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Eu, paulistano

20.dezembro.2011 10:33:50

Até breve

O Eu, Paulistano deixa temporariamente o cardápio de blogs do Estadão, por motivo simples: o autor está fora da cidade, impossibilitado de buscar nas ruas as histórias aqui descritas (contando sempre com ótimos colaboradores) desde agosto de 2010.

Em um ano e quatro meses, 29 pessoas foram retratadas neste espaço. Estão todas abaixo, ou ao lado, posicionadas no mapa de São Paulo.

A ideia é voltar em 2012, com mais histórias da gente anônima que personaliza nossa cidade.

Até breve,

Vitor Hugo Brandalise, catarinense, paulistano, atualmente vivendo na Espanha

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Ayrton Vignola/AE

A primeira tentativa de melhorar o acesso para cegos nas estações do Metrô de São Paulo foi marcada por uma ironia – e por um fato que hoje parece bizarro. Em uma tarde de maio de 2000, os primeiros pisos táteis da rede começaram a ser instalados na Estação Marechal Deodoro (Linha 3-Vermelha), no centro. Na mesma tarde, na mesma estação, a advogada Thays Martinez, então com 27 anos, cega desde os 4, ficou conhecida no País inteiro: ela foi barrada, impedida de ultrapassar a catraca com seu novo e primeiro cão-guia, Boris. O Metrô proibia animais na rede, Boris teria de ficar na rua. Mesmo que estivesse ali a trabalho.

Foi o início de uma batalha jurídica que durou seis anos. E teve lances de desrespeito inimagináveis – como o do dia em que um funcionário desligou a escada rolante por onde desciam Boris e Thays, provocando um tranco que quase os derrubou. No final, a advogada ganhou na Justiça o direito de acesso irrestrito ao Metrô. E acabou mudando também as regras da companhia, que passou a aceitar cães-guia na rede.

Labrador treinado na ONG americana Leaders Dog for the Blind, Boris se aposentou em 2008, após memorizar, em 8 anos, mais de 200 caminhos na cidade. Em 2009, morreu. Thays, paulistana da Vila Leopoldina, zona oeste da capital, que teve sua cegueira causada por uma caxumba, agora já tem seu segundo cão-guia. Um labrador preto chamado Diesel. Ainda sente falta de Boris, mas entende as diferenças: o primeiro, decidido e “brilhante”; o segundo, manhoso e “uma graça”. Cada um com seu jeito de animá-la.

“O Diesel é solidário, fica triste junto. Aí, me forço a ficar alegre. Já o Boris pulava e mordia de leve, como que pedindo para não ficar assim (para baixo)”, conta Thays. “Não conseguia resistir.”

Livro. Para contar sua história e a do cão que mudou a forma como as instituições públicas veem a relação entre pessoas cegas e seus guias, a advogada lança nesta semana o livro Minha Vida com Boris (Editora Globo, 142 páginas). “Comecei a escrever no jardim do prédio, em 2005. É uma reflexão que estava dentro de mim e sabia que teria de contar”, disse Thays, que narra tudo a partir da infância – de quando sonhava em ter em casa um “cachorro grande”. “Só não sabia que representaria também minha independência.”

Quando ainda vivia na Vila Leopoldina, Thays e Boris caminhavam diariamente em volta de uma praça. Ele passou a conhecer o caminho, a desviar de árvores e buracos. Aos poucos, começaram a trotar. De repente, a correr. “Para quem sempre precisou de ajuda, correr é algo indescritível. É o tipo de liberdade a que todo deficiente tem direito.”

Em seu livro, Thays conta em detalhes o que sentia em relação ao cão – sentimentos, como uma inesperada vaidade, chegaram a surpreendê-la. Quando foi buscar o cão em Michigan (EUA), lembra de ter tomado um banho “de lavar a alma”. Depois, demorou a decidir a melhor roupa. “Confesso que, por uma fração de segundo, pensei que poderia estar sendo um pouco ridícula, mas nunca se sabe os critérios caninos…”, escreveu, com bom humor. “No fim, deu certo. O Boris nunca reclamou”, brincou, durante entrevista na quinta-feira.

Praia. Além da descrição detalhada do processo com o Metrô – como as ironias que enfrentou de advogados da companhia, que diziam não impedi-la de entrar, “só o cachorro” -, Thays fala também das pequenas alegrias do convívio com o animal. Como a primeira vez em que caminhou na praia sozinha, em Peruíbe, no litoral sul. “Parecia sonho impossível, porque a praia, lugar amplo e sem referências, desorienta a pessoa cega. Mas, com o Boris, marcamos os quiosques como referenciais e conseguimos”, contou. “Tomamos até banho de mar.”

Thays voltou também a caminhar pela cidade. Boris conhecia como poucos os trajetos do centro velho, onde a advogada trabalhava. Hoje, com Diesel, dá expediente no Tribunal Regional do Trabalho. “Nunca me deixou bater nos obstáculos aéreos, como orelhões”, contou Thays, que fundou a ONG Iris, de auxílio a deficientes (já ajudou 24 pessoas a terem cães-guia). “Depois de tanta exposição, são poucos lugares que resistem a receber cães-guia. Alguns restaurantes e taxistas. Mas, explicando bem, quase sempre aceitam.”

Depois de Boris, Thays decidiu que pretende ter cães-guia “enquanto puder”. “Como a separação é difícil, pensei em voltar a ficar sozinha. Mas a liberdade e a alegria compartilhadas compensam”, disse. “Até a frase de que “cão-guia vira sua extensão” deixa de ser clichê. Quando o Boris se aposentou, me separei dele pela primeira vez. Um dia, acordei e joguei a mão para o lado, procurando. Parecia que nem meu braço estava ali.”

No processo de produção do livro, Thays fez uma única exigência – que fosse lançado em audiolivro junto com a edição impressa. “Para evitar que as pessoas cegas esperem meses por um livro disponível para todos os outros.” A obra será lançada nesta terça-feira na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073), entre 18h30 e 20h30.

Versão ampliada de perfil publicado na seção Paulistânia, no caderno Metrópole, em 14.08.2011.

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Werther Santana/AE 

São 1,5 mil cerejeiras floridas, cercadas por um paredão de pinheiros americanos no Parque do Carmo, em Itaquera, zona leste da capital. Oferecem espetáculo raro, apenas nesta época do ano – frágeis pétalas se desprendem com o vento e causam revoadas de flores rosas e brancas. São visitadas de manhã cedo e no fim da tarde, geralmente por grupos de jovens, ou casais de idosos. E são “quase parte da família” de um homem tímido e determinado, que ajudou a plantar as árvores em 1977, bem antes de o conjunto se tornar o maior bosque de cerejeiras do Estado.

Desde que ajudou o pioneiro Katsuotoshi Matsubara – idealizador do bosque – a plantar as primeiras 300 cerejeiras do parque, o agricultor Patrício Yoshioka, de 70 anos, dedica parte do seu tempo a cuidar das árvores. Tudo em nome da tradição: a flor da cerejeira (Sakura) é um dos símbolos do Japão, onde nasceram pai, mãe e todos os antepassados do agricultor.

O trabalho, voluntário, é realizado com um grupo de outros integrantes da Federação de Sakura e Ipê do Brasil. “Acompanhamos as árvores semana a semana, podamos, adubamos, tratamos. Tudo para passar adiante um legado bonito”, disse Patrício, diretor técnico da Federação, e conhecido como “agrônomo” e “botânico”, mesmo sem formação. Entre os integrantes da entidade, o paulistano, que nasceu e sempre viveu em Itaquera, é o único remanescente do grupo que plantou as árvores.

Além de raro, a florada é espetáculo efêmero: as cerejeiras florescem uma vez ao ano, por 15 dias. Para comemorar, desde 1978 é realizada no Parque a Festa das Cerejeiras em Flor – tão prestigiada que, neste ano, pela primeira vez haverá dois dias de evento (começou ontem e continua hoje). “O público cresceu e percebemos que poderíamos oferecer mais atrações para celebrar as flores”, comemorou o presidente da federação, Pedro Yano.

Na tradição japonesa, as Sakura simbolizam brevidade e fragilidade – são associadas ao samurai, guerreiro de vida efêmera, como a flor. “Também são símbolo da paz esperada em nossa terra. No caso, Japão e Brasil”, ensina o agricultor, que, mesmo com as flores ainda ali, já pensa na florada do ano seguinte. “Sigo o relógio da natureza. Na primeira chuva após a florada, temos de adubar. É o momento de preparar as próximas flores.”

Os planos da federação para as cerejeiras são ambiciosos: em maio, plantaram mais 1,5 mil mudas na colina vizinha ao atual bosque, para criar o maior conjunto de cerejeiras fora do Japão. “Difícil foi plantar as primeiras. Não sabíamos quais espécies sobreviveriam aqui”, conta Patrício. Das 300 primeiras cerejeiras, da variedade Kanzashi, só duas continuam vivas. “Para mim, são as mais bonitas.”

Discreto. Nas fotografias do plantio das primeiras árvores, Patrício aparece sempre ao fundo, atrás das autoridades que inauguraram os canteiros – e sempre com o olhar fixo nas cerejeiras. “É que depois de terminarem de plantar, eu corro para fixar a terra, com as mãos mesmo. Não é para aparecer. É pelas árvores.”

Nos dias que antecedem a festa da florada, o Parque do Carmo ganha ar ainda mais oriental – onde mais seria possível encontrar mulheres com chapéus de agricultoras, colhendo folhas de cerejeira? É para produzir o Sakura Miti, doce de feijão azuki, enrolado com folhas de cerejeiras. Com um detalhe: não pode ser a primeira nem a quarta folha de um galho. Só servem a segunda ou a terceira. “A primeira é sempre muito nova, desmancha, não segura o doce”, explica Michi Sakata, de 78 anos. “A partir da terceira, fica muito dura e amarga.”

Cuidados com detalhes é marca desse grupo de descendentes de japoneses. Ao caminhar entre as árvores, os fiéis guardiães das cerejeiras já começam a trabalhar: tiram galhos secos, fazem pequenas podas, não dão sossego aos funcionários encarregados de cuidar do bosque.

Em um passeio no parque, Patrício encontrou um jardineiro que se preparava para plantar outra cerejeira. O agricultor examinou o caule, sentiu as folhas, pensou por alguns segundos – e reprovou a cerejeira. “É da espécie Okinawa, não vai florescer”, decretou. “Na minha chácara, tenho a variedade certa (Yukiwari, como as últimas 1,5 mil árvores plantadas). Vou trazer para cá.” O agricultor o olhou fixamente. O funcionário nem discutiu. Meia hora depois, outra cerejeira da lavra de Patrício foi plantada no Parque do Carmo – na avaliação do agricultor, essa vai sobreviver.

Versão ampliada de perfil publicado na seção Paulistânia, no caderno Metrópole, em 07.08.2011.

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Por Edison Veiga*
Foto de Werther Santana/AE

“Nosso foco maior, nosso prato principal, sempre foram os taxímetros”, conta Jorge Longo, de 37 anos. E ficam lá, exibidos com orgulho numa prateleira de sua pequena oficina, na Mooca, pedaços da história do táxi em São Paulo. Jorge guarda como se fossem troféus todos os modelos de taxímetro com os quais sua empresa, a Auto Geral Pardal, já trabalhou. Fundada em 1969 – por Mariano, pai de Jorge, morto em 2009 –, ela foi testemunha das mudanças tecnológicas vividas pela categoria. É uma das 32 oficinas hoje credenciadas na cidade com autorização para mexer nos taxímetros – quando eles apresentam algum problema ou quando, como recentemente, há alteração na tarifa.

No total, a coleção de Jorge tem 22 modelos diferentes. Os mais antigos, de corda e mecânicos – “todo dia de manhã o taxista precisava dar corda antes de começar a trabalhar”, explica Jorge. Depois, ainda mecânicos, surgiram os elétricos, ligados na bateria do carro. Em seguida apareceram os digitais – “o primeiro deles, no fim dos anos 80, ia acoplado no lugar do rádio do carro”, conta Jorge. E até, no início dos anos 90, um de cristal líquido, que não pegou – “não deu certo porque os bandidos roubavam muito… Achavam que era televisãozinha”, ri o funcionário José Carlos de Moura, de 58 anos, que instalada, desinstala, desmonta e conserta taxímetros desde quando era criança, há 48 anos.

E é José Carlos que detalha como era o primeiro taxímetro de São Paulo – peça que falta na coleção de Jorge. “Era tão grande, que ficava do lado de fora do carro, perto do retrovisor”, explica. E os carros, hein, José Carlos? No começo de sua carreira instalou muito taxímetro em Fusca? “Que é isso, rapaz! Fuscas eram carros modernos. Quando comecei, o que tinha mesmo era táxi DKW, Aerowillys, Itamaraty, Galaxy 500… Até Gordini aparecia”, diz.

Tanto José Carlos quanto Jorge têm saudades de quando os taxímetros eram mecânicos. “Aquele era um tempo bom, sabe? Ia o dia inteiro para ajustar um. Sabia que dentro de um desses (aponta para um dos antigões) existem 365 pecinhas? Os de hoje não dão trabalho…”, comenta José Carlos. “Para você ter uma ideia, na época do último reajuste da tarifa, agora, no início do ano, chegamos a ajustar 130 por dia. É só trocar um chip, muito rápido”, completa Jorge. “Pois é… Antes ajustar taxímetro era trabalho de relojoaria”, lamenta José Carlos, que em sua casa também guarda três taxímetros antigos. Ficam em cima de seu aquário de 300 litros de água, onde ele mantém carpas e kinguios.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 26.04.2011.

* Edison Veiga é repórter do caderno Metrópole, do Estadão, e também tem seu blog aqui.

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Clayton de Souza/AE

Aldo Malagoli foi goleiro do Corinthians por cinco anos, entre 1958 e 1963. Sofreu com Pelé e Garrincha, ganhou fama de milagreiro, foi cotado para a seleção na Copa de 1962. E se aposentou cedo, aos 34 anos, quando quis se dedicar mais à família – decisão que o levou a andar cabisbaixo pelos campos da várzea. E agora, Aldo, que fazer da vida? Enquanto não decidia, aceitou um bico: venderia chocolates. Todos o conheciam, seria bom vendedor.

Foi tão bem que consequências maiores surgiram. Numa tarde de bola num campo do Butantã, na zona oeste de São Paulo, o ex-ponta-direita Ari, do Radium Clube de Mococa, correu até ele. Será que Aldo teria interesse em aprender a fazer chocolate? Sua irmã trabalhava na fábrica da Kopenhagen, na época no Itaim-Bibi, e poderia ser a chef. Ficou indeciso, era conservador, não tinha experiência… Mas, que diabo, não existiam muitas chocolaterias na cidade na época. Aldo topou.

Assim teve início uma série que chegou a seis fábricas de chocolates artesanais comandadas por uma mesma família, a partir do negócio de Aldo, naquele junho de 1971. Hoje, são 20 tios, primos, irmãos, cunhados, sobrinhos e netos que tocam os negócios nas quatro fábricas que restaram na cidade.

Vaneza, nome da primeira filha do goleiro com a mulher, Elisabeta, também foi o nome escolhido para batizar a primeira fábrica da linhagem, dentro da casa dos sogros de Aldo, os Marconis, no Bom Retiro. “A casa ficava lotada, vinha gente de longe comprar chocolate”, contou o goleiro numa manhã da semana passada, entre funcionários atarefados que tentavam dar conta dos pedidos da Páscoa.

Um ano depois, em 1972, Aldo deixou a Chocolateria Vaneza (que funcionou até meados dos anos 2000 nas mãos dos tios de Elisabeta) e fundou a Liverpool, no Butantã. Está lá até hoje, produzindo 12 toneladas de chocolate caseiro em feriados assim, de maior movimento. “O que aconteceu foi simples: o pessoal da família foi vendo que funcionou e entrou no mesmo barco.”

Os próximos a investir no ramo foram Gulhermo e Romeu Marconi, tios de Elisabeta. Primeiro, venderam tabletes de chocolate com amendoim em feira livre no Bom Retiro e na porta de casa. As filas dobravam a esquina e Gulhermo e Romeu perceberam que precisavam de mais espaço. Na zona norte, abriram a fábrica Munik, em 1975. Hoje, é a maior da família, com 27 unidades próprias na capital e Região Metropolitana – e seis Marconis tomando conta, da administração à linha produtiva.

Outro a se empolgar com o sucesso do novo ramo, num tempo em que ainda não havia grandes redes, foi Antonio Carlos Seripieri, cunhado de Aldo e Elisabeta. Também em homenagem à primeira filha, abriu a Chocolateria Ariane, no Morumbi. E lá se vão 26 anos, com gerações da família tocando juntas a fábrica.

Em 1989, ainda surgiria a Di Siena, em Perdizes, fábrica-caçula da família, fundada por José Oswaldo Marconi e Primo Paulo Marconi. Oswaldo começou na linha de produção da Vaneza, fazendo gotinhas de licor. “A dedicação de um foi puxando a de outro. Na Di Siena são três Marconis levando em frente o nome”, contou Oswaldo. “Pena que, com a correria, não conseguimos nos reunir.” Sem chances, portanto, de reunião para o almoço de Páscoa hoje: para Malagolis, Marconis e Seripieris, almoço especial só amanhã, e “se der”.

Veterano. Mesmo com a rotina nas fábricas de chocolate, Aldo nunca largou os gramados. Aos 75 anos, bate bola duas vezes por semana no Clube Pinheiros, do qual é conselheiro. Quarta-feira é dia de “rachão” e, no domingo, ainda tem campeonato de veteranos – competição em que, nos últimos anos, vem sendo o goleiro menos vazado. “O Milton Neves (jornalista esportivo) diz que sou o único “veterano em atividade” do futebol.”

Mesmo nas metáforas, sempre que pode, arrisca unir chocolate e futebol. Como quando pretende explicar o porquê de a família toda trabalhar no ramo. “É como o jogador que começa nas categorias de base de um time. Ao subir para o profissional, já não sente tanto o peso da camisa. Nos chocolates também foi assim.” Quem já estava no time, diz Aldo, viu a oportunidade e continuou vestindo a camisa.

Versão ampliada de perfil publicado na seção Paulistânia, no caderno Metrópole, em 24.04.2011.

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Tiago Queiroz/AE

Para passarinho, mamão é filé mignon. A constatação é de Tomomi Uemura, o “Mano”, despachante aposentado que vai todo dia ao Parque da Aclimação, no centro, com missão que considera indispensável: alimentar passarinhos. Há sete anos, chuva ou sol, Natal ou carnaval, lá vai Mano, carregando frutas da feira para encher o papo dos penosos. Acabou ficando amigo das aves. “Só não comem na minha mão agora porque pensam que essa câmera é uma espingarda.”

No parque, frequentadores o chamam de “japonês dos passarinhos”. Desde que se aposentou, em 2004, seu trabalho voluntário é abastecer as duas bancadas de madeira que ficam atrás da concha acústica, com 30 a 40 mamões e mais 35 bananas por dia. Sabiás-laranjeira, sanhaços, periquitos, a passarada faz a festa com o banquete de Mano.

Questões estratégicas o levaram a escolher o “local de trabalho”. Nos arredores do parque há seis feiras livres, quase uma por dia da semana. Ficou tão conhecido que nem precisa avisar: os feirantes separam todo dia frutas para ele. “Na terça, é na Rua Guimarães Passos. Na quarta, na Oliveira Peixoto. Na quinta, Teodureto Souto, e por aí vai”, enumera – e se empolga: “Aqui é a cratera de um vulcão! Um centro de distribuição privilegiado! É quente!”

O dia desse voluntário alimentador dos passarinhos começa cedo: caminhada a partir das 5 horas, frutas para os pássaros às 8, feira no início da tarde para abastecer o carrinho. “Nunca perdi um dia. Natal, ano novo, nunca.” Para facilitar a vida, ele mesmo resolveu melhorar a infraestrutura do parque. “Fiz uma vala para escoar a água e construí a segunda bancada.”

O aposentado, de 64 anos, tem uma única bronca. “Não aguento pais que ensinam os filhos a assustar os passarinhos. Ainda vou chegar para um desses e falar: ‘cai fora você, seu tranqueira! Eles não têm outro lugar para ir numa cidade como essa!’”

Depois, enquanto discorria sobre o penteado dos pica-paus-pretos – “parece que passou gel no cabelo, todo cheio de marra ” – ele interrompeu o raciocínio. Já são 11h30, ele tem compromisso, tem de puxar logo o carrinho. “Me apavoro só de pensar em perder a hora, tenho mesmo de ir”, disse, e encerrou a conversa. Era terça, dia de feira na Guimarães Passos.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 21.04.2011.

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15.março.2011 20:01:35

Recesso de férias

Trinta dias, pessoal!

Voltamos na metade de abril, ok?

Até lá!

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Por Edison Veiga*

É “Seu Roberto”. Mas pode chamar de “doutor”, mesmo. Isto porque Roberto Marques, este simpático senhor de 72 anos que aparece na foto, é o médico das canetas. “Conserto tudo o que escreve”, resume ele. Ou seja: canetas tinteiro, lapiseiras, esferográficas… Com paciência infinita e um senso de responsabilidade invejável ele garante que jamais diz “não” a um cliente. “Se eu não tiver a peça, eu mesmo a faço”, diz, apontando para o torno. “Mesmo que não compense, pelo trabalho, eu não digo não. Pego o serviço e faço.”

O início da carreira desse paulistano da Barra Funda foi como relojoeiro. “Comecei com 12 anos, na relojoaria de meu tio”, recorda-se. Três anos depois, recebeu uma proposta da concorrência. Dessas que se dizem irrecusáveis. “Fui para ganhar o triplo por mês”, conta.

Só que lá o ambiente era muito mais profissional do que na pequena empresa do tio. Só de relojoeiros, havia 10. Também tinha ourives e um – isto, apenas um – caneteiro. “Aí um mês depois que eu entrei, vieram me pedir para me tornar caneteiro”, narra. De bate-pronto, não quis. “Imaginei que era como ser rebaixado, veja só”, ri. “Como ameaçaram me demitir, não tive alternativa a não ser virar caneteiro.”

Aqui cabem parênteses. Estamos falando da década de 50. Roberto lembra que caneteiro era o que não faltava na cidade. “Em frente a tudo o que é prédio ou bar tinha um. Na rua, mesmo”, afirma.
Mas como virar caneteiro assim da noite para o dia? Foi aprender nas lojas autorizadas. Ficou três meses em treinamento em uma marca, outros meses em outra, e assim foi. “E aprendi muito por conta própria, quebrando canetas”, admite.

Em 1958, a relojoaria decidiu extinguir o departamento de conserto de canetas. Roberto não pestanejou: pegou suas coisas, alugou um cubículo de 2 metros quadrados na Rua Barão de Paranapiacaba e foi virar médico de canetas por conta própria. Mudou de endereço algumas vezes, sempre pelos arredores. Desde 1985, ocupa o imóvel atual, no número 51 da mesma Barão de Paranapiacaba. Há cinco anos, mantém uma filial na Rua Marconi, 67, também no centro.

Para os consertos, hoje conta com o auxílio de um funcionário, bem treinado assistente. Deixar uma caneta tinindo pode levar de 10 minutos a 5 horas de trabalho. Uma revisão completa custa de R$ 20 a R$ 450 – conforme a complexidade e o valor da caneta. “Um conserto pode chegar até a R$ 1,7 mil”, conta Roberto.

E a clientela? “Geralmente são os de família tradicionais, que mantêm o hábito de usar canetas caras. Caneta é status”, comenta. E como é cada vez mais difícil achar um caneteiro, Roberto atende a pedidos do Brasil todo. “Mandam por Sedex, ligam para saber do serviço…”, diz ele, para emendar: “Mas sou de uma profissão em extinção. O pessoal hoje prefere essas coisas de informática.”

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 01.03.2011.

* Edison Veiga é repórter do caderno Metrópole, do Estadão, e também tem seu blog aqui.

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Por Rodrigo Burgarelli*
Foto de Jonne Roriz/AE

Não havia dia fácil para aquele moço que morava no meio do mato. O trabalho já começava lá pelas 3 da manhã, quando ele largava o barraco erguido entre as árvores para enfrentar três horas de caminhada até a Lapa, onde pegava uma condução para o centro.  Na volta, o mesmo trajeto – ônibus, três horas a pé e de novo aquela imensidão de verde, barulho de bicho, sem casa nenhuma por perto a não ser a do seu Artur de Brito, o dono da fazenda.  Difícil era, mas não foi para fazer corpo mole que ele tinha deixado mulher e filha na Paraíba.  E lá saía ele a caminhar três horas de novo.

Foram assim os primeiros meses do seu Anílson Dantas da Silva naquele começo de 1961. Hoje, Anílson é um aposentado de 88 anos, que gagueja enquanto fala e que passa todos os seus dias num barraquinho velho e rodeado de verde no distrito de Anhanguera, no noroeste da cidade. O motivo de ele estar ali não podia ser outro. “Já tive a oportunidade de morar em Osasco, nos anos 1980. Cheguei lá com a família na casa que me arrumaram, mas nem desci do carro porque sabia que não ia conseguir ficar ficar longe do verde, no meio de tanta cidade”, conta. Há exatos 50 anos, seu Anílson vive no distrito em que há mais área verde em parques e praças de toda São Paulo.

Quando o paraibano chegou no local, toda aquela terra ainda era o Sítio Santa Fé, uma antiga fazenda localizada ao norte do Pico do Jaraguá. Ele foi parar ali graças ao seu antigo empregador, dono de uma loja de outdoors na Avenida São João em meados do século passado. “O chefe era amigo do dono da fazenda e me arrumou um canto aqui para eu erguer meu barraco”, explica. É claro que viver uma vida inteira naquela lonjura não foi fácil, mas, etapa por etapa, a situação foi melhorando. Primeiro, comprou uma bicicleta para chegar mais rápido ao trabalho. Depois, conseguiu trazer mulher e filhas. Hoje, toda a família, cerca de 20 pessoas, mora em uma pequena vila de cinco casas próxima à Estrada Velha do Jaraguá – onde, há muito tempo, passavam os tropeiros que abasteciam a região mineradora de Perus.

Sua filha mais velha, a comerciante Maria Gorete Dantas da Silva, de 45 anos, ainda lembra e ri de quando ela e as irmãs eram conhecidas como “filhas do Tarzã”. “Todo mundo chamava meu pai assim, porque ele teimava de querer morar no meio do mato. Era tão longe que o motorista do ônibus da escola, que passava pela Estrada de Perus, preferia desviar do caminho e me deixar aqui em casa para não ter perigo. Era uma volta boa, mas eles vinham brincando, chamando meu pai de Tarzã, e todo mundo ria”, lembra.

Em 1978, grande parte da antiga fazenda foi comprada pela Prefeitura, que criou ali do lado o Parque Anhanguera, o maior da cidade. O resto do sítio acabou dando lugar para algumas indústrias, um pesque e pague, algumas ruas asfaltadas e a pequena vila onde Anílson e a família ainda vivem. Agora, seu principal hobbie é a criação de bichos: são uma vaca, 3 cachorros, 9 patos, 15 galinhas, 20 pombos e 23 gatos. Coisa que só é possível ali, a 30 quilômetros do centro, naquele pequeno universo de verde incrustado na metrópole onde seu Anílson, o “Tarzã”, decidiu viver.

* Rodrigo Burgarelli é repórter do caderno Metrópole, do Estadão.

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Evelson de Freitas/AE

Quando previu jardins nas casas que projetou, o arquiteto Ramos de Azevedo deveria saber que alguém teria de cuidar deles depois. Mesmo 50 anos depois? “Mesmo 100 anos depois”, resume o homem baixinho, de modos tímidos, sentado num banco sombreado por jacarandá de 20 metros no jardim de um casarão antigo do bairro da Liberdade, no centro de São Paulo.

Antonio Rodrigues Velame, 75 anos, tem um único emprego indicado na carteira de trabalho: Jardineiro. Em seu caso, diante de ocupação tão ímpar, o documento poderia ser até mais específico: Antônio, o Toninho, sempre foi Jardineiro de Casas de Ramos de Azevedo. Já faz 56 anos.

Seu primeiro emprego foi em 1955, logo na Casa das Rosas – construída pelo arquiteto na Avenida Paulista para a filha, Lúcia, e onde funciona hoje famoso centro cultural –, quando era recém chegado de Baixada das Palmeiras, na Bahia. No emblemático endereço ajardinado, Toninho ficou responsável pela área mais visada: o jardim de rosas que dá nome à casa. “Aprendi a podar tudo que é tipo de rosa. Vez por outra, tirava algumas para colocar em vasos na casa.”

Ainda naquele ano, Toninho se mudou para um quarto dos fundos do casarão, a convite da patroa – entre as lembranças que guarda de “Dona Lúcia”, aliás, está o bom tratamento aos funcionários. “Lembro do meu primeiro salário: 1.800 mirréis. E, três meses depois, já recebi um aumento. Passou para 2 mil e logo depois melhorou de novo. Está tudo na carteira de trabalho.”

Além de tomar conta do roseiral, Toninho cuidava da “higiene e asseio” do galinheiro que existia nos fundos do terreno. “Já pensou? Galinhas na Paulista? Outros tempos…” Nessa época, aos fins de tarde, a pedido de D. Lúcia, Toninho descia a ladeira da Avenida Brigadeiro Luís Antônio até o número 111 da rua Pirapitingui, na Liberdade.

Lá vivia Laurita, neta do famoso arquiteto, em outra residência histórica: na primeira casa em que Ramos de Azevedo morou na cidade, construída em 1891, e depois herdada pela neta. “Ia levar ovos para a D. Laurita. Mas acho que ela não dava muita bola, não. Era mais coisa de mãe. A D. Lúcia sempre foi tão prestativa…”

Após a morte de Lúcia, o filho, Ernesto Dias de Castro Filho, e a esposa, Anna Rosa, passaram a viver no palacete da Avenida Paulista. O jardineiro da família foi mantido. Toninho tomou conta dos roseirais por 31 anos, até que a casa foi desapropriada pelo governo, em 1986.

Apesar da mudança de endereço, ele continuou cuidando dos jardins da família – em outro casarão projetado pelo arquiteto, também na Rua Pirapitingui – até o final da década de 1990, quando D. Anna Rosa morreu. Pela primeira vez, Toninho deixou de ter vínculos com a família. O jardineiro achou que ficaria sem emprego. Mas não foi o que aconteceu.

Para o casarão do lado, o mesmo a que Toninho levava ovos na década de 1960 e primeira casa de Ramos de Azevedo na capital, mudou-se uma editora, a Global. Preocupado em preservar a história do casarão, o novo proprietário, Luiz Alves Júnior, quis manter também o jardineiro da família.

E lá está o Toninho até hoje, numa casa com novo uso, mas que ainda mantém estufas projetadas no século 19 para ele cuidar. “Não entendo nada de arquitetura”, disse ele, após rememorar sua trajetória no banquinho embaixo do jacarandá. “Mas depois de tanto tempo de serviços e tanta ajuda, sinto muito carinho por essa família.” 

Carinho que leva o jardineiro a guardar no criado-mudo, há quase 20 anos, um recorte de jornal emoldurado de 12 de março de 1991, dia seguinte à inauguração da Casa das Rosas como equipamento cultural. “Não sei muito de escrita, não senhor, mas você vai gostar de ler. Vou trazer para você amanhã.”

Naquela manhã, bem cedo, ele levantou o porta-retrato com orgulho.

– Pena não haver nenhuma dedicatória da dona Anna Rosa, não, Toninho?

– Meu filho, ela disse que deveria ficar comigo porque era como se eu fosse da família. Tem melhor dedicatória?

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