Os japoneses são acostumados a terremotos: mais de mil por ano são sentidos por quem mora no país. Eles recebem treinamentos e suas construções são adequadas aos abalos. Mas isso não foi suficiente para evitar danos a reatores nucleares, no terremoto de 11 de março de 2011, acompanhado por um tsunami. A radiação produzida pelo homem se somou ao desastre natural.
Com muito mais recursos naturais que o Japão, o Brasil tem como principal fonte energética as hidroelétricas. E temos usinas nucleares – Angra 1 e Angra 2, com uma terceira em construção. O que nos falta é o preparo dos japoneses para lidar com desastres naturais.
Depois que as usinas japonesas mostraram sua fragilidade, veio a preocupação com as usinas brasileiras. E uma constatação alarmante: no caso de Angra dos Reis não existe abrigo e nem rota de fuga. A rodovia BR – 101, conhecida como Rio-Santos, não oferece nenhuma condição para que a população seja evacuada em caso de acidente. Os possíveis abrigos como escolas, ginásios e o Colégio Naval de Angra dos Reis não possuem vedação contra radiação.
Mesmo se existissem abrigos e uma rota de fuga, a população não saberia como agir. Não há treinamento. Até existem, mas eles envolvem a população a cada dois anos apenas. E como não existe nenhuma lei que obrigue a participação, a convocação é feita de forma voluntária e a presença varia entre 300 e 600 pessoas. As usinas ficam em Angra dos Reis, uma cidade turística com 180 mil habitantes. Está distante 372km de São Paulo e 152km do Rio de Janeiro. Sendo otimista, um eventual acidente nuclear iria afetar 400 mil habitantes.
Uma Comissão temporária Externa do Senado foi criada para fiscalizar a situação das usinas nucleares brasileiras e visitou Angra. Constataram o que está escrito acima e ainda revelaram a falta de equipamentos e profissionais em número suficientes para atender a comunidade – que não vai ter como fugir nem onde se esconder. Dando seqüência ao despreparo frente um possível (sim, é possível) desastre, temos um depósito de lixo nuclear estocado em tonéis lacrados dentro de um galpão, a poucos metros dos prédios dos reatores.
Depois de Fukushima, (alguns) brasileiros voltaram sua atenção às usinas nucleares do país. O despreparo para uma situação de emergência não é surpresa, talvez nunca tenha sido. Mas a tragédia no Japão aponta para necessidades brasileiras. Um acompanhamento da situação das usinas, com apresentação de relatórios públicos, e a criação e implementação de um plano de ação em caso de acidentes nucleares são fundamentais. Talvez não enfrentemos terremotos ou tsunamis, mas precisamos enfrentar a nossa histórica falta de responsabilidade. Não?
Confissões de rodapé: Bateu vontade de largar o Brasil e voltar pra China. Pena que é longe.
Escrevo este post cutucado por Natasha, jogadora de rugby. Ela está sem o Bolsa Atleta, programa da Secretaria Nacional de Esportes de Alto Rendimento que ajuda financeiramente atletas nacionais. O benefício não está sendo pago em 2011. O Ministério afirma que está dando prioridade aos esportes olímpicos e o rugby, apesar de fazer parte do programa olímpico brasileiro, não está entre os contemplados.
Diz Natasha que tem cutucado também os amigos jornalistas para abordar o tema mas a imprensa esportiva brasileira ainda dedica 90% do seu espaço e tempo ao futebol masculino, o esporte dos milhões – milhões em salário e publicidade para os jogadores. Milhões aos clubes. Às TVs e a CBF então…
À Confederação Brasileira de Rugby foi destinado aproximadamente R$ 1 milhão para a seleção masculina, aprovado na lei de incentivo junto ao Ministério do Esporte. O valor foi comemorado como uma grande vitória mas na verdade é irrisório quando comparado aos valores que são investidos em futebol (direta ou indiretamente). O salário de alguns jogadores de futebol – e nem precisa ser de nível de seleção - é equivalente ao que a seleção brasileira de rugby conseguiu como verba para um ano inteiro.
Disputado em mais de 120 países, o rugby também movimenta milhões: a audiência da última Copa do Mundo superou 4 bilhões de pessoas. A Copa do Mundo de Rugby é o terceiro maior evento esportivo do mundo. O rugby é o esporte coletivo que mais cresce em número de praticantes e, em 2010, voltou a ser um esporte olímpico. Curioso que tenha chegado ao Brasil junto com o futebol, mas que ainda receba investimentos infinitamente menores… Enquanto isso, o Avaí, time do coração do maior tenista brasileiro de todos os tempos, Guga Kuerten, mas que oscila entre a primeira e a segunda divisão do futebol brasileiro, anunciou um investimento de cerca R$ 35 milhões no futebol profissional até o final da temporada.
O mesmo não acontece com outras seleções ou atletas que representam o Brasil. O rugby, por exemplo, fechou contratos de patrocínio com a Topper e o Bradesco. Os valores não foram divulgados mas certamente estão bem abaixo dos R$ 35 milhões anunciados pelo Avaí.
O valor recebido pelas seleções e Rugby não é suficiente para que os atletas se dediquem exclusivamente ao esporte – como deveria ser. A maioria trabalha e estuda, além de treinar. A capitã da seleção feminina, por exemplo, acorda às 5h30 para fazer musculação e treina após o trabalho de professora. Outras atletas trabalham durante o dia, estudam à noite e treinam de madrugada.
Aliás, por justiça, ressalto que a Seleção Brasileira Feminina de Rugby é 7 vezes campeã Sulamericana e 10ª colocada no ranking mundial do International Rugby Board – IRB, posição que as coloca à frente da nossa seleção masculina…
Já para o futebol, a prioridade é tanta que a página do Ministério dos Esportes na internet tem uma seção exclusiva para o esporte “nacional” quando a verdade é que existem outros esportes nacionais, praticados no Brasil e por brasileiros.
O rugby é só um exemplo. Assim como tantos outros esportes, que recebem investimentos inferiores aos salários de um time de primeira divisão de futebol. O governo federal poderia atuar no vácuo financeiro deixado pelo monopólio esportivo do futebol. Quantas Daiane dos Santos estão abrindo mão de treinar para trabalhar? Quantos César Cielos deixaram de nadar porque não podem pagar a mensalidade de um clube ou academia? Quantos esportes estão esperando para também se tornarem esportes “nacionais”?
Confissões de rodapé:Não sei extamente porque as mulheres pensam que somos capazes de compreender os diferentes tons de rosa do esmalte que elas usam nas unhas do pé.
O acesso à informação nunca foi tão rápido, fácil e diversificado. E mesmo na comunicação “moderna”, um hábito antigo se faz presente: a mídia dá preferência ao que é negativo, pejorativo, trágico, errado. A mídia alimenta a sociedade com as informações que a sociedade devora.
Infelizmente, são hábitos “alimentares” pouco saudáveis e nutritivos. A boa notícia (sim, elas existem) é que com a quantidade de informação disponível na internet, cada um pode selecionar para si o que há de melhor.
Longe de defender que escândalos políticos não sejam denunciados, defendo que políticos que se destacam pelo trabalho sério tenham o mesmo espaço. Na última eleição o palhaço Tiririca e sua expressiva votação tiveram um espaço incrível na mídia. Mesmo depois de eleito, Tiririca foi pauta obrigatória com seu suposto analfabetismo, seu voto “errado” sobre o valor do salário mínimo, seu primeiro dia de trabalho. Não podemos deixar de lado o fato de um comediante ter recebido a maior votação para Deputado Federal do país. Devemos inclusive pensar bem no que levou o brasileiro a escolher um palhaço, em detrimento de tantos políticos.
Mas o fato é que outros deputados também merecem destaque. José Antônio Reguffe (PDT-DF) foi proporcionalmente o mais bem votado do país com 18,95% dos votos válidos do DF. Estreou na câmara em grande estilo: abriu mão dos 14º e 15º salários que os parlamentares recebem, de toda verba indenizatória, de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia, tudo em caráter irrevogável. Reduziu sua verba de gabinete, o número de assessores e a cota interna do gabinete em mais de 80%.
Em quatro anos de mandato, o deputado vai economizar mais de R$ 2,3 milhões dos cofres públicos. “Esses gastos excessivos são um desrespeito ao contribuinte”, explicou Reguffe em discurso no plenário. Se os outros 512 deputados pensassem assim, a economia aos cofres públicos seria superior a R$ 1,2 bilhão. Quem não gostaria de ler esta notícia?
Talvez esta seja a pergunta fundamental: Quem gostaria de ler boas notícias? Se a resposta parece óbvia – todos – a realidade é outra. Como exemplo, podemos citar o youtube, onde o internauta escolhe o vídeo ao qual quer assistir. O site é responsável por “fabricar” celebridades na internet. A última foi um garoto australiano, que reage a uma agressão. Todos sabem quem é Casey Heynes, ou pelo menos já viram o vídeo do “gordinho” que se tornou ídolo por reagir ao bullying escolar. O vídeo correu o mundo, gerou matérias, entrevistas com o garoto e sua família e até games.
No mesmo youtube, encontramos diversos vídeos sobre Ryan Hreljac. O garoto canadense que com 6 anos descobriu que crianças morriam de sede no continente africano. Com 8 anos, Ryan conseguiu arrecadar na comunidade onde vivia os 2 mil dólares necessários à perfuração de um poço de água numa vila ao norte de Uganda. Aos 19 anos, ele tem sua própria fundação e já entregou mais de 400 poços de água que fornecem água para cerca de 500 mil pessoas. Uma história verdadeiramente heróica, mas que foi vista por menos de 1/10 das pessoas que vibraram com Casey.
Possivelmente as pessoas não estejam acostumadas a buscar boas notícias, mas o mundo está cheio de bons profissionais, ativistas com histórias incríveis, exemplos de solidariedade, inteligência, feitos extraordinários. Quem recebe informações positivas tem uma perspectiva mais estimulante e tende a ter atitudes coerentes com isso.
Os políticos normalmente tornam-se notícia por desvios de conduta. Divulgar os feitos positivos dos homens públicos pode ensinar à população que existe essa possibilidade dentro da política. Se boas condutas fossem melhor divulgadas – e pesquisadas pelos eleitores – talvez também fosse outro o desenho do nosso congresso. Quem tem coragem para atirar a primeira rosa?
Confissões de rodapé: Leio meu jornal na padaria. Às vezes tenho a sensação de que faria bem também a alguns jornalistas frequentar mais padarias pela manhã.
2012
2011