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Eu, paulistano

01.março.2011 15:03:43

“Doutor” Roberto, o médico das canetas

roberto1.jpg

Por Edison Veiga*

É “Seu Roberto”. Mas pode chamar de “doutor”, mesmo. Isto porque Roberto Marques, este simpático senhor de 72 anos que aparece na foto, é o médico das canetas. “Conserto tudo o que escreve”, resume ele. Ou seja: canetas tinteiro, lapiseiras, esferográficas… Com paciência infinita e um senso de responsabilidade invejável ele garante que jamais diz “não” a um cliente. “Se eu não tiver a peça, eu mesmo a faço”, diz, apontando para o torno. “Mesmo que não compense, pelo trabalho, eu não digo não. Pego o serviço e faço.”

O início da carreira desse paulistano da Barra Funda foi como relojoeiro. “Comecei com 12 anos, na relojoaria de meu tio”, recorda-se. Três anos depois, recebeu uma proposta da concorrência. Dessas que se dizem irrecusáveis. “Fui para ganhar o triplo por mês”, conta.

Só que lá o ambiente era muito mais profissional do que na pequena empresa do tio. Só de relojoeiros, havia 10. Também tinha ourives e um – isto, apenas um – caneteiro. “Aí um mês depois que eu entrei, vieram me pedir para me tornar caneteiro”, narra. De bate-pronto, não quis. “Imaginei que era como ser rebaixado, veja só”, ri. “Como ameaçaram me demitir, não tive alternativa a não ser virar caneteiro.”

Aqui cabem parênteses. Estamos falando da década de 50. Roberto lembra que caneteiro era o que não faltava na cidade. “Em frente a tudo o que é prédio ou bar tinha um. Na rua, mesmo”, afirma.
Mas como virar caneteiro assim da noite para o dia? Foi aprender nas lojas autorizadas. Ficou três meses em treinamento em uma marca, outros meses em outra, e assim foi. “E aprendi muito por conta própria, quebrando canetas”, admite.

Em 1958, a relojoaria decidiu extinguir o departamento de conserto de canetas. Roberto não pestanejou: pegou suas coisas, alugou um cubículo de 2 metros quadrados na Rua Barão de Paranapiacaba e foi virar médico de canetas por conta própria. Mudou de endereço algumas vezes, sempre pelos arredores. Desde 1985, ocupa o imóvel atual, no número 51 da mesma Barão de Paranapiacaba. Há cinco anos, mantém uma filial na Rua Marconi, 67, também no centro.

Para os consertos, hoje conta com o auxílio de um funcionário, bem treinado assistente. Deixar uma caneta tinindo pode levar de 10 minutos a 5 horas de trabalho. Uma revisão completa custa de R$ 20 a R$ 450 – conforme a complexidade e o valor da caneta. “Um conserto pode chegar até a R$ 1,7 mil”, conta Roberto.

E a clientela? “Geralmente são os de família tradicionais, que mantêm o hábito de usar canetas caras. Caneta é status”, comenta. E como é cada vez mais difícil achar um caneteiro, Roberto atende a pedidos do Brasil todo. “Mandam por Sedex, ligam para saber do serviço…”, diz ele, para emendar: “Mas sou de uma profissão em extinção. O pessoal hoje prefere essas coisas de informática.”

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 01.03.2011.

* Edison Veiga é repórter do caderno Metrópole, do Estadão, e também tem seu blog aqui.

comentários (10) | comente

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10 Comentários Comente também
  • 01/03/2011 - 16:54
    Enviado por: Claudio de Oliveira

    Boa tarde, parabens seu DR.Roberto, isto é São Paulo, moro a 12 anos em Vitoria ES, mas sou filho desta cidade nascido no bairro do Ipiranga, estas tradições me fascinam, e vou enviar algumas canetas minhas para ser arrumada pelo DR.
    parabens pela reportagem

    Claudio de Oliveira

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  • 02/03/2011 - 20:27
    Enviado por: Carlos Melo

    Que coisa bonita, Sr. Doutor!

    Estou na cidade de Sines, Portugal e é emocionante saber que existe pessoas como esse cidadao brasileiro. Parabéns!

    Deixe o telefone ou o endereço…seria um prazer apenas saber dessas historias

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  • 04/03/2011 - 11:15
    Enviado por: Santos

    Que extinção, que nada, doutor!

    Enquanto existir Mont Blanc, Parker e Schaefer, existirá a procura por quem conserte essas preciosidades em canetas-tinteiro.

    Tampouco a profissão de relojoeiro está em extinção. Depois de uma certa idade a gente passa a dar valor às relíquias de família e vai recuperando essas coisas esquecidas e quebradas que pertenceram ao avô. Dia desses tive a satisfação de ver restaurado e funcionando direitinho o antigo relógio de pêndulo Transistora, com quase 50 anos de idade!

    Instalado no centro de São Paulo, o relojoeiro contou que conserta até relógio-carrilhão daqueles que ficam no chão sobre um pedestal. Atrasar os ponteiros de uma caríssima máquina dessas é tarefa para profissionais. Imagine então a quantidade de serviços com o fim do horário de verão.

    Engana-se porém que isso é culto ao passado. É na verdade um valorização da vida que está tornando-se cada vez mais efêmera, fugaz. Ao adquirir hoje um celular por exemplo, pode ter a certeza que em dois anos o aparelho estará ultrapassado e obsoleto, sem valor. Hora de jogar fora?

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  • 05/03/2011 - 00:24
    Enviado por: Fernanda Cruz

    É por isso que eu adoro a minha cidade, cheia de pessoas de talentos extraordinários! Parabéns, Doutor!

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  • 05/03/2011 - 08:46
    Enviado por: Roberto

    Parabéns Sr. Roberto, uma historia bonita de amor pelo que faz…

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  • 16/03/2011 - 21:05
    Enviado por: Elisabeth Crecchi

    Por favor, alguém pode me dizer, onde encontrar o Sr. Roberto? ou o e-mail do repórter Edison Veiga que fez essa matéria, maravilhosa!!!

    Preciso entrar em contato c/ eles…

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    • 22/03/2011 - 21:52
      Enviado por: Vitor Hugo Brandalise

      Olá, Elisa! Enviei o contato do colega Edison Veiga em seu email pessoal. Ok?

      Um abraço,

      Vitor Hugo

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    • 25/10/2011 - 20:10
      Enviado por: Arthur Escalera

      O Sr. Roberto é facilmente encontrado em suas lojas ambas no centro, sendo elas uma na rua barão de paranapiacaba e a outra na rua marconi, nelas você encontra desde a caneta mais simples ou a mais luxuosa.

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  • 26/10/2011 - 07:35
    Enviado por: Julia

    Ola Vitor,
    também preciso do contato do Dr Ro berto!
    Vc poderia me enviar?

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