Quem se preocupou com a saúde, a qualidade de vida e o futuro da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto em Alagoinha (PE) e grávida de gêmeos? Sua mãe, que concordou com a interrupção da gravidez? Os médicos do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, em Recife, que cumpriram o dever profissional e realizaram o procedimento?
A garotinha de pouco mais de 30 Kg corria risco de morte se mantivesse a gravidez. É assegurado pela legislação brasileira o direto a interromper a gestação em casos de estupro ou ameaça à vida da mãe.
O Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira), também em Recife, ligado à Igreja Católica, decidiu não fazer a interrupção. Temia a reação da Igreja e o pai da menina, que seria contra o procedimento. Além disto, médicos da instituição são contra. Um deles disse ao Núcleo de Saúde que jamais realizaria o procedimento, porque não gostaria de ceifar a vida de dois inocentes. Além disto, lembrou que o fundador do instituto, professor Fernando Figueira, só nasceu porque sua mãe, com tuberculose e sob risco de morte, resistiu ao aborto. É direito do médico se negar a realizar procedimentos com os quais não concorda.
OK, posições respeitadas.
Mas ontem, quando se avizinhava o início, talvez, de uma vida nova para a menina, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, condenou todos os que auxiliaram legalmente a interrupção da gravidez, avisando que estão automaticamente excomungados, infernizando a família que já não tinha paz. As crianças já não existem, a garota ainda está se recuperando da selvageria que sofreu, nesta tarde realizava exames para verificar se contraiu uma Doença Sexualmente Transmissível.
Você vê algum propósito nesta discussão iniciada pelo bispo? Ela ajuda a saúde e a qualidade de vida da menina e de outras garotas vítimas da pedofilia? Como será se tiverem de recorrer à interrupção da gravidez para dar continuidade ás suas vidas?
Você deve ter visto várias por aí no Carnaval, nas propagandas na TV, circulando nos sambódromos, bailes e em outros locais com grande fluxo de foliões. Ah, sim, algumas foram até mesmo distribuídas pelo presidente Lula, que fez campanha contra a Aids em visita à Sapucaí anteontem.
No entanto, não é de hoje que as entidades que defendem os direitos das pessoas que vivem com o HIV alertam os governos que a camisinha não deveria ser estrela só de ocasiões especiais, como o Carnaval e o Dia Mundial de Luta contra doença, celebrado em todo o 1º de dezembro. Recente nota do Fórum de ONGs Aids de São Paulo, por exemplo, lembrou que “fora estes períodos, a maior parte das ações de prevenção são feitas por organizações não governamentais” -ou seja, os preservativos do Estado continuam a circular, mas em canais mais restritos e sem campanhas publicitárias de fôlego. Enfim, a chance de se lembrar da importância da proteção é muito menor na maior parte do ano.
A epidemia de Aids no Brasil estabilizou-se em patamares elevados, registra ainda cerca de 34 mil novos casos por ano, e é por isto que não dá tirar o pé do acelerador nas campanhas de prevenção.
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Outra preocupação é o controle sobre o que é distribuído. Nos últimos anos aumentaram as compras públicas de camisinha, que chegam a cerca de 1 bilhão de preservativos por ano, mas, como informou o Estadão na véspera do Carnaval, o sistema público ainda não sabe se elas estão chegando a quem mais precisa, até mesmo aos foliões do Carnaval. Tanto é que este é um dos motivos para o Programa Nacional de Aids preparar para março um projeto de expansão do uso do preservativo que prevê melhor acompanhamento da distribuição.

Mais um desafio é o mercado privado, que de 2007 para 2008 teve uma pequena queda das vendas, de 3%, com 263 milhões de unidades vendidas no último ano, segundo dados da empresa de pesquisas de mercado Nielsen.
Pesquisa do próprio Ministério da Saúde mostram que os consumidores gostariam de encontrar camisinhas não só em supermercados e farmácias, lembra Marta Mc Britton, da ONG Instituto Barong, que trabalha com a venda subsidiada de preservativos em locais alternativos, como bares e locadoras.
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Desde 2002 uma lei federal garante que os preservativos possam ser vendidos em qualquer estabelecimento comercial. Por que será que tantos comerciantes resistem? O próprio Barong só convenceu 300 pontos do comércio popular da zona sul de São Paulo a vender camisinhas depois de uma aula de prevenção na associação comercial do populoso bairro Jardim São Luís, onde três camisinhas diferenciadas (aquelas com sabores e cores, por exemplo) são venidas a R$ 0,99 em alguns pontos. O sucesso foi tão grande nos locais alternativos que derrubou o preço das camisinhas nas farmácias, encontradas pelo Núcleo de Saúde por R$ 2 e pouco em drogarias da região.
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Aliás, um mea-culpa. Também a imprensa praticamente só fala do preservativo nas datas pautadas pelos governos. A exemplo deste blog.
As camisinhas são a única forma de prevenir a infecção contra o vírus da Aids. Mas não a esqueça nesta noitada e nem nas folias que ainda virão. Não importa sua idade ou se o (a) parceiro (a) é um amor de um ou de muitos Carnavais.
“Aqui louco varrido não vai para debaixo do tapete”. A novela das oito havia começado e, de relance, enxerguei a frase escrita em uma plaquinha na porta do “consultório” do personagem de Stênio Garcia, o psiquiatra “Doutor Castanho”. Puxa, a reforma psiquiátrica em horário nobre? Quis saber mais.
Glória Perez (a autora de Caminhos das Índias) é hábil no merchandising social. Assim, trouxe para a novela a esquizofrenia, e os problemas dos doentes e das famílias de pessoas que convivem com a doença fora dos hospícios. Vinte anos depois do início do movimento pela reforma no País, chegou a sua casa o debate sobre substituição das internações em grandes hospitais psiquiátricos pelo atendimento –e acolhimento – dos doentes em Centros de Atenção Psicossocial, hospitais dias, e pela família. Para integrantes da luta contra os manicômios, mais um passo contra os estigma que atormenta as pessoas que vivem com transtornos mentais.
O Núcleo de Saúde conversou com a psiquiatra Patrícia Schmid, de 38 anos, a consultora oficial de Glória para o “núcleo” de personagens com esquizofrenia. Ela é vice-diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, que leva o nome da psiquiatra brasileira que revolucionou ao utilizar a arte como método terapêutico. Veja trechos da entrevista, ilustrada com uma obra de Carlos Pertuis, da mostra virtual do Museu de Imagens do Inconsciente, organizado por Nise.
Como este tema foi parar em uma novela?
Patrícia Schimid- A Glória é prima de uma colega nossa, a Sônia Ferrante, organizadora do evento Loucos por Música, e lá ela conheceu o grupo de música Harmonia Enlouquece. A partir daí decidiu que a campanha social da novela seria a favor dessas pessoas (o Harmonia Enlouquece é um grupo musical que nasceu em um centro psiquiátrico, muito festejado pela crítica. Conheça o grupo).
E como você se tornou consultora?
Patrícia – O meu primeiro contato foi com a pesquisadora da novela, Giovana Manfredi. Como vice-diretora do instituto, começamos a conversar e eu me encantei com a proposta, pois um dos temas que mais estudo é o estigma contra pessoas que vivem com doença mental. Achei a ideia fenomenal e iniciei um trabalho totalmente voluntário. A equipe da novela tem visitado diferentes institutos de saúde mental e CAPs (Centros de Atenção Psicossocial, que devem atender o doente na comunidade). Além disto, durante a preparação, levamos colegas e pacientes ao Projac (local de gravação da novela).
E qual foi o impacto até agora?
Um dos pacientes, aquele que apareceu na novela pintando um quadro, acabou de entrar na minha sala para contar. Ele é realmente um artista e foi reconhecido e festejado até no ponto de ônibus. Isto tem um efeito na autoestima. Já no salão de beleza que eu frequento, a manicure comentou: “não pensei que louco poderia trabalhar”. A novela faz uma construção muito sutil sobre a realidade da doença mental. Por exemplo, coloca a diferença entre o psicótico (os personagens Ademir, de Sidney Santiago, e Tarso, de Bruno Gagliasso, que têm esquizofrenia) e o psicopata. Sim, há um psicopata na novela, que é a Ivone (Letícia Sabatella). Há ainda um “pitbull” (um personagem que parte para a pancadaria por qualquer coisa). O que a novela mostra é que há vários tipos de violência e que o que tratável é a do Ademir e do Tarso, a esquizofrenia. O que ele faz é porque está doente.
No ano passado houve um intenso debate no meio médico sobre os efeitos da reforma depois de reportagem que apontou suposto aumento das mortes de doentes mentais após o País adotar uma política de redução de leitos psiquiátricos.
Patrícia – O que ocorre é que começamos a tratar esses doentes . É como a dengue, o problema não existia até começarmos a notificar. Começamos a notificar porque os doentes saíram das instituições. Antes eles eram um zero, em tudo, não existiam.
Qual o impacto da novela para a luta contra os manicômios?
Há um artigo recente no site do Banco Interamericano de Desenvolvimento que mostra o impacto das novelas brasileiras na taxa de divórcios. Eu vou fazer meu doutorado sobre o impacto da novela sobre o estigma em relação as pessoas com doença mental. Não é qualquer experiência o que está acontecendo. Todos os estudos sobre estigma mostram que ele é propagado principalmente pelos locadores de imóveis, que se recusam a alugar para pessoas com doenças mentais, policiais, pela atribuição do comportamento violento, e pela mídia. As novelas no Brasil são vistas por 50 milhões de pessoas, vão ao interiorzão, até pessoas que não têm noção de que é possível conviver com a doença mental. Todo mundo tem medo de ficar louco, por isto as pessoas têm medo de quem tem doença mental. Mas quando o personagem do Bruno Gagliasso, com aqueles olhos azuis, surtar, aí vai bombar. A novela está mostrando que a loucura traz muito sofrimento. E as pessoas saberem que o louco sofre é muito importante.

2010
2009