A estratégia prevista para a vacinação contra a gripe suína no Brasil anuncia muito debate em 2010.
São previstas 83 milhões de doses para profissionais de saúde, gestantes, indígenas, crianças de 6 meses a 2 anos, adultos jovens e pessoas que já têm outras doenças, como problemas cardíacos. A questão começa aí. Como aferir que os candidatos são realmente portadores das doenças? Em São Paulo, atestados médicos são encontrados com facilidade em bibocas indicadas pelos homens-sanduíche da praça da Sé, como demonstrou recente operação da Polícia Civil.
“Não vai ser fácil”, afirma ao Núcleo de Saúde Rui Ramos, diretor de promoção de saúde da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
A sociedade encaminhou ao ministério algumas sugestões de doenças cardiológicas que realmente são graves e demandam a vacina. Entre elas, exemplifica, as miocardiopatias, quadros causados, por exemplo, quando um paciente tem um enfarte agudo do miocárdio e o músculo não se recupera – o doente sofre com falta de ar, inchaço nas pernas.
“É claro que nem todos os estimados 35 milhões que têm hipertensão receberão a vacina , diz Ramos.
Outro exemplo: o paciente tem uma arritmia(alteração no batimento cardíaco). Nem todos serão vacinados, mas só aqueles com disfunções ventriculares, defendeu a sociedade.
Ramos destaca, no entanto, que a entidade não definiu como as autoridades de saúde deverão verificar se de fato o candidato é portador de doença que merece imunização.
Solução?
As autoridades de saúde estudam vacinar os doentes já atendidos em programas específicos dos hospitais para determinadas enfermidades. Exemplo: o hospital A chamaria todos os diabéticos acompanhados para receber a imunização. Mas e como ficam aqueles atendidos nos consultórios dos planos de saúde? E os que não têm atendimento específico e vivem indo e voltando do pronto-atendimento? Ainda não está definido.
Eduardo Hage, diretor de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, disse à repórter que o governo também preocupa-se com as ações judiciais –descontentes com as regras da vacina que busquem acesso via judiciário. Por isso, já iniciou reuniões com promotores e procuradores para explicar, em resumo, que a vacina visa apenas grupos prioritários, e que, no caso, o objetivo não é conter o vírus suíno, mas evitar casos graves e óbitos.
O problema, porém, é que as ações são cada vez mais individualizadas, movidas por escritórios privados.
Pode ser, porém, que parte da população tenha resistência à vacina, lembra o epidemiologista Expedito Luna. O que vem sendo registrado na Europa, por exemplo, onde o medo de que a imunização traga problemas de saúde tem afastado pessoas da fila.
A boa notícia é que o medo, por enquanto, é totalmente infundado, apontam estudos: a vacina tem se saído muito bem nos testes de segurança feitos por diferentes fabricantes e grupos independentes.
Por fim Juvêncio Furtado, da Sociedade Brasileira de Infectologia: “o problema é saber se teremos mesmo a quantidade de vacina prevista”.
Hoje, Dia Mundial de Combate à Aids, J.L., portador do HIV, está livre, mas ainda assim condenado a prisão pela sociedade brasileira. O Núcleo de Saúde foi informado pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo que, depois de receber pena de 8 anos de prisão por tentativa de homicídio, por supostamente tentar contaminar a amante, e ser preso em 2007, no último dia 5 de novembro a Justiça determinou que J.L. fosse libertado.
A defensoria conseguiu novo júri popular, onde usou nova estratégia, alegando que o motorista, que sabia ser portador do HIV, poderia ter consciência do risco do sexo desprotegido, mas não intenção de matar. “Foi estratégia, pois sabemos que no júri popular o julgamento é moral”, afirma o defensor Ivan Silveira Laino. Ainda segundo seus defensores, como ele não contaminou a mulher em relações sem camisinha achou que o mesmo não ocorreria com a amante.
Os jurados arrefeceram, mas nem tanto: J.L. foi condenado por lesão corporal a dois anos de prisão e só por já ter ficado dois anos recluso pôde ir para casa.
O caso é famoso, virou um emblema do arriscado movimento de criminalizar portadores do HIV que contaminam outras pessoas. Há poucos dias, foi usado como uma justificativa para o Ministério da Saúde fazer uma defesa, dessa vez veemente, contra a penalização pura e simples de todo caso de contaminação em relações sexuais consentidas.
Desde 1996 as diretrizes internacionais sobre HIV e Direitos Humanos advertem que pessoas com o vírus não devem ser penalizadas por causa de seus estado sorológico. É óbvio que não tratam de um portador desmiolado que ameace pessoas com uma seringa com sangue, por exemplo, ou que cometa um estupro.
As Nações Unidas e o ministério alertam, na verdade, sobre o risco de se criminalizar o resultado de relações sexuais consentidas e entre adultos, em que a prevenção e os riscos de não usar camisinha são de responsabilidade do casal. Não é de hoje que se sabe que não há relação segura sem preservativo.
Aliás, destacou ainda o programa de Aids da ONU recentemente: não há provas de que criminalizar ajude a prevenir transmissões. Pior, alerta o advogado Cláudio Pereira, da ONG Grupo de Incentivo à Vida: a criminalização poderá em última instância coibir a testagem para o HIV, essencial para o combate à epidemia.
Se na população em geral 22% não comprariam verduras de pessoas com o HIV, não é surpresa encontrar conceitos errôneos na cabeça de legisladores, promotores e juízes brasileiros. Vem em boa hora a campanha governamental deste ano pelo Dia Mundial, contra o preconceito, capitaneada por uma obra de Vik Muniz. No site da campanha, é possível deixar sua própria mensagem contra o problema que inviabiliza a vida com o HIV.
FAÇA ACONTECER
É o nome de outra ação, esta da ONG francesa Médicos sem Fronteiras, que busca pressionar a indústria farmacêutica a licenciar voluntariamente seus remédios contra a Aids em conjunto, para que todo o mundo em desenvolvimento possa ter a possibilidade de produzir genéricos das drogas, que são mais baratos. A ideia do pool de patentes é do Unitaid, fundo internacional que busca ampliar o acesso a medicamentos contra a Aids, malária e tuberculose. No link acima é possível assinar a petição.
Não é raro encontrar quem invista milhares de reais em túmulos, faça questão de não faltar com nenhuma parcela do planos funerário e que se orgulhe em apontar o cemitério que escolheu para a família. Então pergunto: por que não tratar também, ainda em vida, e com quem gostamos, de um destino mais nobre para nossos órgãos, de doações para transplantes? No País, atualmente, a doação de órgãos só pode ser autorizada após aval da família, mas quem já tratou de deixar clara a decisão?
Bem, já ouvi meu pai falar do assunto. Sem que ninguém lhe perguntasse, sem esconder um certo orgulho pela declaração, disse um dia que quer ter “tudo” doado. O que “sobrar” , já explicou, quer ver destinado para as aulas de anatomia das faculdades de medicina.
Incomodou ( e penso que incomoda um pouco ainda), mas esse tipo de conversa, apresentar decisões de maneira clara e objetiva, deveria ser algo cada vez mais natural para todos nós simplesmente por uma questão de cidadania.
Nossos índices de doações efetivas por milhão de habitantes são vergonhosos, apesar da melhora nos últimos anos: 8,6 contra 35 na Espanha, mostram os últimos dados do Ministério da Saúde. Claro que há graves problemas, como ausência de equipes para abordagem das famílias com morte encefálica, abordagem incorreta, fora do prazo, poucas equipes transplantadoras para o tamanho do País. Mas o conhecimento e a decisão sobre a doação podem sim ajudar todas essas engrenagens a andar.
Informações didáticas sobre quem pode e como doar já estão no site da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, que lançou campanha com o ótimo mote “Doar e Receber. Dois lados da mesma viagem”, adaptado da música “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento. Também o Ministério da Saúde iniciou nesta semana campanha sobre o tema.
E você, já refletiu sobre doar ou não seus órgãos? Eu já. “Aproveitem o que puderem!”, como disse meu pai.
Uma pergunta importante segue sem resposta na epidemia de gripe suína no País. Ainda não sabemos quantas das 402 pessoas que já que morreram no Brasil comprovadamente pela doença tomaram de fato doses de fosfato de oseltamivir, medicamento que, segundo a Organização Mundial da Saúde, merece mais estudos para ser tratado como a principal arma contra a pandemia.
Aliás, não há ainda conclusão alguma sobre a causa da maioria das mortes. Questionados, o Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado da Saúde de SP, onde estão concentrados a maior parte dos óbitos, informaram não dispor de dados.
Por alguns dias, o ministério manteve em seu boletim epidemiológico uma única informação sobre o uso da droga, de que a mediana de tratamento no Brasil era de 3 dias, apesar de a bula do remédio indicar melhor eficácia se o uso ocorrer em até 48 horas após os sintomas. Depois que a imprensa publicou, a informação sumiu.
Outra lacuna são os dados sobre testes a respeito da eventual resistência da droga ao vírus, já registrada em outros países. Zero de informação nos boletins das autoridades sanitárias.
Em razão da limitação das 48 horas, o Tamiflu já é uma droga de uso restrito. Estudo publicado em 2007 por pesquisadores da Unifesp apontou que a maioria dos pacientes só procura ajuda para sintomas da gripe depois deste prazo. Além disto, não foram poucas as famílias que relataram demora para o tratamento. É preciso lembrar ainda que a resistência ao oseltamivir é importante para a gripe sazonal (comum).
E aqui? O remédio chegou? O tratamento funcionou? Havia outros fatores que contribuíram para a morte? O vírus era resistente ao remédio? Ainda não há estudos científicos para respaldar nenhuma resposta.
PS: Em maio deste ano o blog questionou a manutenção das propagandas de remédios de gripe apesar da possibilidade de pandemia do novo vírus da doença. Mais a frente, uma reportagem do Estadão fez o mesmo, e ali as autoridades informaram não ver nada que chamasse atenção para os comerciais. Pois bem, epidemia instalada, há duas semanas a Anvisa mudou de ideia sobre os anúncios resolveu, finalmente, suspender os comerciais pelo risco de estímulo ao incorreto tratamento da nova doença.
A Doença de Chagas, que mata 14 mil por ano na América Latina, é o problema de saúde mais negligenciado, entre todos aqueles que não recebem incentivos para pesquisa e desenvolvimento de novas drogas.
O ano de 2009, em que ocorreu o centenário da descoberta da doença, era para ser o marco de uma nova trajetória. Mas até a Assembleia Mundial da Saúde, em maio, baniu o problema de sua agenda, encurtada e tomada pela nova gripe suína.
“Foi realmente uma lástima. 2009, ano do centenário, era uma oportunidade para que houvesse uma resolução da assembleia sobre o tratamento”, afirma Eric Stobbaerts, coordenador da campanha de Chagas da ONG DNDi(Drugs for Neglected Diseases initiative, ou iniciativa drogas para doenças negligenciadas), que na última quinta-feira, dia do aniversário do descobridor do mal, o brasileiro Carlos Chagas, lançou, na praia de Copacabana, uma campanha pelo tratamento dos doentes (a foto abaixo foi feita por Gutemberg Brito, do Instituto Oswaldo Cruz).
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Segundo artigo publicado na revista científica PloS Neglected Tropical Diseases, em fevereiro deste ano,dos 1.556 medicamentos descobertos desde 1975, apenas 21 foram para doenças negligenciadas, mas nenhum para Doença de Chagas, que recebeu apenas 0,25% dos R$ 2,5 bilhões de dólares investidos em nas doenças esquecidas em 2007.
Não existem ainda, por exemplo, tratamentos adequados para a fase crônica do problema, nem pediátricos , o que obriga as mães a quebrar os comprimidos de adultos em até 12 pedaços, como destaca a DNDi.
Stobbaerts diz que ainda há esperança, foi rascunhado em encontro regional da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) um documento sobre o tema, que fala da necessidade de tratamento e diagnóstico, mas que deve ser votado só em outubro.
“É um pouco ilusório achar que um dia se possa erradicar a doença. Há outras formas de transmissão, novos vetores, a transmissão da mãe para a crianças, por sangue contaminado, doação de órgãos, a transmissão oral. Temos de continuar com a prevenção e controle dos vetores, mas o desafio mesmo agora são os 2 milhões que necessitam de tratamento”, destaca Stobbaerts.
Durante debate promovido nesta semana pelo Estadão, o ministro da Educação, Fernando Haddad, disse que vê no setor uma aglutinação de partidos e movimentos sociais em torno dos mesmos projetos, como os de reforço da formação dos professores. Falou disto quando questionado sobre como transformar as políticas que vigoram atualmente em políticas de Estado, afastando o risco de desmantelamento do que já foi construído.
“Tirando questões muito polêmicas e difíceis (como a reforma universitária, reconheceu), em todos os demais projetos foi possível construir a unidade. Penso que, à semelhança da Saúde, que já conseguiu esse avanço, eu creio ser possível dizer hoje que já há uma espécie de Partido da Educação no Congresso Nacional. Partido da Saúde todo mundo conhecia. O da Educação está se constituindo ao longo dos últimos anos.”
No campo da saúde, realmente, ainda que tenham surgido, nos últimos anos, vozes que defendem um Sistema Único de Saúde (SUS) só para os mais pobres, há uma ampla aliança de diferentes partidos em torno de suas bases, que são a universalidade (saúde pública para todos), a equidade (mais para os mais necessitados) e a integralidade das ações de saúde (garantir a cobertura de diferentes necessidades, da prevenção, saúde básica à alta complexidade, passando pela assistência farmacêutica).
Mas o partido da saúde também tem muito a aprender com o partido da educação, que nos últimos anos avançou claramente na construção de índices de avaliação do sistema que permitem à sociedade, mesmo com as diferenças regionais, ter um mínimo de controle sobre a qualidade dos serviços, cobrar de uma maneira mais objetiva e contundente.
Na saúde não é bem assim. Mesmo metas pactuadas raramente têm seus resultados exibidos com transparência. Claro que os desafios para a construção de índices são imensos, dada a diversidade de parâmetros _na Educação, há informações bem claras sobre qual é a demanda, sobre como ela deveria evoluir. Mas o próprio Ministério da Saúde já reconheceu a necessidade e vem prometendo um quadro mínimo de indicadores que permitam avaliações melhores das gestões.
Na Educação, muitos não gostam dos rankings elaborados pela imprensa com os resultados dos diversos índices e provas, mas, apesar de suas limitações, a verdade é que eles colocam na berlinda ministros, secretários, diretores, assessores, legisladores e fazem o País inteiro discutir o que importa.
O banimento do fumo de ambientes fechados no Estado de São Paulo, que começa a vigorar em agosto, é a maior conquista da luta pelo fim do fumo passivo no Brasil. Mas a indústria do cigarro já contava com mais este obstáculo e reage. Vem aí o cigarro sem fumaça, em sachês doces para colocar na boca e em balas, além de outras novas estratégias de marketing das gigantes do setor, como investimentos pesados em brindes, alerta a pesquisadora Stella Bialous, consultora da área de políticas contra o tabagismo da Organização Mundial da Saúde.

Nos últimos anos, Stella vem revelando ao lado de colegas manobras da indústria do fumo em prol de seus consumidores cativos. Em entrevista ao Núcleo de Saúde na última quarta-feira, ela destacou ainda que não é uma surpresa a reação de donos de bares e restaurantes, que já foram à Justiça tentar derrubar a nova lei do governo José Serra.
Os documentos da indústria, que tem sido vasculhados por ela e outros pesquisadores, revelaram um célebre programa do setor chamado Convivência em Harmonia, que patrocinou em 95 donos de bares no Brasil na defesa dos chamados fumódromos e dos direitos dos fumantes, fato que a indústria considera normal. Veja trechos da conversa por telefone com a cientista brasileira, que atualmente vive na Califórnia (EUA).
Como você avalia a reação à lei no Estado de São Paulo?
Não é uma surpresa a existência de grupos de fachada que tentarão até o último momento manter os fumódromos. Em todos os lugares em que se tentou instituir ambientes livres de tabaco houve esses argumentos embasados na liberdade e nos direitos dos fumantes, e de que estamos voltando ao Nazismo e coisas assim. O que me surpreende é que estejam sendo utilizados discursos que, já se sabe, foram fabricados pela indústria e utilizados em programas como o Convivência em Harmonia. Não há nenhum argumento científico. A decisão de levar à Justiça também já vimos em outros lugares, eles tentam pegar um juiz que seja menos informado, tentam lutar até o último momento.
O argumento de que o produto é legalizado também é comum. Isto não poderá se sobrepor nos tribunais de Brasília?
Ninguém está proibindo, estamos apenas restringindo onde. Há atividades legais restritas. Não podemos fazer sexo no parque. Não podemos fazer pipi no meio do salão (risos). Fumar é legal, mas não em qualquer lugar, por medida de saúde pública. Ninguém está tirando o direito de fumar, que aliás não é constitucional. Constitucional é o direito à saúde.
Mas, apesar do avanço no Estado, ainda não temos uma legislação federal que garanta ambientes livres de tabaco. Ela continua parada na Casa Civil.
Vamos continuar agindo e vamos fazer o mesmo tipo de mobilização na esfera federal. É melhor termos um monte de leis estaduais fortes do que uma lei federal fraca. É uma estratégia, um bloqueio. Primeiro o nível local, com isto estamos testando a reação do público. Devargazinho vai andando. A grande importância de São Paulo é o número de pessoas protegidas. Temos leis assim na Irlanda, no Uruguai, mas São Paulo é do tamanho de um país. É preciso que outros Estados não tenham medo e usem a experiência de São Paulo.
Um dos argumentos muito utilizados no questionamento da lei foi o de que o governo não atende adequadamente aqueles que desejam parar de fumar.
Na verdade o Brasil é um dos poucos países com um programa governamental para auxiliar as pessoas a parar de fumar. A demanda por tratamento aumentará com a nova lei e mais ainda com o aumento dos impostos que incidem sobre o cigarro. Mas no Brasil há portarias, capacitação para o tratamento. Não é perfeito. Temos filas de espera, faltam remédios. Mas ao criarmos uma nova demanda as pessoas que já se dedicam a isto na saúde pública terão justificativa para lutar para um aumento da oferta. É importante documentar o aumento do registro de pessoas que querem o tratamento, mostrar que de 100 são atendidos 20. Temos de ter preparo e ter ideia do tamanho da demanda.
Em outros locais em que se conseguiu ter ambientes livres do fumo qual foi o próximo passo da indústria? Dá para baixar a guarda?
Não dá para baixar a guarda nunca. O que estamos vendo é que a indústria está investindo em cigarros sem fumaça, não combustíveis, para usar onde não pode fumar. Parecem umas bolsinhas de chá, só que para colocar na boca. Mas não é inofensivo. Eles estão expandindo o marketing do “smoke any time” (fume a qualquer hora). E estão inclusive dizendo que isto não faria mal, que até ajudaria a parar. Antigamente havia o fumo de mascar, mas era muito nojento. Então começaram com isto na Suécia e vem expandindo nos EUA, fazendo testes na África do Sul, por exemplo. Também já há umas balinhas, parecem aquelas de menta, que são de nicotina, para a pessoa não parar quando precisa. Além disto continua o marketing, sobretudo para jovens, compra um maço, ganha uma bolsa, um boné, compre um leve dois. Há outras áreas que precisam ser melhor fiscalizadas, haverá um aumento de ações da indústria, a inteção é manter a visibilidade do produto.
O que outros países onde isto ocorreu estão fazendo?
Tentando regulamentar este marketing. As empresas não podem ficar encorajando as pessoas a não parar. Além disto, não sabemos os riscos destes novos produtos para a população em geral.
Já há notícias sobre sua chegada ao Brasil?
Ainda não, mas vão chegar. Talvez a indústria ainda tenha esperança nas manobras legais contra a lei de ambientes livres de fumo. Mas porque estão brigando de um lado não siguinifica que não estejam se preparando de outro. A indústria está trabalhando com vários cenários. E a gente, geralmente, só corre atrás do prejuízo.
Em tempo: dados dos Centros de Controle de Doenças (EUA) apontam que o tabaco sem fumaça contém 28 agentes cancerígenos e torna adolescentes mais propensos a fumar cigarros comuns. 3% dos americanos adultos já usam fumo de mascar ou os novos sachês. O porcentual chega a 8% no ensino médio local.
Os EUA vivem uma epidemia da nova gripe suína em plena primavera e, seguindo o que é correto contra qualquer gripe, têm recomendado fortemente que as pessoas doentes fiquem em casa, relaxem, tenham hábitos saudáveis e cubram a boca para tossir e espirrar com lenços descartáveis, além de lavar sempre as mãos.
Por aqui é diferente. A gripe suína ainda não causou surtos e epidemias e a época da gripe comum está apenas começando, mas predomina a temporada da propaganda de remédios contra a doença, que insistem para você sair de casa e continuar trabalhando loucamente, desde que tome X.

O Brasil nem de perto tem uma circulação de vírus da gripe comum como os EUA todos anos e, até agora, não tem transmissão sustentável da nova gripe suína. Mas os governos têm passado mensagens tímidas contra tomar remédios por conta própria. Enquanto isso, o bombardeio do marketing dos antigripais, antitérmicos e analgésicos que têm propaganda livre não para e tem destacado as drogas como algo indispensável para quem quer ser bem sucedido no trabalho e até no amor, mesmo que “podre de gripe”.
Já viu aquela? O marido aparentemente gripado teme dizer que não vai ao jantar de aniversário de casamento. Toma o remédios e lá vai o casal feliz.
Na realidade, sabe-se que apenas duas drogas (e de propaganda proibida no País) poderiam tratar a gripe, mas ainda assim de uma maneira muito limitada, como explica a infectologista Nancy Bellei, da Unifesp. Na realidade, sua eficácia, para o paciente, é reduzir em um a dois dias os sintomas, e só. E isto se administradas em até 48 horas após o início de sintomas, como a febre alta. O problema é que grande parte das pessoas só vai ao médico depois deste prazo.
O resto das drogas combate sintomas, mas não trata coisa alguma e pode até mascarar esta nova gripe e qualquer outra doença respiratória, adiando a ida ao serviço de saúde. Quantos já não acreditaram na propaganda, se encheram de comprimidos para driblar a febre e coriza e não descobriram depois que tinham um quadro grave de sinusite, por exemplo?
Qual mensagem deve predominar quando a temporada de gripe se inicia com o agravante de um vírus novo? Ir para casa ou não parar de forma alguma? O País conseguiu interferir na propaganda dos analgésicos e antitérmicos de venda livre que poderiam piorar a dengue. E agora, o que deve ser feito? Quero saber sua opinião.
Já foram confirmados casos da nova doença no País e também transmissão entre humanos da gripe A(H1N1) por aqui. No entanto, isto não é motivo para pânico, uma vez que nem todas as pessoas terão quadros graves. O importante é ficar atendo para a definição de quadro suspeito que continua a valer no Brasil: são aquelas pessoas que estiveram em países com casos confirmados até o momento (veja no site da Organização Mundial da Saúde)e que apresentaram, até dez dias após o retorno, febre alta e repentina acompanhada de tosse e um ou mais dos seguintes sintomas: dificuldades respiratórias, dores musculares, de cabeça, nos músculos e articulações.
Também são considerados casos suspeitos aqueles com sintomas acima e que não viajaram, mas tiveram contato próximo com casos suspeitos. Pessoas nestas duas situações devem procurar um dos 52 serviços de referência do País, que podem ser consultados no site do Ministério da Saúde.
Veja no site da SBI mais dicas para a população. E atenção: não é preciso usar máscaras no País, uma vez que não há evidência de que funcionem contra o vírus da gripe. Para auxiliar na prevenção da nova doença, além de hábitos saudáveis, vale a “etiqueta da tosse”: tossir e espirrar no lenço descartável, lavar as mãos e manter os ambientes ventilados.
Seguem respostas para as principais perguntas sobre a doença enviadas por leitores. A melhor receita contra a gripe suína é a informação (veja post abaixo). Envie suas dúvidas. Consulte também a página do Ministério da Saúde.
1 – As autoridades inicialmente disseram que as máscaras protegeriam sim contra a dispersão de gotículas de saliva de pessoas que poderiam estar infectadas. E também que auxiliariam quem não está doente e precisa entrar em contato com uma pessoa infectada. No entanto, nos últimos dias, a Organização Mundial da Saúde postou em sua página recomendações de proteção que NÃO INCLUEM MÁSCARAS para a população em geral (elas seriam recomendáveis apenas para quem tem de cuidar de doentes). Segundo a OMS, uma etiqueta da tosse é mais importante: tossir e espirrar cobrindo a boca com lenço de papel descartável e depois jogá-lo no lixo apropriado. Além disto, LAVAR SEMPRE AS MÃOS. Não há a recomendação de uso de máscara no Brasil, uma vez que não há evidências da circulação do vírus no País.
2 – Não é necessário se afastar de seu amigo que voltou do México, pelo que você relatou. Ele tem algum sintoma? A Organização Mundial da Saúde definiu ontem que só são casos suspeitos aqueles em que o indivíduo esteve em áreas afetadas pela doença (consulte os países no site www.saude.gov.br, no item influenza suína) nos últimos dez dias e que apresente febre repentina, acima de 38ºC, além de um ou mais dos seguintes sintomas: tosse, dificuldade respiratória, dores de cabeça, musculares e nas articulações.
3 – Ninguém deve cancelar viagens ainda, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde. Há recomendação, no entanto, de medidas de proteção, como uso de máscaras e evitar locais com aglomeração de pessoas. Mais informações podem ser obtidas no site www.saude.gov.br.
4 – Há dois antivirais que, segundo informações do Centro de Controle de Doenças, nos EUA, combatem a gripe suína se utilizados preferencialmente logo no início da infecção. Mas ainda não existe qualquer recomendação para seu uso no Brasil, uma vez que não há qualquer evidência de que o vírus esteja circulando por aqui. Comprar remédios ou usá-los desnecessariamente prejudica quem pode realmente precisar, pois ataca os estoques, contribui para o aumento de preço. E seu uso indiscriminado pode levar ao desenvolvimento de vírus mais resistentes ainda.
5- Sim, é um tipo de vírus influenza que sofreu mutação e que reúne material de vírus que atingem humanos, porcos e aves, capaz de gerar infecções em humanos e de ser transmitido de pessoa para pessoa.
6 – Não foram detectados casos gerados pelo consumo de carne de porco. Não é necessário evitar carne de porco, obviamente a bem cozida. Restaurantes mexicanos não precisam ser evitados! Não há nenhuma possibilidade de a comida mexicana causar algum problema.
7 – Quem está em países que já registram casos deve adotar as medidas veiculadas pelas autoridades locais de saúde, que em geral têm sido uso de máscara, evitar aglomerações, lavar as mãos sempre. Caso apresente febre repentina (acima de 38ºC), além de um desses sintomas (tosse, dores no corpo e na cabeça e dificuldade para respirar), procure um serviço de saúde local. Nos EUA, o site do National Institute of Health é boa fonte de informação: www.nih.gov
8 – Mais uma vez, não é necessário se afastar de nenhuma pessoa que veio do México, mas obviamente se ela tiver qualquer sintoma, deve buscar um serviço de saúde. Na página do ministério da saúde brasileiro www.saude.gov.br) há uma lista de hospitais de referência no País, com 52 unidades.
9 – O vírus causador da gripe é o vírus influenza. Há três tipos deste vírus, A, B e C e o primeiro é o que está envolvido em grandes epidemias da doença, como a gripe espanhola, em 1918. O vírus detectado na situação atual é do tipo A e tem uma composição jamais vista, pois engloba material de vírus que causam a influenza suína, humana e aviária. O vírus da gripe espanhola era um vírus aviário.
10 – A Organização Pan-Americana de Saúde informou que o vírus apresenta um potencial grande de transmissão, mas com taxa de mortalidade relativamente baixa.
11 – Infelizmente, a própria OMS iniciou as divulgações de informações sobre a epidemia atual há 15 dias chamando a gripe de “gripe suína”. A mudança para gripe A(H1N1) ocorreu na semana passada e boa parte da imprensa continua a chamá-la assim porque entende que é a população já se acostumou a este nome. No entanto, não há qualquer evidência de que o vírus, apesar de sua origem suína, tenha sido transmitido por porcos. Não há qualquer recomendação para interromper o consumo de carne de porco.
2010
2009