunos da rede estadual não sabem bem matemática e português, existem projetos de lei para que as escolas públicas passem a ensinar Religião e até educação no trânsito, entre outras disciplinas “alternativas”.
A inclusão de novas matérias é vista – por quem as sugere – como proposta de melhoria para o ensino. Na escola onde os professores não conseguem ensinar bem as disciplinas básicas, querem outros professores, para ensinar outras coisas. E as matérias básicas? Qual a proposta para melhorar seu aprendizado? Uma proposta para esta questão é muito mais importante do que as propostas de inclusão de novas disciplinas.
Investimento na capacitação e reciclagem dos professores. Aumento salarial. Contratação de novos professores para reforçar o estudo de matérias básicas. Sistema de manutenção dos prédios escolares. Salas deinformática que funcionem e com projetos de monitoria para envoilver os alunos. Aulas extras. Diminuição do número de alunos por classe, priorizando uma atenção mais individualizada. Mais horas por turno escolar. Aumento da carga para o Ensino médio aos sábados, inclusive. Estas são algumas idéias que deveriam vir antes de qualquer “nova” matéria.
Tenho vontade de perguntar aos que propõem a inclusão de novas disciplinas se eles sabem que as disciplinas básicas não estão sendo assimiladas pelos alunos do ensino público. O nome “básica” não vem a toa. Em qualquer construção, a base é o mais importante, o que vem primeiro, né? Aqueles que sugerem que alunos que não sabem bem o português, estudem filosofia nas horas que passam na escola, começam construindo uma casa pelo telhado?
Confissões de Rodapé: O berro vem junto com o cabrito…
Domingo passado, no caminho entre a Av. Ibirapuera e a Avenida Cidade Jardim fui ultrapassado por um casal de ciclistas que desfrutava da ciclofaixa de lazer… O homem venceu a máquina?
Em um evento que já acontece há três anos, o Desafio Intermodal, esse teste é feito de forma mais profissional: condutores e seus diferentes meios de transporte se deslocam entre dois pontos da cidade. A bicicleta venceu as duas primeiras edições e foi a segunda colocada no ano passado, perdendo para uma motocicleta por parcos 36 segundos de diferença.
A opção pela bicicleta como meio de transporte vem ganhando adeptos e a construção de ciclovias é uma idéia tão boa quanto simples. Porém, a maior cidade da América do Sul tem somente 37,5 quilômetros de ciclovias e outros 45 quilômetros de ciclofaixas de lazer, e que funcionam somente aos domingos. A Prefeitura já anunciou para 2012 a adição de novas faixas para alcançar a marca dos 100 quilômetros mas, ainda assim, será pouco.
E, vejam que curioso: para incentivar a modalidade, 50 ciclistas voluntários criaram os “Bike Anjos”, um grupo especializados em ensinar aos novos adeptos as malícias de quem enfrenta o trânsito entre os carros, ônibus, motos, caminhões e pedestres. A iniciativa é bem legal, mas não deveria ser necessária. O compromisso deveria partir principalmente do poder público.
Uma pesquisa sobre mobilidade urbana divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicado (Ipea) constatou que de cada 100 brasileiros apenas 7 (sete) usam bicicletas como meio de transporte. São pessoas que chegam aos seus destinos sem causar poluição sonora ou visual. E, com certeza, chegam menos estressados e mais saudáveis.
Precisamos de mais ciclovias, de mais campanhas educativas e também, quiçá, ultrapassar mais que os carros, os velhos tabus urbanos. A rádio Eldorado coloca seus bike-repórteres para nos indicar os melhores caminhos e confesso que ouço envergonhado… Sou mais um entre outros milhões de paulistanos a me proteger do sol, calor e caos do tráfego urbano dentro da minha “super máquina” de 2000 cilindradas…
A cidade nos mostra, das mais diversas formas, que é preciso e possível mudar os caminhos. Até quando iremos esperar para ultrapassar os tabus urbanos, sair do insustentável conforto e experimentar outras formas de viver e andar por São Paulo?
Confissões de Rodapé: Nada é melhor para o humor que começar o dia suando…
2012
2011