LAS VEGAS – O melhor de um evento como o Consumer Electronics Show (CES) 2012 – realizado de 10 a 13 de janeiro em Las Vegas – não está na exposição de novos produtos ou nas centenas de lançamentos, mas no grande debate que se realiza em paineis, mesas-redondas, que nos permitem conhecer a visão, ouvir e debater as opiniões e as previsões de líderes tão experientes quanto Steve Ballmer, da Microsoft. Ou Gary Schapiro, presidente da Associação Americana de Eletrônica de Consumo (CEA-Consumer Electronics Association). Ou Paul Otellini, da Intel. Ou Paul Jacobs, da Qualcomm. Ou Hans Vestberg, da Ericsson. Ou Alan Mulally, da Ford. Ou Dieter Zetsche, da Daimler AG Mercedes-Benz Cars. Ou Robert Kyncll, do YouTube.
Sintetizo a seguir algumas dessas opiniões dos líderes que mostram a face mais interessante do CES 2012.
Uma nova Microsoft?
Steve Ballmer fez este ano a última de suas apresentações como primeiro keynote speaker, na pré-estreia do evento, ou seja, na véspera de abertura do CES, como fazia Bill Gates ao longo de mais de 11 anos. Com sua melhor apresentação, Ballmer fez sua despedida neste CES 2012, e transmitiu uma visão entusiástica e otimista sobre o futuro da Microsoft, do sistema operacional Windows 8, dos novos PCs, dos ultrabooks e smartphones. A repercussão foi tão positiva que a revista da Bloomberg-Businessweek, em matéria de capa, com foto de Ballmer, e a manchete bem-humorada, apostando do fim das trapalhadas da Microsoft e de seu presidente: “No more Mr. Monkey Boy”.

Steve Ballmer (à direita) apresentou o novo Windows Phone
Tantas vezes alvo de piadas nos últimos cinco anos, a Microsoft tem tudo para voltar ao primeiro nível das disputas no mundo da eletrônica profissional e de entretenimento e, para quem gosta de números, é bom lembrar que, sob a liderança de Ballmer, a empresa triplicou seus lucros.
Quem supunha que o sistema operacional Windows Phone seria mais um desapontamento ficou surpreso com os recursos do novo sistema operacional para smartphones. Diversos especialistas que testaram o Windows Phone acreditam que esse sistema operacional tem tudo para estar entre os três primeiros sistemas operacionais – ao lado do iOS da Apple e o Android do Google. Entre o público usuário que visitou o pavilhão da Microsoft, a maioria esmagadora dos que conheceram os recursos fundamentais e principais aplicativos do Windows Phone ficou realmente admirada seu desempenho.
Produtos de entretenimento da Microsoft, como o Xbox 360, na avaliação de Steve Ballmer, cobrem segmentos cada dia mais importantes da vida jovem, como vídeo, games, música, relacionamento social, notícias, internet e apresenta recursos tão inovadores como o Kinect – baseado no reconhecimento de gestos.
Inovação e ambiente
Gary Shapiro, além de dono da festa há mais de 10 anos e como líder do maior evento mundial de eletrônica de entretenimento, tem sido uma espécie de evangelista da inovação e da sustentabilidade. Em sua palestra, como keynote speaker deste 2012 International CES, Shapiro ressaltou esses dois pontos fundamentais de sua pregação: de um lado, o papel da inovação no mundo atual, não apenas como alavanca do progresso econômico, mas, em especial, da superação da crise que afeta a maioria dos países industrializados; de outro lado, a necessidade de uma nova atitude diante dos desafios da sustentabilidade, resumida na expressão “eletrônica verde”
Nesses dois aspectos, aliás, Shapiro tem sido uma espécie de evangelista. “A inovação – diz ele – é o combustível do crescimento econômico no mundo atual, seja pela adição de novos serviços, competência e eficiência. Não pensem apenas nos empregos que a inovação possa eliminar em algumas áreas – como da tipografia, agentes de viagens e trabalhadores postais – mas considerem o que os milhões de empregos que a inovação está criando em outras áreas, com o blogueiros, os engenheiros eletrônicos e os profissionais de tecnologia da informação (TI). Considerem as agências de marketing, a cadeia de varejistas de todas as áreas, os restaurantes e outros negócios que dão seu apoio às companhias inovadoras.”
Sete bilhões de chipsets
Outro líder a focalizar o papel da inovação foi Paul Jacobs, presidente da Qualcomm, enfatizando a contribuição de sua empresa na área de microeletrônica e software destinado ao mundo das comunicações sem fio. Ressaltando especificamente o desafio das redes de quarta geração do celular (4G), Jacobs relembra que há praticamente em cada sistema de telefonia móvel do mundo alguma contribuição importante da Qualcomm: “Para dar-lhes uma ideia mais clara da escala de nossa indústria, nós já entregamos 7 bilhões de chipsets para o mundo, tanto para os telefones mais simples como para os mais sofisticados. Desse total, 1,5 milhão se destinam à 4G. A Qualcomm, aliás, é o maior fornecedor de dispositivos digitais de silício destinados à comunicação sem fio (wireless).”
Jacobs recordou que a Qualcomm está investindo anualmente mais de US$ 3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, para manter sua posição de destaque e entregar ao mercado 1 milhão de chips por dia. Lembrou que a demanda mundial é das maiores, pois a China, embora esteja atingindo a marca impressionante de 1 bilhão de celulares em serviços, ainda poderá instalar mais 1,4 bilhão nos próximos três anos.
Ultrabook, sonho da Intel
Paul Otellini, presidente da Intel, dedicou a maior parte de sua apresentação como palestrante de destaque ou keynote speaker ao projeto que mais apaixona sua empresa: o ultrabook. Não se trata apenas de um laptop mais leve e mais fino. Em sua visão, o ultrabook vai incorporar todos os avanços de hardware e software de que necessitam os usuários: tela de toque ultrassensível, mais segurança, maior velocidade de processamento e menor consumo de energia. Tudo isso tem muito a ver com o avanço da nova geração de chips.
Um dos exemplos de ultrabooks exibidos na palestra de Otellini neste CES 2012 foi o XPS 13 Ultrabook, da Dell, apresentado por Jeff Clarke, vice-presidente global de operações. A surpresa maior na apresentação de Otellini foi o anúncio de parceria com a Motorola e com a Lenovo na área de smartphones. No caso desta empresa chinesa, está previsto o lançamento do smartphone K800, no segundo trimestre. O produto rodará o sistema operacional Android, terá câmera de 8 megapixels, vídeo de alta definição de 1080p e a autonomia de 8 horas de conversação.
A sociedade conectada
Em sua apresentação no CES 2012, CEO e presidente mundial da Ericsson, Hans Vestberg, enfatizou os desafios e os benefícios extraordinários da chamada sociedade conectada (a Networked Society), na qual cada ser humano e cada objeto estarão praticamente conectados em tempo real. Tudo isso vai transformar a indústria e a sociedade.
Na visão de Vestberg, “no futuro, estaremos conectados com tudo que nos traz benefícios”. E citou o fato de que 85% da humanidade já estar coberta pela comunicação. “Em três anos, essa cobertura poderá chegar a 90% dos seres humano” – previu.
Vestberg prevê uma nova sociedade interligada pelas comunicações em tempo real
Com o depoimento de outros especialistas, Vestberg mostrou ainda a transformação das corridas de Fórmula Um, com a contribuição das minúsculas câmeras e sensores, associados à comunicação sem fio. Em diversos países da África, milhares de refugiados políticos puderam ser localizados por suas famílias graças à disseminação global da telefonia celular.
“Quando uma pessoa conecta-se à rede, sua vida muda” – concluiu o presidente da Ericsson.
Revolução no automóvel
A eletrônica está revolucionando o automóvel do século 21. As palestras dos presidentes da Mercedes, da BMW e da Ford mostraram exatamente os denominadores comuns e as diferenças entre os caminhos seguidos por essas três grandes indústrias, na utilização de aplicativos, games, música, cinema e tudo o mais que um smartphone pode oferecer ao sistema de entretenimento do automóvel. É claro que o grande desafio é o potencial de dispersão da atenção do motorista, para que o interesse por qualquer tipo de entretenimento não provoque acidentes. Mas, considerando o lado positivo dessas tecnologias, é possível utilizá-las para prevenir acidentes, orientar motoristas, evitar que a cegueira causada pelo deslumbramento de um farol excessivamente luminoso impeça a leitura da sinalização de trânsito.
O grande desafio é reduzir o poder de dispersão da atenção causada pelos equipamentos e dispositivos de entretenimento, a começar do celular. Para um dos especialistas da Ford, ninguém tem a ilusão de que possa impedir que as pessoas levem seus celulares para dentro dos carros: “O que temos que fazer é que as pessoas aprendam a fazer uso de seus celulares da forma mais segura possível” – diz Paul Mascareñas, diretor de tecnologia (CTO-Chief Technology Officer), da empresa.
Em sua apresentação no CES, o presidente da Daimler AG Mercedes-Benz, Dieter Zetsche, disse com senso de humor, que “se você está entalado num congestionamento ou dirigindo em linha reta por centenas de milhas numa estrada perdida entre Nebraska ou Montana, o melhor mesmo seria ler um livro. Mas isso não é o que a maioria das pessoas gostariam de fazer.”
É nessa hora que o celular pode ter um papel muito mais positivo porque permite o acesso a coisas tão importantes quanto a navegação via satélite, a música e a informação local. Nessa linha de raciocínio, o diretor de eletro-eletrônica da Ford, James Buczkowski, observa: “É mais barato tanto para o consumidor quanto para nós, da Ford. Nós não temos que construir esses sistemas de comunicação e entretenimento. Temos apenas que confiar em nossos parceiros.”
É claro que o automóvel já conta hoje com funções automáticas de segurança. Eles podem manter certa distância do carro da frene e fazer pequenas correções de direção para manter o veículo em sua faixa. Eles podem também ajustar automaticamente os faróis dianteiros. E muitas outras funções automáticas poderão ser acrescentados nos próximos anos.