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Fábio Bonini

Muito se fala das obras e da infraestrutura que precisa ser construída para recebermos a Copa do Mundo em 2014. Mas, talvez a maior reforma necessária seja a da postura dos torcedores brasileiros. A paixão pelo futebol e pelos times é usada como justificativa para violência de todo tipo. No final de março, uma pessoa morreu em um conflito entre palmeirenses e corintianos. Uma vida perdida estupidamente, assim como tantas outras em tantos outros conflitos.

Nos estádios, as torcidas (que não devem ser organizadas no atual modelo) precisam ficar separadas e a chegada e a saída de torcedores precisam ser cuidadosamente planejadas – lamentável que por causa de times diferentes estas pessoas não podem sequer se encontrar nas ruas. Comboios e esquemas envolvendo transporte público e operações de trânsito são armados para evitar qualquer contato entre os torcedores. Será que torcedores de outras seleções, vindos de outros países, vão precisar se enquadrar nestes esquemas para poder circular com segurança pelo Brasil?

A postura dos torcedores brasileiros quando a seleção canarinho entrar em campo me preocupa mais do que o desempenho dos nossos jogadores. Num país onde torcidas adversárias não podem se encontrar, como serão recebidas as torcidas de outros países? E qual será a atitude de corintianos, flamenguistas, gremistas, são paulinos, palmeirenses e torcedores de tantos times brasileiros quando eles estiverem misturados, todos do mesmo lado do “cordão de isolamento”? Os mesmos torcedores que promovem espetáculos de violência nos campeonatos nacionais e estaduais estarão nas arquibancadas da Copa do Mundo.

E, pior, terão acesso a bebidas alcoólicas durante os jogos. A proibição do consumo de cerveja diminuiu em 70% a violência nos estádios de Belo Horizonte, por exemplo. Além dos conhecidos efeitos da turba (a “personalidade” da massa domina a personalidade dos indivíduos que a compõe), o álcool potencializará este e outros problemas de comportamento de nossos torcedores causando toda sorte de conflitos, acidentes de trânsito e atropelamentos. Mesmo em eventos esportivos em que a violência entre torcidas não assusta, é proibido beber dentro e ao redor dos estádios. O que já é horroroso, ficará pior.

Um evento esportivo deve ser motivo de confraternização, de integração entre as pessoas e de alegria. Receber bem os turistas e torcedores das seleções adversárias é fundamental. Evitar qualquer tipo de violência associada ao futebol é uma obrigação – legal e moral. A realização da Copa do Mundo é sem dúvida um grande desafio para o Brasil e este desafio vai muito além da construção de estádios e da performance da própria seleção (aliás, 2 aspectos em que as coisas também não vão bem). O país do futebol precisa mudar a postura do torcedor de futebol. Além dos nossos craques, nosso povo também será protagonista na Copa. Resta saber se estamos preparados para isso. Será que estamos?

 

Nota de Rodapé: Saudades do tempo em que se podia realizar rodadas duplas (2 jogos no mesmo dia em horários consecutivos) no futebol ….

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No dia 22 de março foi comemorado o Dia Mundial da Água. Infelizmente, no Brasil não temos muito para comemorar, apesar da ideia de abundância de água por aqui ser amplamente divulgada. Realmente, o Brasil tem a maior reserva de água doce do planeta – cerca de 12%, porém o índice de desperdício é altíssimo e chega a 70% em alguns casos. Outro número preocupante é a parcela da população que não tem acesso tratamento de esgoto: 60% dos brasileiros. E a falta de saneamento básico, além de questão de saúde pública leva a outro triste cenário: a poluição.

Uma pesquisa realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica analisou 49 rios, córregos, ribeirões, represas, lagos e açudes em 11 estados brasileiros entre janeiro de 2011 e março de 2012.  O levantamento constatou que nenhum (nenhum!) dos corpos de água analisados pode ser classificado como “bom” ou “ótimo” por causa dos seus níveis de poluição. Dos mananciais pesquisados, 75,5% obtiveram classificação “regular” e 24,5%, o nível “ruim”. Pois é, parece que o país que tem mais água doce no mundo não dá prioridade ao cuidado com este recurso que é esgotável, vale lembrar.

É importante ressaltar também que 68% da água doce do país está na região Norte, onde fica a bacia Amazônica e apenas 8% da população. Já a região Sudeste, com 45% da população, detém apenas 6% de água doce do Brasil e a região Nordeste enfrenta um grave problema de seca. Ou seja, mesmo com tanta água no país, podemos ter (e temos) brasileiros que sofrem com a falta deste recurso indispensável à vida. A preservação dos recursos hídricos será inclusive tema de destaque na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, que acontece em junho no Rio de Janeiro.

A cidade também sediou, 20 anos atrás, a Rio Eco 92. De lá para cá, a boa notícia é que o setor industrial, na época principal poluidor das águas, cumpriu a legislação e passou a tratar seus efluentes. O vilão agora mudou: municípios e cidadãos. Os primeiros tem a obrigação legal de fornecer saneamento básico e acabar com os lixões. De acordo com a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, os municípios têm até 2014 para acabar com os lixões. Os lixões produzem chorume (líquido resultante da decomposição do lixo), que poluem os lençóis freáticos. 

Já os cidadãos tem a responsabilidade de economizar e promover a conscientização a respeito do cuidado que devemos ter com a água. Ainda é comum a cena de pessoas “varrendo” a calçada com esguichos, por exemplo. Isso sem falar nos banhos de horas, na torneira aberta sem necessidade e nos vazamentos que, quando detectados, raramente são consertados como se deve. A ilusão de água inesgotável e abundante pode levar a torneiras secas em pouco tempo. A mudança de comportamento envolve repensar nossos padrões de consumo, já que para a produção de bens de consumo (nem sempre necessários) são gastos milhões de litros de água. Uma calça jeans, por exemplo, gasta 11 mil litros para ficar pronta.

Outros fatores de risco para nossos rios são a erosão causada pelo desmatamento e fertilizantes e insumos agrícolas. Neste aspecto. é particularmente preocupante a aprovação de mudanças no Código Florestal. A cobertura florestal é fundamental na regulação de ciclos climáticos e regime de chuvas, bem como para a preservação de mananciais. Mexer na legislação florestal pode levar a alterações irreversíveis na quantidade de água disponível para nosso consumo. Vale a pena dar mais atenção ao tema e cobrar uma votação responsável da lei.

Em meio a tantas questões envolvendo a água, a certeza é que ela é indispensável à vida. Por esse motivo, em resolução da ONU, a água limpa e segura e o saneamento foram declarados um direito humano essencial para gozar plenamente a vida e todos os outros direitos humanos. Infelizmente, quase 900 milhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável segura e 40% da população mundial não têm acesso a saneamento básico. Se você abre a torneira da sua casa e tem água de boa qualidade, pense nisso. E não aceite a falsa ideia de que para os brasileiros a água está garantida. Não está e precisamos garanti-la para nossos filhos e netos, portanto, feche a torneira, desligue o chuveiro e se ligue neste assunto, ok?

 

Nota de rodapé: Absurda a pressão pela nomeação do primeiro colocado nas eleições do Ministério Público de São Paulo, como se a lei não tivesse dado ao Governador a faculdade de escolher um entre os 3 mais votados.

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Tenho convicção de que boas iniciativas privadas podem ajudar a resolver problemas públicos. A divisão de responsabilidade pode ser muito mais eficiente do que a busca por culpados. É nisso que aposta a nova legislação brasileira do lixo ou, falando corretamente, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010 e que entrou em vigor em 2011. Um dos princípios da nova legislação é a responsabilidade compartilhada entre governo, empresas e população na gestão do lixo. Uma das mudanças é, por exemplo, o retorno de alguns produtos às indústrias após o consumo – as empresas se tornam responsáveis pela destinação correta dos seus produtos quando estes se tornam resíduos. O poder público, por sua vez, tem a responsabilidade de gerenciar os resíduos provenientes da cidade e precisam entregar seu Plano Municipal até agosto deste ano. E a população entra, entre outras coisas, com a separação do material reciclável do material orgânico.

O fato é que muita gente já reconhece a importância de se separar o lixo e faz isso há algum tempo. E o que acontece com o lixo separado pelo paulistano? Grande parte do material reciclável vai parar nos aterros sanitários, porque não existem cooperativas ou usinas de reciclagem (como as que já funcionam nos EUA) para receber todo o material separado. Na verdade, as empresas que fazem a coleta do lixo reciclável devem obrigatoriamente levar os resíduos para as cooperativas cadastradas pelo poder municipal e muitas delas estão operando em sua capacidade máxima. Outras têm dificuldades operacionais, que vão de maquinário a mão de obra qualificada. O resultado é que o lixo que a população separa, que já é uma parte muito pequena do lixo produzido em São Paulo, vai para o aterro e não para a reciclagem.

Outra diretriz da Política Nacional de Resíduos Sólidos é a lei que consagra justamente o viés social da reciclagem, com participação formal de catadores organizados em cooperativas. As cooperativas são contratadas pelo município e, dentro da formalidade, oferecem aos cooperados renda e qualidade de vida – os riscos à saúde dos trabalhadores são reduzidos, com treinamento e condições de trabalho dignas. Teoricamente, eles não precisariam acumular as funções de triagem e catador, porque o material reciclável chegaria em abundância nos caminhões de coleta da prefeitura. Infelizmente, a própria coleta seletiva não ocorre dentro do programado e os atrasos e mesmo ausência de caminhões que realizam este trabalho são constantes em São Paulo.

Olhando para este quadro triste: problemas na coleta e destinação da pequena parcela de lixo que é separado como material reciclável, me vêm à cabeça os bons exemplos da iniciativa privada neste cenário. Redes de supermercado que disponibilizam eco-pontos de coleta para a comunidade, bancos que recolhem pilhas e celulares (um dos lixos mais tóxicos que existe), empresas que trabalham na descoberta de novas tecnologias de gerenciamento de resíduos, indústrias que investem no reflorestamento… Me pergunto se não seria melhor abrir ainda mais o leque de atuação da iniciativa privada no cenário de gestão do lixo. Se a ideia é justamente compartilhar responsabilidades, será que a prefeitura não poderia ampliar a destinação de material reciclável para outras cooperativas? Ou então investir, juntamente com empresas interessadas, na criação ou desenvolvimento de outros centros de triagem? Além dos danos ambientais causados pela não-reciclagem, existe o prejuízo econômico e social, já que estamos falando de matéria-prima que vale dinheiro e trabalho sendo jogada no lixo, literalmente.

Confissões de rodapé: Nosso Planeta não aceita mais desaforos.

 

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Um grupo de amigos assistiu à Fernanda Montenegro, no monologo Viver sem Tempos Mortos, em que a atriz incorpora Simone de Beauvoir. Saíram todos maravilhados e me recomendaram a peça. Buscando informações na internet descubro que em maio Fernanda fará apresentações gratuitas nos CEUs da cidade. Achei uma iniciativa incrível. Afinal é sabido que São Paulo tem uma agenda cultural invejável, mas nem sempre acessível a todos. Meus amigos pagaram R$ 100,00 pelo ingresso do monólogo – preço impeditivo para grande parte da população.

O iniciativa de levar esta excelente peça – e o talento de uma das maiores atrizes, senão a maior, do Brasil – para a periferia é parte da programação cultural de um evento que já está no seu terceiro ano consecutivo: CEU é Show. A secretaria de educação do município seleciona shows e espetáculos teatrais que se destacaram na agenda cultural paulistana e leva de graça para os CEUs e para a comunidade da periferia. Alem de Fernanda Montenegro, passarão pelos CEus Antonio Abujamra, Hector Babenco, Paulo Betti… A parte musical terá Toquinho, Ângela Ro Ro, Luiz Melodia, Simoninha, Rapin Rood, Luiza Possi, entre outros. Antes da apresentação dos artistas consagrados, músicos da comunidade faráo shows.

As crianças terão uma programação especial, com shows de musica e peças infantis, entre as quais Quem tem medo de Curupira?, dirigida por Zeca Baleiro, Os Saltimbancos e Villa-Lobos para crianças. No total, serão mais de 800 shows e espetáculos teatrais, tudo de graça. E estamos falando de uma agenda cultural montada com o que foi sucesso de critica e público, os destaques da vida cultural paulistana. Muitas vezes a gratuidade é exaltada como a grande vantagem de uma programação cultural em espaços públicos. Mas nesse caso, o que chama a atenção é a principalmente a qualidade da programação.

Outro fator que chama a atenção é que as apresentações acontecem nos CEUs, na periferia. São acessíveis não apenas pelo fato de serem gratuitas, mas por estarem fisicamente próximas das comunidades. Porque além da barreira econômica, os grandes centros culturais ficam distantes da população de bairros mais afastados. Muita gente, mesmo sem pagar pelo ingresso, não se sente a vontade e não tem disposição (ou dinheiro) para “viajar” até os locais onde normalmente acontecem os melhores shows e espetáculos da cidade.


Confissões de Rodapé: Não há educação sem cultura e nem há cultura sem educação ….

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O facebook abre espaço para discussões e protestos de todo tipo. Divulgação, troca de informações e adesão a causas das mais diversas – curtindo, compartilhando e comentando. Acho ótimo que tenhamos este novo espaço de debates e muitas questões relevantes que ficariam restritas a um pequeno grupo de pessoas ganham notoriedade em poucas horas. Sem dúvida a rede social é uma importante maneira de se mobilizar pessoas e eu apoio o uso responsável desta ferramenta.

Por isso, ao me deparar com “protestos” contra o Auxílio Reclusão fiz questão de escrever este texto, para compartilhar minha opinião e também algumas informações mais consistentes. Diziam os protestos: “A Previdência Social paga até R$ 798,30 para presidiários. Um trabalhador ganha um mínimo de R$ 622,00. Se você acha errado, compartilhe!” E muitos comentários e textos seguiam a “curtida” e o compartilhamento.

É fato que a família de um detento (e não o detento, como alguns dizem) pode receber o Auxílio Reclusão, isso existe há décadas. O valor desta “bolsa” é o fixo e não varia de acordo com o número de filhos que o presidiário tenha (como também divulgam erroneamente outros textos curtidos e compartilhados). Segundo o Ministério Público, “o objetivo é garantir a sobrevivência do núcleo familiar, diante da ausência temporária do provedor”.

Faço aqui uma pausa para falar sobre o objetivo da prisão de criminosos. Muitos encaram esta medida como uma punição pura e simples. Outros, como se fosse uma vingança do Estado em nome da vítima. Eu, particularmente, acredito que se existe a possibilidade de se recuperar esse cidadão é para isso que se deve trabalhar. Assim como se deve evitar ao máximo que a pena aplicada a ele se estenda para toda a família. Explicando melhor: a esposa/mulher/companheira e os filhos desta pessoa que cometeu um crime – e foi presa – já são penalizados pela ausência do pai e do marido/companheiro, pelo preconceito que enfrentam no convívio social em sua comunidade. Muitas vezes eles também são julgados e condenados indiretamente, enfrentando não a reclusão, mas a exclusão social e todo tipo de constrangimento.

E, em meio a tudo isso, enfrentam também a falta de dinheiro. Cenário ideal para que os membros dessa família sejam aliciados ao crime, ou não? Já são considerados criminosos pela comunidade e precisam de dinheiro. Isso não justifica, mas facilita a entrada dos filhos deste cidadão preso no tráfico de drogas, por exemplo. Aliás é comum que em troca de pequenos “favores” traficantes ofereçam às famílias transporte para os dias de visita e “ajuda” com advogados. Fato que pode ser evitado se estas pessoas recebessem ajuda do governo – o auxilio-reclusão (o que não acontece em todos os casos, conforme erroneament5e se divulgou).

É importante dizer que não são todos os presidiários que têm direito a este benefício. O auxílio está condicionado à contribuição do detento ao INSS e o cálculo do seu valor é baseado no ultimo salário do preso, não podendo ultrapassar os R$862,11. Na verdade, o valor médio pago às famílias dos presos é de cerca de R$ 600,00, valor menor do que o salário mínimo. E a família perde o direito a este benefício caso o detento passe para o Regime Aberto (no qual necessariamente trabalhará) ou caso tente fugir.

Eu vejo o auxilio reclusão como uma tentativa de se evitar que a pena aplicada ao preso se estenda de forma injusta à sua família. Vale lembrar que o valor pago a estas pessoas não sai exclusivamente do bolso do cidadão “de bem”, mas é também fruto da contribuição do próprio preso à Previdência. Como todo brasileiro ele contribuiu e, numa situação em que não pode mais trabalhar, recebe parte desta contribuição de volta. Aliás, quem recebe esta contribuição é a sua família, pessoas que não cometeram crime nenhum e enfrentam uma situação extremamente difícil de vulnerabilidade social. Ou alguém duvida que estas pessoas precisam de ajuda?

 

Confissões de Rodapé: Em casa que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão….                                       

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 Li no Estadao (http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,fgts-aprova-linha-de-credito-para-compra-de-material-de-construcao,98945,0.htm) a notícia recente da possibilidade dos trabalhadores brasileiros utilizarem seus respectivos fundos de garantia para aquisição de material de construção, ou mesmo financiá-lo utilizando o FGTS como garantia. Achei uma excelente idéia, porém não entendi a manutenção do mesmo limite de R$ 500.000,00 como valor máximo do imóvel a ser reformado.

Aliás, acredito que fixar limite para utilização do FGTS na própria aquisição da moradia ao valor de R$ 500.000,00 inexplicável e sem propósito. Por que uma pessoa que trabalha, é registrada de acordo com a CLT, recolhe mensalmente suas contribuições e aplica compulsoriamente no FGTS (8% de sua renda) fica privada de utilização desta verba na aquisição do imóvel que lhe interessar? Por que o estado tem que decidir como o cidadão investirá seu dinheiro.

Desta forma, a consequência mais imediata é que o Estado cria duas classes de trabalhadores: os que podem e os que não podem utilizar seus respectivos saldos de FGTS para aquisição da igualmente sonhada casa própria? Se o cidadão é de classe média alta ou classe média baixa não pode haver diferença significativa entre seus direitos e deveres como cidadão.

É certo e desejável que existam políticas de subsídios ou facilitação para que as camadas mais pobres da população possam adquirir seu sonhado imóvel. Também é certo que além da utilização dos subsídios (estaduais, na maioria das vezes) possa haver financiamentos com condições bem mais vantajosas para aquisição destes imóveis.

Ocorre que a especulação imobiliária no pais inteiro tem levado à alta do valor dos imóveis (artificialmente?!) e mesmo em bairros medianos já é comum encontrar imóveis de R$600.000,00 ou R$700.000,00 e estes imóveis são comprados por quem tem condição financeira para não precisar do FGTS, porém este custo financeiro se tornará social na medida que será repassado na forma de aluguel justamente para esta parcela da população que hoje não pode utilizar seu FGTS na aquisição do sonhado imóvel.

Assim, creio que o Conselho curador do FGTS precisa revisar urgente estas limitações, pois o FGTS é de todos os trabalhadores e não apenas dos humildes, assim incompreensível a quem esta limitação atende, você não acha?

 

Confissões de rodapé: Mesmo no verão, não há felicidade possível sem chocolate.

 

 

 

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Um amigo fotógrafo é freqüentador da Rua Santa Efigênia, no centro de São Paulo. Lá encontra bons preços e raridades em equipamentos fotográficos. Dia desses cruzei com ele, que me disse: “Alguém precisa fazer alguma coisa em relação a esta cracolândia, agora, sempre que vou à Rua Santa Efigênia tem um bando fumando e comprando pedra na rua, para quem quiser ver”. Ele tem razão. Alguma coisa precisa ser feita porque o problema dos usuários de crack está longe de ter uma solução. 

 O que foi feito gerou muita polêmica: a Polícia Militar se fez presente na região da cracolândia, que há décadas era palco aberto de consumo e comércio de drogas e uma série de outros crimes relacionados (assaltos, violência, abuso de menores, exploração de prostituição, etc…). Com isso alguns traficantes foram presos, uma certa quantidade de droga foi apreendida, o local foi limpo literalmente – toneladas de lixo foram retirados da região – e os usuários se espalharam por outras ruas de São Paulo, caso da Santa Efigênia.

Esta medida está longe de solucionar o problema. Porém é inegável que parte da questão passa pela atuação policial: estamos falando de tráfico de drogas, de uma onda de crimes praticados por dependentes químicos, que precisam sim de tratamento e cuidados, mas não podem assaltar e agredir outros cidadãos. Um caso emblemático, em minha opinião, foi de fotógrafos que estavam trabalhando no local quando foram agredidos e ameaçados com faca por um grupo de mais de 20 pessoas.  Eles foram agredidos e tiveram seus equipamentos roubados, mas quando foram procurar a polícia souberam que os policiais que estão atuando na cracolândia não poderiam fazer nada. Porque o uso de força policial na região é considerado um desrespeito aos direitos humanos.  Esse é um caso de policia? Ou não?

Inegavelmente houve uma antecipação na ação policial na cracolândia. A PM chegou lá antes que houvesse uma resposta para o destino correto dos dependentes. O ideal seria que a presença da PM fosse simultânea à oferta de tratamento nos centros médicos que ficarão prontos em março, por exemplo. Seria perfeito que os usuários de crack fossem tratados como doentes que são e não como criminosos. Mas, infelizmente, muitas vezes os viciados também são criminosos. Melhor ainda seria que a atuação do poder público estadual fosse articulada com os poderes municipal e federal. Vale lembrar que uma das bandeiras levantadas pela candidata Dilma foi o combate ao crack e até então nada foi feito, a não ser o anúncio de um programa que se iniciará em junho apenas em 2 ou 3 capitais, exceto São Paulo.

Mas estamos falando do mundo real. Hoje, o que a PM pode fazer é impedir que estes cidadãos se fixem nas ruas, impeçam a passagem de outros pedestres, carros ou até mesmo ônibus. O trabalho dos policiais consiste em dispersar quem é usuário e tentar prender quem é traficante. E, quando ocorrerem crimes como assaltos ou agressões é necessário que a polícia proteja as vítimas e atue no combate ao crime, seja ele praticado por dependentes químicos ou não.

Uma vez que o governo de São Paulo iniciou uma operação na região da cracolândia o que mais se vê na imprensa são especialistas criticando essa medida e apontando soluções para o problema. Pois bem, se estas soluções são conhecidas por estes profissionais, por que não foram postas em prática, ou pelo menos apresentadas, antes? Este é um drama social que se estende há anos e me espanta ver que existe tanta gente com opinião formada que não se manifestava publicamente até então.

O fato é que não existe uma solução simples. E eu estaria sendo leviano se apresentasse qualquer fórmula para se resolver a questão. Este drama social e policial envolve uma série de especialistas, que devem somar esforços e não apenas apontar erros da atuação dos outros. É fácil criticar algo que já foi posto em prática e falar sobre o que seria o ideal. Quando se compara o que se está fazendo em São Paulo com o que é planejado para outros Estados, por exemplo, estamos comparando o mundo real com idéias, uma vez que ainda não foi colocado em prática em nenhuma cidade do Brasil o programa de combate ao crack do governo federal.

O próprio tratamento para o vicio não tem uma fórmula ou uma receita infalível. É um processo muito pessoal e dificílimo. Precisamos lembrar que estamos falando de seres humanos, cada um com uma personalidade única. Na cracolândia existem pessoas de diferentes classes sociais, formações culturais e histórico familiar. E diferentes graus de comprometimento físico e mental em relação ao uso da droga. Muito me impressiona ver profissionais respeitados dando receitas prontas para se resolver o drama de um contingente tão diverso de seres humanos.

Vejo como aspectos positivos da presença da policia militar na região da cracolândia a discussão gerada a respeito de um tema que há muito devia ser pauta de debate. O número de pessoas procurando ajuda aumentou e, levando-se em conta cada uma delas, acho este um dado positivo. E acredito que a atuação policial seja um dos braços do trabalho de combate ao crack. Muita coisa precisa ser melhorada, muita coisa precisa ser mudada. Mas era preciso começar. E agora é hora de somar esforços, não de se apontar falhas simplesmente. As cracolândias do Brasil, e São Paulo tem a pior delas, são palco de um drama humano absurdo. Não devem ser palcos de disputas políticas.

Gostaria muito de encerrar este texto com uma boa sugestão para se solucionar o problema mas o que posso dizer é que concordo com meu amigo: alguma coisa precisa ser feita. Por muita gente, aliás. Frente à complexidade do problema (social, policial, econômico…) só me resta dizer que a única convicção neste caso é de que entrevistas polêmicas, soluções simples e fórmulas mágicas não vão ajudar em nada. E estas pessoas precisam de ajuda e não de polêmica.

 

Confissões de rodapé: Feliz ano novo (rs) …

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Entre os dias 16 e 17 de abril de 2011, São Paulo recebeu cerca de mil atrações culturais em 24 horas. Um número impressionante, mesmo para uma cidade com uma agenda cultural sempre cheia. Foi a “Virada Cultural”, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, que criou 121 espaços para apresentações em São Paulo e reuniu cerca de 4 milhões de pessoas em sua 7a. edição.  E o melhor de tudo é que todas as atividades foram gratuitas.

Eu já estou ansioso pela próxima edição. Não só pelos shows e outras apresentações, mas por tudo o que estas 24 horas de cultura representam para a cidade e para os paulistanos. As inscrições para quem quer se apresentar na virada cultural em 2012 já estão abertas no site do evento. Ou seja, o espaço está aberto para novos artistas apresentarem seu trabalho e para espectadores (que é o meu caso) descobrirem novos talentos.

Outro aspecto fundamental da virada cultural é o sentimento de pertencimento em relação à cidade que gera entre os milhões de paulistanos e moradores de SP que participam.  O centro, muitas vezes visto como cenário de problemas sociais, se transforma em um mapa de palcos, um espaço destinado ao entretenimento e interação, área na qual a cultura é acessível a todos. Com isso, a população passa a respeitar mais o espaço público e as leis de civilidade. Afinal, cada um que está lá se beneficia diretamente do local e das atividades oferecidas – e também desfruta da convivência com amigos e desconhecidos.

Uma prova de que as pessoas passam a respeitar mais o local público e as pessoas que o ocupam quando enxergam nele um espaço de bem-estar e convivência agradável é o número de ocorrências registradas durante a  virada cultural. Tendo em conta que o evento reúne milhões de  pessoas, a quantidade de ocorrências é ínfima. A idéia é desfrutar o momento e todos que estão lá tem este mesmo propósito. Não existem, como nos jogos de futebol, grupos contrários. Os cambistas e a briga por ingressos também não têm espaço.

A virada cultural é um presente da cidade para os paulistanos. Está tudo pronto, montado, é de graça. A única ação de quem participa do evento é aproveitar. E muita gente que nunca vai ao centro da cidade, por exemplo, passa horas na região e passa a olhar não só para as apresentações mas para o lugar onde está, e faz isso com outros olhos. É um exemplo de como a cultura pode construir cidadania e ajudar a reconstruir a cidade onde vivemos. Eu vou na virada cultural deste ano prestigiar nossos artistas e nossa cidade. E você?

 

Confissões de rodapé: “O conhecimento é uma questão de ciência, não admite a menor desonestidade ou presunção. O que se requer é precisamente o contrário – honestidade e modéstia.” (Mao Tsé-Tung)

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Agora é lei: os supermercados não podem mais distribuir aquelas sacolinhas plásticas aos consumidores. Se pensarmos que uma sacola plástica pode demorar até 400 anos para se decompor e que 2,4 bilhões delas (sim, bilhões!) deixarão de ser distribuídas por mês apenas no estado de São Paulo, essa é uma notícia maravilhosa para o planeta.

 Muitos questionam a eficácia desta Lei, cada um com sua razão, entre os principais argumentos está o de que o comércio irá repassar ao consumidor o custo das sacolinhas (como se isso já não acontecesse) – agora quem quiser embalar suas compras deverá comprar sacolas biodegradáveis ao preço de R$ 0,19. Os lojistas dizem que venderão as novas sacolinhas pelo preço de custo e não estão lucrando com isso, porém, ainda não estão devidamente abastecidos com as sacolas biodegradáveis, motivando mais críticas à medida.

 Mas, e se ao invés (ou além?) de reclamar do preço de venda dos sacos biodegradáveis, as pessoas voluntariamente reduzissem o dano que seus hábitos cotidianos causam ao meio ambiente? A lei das sacolinhas é um exemplo de como o Estado precisa regulamentar determinada situação por meio de leis, em casos em que não impera o bom senso e responsabilidade pelo bem coletivo. É mesmo tão ruim levar uma “ecobag” ou uma caixa para o supermercado? Com certeza essa medida é menos prejudicial ao consumidor do que as sacolinhas plásticas são para o meio-ambiente e, esta simples atitude, afasta a discussão econômica sobre o assunto.

Aliás, é fato que para se proteger o meio ambiente ou impedir a progressão de sua degradação, há que se dispender dinheiro (público e privado) e mudança de hábitos. Ou seja, de qualquer forma haverá custos para protegermos o planeta.

Há anos muitas redes de supermercados oferecem ecobags, destas que cabem mais mercadorias e pode ser reutilizada para seus clientes. Qual a adesão que o uso desta sacola teve quando era opcional? Acredito não foi o suficiente. Parar de usar embalagens que agridem o meio ambiente ou diminuir ao máximo seu uso é uma medida que deveria partir de cada um de nós, cidadãos. Assim como separar o lixo, economizar energia elétrica, não desperdiçar água e tantas outras atitudes que fazem toda a diferença quando adotadas por todos ( Já ouviu falar em pegada ecológica?).

No caso específico das sacolas, quem já adotou um comportamento ecologicamente correto não se arrepende. Em Jundiaí, o fim do uso de sacolas plásticas foi estabelecido há mais de um ano, não se vê mais sacolinhas espalhadas pelas ruas e calçadas com lixo. Se esta fosse a realidade de outras cidades haveria, por exemplo, menos enchentes: as sacolinhas além de poluírem, acabam entupindo bueiros e aumentando as inundações. Além disso, reduzem a vida útil dos aterros sanitários, impermeabilizando o terreno e dificultando a decomposição do lixo orgânico. Outro cenário triste são as ilhas de lixo que se formam com as “sacolinhas” que vão parar no oceano e causam a morte de vários animais marinhos.

Acredito que proibir as sacolinhas plásticas foi uma medida importante para suscitar outras medidas que devem ser adotadas por todos. Cabe a nós que estes hábitos ecologicamente responsáveis sejam adotados por livre e espontânea vontade – e consciência. Caso contrário, outras proibições serão necessárias, com bem mais impacto em nossas vidas do que o uso da sacolinha, como, por exemplo racionamento do uso de água e luz, restrição de locomoção por veículos automotores, etc…. Infelizmente, se chegarmos a este ponto, é porque já passamos de todos os limites. Podemos aproveitar o momento para mudar outros hábitos danosos ao ambiente. Qual hábito você pode mudar?

 

Confissões de rodapé: Sem sacrifícios não se alcança a glória …       

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Ponto para a presidente Dilma Rousseff. Ela fechou o ano com a aprovação de 56% dos brasileiros e 68% afirmam confiar nela. Mesmo entre tantos ministros acusados e demitidos por corrupção, Dilma foi bem avaliada pela população. A “tolerância zero” com a corrupção fez a presidente ser considerada por alguns como a grande faxineira, para usar uma palavra repetida durante estes últimos meses. Mas, o que muita gente parece esquecer é que foi ela quem colocou no poder os ministros que mais tarde “varreu” – foram sete ao longo de 2011.

 Infelizmente, parece que a faxina ainda não terminou e tem mais sujeira por aí. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, está diariamente nas manchetes dos jornais brasileiros por denúncias – que vão de destinação política de verbas do ministério a nepotismo. O Estado de S. Paulo denunciou que Bezerra destinou cerca de 90% dos recursos anti-enchentes para Pernambuco, Estado do ministro. Num momento em que tragédias causadas pelas chuvas são noticiadas nos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, por exemplo, essa divisão de recursos soa ainda mais absurda.

Já o Ministério Público acusa Bezerra de usar verbas indevidamente na reconstrução de estrada em Petrolina e de ter comprado (com dinheiro público) duas vezes o mesmo terreno quando era prefeito da cidade. Nas duas vezes, o dinheiro foi para a mesma pessoa: o empresário José Brandão Ramos, primo do secretário de agricultura de Pernambuco, que é do PSB, partido do ministro. Entrando na questão dos laços familiares, temos a nomeação do irmão do ministro como presidente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaiba, a nomeação do tio de Bezerra como membro do comitê técnico-consultivo para o desenvolvimento da agricultura irrigada e o fato curioso de ter sido o filho do ministro (deputado Fernando Coelho do PSB de Pernambuco) o único congressista que teve todo o dinheiro de suas emendas empenhadas em 2011. Caem sobre Bezerra ainda denúncias sobre uma manobra do ministério para tirar R$ 50 milhões da obra da transposição do Rio São Francisco para a construção de barragens em Pernambuco.

Depois de dias seguidos lendo este tipo de notícias sobre o ministro, me pergunto: onde está a intolerância da presidente em relação à corrupção? Não faria mais sentido demitir um ministro que usou politicamente verbas públicas ao invés de, a partir daí, pedir que critérios técnicos fossem adotados? Quais os parâmetros – ou limite – usados pela presidente para definir intolerância e corrupção?

Acho importante também pensarmos por quê a faxina não chegou ao ministro de Desenvolvimento Fernando Pimentel, que enfrentou denúncias gravíssimas sem ter que se explicar ao Congresso – ou à população. Cito ainda Mario Negromonte, ministro das Cidades, apontado por alguns como próximo ministro a cair, mas que continua no cargo mesmo com obras e contratos da sua pasta sob suspeita. Fica então a pergunta: quando se fala da tolerância da Presidente Dilma Rousseff o número zero tem alguma escala de variação?

 

Confissões de rodapé: Absurda a vinculação de bebidas alcoólicas com eventos esportivos. Falta de ética de todo o lado … 

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  • Quem faz

    Fábio Bonini é paulistano, advogado formado na Faculdade de Direito do Largo Sao Francisco (USP), orquidófilo e aprendiz de fotógrafo . Atualmente é membro da Comissao de Política Criminal da OAB/SP

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