O livro digital em debate
3 de agosto de 2010 | 0h03
Ethevaldo Siqueira
Gosto tanto de livros que, se fosse rico, investiria o máximo que pudesse em uma biblioteca particular tão grande e valiosa quanto à de meu querido e saudoso amigo José Mindlin. Por isso, não perco uma única edição da Bienal do Livro. Este ano tenho, além do prazer de visitá-la, um evento a mais para comparecer: o Fórum Internacional do Livro Digital, que será realizado nos dois dias que antecedem à Bienal.
O tema central desse fórum não é, a rigor, prever o fim do livro, mas discutir as transformações a que ele estará sujeito nos próximos anos. Por mais que me entristeça reconhecê-lo, concordo com a maioria dos estudiosos desse tema sobre as consequências das profundas inovações tecnológicas sobre o futuro do livro.
Para muitos especialistas, o livro impresso em papel estará praticamente extinto daqui a 30 anos, e só será encontrado em museus, nas últimas bibliotecas pessoais ou nas mãos de bibliófilos e colecionadores. Na melhor das hipóteses, como um mercado de nicho, sobreviverão livros de arte e obras de luxo, com as mais belas ilustrações ou reproduções de pinturas.
Em lugar dos livros de papel, teremos, provavelmente, o livro digital interativo, como um novo conceito, com novos formatos e funções. Os embriões desse novo livro já estarão tomando forma, à medida que vai desaparecendo seu antigo e secular antecessor, nascido praticamente com Gutenberg.
A boa perspectiva é que, com os leitores eletrônicos e a universalização da tecnologia digital, venha a crescer substancialmente o número de pessoas que leem, numa reversão surpreendente do declínio do hábito de leitura das novas gerações.
As ferramentas dessa revolução estão aí. São leitores eletrônicos como o Kindle DX da Amazon, o Sony e-Reader Touch PRS 500, o BeBook Neo, o Alex e-Reader, o PanDigital Novel, o Kobo e-Reader, o Barnes & Noble Nook, o Cool-er e, obviamente, a vedete mundial da Apple, o iPad.
Testemunhei em janeiro, em Las Vegas, algo surpreendente. De tal modo os e-readers atraíram e dominaram as atenções dos milhares de visitantes do Consumer Electronics Show 2010, que ouso afirmar que esses novos leitores digitais de e-books terão enorme impacto sobre a indústria do livro, bem como do jornalismo impresso. Tudo depende de alguns poucos avanços da tecnologia de monitores, bem como da capacidade de comunicação sem fio WiFi e 3G dos tablets e da disponibilidade da banda larga na maioria dos países.
A Amazon anunciou na semana passada a versão mais barata do Kindle, chamado Kindle Wi-Fi, seu leitor de livros digitais, por US$ 139. O aparelho tem apenas conexão via rede local sem fio e não 3G. Embora seja o mais barato da categoria, esse Kindle pode armazenar 3,5 mil livros. Um pouco mais cara é a versão desse e-reader com capacidade de comunicação 3G, que custará US$ 189.
Qual é o futuro do livro?
Vou conferir no fórum do livro digital na semana que vem tudo que penso sobre o tema e confrontar minhas ideias com as previsões dos especialistas. Acho que daqui a dois ou três anos, os tablets – esses modelos híbridos de mini-laptops e leitores eletrônicos – serão o grande sucesso entre os e-readers, batendo de longe a maioria dos dispositivos dedicados lançados no mercado até aqui.
Eu já era otimista desde o lançamento dos primeiros leitores eletrônicos, como o Kindle, da Amazon. Agora sou ainda mais, com os milhões de iPads vendidos pela Apple e o dado mais impressionante da semana passada: a venda de livros eletrônicos vendidos pela Amazon para o e-reader Kindle no primeiro semestres deste ano foi três vezes superiores às vendas do primeiro semestre do ano passado, ou seja, um crescimento de 200%.
Além de oferecer mais de 1,8 milhão de livros digitais gratuitos, disponíveis para download, a Amazon comercializou no último trimestre mais de 630 mil títulos, a maioria com preços até US$ 10.
O que pode quebrar todos os paradigmas atuais na disputa com os livros de papel é o fato de o leitor eletrônico não apenas armazenar milhares de livros mas também acessar jornais e revistas. Conheço dezenas de pessoas que já se tornaram usuárias habituais dos e-readers porque querem ter a liberdade de ler em viagem, em férias, em qualquer lugar, com o maior número de opções de obras, fotos, vídeos e documentos.
Com a nova tecnologia, estudantes poderão levar para o colégio ou universidade dezenas de livros de textos e dicionários, sem que isso pese um grama a mais em sua mochila. Além de tudo isso, os modelos tablets, como o do iPad serão, também, alternativas para os laptops ou netbooks.
Três palestrantes notáveis
O Fórum Internacional do Livro Digital, que acontecerá no Auditório Elis Regina, no Pavilhão de Congressos do Anhembi, terá três palestrantes imperdíveis: Mike Shatzkin, John B. Thompson e Jean Paul Jacob.
O primeiro é o norte-americano Mike Shatzkin, fundador e CEO da empresa The Idea Logical Company, que falará sobre O futuro do livro impresso num mundo digital, no dia 10, das 20h30 às 22h00. Consultor especializado na cadeia produtiva do livro, que envolve redação, edição, agenciamento, venda, marketing, produção e gestão, Shatzkin tem um dos blogs com maior audiência no mundo voltado para a discussão do impacto da mudança digital no mundo dos livros (The Shatzkin Files, http://idealog.com/blog).
A segunda palestra – Os livros na Era Digital – será proferida no dia 11, das 8h30 às 10h00, pelo professor de sociologia da Universidade de Cambridge (Inglaterra) e autor do livro do mesmo nome (Books in the Digital Age, em inglês), com uma análise especial das transformações da indústria editorial do livro.
O último palestrante do Fórum Internacional do Livro Digital será o cientista brasileiro Jean Paul Jacob, ex-pesquisador da IBM em Almadén, Califórnia, e atualmente cientista-consultor da Universidade da Califórnia em Berkeley. O título de sua será O futuro já não é mais o que era, a ser proferida no dia 11, das 18h às 19h30.
Jean Paul Jacob adianta alguns aspectos de sua palestra: “O auditório fará um passeio guiado por mim por cenários que poderão fazer parte de sua vida no futuro de curto e de longo prazo. O mundo físico em que vivemos está sendo ampliado por muitos mundos digitais virtuais. No cinema, uma cena de grande perigo para um ator ou atriz é, na verdade, vivida virtualmente por desenhos ultra-reais produzidos por tecnologia digital”.
A palestra do cientista brasileiro mostrará ainda as transformações que poderão ocorrer no mundo dos livros, com a popularização dos leitores eletrônico-digitais, que usam tinta eletrônica, como o Kindle, o Sony e outros.
“É nesse mundo virtual – diz Jean Paul Jacob – em que os átomos são substituídos por bits, que vamos explorar novas paisagens, nunca antes imaginadas. Páginas de livros e revistas, por exemplo, terão a possibilidade de mostrar um vídeo e até manter um diálogo por voz com o usuário”.
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Ethevaldo,
Um dos problemas dos e-readers sempre foi que que nem computadores eles sao iluminados por tras,eventualmente a vista canssa. Por isso nunca gostei muito, ATE HOJE,quando vi o novo Kindle da Amazon.com
Realmente parece que vce esta lendo um livro o contraste e otimo, e super leve ,pequeno e a bateria dura um mes inteiro e nao tem o glare do IPad. O livro vai do jeito da Enciclopedia Brittanica.
abs
Aa respeito do post previo: A giria Killer app. tem origem com os surfistas da California, nao surfistas da internet,mas surfistas de onda mesmo. A onda perfeita e chamada de Killer wave, e aqui agora tudo que e bom e chamado Killer ex. Killer wave,Killer party,Killer meal, Killer movie e Killer app entre outros.
O IPad por causa da sua “touch screen” tem um vidro finissimo em cima da screen do computador, e isso cria um extra refletimento (glare) que cansa os olhos.
abs
Sinceramente os kindles e os tablets ainda não me atraem nenhum pouco.
Ah sim, eles podem virar computador, mas porque compraria um novo computador com capacidade reduzida se já tenho um PC, um celular, e talvez um PDA que já dão conta do recado?
Pode assistir vídeos e jogar games? Pode ser, mas não faço questão de assistir numa tela pequena os meus programas e filmes. Prefiro o comforto de uma sala com TV grande ou um cinema, e se o ponto aqui for mobilidade, acho que um celular com uma tela razoável é mais fácil de segurar do que um pad. Aliás será que é preciso ter vídeos e jogos carregados 24horas por dia seja onde for passear?
OK, sobrou o único e maior propósito aqui, que é o uso deles para a leitura. E realmente nesse caso não duvido que num futuro breve me encontre na triste situação de ter de pagar mais de U$100 pra poder ler títulos que vão sair somente em versão eletrônica. Hoje em dia já me encontro um pouco nessa situação, mas a minha revista pode ser lida no meu laptop sem problemas.
Assim como eu, tem muitas pessoas que tem formas peculiares de ler e usar livros. Um exemplo bem banal que ainda não vi nenhum pad fazer: possibilitar a leitura/ consulta de dois livros simultâneos, principalmente para ter uso como referência para estudantes e profissionais.
E oque dizer então do tédio de ter que apertar botões ou memorizar número das páginas para pular de um trecho em interesse para o outro? Hoje em dia pra fazer isso basta colocar o dedo ou um marcador de páginas em um, e folhear o restante do livro.
Talvez tudo isso se resolva com o tempo, mas mesmo assim me desanima ter de usar esses produtos. E olhe que sou um engenheiro e adoro inovações.
A 20 anos atrás, engenheiros da MIT tinham uma visão diferente do que viria ser o e-book. Eles estavam desenvolvendo o e-paper. Dessa forma, o livro teria folhas eletrônicas em branco, mas depois de colocar um drive, as letras e imagens apareceriam imprimidas como telas em cada página. Oque aconteceu com essa idéia? Pra mim era muito mais atraente.
Ethevaldo
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Invariavelmente os debates ao redor do fim do livro de papel apontam em direções irrelevantes, se o melhor gadget é ou será x, y ou z “tantufas”…
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Em primeiro lugar o livro representa o triunfo da narrativa na cultura humana e nenhum desses objetos até hoje sequer tangenciou algo que questionasse esse modo de pensar e contar as coisas, ao contrario, o máximo que a Web e a cultura das redes têm produzido é uma fragmentação pobre em cognição.
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Segundo lugar o que todos os Nostradamus Hi-Tec esquecem é que o livro é um triunfo tecnológico absoluto já que dura milênios, pode ser armazenado e lido nas mais diversas (quando não adversas) condições e não exige recursos especiais além do letramento para ser acessado.
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Tivesse a Bíblia, Shakespeare, as obras de Galileu ou Darwin, o Manifesto Comunista, os poemas de Fernado Pessoa grafados em Kindles… talvez hoje estivessemos reinventando a roda por falta de memória…
eu concordo em boa parte com este comentário. acho que os e-readers são interessantes e tendem ao crescimento no “mercado”, mas requerem outra “forma” de narrativa, outras formas de contar histórias, apropriadas para os seus recursos.
o livro em papel é outra “mídia”, com outras possibilidades… acho que vai mudar o “tipo” de papel, mas jamais morrer o livro de papel.
se as novas gerações vão ler em papel? que tal pararmos um pouco para observar as crianças na seção infantil das livrarias? estão lá, fascinadas estes livros, que permitem que a imaginação delas crie cada cena lida, dando sequência ao que está descrito e ilustrado.
e que delícia é virar a folha seguinte, utilizar o tato.
claro que também estão fascinadas pelos eletrônicos.
então, cabe aos editores, pensar formas de integração destas “mídias pró-leitura”, explorando seus recursos para ampliarmos cada vez mais o número de leitores, que gostem de ler de qualquer forma.
PS: quando achamos que o vinil tinha acabado, eis que surgem novas fábricas pelo brasil…
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O que me fascina realmente nesse momento é que encontramos clássicos da literatura gratuitamente para e-readers. E se, por causa da curiosidade tecnológica, mais leitores chegarem aos grandes, criaremos leitores cultos. E esses leitores vão sustentar e comemorar novos escritores. É um novo momento bastante interessante.