Conheci a história de Geraldo e André Peixoto há seis anos, durante reportagem de balanço da reforma psiquiátrica. André teve o primeiro surto, sinalizador da esquizofrenia, na passagem para a idade adulta. O pai, Geraldo, horrorizado com os grandes hospitais psiquiátricos por onde André passou, o retirou de lá, mudou a vida, trocou a carreira de executivo pela de professor de natação para ficar ao lado do filho. Nesses anos, tornou-se um militante do direito dos pacientes de não serem trancafiados em hospitais e clínicas, mas acolhidos por serviços ambulatoriais e pela comunidade.
Na primeira entrevista, Geraldo me surpreendeu por não esconder as agruras de viver com uma pessoa com uma doença psiquiátrica. Não dourava a pílula. Mas defendia com carinho sua escolha, com espaço para a leveza _como a história de um amigo da família, também portador de esquizofrenia, que insistia ser uma águia. Geraldo o acolhia como um pássaro. Naquela época, André não estava bem, os médicos não acertavam o remédio. Tentamos fazer uma foto de ambos, mas André não quis.
Coincidentemente, meses depois, encontrei Geraldo durante uma “blitz” dos conselhos de psicologia e do Ministério Público em grandes unidades psiquiátricas que ainda persistem em diversas partes do País. Em uma das instituições, lá estavam pacientes amarrados, sem roupa. Um deles perguntou a Geraldo se era “papai noel” (por causa da barba branca) e pediu: “alta”!
Depois de o poeta Ferreira Gullar chamar a lei da reforma psiquiátrica de “idiota” e de defender a internação dos filhos, quis ouvir novamente a opinião de Geraldo (você pode conhecê-la aqui). Seguiam vivendo juntos. Sugeri novamente a foto de ambos. André estava cada vez melhor, disse o professor. Cuidava do pai. Estava cada vez mais companheiro, relatou Geraldo. E a foto deu certo.
Há cerca de uma semana, André, que tinha 47 anos, morreu vítima de um infarto do miocárdio fulminante, em casa, ao lado do pai. Compartilho com vocês, com autorização do autor, trechos da carta que Geraldo enviou a centenas de amigos e apoiadores:
Há exatamente sete dias, nesta mesma hora, André, meu filho querido, morreu. Tudo começou e terminou comigo. Muitos, sequer o conheciam. Outros, o conheceram, e outros, até o acampanharam e cuidaram dele. Estas pessoas ficaram, indelevelmente, imarcadas em nossa memória.
André nasceu duas vezes, uma, de Wilma, sua mãe, e a outra, de mim, quando o assumi, depois de retirá-lo de um hospital psiquiátrico. Portanto, sinto-me fiador de todo esse querer bem, que vocês todos têm demonstrado por ele.
Tive um privilégio, uma graça por viver junto dele essa experiência, absolutamente fantástica, nestes vinte e cinco anos, desde o dia em que o retirei de um hospital psiquiátrico, até aquele momento, em que o vi, estendido no sofá da minha sala. Ele foi o meu grande mestre, mostrou-me o caminho, o caminho que ele percorreu e que, apesar da violência das crises e, das crises de violência, foi paradoxalmente, delicado e extraordinário. A experiência foi “humana, demasiadamente humana”. Fui atirado à correnteza da vida e da psicose, deixando-me levar sem resistência, aceitando e usando-a a meu favor, sabendo, como bom nadador, que se não o fizesse, iria , apenas, me exaurir. A correnteza, agora queridos amigos, se diluiu, se desfez, deixando-me nadar livremente. A vida foi maravilhosa comigo, por ter-me permitido esse encontro.
Valeu a pena, garoto! Valeu muito a pena!
André vive! Ontem, André era o meu objetivo – hoje, deixou de ser, pois eu o carrego comigo…
Obrigado, obrigado, obrigado…
Geraldo
Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de temas de interesse da saúde pública e dos planos privados de saúde. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.
Nos últimos dias, assistimos assombrados à confissão do pedreiro Admar, que estuprou e matou seis meninos em Goiás depois de liberado pela Justiça aparentemente por falhas na assistência psiquiátrica do Estado. Há dois anos, foi Ademir, ex-interno de hospital do sistema penitenciário paulista _que não tinha nenhuma condição de cuidar de pedófilos. Ademir, também indevidamente tratado, foi liberado matou 2 jovens e violentou outros 19 na Serra da Cantareira, zona norte de São Paulo.
É preciso investir na assistência psiquiátrica de ofensores sexuais, dizem especialistas. Sim, é preciso tratar pedófilos. Como disse a promotora de Goiás, transtornos da sexualidade não desaparecem na cadeia. A única saída é o Estado deixar que a saúde cuide adequadamente dos casos, preventivamente (em casos em que indivíduos apenas fantasiam), e também daqueles que, para nosso horror, já cometeram os crimes e cumprem sentença em estabelecimentos de saúde do sistema prisional. Só assim é possível evitar novas tragédias, destacam os psiquiatras Claudio Cohen (da Faculdade de Medicina da USP) e Paulo Sampaio, que respondeu pela coordenação de saúde mental do sistema penitenciário paulista e faz parte do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.
Não que seja fácil. Primeiro é necessário avaliar o arsenal disponível, explicam. Nos EUA, a injeção de hormônios que impedem ereções, associadas a monitoramento e divulgação sobre a circulação do pedófilo egresso do sistema prisional na comunidade é um modelo que tem sido aplicado pela Justiça aliada com a saúde _tem seus críticos. Na Dinamarca, lembra Cohen, houve a opção por uma redução de danos para indivíduos que ainda estão sob custódia do Estado, como a distribuição de material pornográfico adulto (obviamente que legal) _o que também tem suas críticas. Psicoterapia e outros tratamentos podem contribuir.
É preciso, inclusive, pensar na alocação desses ofensores sexuais, explicam os psiquiatras. Pedófilos e estupradores não podem estar com outros presos sob custódia do Estado que têm outros transtornos mentais, como a esquizofrenia, explica Paulo, pois isso pode expor os outros doentes à violência sexual.
Segundo Cohen, é preciso estabelecer um fluxo de pessoas com esses transtornos dos estabelecimentos do sistema prisional para a saúde. Hoje já é feito em outros casos de ofensas sexuais, como o incesto. Em São Paulo, os fóruns encaminham acusados para o CEARAS, da Faculdade de Medicina da USP, um centro de estudos e atendimento especializado nas questões referentes ao abuso sexual intrafamiliar.
No Estado de SP, todos os pedófilos estão reunidos agora em um único estabelecimento, medida acertada para evitar mais danos. Mas, segundo Paulo, ainda é preciso avançar e efetivamente criar um projeto adequado de tratamento dessas pessoas.
2010
2009