Ethevaldo Siqueira
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A sinergia das quatro forças

7 de outubro de 2012 | 17h03

Ethevaldo Siqueira

Nestes tempos de profundas mudanças, os maiores desafios que as empresas enfrentam nas áreas de TI (tecnologia da informação) e de telecomunicações são quatro forças convergentes que atuam simultaneamente no cenário econômico: mobilidade, redes sociais, computação em nuvem e internet.

Para os especialistas elas são chamadas de nexus das forças e representadas no jargão internacional por quatro palavras em inglês: mobile, social, cloud e information. Na realidade, essas forças definem praticamente o futuro das empresas. Em especial, quando as corporações compreendem o poder e impacto dessas alavancas tecnológicas e utilizam sua sinergia, traduzidas no poder conjunto da mobilidade, das redes sociais, da computação em nuvem e do potencial incrível da internet.

O papel de cada uma dessas quatro forças na vida das empresas é cristalino para os novos executivos. A mobilidade amplia as possibilidades de acesso ao maior número de pessoas, ou seja, de clientes. E nunca é demais enfatizar que as pessoas são seres móveis. As redes sociais, por sua vez, estimulam novos comportamentos e novas aspirações. As empresas precisam aprender a utilizar bem o Facebook, o Twitter, o Linkedin e outras redes sociais.

O terceiro fator, conhecido hoje como computação em nuvem – ou, simplesmente, nuvem – permite a obtenção de novas formas de serviços e aplicações. A nuvem está se transformando no maior repositório de conteúdos virtuais do planeta. Por fim, a internet, que fornece novos contextos às empresas e às pessoas, como informação universalizada e instantânea.

Vale lembrar que o mundo vive a era pós-PC, caracterizada, principalmente, pela mobilidade e pelo uso crescente de dispositivos móveis, como tablets e smartphones. Nesse novo cenário, os dispositivos móveis permitem às pessoas acessar conteúdos e aplicações, praticamente a qualquer hora e em qualquer lugar.

Todas as transformações que ocorriam em passado recente eram identificadas como resultado da evolução dessas quatro poderosas forças, mas que eram vistas de forma isolada e independente. Hoje, o comportamento das pessoas se transforma no centro de convergência, com dispositivos cada vez mais inteligentes e conectados.

Para onde vamos?

As ferramentas tecnológicas de gestão continuarão a expandir-se e a ampliar seu alcance. Esse tipo de tecnocentrismo abre novas possibilidades para o design centrado no ser humano. As pessoas se tornarão, cada dia mais, consumidores sofisticados se transformarão em cocriadores de tecnologia e de conteúdo. Mais ainda: elas poderão compartilhar e acelerar suas experiências e preferências.

Todos esses avanços, entretanto, não se realizarão sem complexidade crescente. Isso decorre exatamente da natureza da evolução tecnológica. Para o usuário, ao contrário, as coisas se tornam sempre mais simples e mais alinhadas com seus propósitos.

Foco no homem.

Poucos especialistas mostraram tão bem quanto o professor Donald Norman, da Universidade da Califórnia (em San Diego), o que significa a tecnologia centrada no ser humano (human-centered technology). Entre seus principais livros estão: O Design das Coisas do Futuro e O Computador Invisível.

O prof. Norman diz que o ciclo de vida das novas tecnologias, das empresas e de seus produtos precisa mudar, à medida que eles passam da juventude para a maturidade. O consumidor quer e espera que a tecnologia seja invisível, oculta da visão dos usuários. Isso acontece, também, com toda a tecnologia embutida nos smartphones e nos tablets, por exemplo, que se tornam sempre mais fáceis de usar ou users friedly.

Como preparar-se?

Um dos maiores desafios para o executivo do século 21 é preparar-se adequadamente e no tempo certo para enfrentar a mudança tecnológica de nosso tempo, em especial no mundo da Tecnologia da Informação. Além de cursos especiais e das leituras que cada um escolhe, é altamente desejável que ele participe de eventos de alto nível, com especialistas independentes.

Uma das melhores sugestões que eu posso dar é a participação no próximo Simpósio Gartner IT-Expo, que será realizado no final deste mês, de 29 a 31 de outubro, em São Paulo. É uma das maiores reuniões de diretores de Tecnologia da Informação (CIOs) do mundo, que se realiza anualmente em sete países (Estados Unidos, Japão, Espanha, África do Sul, Índia, Austrália e Brasil).

O evento cobrirá temas tão relevantes quanto: Como a Internet Mudará Nossas Vidas, As Dez Maiores Tendências Estratégicas para 2013, Radar das Tendências Emergentes: Uma Visão até 2017, O que os Diretores Financeiros (CFOs) Precisam Saber que os Diretores de Tecnologia (CIOs) Podem Contar e muitos outros.

Entre os temas que serão focalizados no Symposium de São Paulo, estão os aplicativos, Inteligência nos Negócios e Gestão das Informações, Melhoria do Processo de Negócios, Arquitetura Empresarial, Infraestrutura e Operações de Data Center, Servidor, Armazenamento e TI, Gestão de Portfólio e Programas, Gestão de Risco e Segurança, Infraestrutura e Operações: Mobile, Client Computing & Communications.

Os interessados podem obter mais informações e inscrever-se pelo site www.gartner.com.br/symposium ou pelos telefones (011) 3074-9724 e 3073-0625.

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A Justiça de meus sonhos

29 de setembro de 2012 | 21h51

Ethevaldo Siqueira

Como milhões de brasileiros, sonho com uma Justiça muito melhor para o Brasil. Mas, para que esse milagre venha a ocorrer, precisamos envolver toda a sociedade nessa luta e nesse propósito, além de muitos líderes do próprio Poder Judiciário, do Congresso e do Executivo. Aliás, sempre desejei falar a magistrados e transmitir-lhes um pouco da percepção que o cidadão comum tem da Justiça e dar-lhes algumas sugestões fundamentais.

Para minha surpresa, acabo de realizar esse desejo. Anteontem, tive a oportunidade de ouro de falar durante 45 minutos a uma plateia de mais de uma centena de juízes. Sugeri, em resumo, duas reformas fundamentais para melhorar a Justiça brasileira. Uma delas consistiria, em síntese, na simplificação das leis e na redução dos recursos puramente procrastinadores. Outra seria a modernização da estrutura do Poder Judiciário, tarefa que envolve o aprimoramento permanente do quadro de pessoal, das instalações físicas e, em especial, do uso de novas tecnologias, com os equipamentos e sistemas mais modernos de processamento e transmissão de dados.

Olhar externo

Todas as instituições deveriam abrir-se periodicamente ao diálogo com a sociedade, como faz agora o Poder Judiciário de São Paulo ao convidar pessoas de diversas áreas para falar em seus eventos. Por isso, não hesitei em aceitar o convite do desembargador Renato Nalini, corregedor geral da Justiça de São Paulo, para expor minhas ideias no evento denominado “Ética para o Juiz: Um Olhar Externo”, na Escola da Magistratura de São Paulo.

É claro que essa oportunidade de ouro foi oferecida a outras pessoas, mais ilustres e capazes que este jornalista, como os intelectuais Renato Janine Ribeiro, Sérgio Rouanet, Manuel da Costa Pinto, o historiador Marco Antonio Villa, o professor Vladimir Safatle e meu colega Tonico Ferreira.

Tenho conversado muito com amigos sobre esse tema, em especial, com o engenheiro Gilberto Garbi, do qual tomei emprestadas diversas observações e alguns casos exemplares que sintetizam os maiores problemas da Justiça brasileira. Como quixotes do século 21, Garbi e eu não temos a menor inibição em levar nossas críticas e sugestões a líderes e instituições respeitáveis.

Na maior parte de minha apresentação, ressaltei aos juízes o potencial extraordinário que a tecnologia e suas ferramentas digitais oferecem hoje para agilizar e racionalizar a Justiça, como já ocorre em alguns países adiantados nessa área.

Nossa percepção

O cidadão brasileiro tem fome e sede de Justiça. Está cada dia mais indignado com o que vê à sua volta e nos noticiários. Infelizmente, tem pouca esperança de que esse quadro – que perdura há séculos – venha a ser substancialmente alterado em sua geração.

Eu sou um desses cidadãos. Como milhões de brasileiros, sonho com instituições bem melhores do que as que temos, não apenas a Justiça, mas o Legislativo, o Executivo, a Universidade e, claro, a própria Imprensa.

Não poderia, assim, perder a oportunidade de transmitir minha percepção sobre os problemas da Justiça àquela plateia de juízes que se dispunha a me ouvir. Sem nenhuma ofensa ou desrespeito, procurei dizer-lhes algumas coisas que há muito estavam entaladas em minha garganta.

A maior parte da sociedade, suponho, já perdeu a esperança e parece até resignada, diante das sucessivas frustrações experimentadas ao longo de décadas. Isso ocorre, em especial, com as pessoas mais simples e de menor escolaridade.

Um retrato

A Justiça brasileira é lenta e excessivamente burocratizada. Perante a lei, só o cidadão é obrigado a cumprir prazos. Será que um processo como o mensalão precisaria de sete anos para ser julgado? No combate à corrupção, muitas sentenças buscam apenas atender exclusivamente aos aspectos formais e não à ética. É incrível, mas mesmo diante de uma tonelada de evidências, os tribunais superiores acabam absolvendo réus famosos “por falta de provas” – como no caso de um ex-presidente cassado por corrupção.

Muitas decisões da Justiça se tornam, assim, conservadoras e imobilistas diante da dinâmica do mundo moderno. A morosidade dos julgamentos e as intermináveis procrastinações e apelações chegam às vezes a dar a impressão de que a instituição está mais interessada em permitir que o criminoso fuja do alcance do braço da Lei. A maioria dos recursos parece visar, acima de tudo, à proteção do criminoso e não de suas vítimas.

As brechas da lei permitem com frequência ao assassino ou fraudador de maior poder econômico apostar com sucesso na impunidade. Uma das portas por onde escapam é a prescrição dos crimes, decorrente muitas vezes da sucessiva procrastinação.

Impunidade

A sucessão quase interminável de recursos faz com que assassinos confessos permaneçam livres desfrutando a vida enquanto os familiares das vítimas amargam indignação e revolta diante da impunidade. Outros, que dirigem embriagados e matam pedestres ou ciclistas, pagam com cestas básicas as vidas que ceifam.

Todos os dias, temos diante dos olhos, exemplos chocantes dessa desproporção entre a brandura das penas e a gravidade dos crimes. E pior: o Estado mostra-se incapaz em executar as penas que, finalmente, são impostas pelo Judiciário.

Até quando teremos que enfrentar tudo isso?

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Música erudita na favela

22 de setembro de 2012 | 11h39

Ethevaldo Siqueira

Desde o início do século 20, as novas tecnologias se transformaram em extraordinário fator de difusão da música em todo o mundo, com o advento da gravação elétrica, do rádio, da TV, dos CDs, da internet e de outros avanços tecnológicos. Aliás, com a internet, esse poder de difusão pode crescer ainda muito mais: só no YouTube já existem milhares de horas de documentos armazenados em vídeo sobre a música clássica e seus intérpretes. É claro que, para encontrar alguns gramas de ouro, temos que remexer toneladas de lixo, em especial, na massa de conteúdos tão díspares do YouTube.

A propósito, ouvi de especialistas, em evento internacional recente, a previsão de que a internet poderá promover uma fusão profunda entre o rádio, a TV aberta e a TV por assinatura e transformar-se em novo e poderoso meio de difusão da música, entre outros conteúdos.

Num segundo cenário, além da tecnologia, existem circunstâncias ainda mais poderosas para estimular o gosto pela música clássica entre jovens e crianças, entre as quais, o ambiente familiar, a educação artística precoce, a influência do meio social, as oportunidades culturais decorrentes do acesso a eventos públicos gratuitos.

Por último mas não menos importante, destaco o trabalho de alguns raros idealistas capazes de transformar grupos de meninos de origem muito humilde em corais e orquestras de surpreendente qualidade.

Pense, leitor, na magnífica contribuição dos maestros Sílvio Baccarelli e João Carlos Martins, em favelas paulistanas, como Heliópolis e Paraisópolis. Esses projetos  provam que podemos, realmente, não apenas despertar o gosto pela música clássica em crianças e jovens oriundos de camadas sociais de baixa renda, mas, mais do que isso, formar com eles conjuntos de música erudita de qualidade. Diante do sucesso extraordinário dessas orquestras jovens, eu me pergunto sempre: por que não ampliar nacionalmente essas experiências, com apoio de mais empresas públicas e privadas, de governos e de todos os tipos de instituições culturais?

O ponto essencial desse trabalho, para mim, é provar que o gosto pela música pode ser despertado em muitas crianças que não tiveram o privilégio de nascer e ambiente familiar e social favorável. Basta que elas tenham oportunidade e a devida educação musical.

Sem oba-oba

O Brasil poderia ampliar significativamente o ensino e a difusão da música erudita. O ideal é que todo apoio cultural de empresas públicas e privadas fosse concedido de forma séria e contínua, com aferição dos resultados e sem o desperdício de recursos com a simples propaganda dos projetos. Certos incentivos culturais governamentais acabam sendo consumidos mais em publicidade do que na aplicação direta em sua finalidade.

Outras vezes, os projetos ganham tons partidários e ideológicos. Isso aconteceu até com nosso imortal Villa-Lobos, durante a ditadura Vargas, ao organizar e levar corais de centenas de estudantes a estádios para aplaudir e exaltar o Estado Novo.

Precisamos, sim, de milhares de ações de estímulo ao gosto musical, de apoio aos jovens talentos, de todas as camadas sociais e econômicas. Precisamos, sim, de muitas viradas culturais, como a que se faz em São Paulo uma vez por ano, que envolvam toda a sociedade.

Minha descoberta

A música tem sido para mim uma espécie de oxigênio espiritual. Sou um privilegiado por ter descoberto a beleza da música ainda garoto, no ambiente familiar. Por ter tido contato frequente com a música clássica em casa, por ter descoberto o violino, a partir dos sete anos, com um tio e minha mãe.

O rádio, também, ampliou muito meu contato com a música, além de ter sido minha primeira janela para o mundo. Além da paixão pela notícia, ele me proporcionou muito maior contato com a música de boa qualidade, em especial com alguns programas de música clássica transmitidos por algumas emissoras, até em AM, como as Rádios MEC, Roquete-Pinto, Jornal do Brasil, Eldorado e Excelsior.

No antigo Colégio Municipal de Bebedouro, tínhamos um coral de 90 alunos, sob a direção de Pedro Pellegrino, um maestro e professor de violino, que me deu as melhores aulas desse instrumento. Ele nos encantava ao tocar músicas como Poema, de Fibich ou da Ária para a Corda Sol, de Bach, ao violino. E nos ensinava que “o bom violinista tem que tocar com paixão, transmitir emoção e, se possível, fazer as pedras chorarem”.

As orquestras

Com Eleazar de Carvalho, aprendi o que é uma orquestra sinfônica, ao frequentar seus concertos para a juventude. Em seguida, descobri a beleza das sinfonias de Mozart, ao assistir aos concertos gratuitos da orquestra da Rádio Gazeta. Uma noite, com essa orquestra, então regida por Edoardo de Guarnieri, ouvi pela primeira vez a Sinfonia nº 40, Mozart, ao som da qual Schubert dizia “ouvir até o canto dos anjos.”

Lembro-me da alegria com que ouvi pela primeira vez uma orquestra de fama mundial, a Filarmônica de Nova York, que visitava São Paulo em 1957, sob a regência de Dimitri Mitropoulos e que tocou até ao ar livre, no Vale do Anhangabaú, do lado do Teatro Municipal. Nos anos 1980, conheci o regente indiano Zubin Mehta e, com ele, pude curtir a beleza musical das Filarmônicas de Israel e de Nova York.

 

 

 

 

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Quero viver nesta cidade

16 de setembro de 2012 | 23h03

Ethevaldo Siqueira

Assim serão as primeiras mil casas de Fujisawa, a cidade sustentável (Foto: Divulgação)

Confesso, caro leitor, que gostaria de viver em uma cidade como Fujisawa, em que a vida urbana será totalmente sustentável, ecológica e muito mais humanizada do que a esmagadora maioria das cidades que conhecemos. Sob muitos aspectos, ela realiza nossos sonhos com o projeto denominado Fujisawa Sustainable Smart Town (Fujisawa SST).

Vale a pena conferir. A partir de 2018, as primeiras mil residências da nova Fujisawa vão dispor de rede elétrica inteligente (smart power grid), energia solar e baterias em cada casa, iluminação pública interconectada, vias públicas projetadas para bicicletas, pedestres e veículos elétricos. E muito mais.

Que bom saber que a humanidade tem iniciativas na área ambiental, tão inovadoras e positivas como essa. Fico até mais otimista em saber que existem pelo menos dez ou doze projetos de cidades sustentáveis como Fujisawa em implantação no mundo.

Por que Fujisawa?

O projeto da cidade sustentável inteligente é financiado e patrocinado por oito empresas, sob a supervisão da administração municipal da cidade. As oito empresas patrocinadoras são: Panasonic, PanaHome, Accenture, Orix, Nihon Sekkei, Sumitomo Bank, Tokyo Gas e Mitsui Fudosan. Os dados aqui citados sobre o projeto Fujisawa SST foram colhidos em entrevista com dois especialistas, Yukio Nakashima e Shiro Nishiguchi, diretores da Panasonic, na feira de Berlim (IFA 2012), há três semanas.

Fundada na metade do século 20 e hoje com quase 500 mil habitantes, Fujisawa apresentava até recentemente os mesmos problemas que afetam outras cidades, resultantes da industrialização e da degradação ambiental. Ao longo dos últimos anos, as indústrias foram transferidas para outras regiões e a cidade passou a ser inteiramente repensada, reestruturada, reconstruída e planejada para tornar-se uma verdadeira cidade verde.

“Ao recuperar e regenerar as áreas urbanas degradadas, nosso objetivo é reeducar a população para a sustentabilidade sob todos os aspectos e orientar outras cidades a fazer algo parecido” – enfatiza Yokio Nakashima.

Diferentemente de Brasília, a nova Fujisawa não nasce de um sonho arquitetônico e urbanístico de dois gênios como Oscar Niemayer e Lúcio Costa. A proposta japonesa tem como objetivos a correção de rumos e a elevação permanente da qualidade de vida humana, dos padrões educacionais, da racionalização dos transportes, da autossuficiência energética, da proteção ao meio ambiente e da sustentabilidade como um todo.

Sonho verde

Fujisawa reformula conceitos a partir de sua experiência concreta, para corrigir os erros mais frequentes que degradam as cidades e a própria vida humana. A cidade se transforma em uma espécie de campo de provas visando ao aprimoramento das estratégias de recuperação e de reconstrução de uma cidade que tem problemas semelhantes aos de milhares de outras no século 20, desfiguradas pela industrialização e pelos combustíveis fósseis.

Mais do que criar uma nova cidade hi-tec, altamente sofisticada, o projeto visa reeducar moradores e administradores urbanos, em especial as novas gerações, para evitar que o ambiente urbano não se transforme no inferno social, econômico e ambiental que conhecemos tão bem aqui em São Paulo, na Cidade do México ou em Jacarta, na Indonésia.

Mil casas

Em 2018, a cidade sustentável de Fujisawa começará a viver em sua plenitude a experiência de uma comunidade verde de mil casas planejadas segundo padrões totalmente amigáveis ao meio ambiente. Uma das metas mais ambiciosas do projeto será reduzir em 70% as emissões de carbono em relação aos níveis recordes de 1990.

Embora o conceito de edifícios verdes não seja novo, tudo ali está sendo repensado para corrigir todas as estruturas existentes que não atendam aos padrões e tecnologias ecológicas sustentáveis. A ideia fundamental é que as tecnologias atuais e as estratégias de planejamento urbano caminhem juntas desde o primeiro momento, para obter o máximo de eficiência e bons resultados.

Até os desastres naturais como os terremotos e tsunamis ocorridos nos últimos anos no Japão inspiraram e motivaram os autores do projeto de Fujisawa SST em busca de respostas àquelas catástrofes. Os habitantes da cidade já se orgulham de seus planos de segurança, das metas de autossuficiência energética e de mobilidade máxima. E, diante das muitas comunidades japonesas devastadas em fase de reconstrução, Fujisawa já tem oferecido boas sugestões e um modelo de renascimento urbano.

Nova cabeça

É impressionante como, depois do tsunami de março de 2011, muitas empresas e líderes japoneses passaram a defender novos paradigmas para a vida social e econômica do país. A energia nuclear será, provavelmente, banida em menos de 10 anos. A indústria já busca todos os meios possíveis para reduzir o desperdício de energia e a emissão de carbono. Não se trata mais de mera propaganda ou relações públicas, mas de sobrevivência.

O mundo tem muito a aprender com projetos como Fujisawa SST e, talvez, com uma dúzia de outros, em fase de implantação, como a proposta russa da cidade sustentável de Skolkovo, nas proximidades de Moscou.

Será que o Brasil não poderia pensar, também, em um projeto parecido, apoiado por uma dúzia de grandes corporações?

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Um entulho regulatório

1 de setembro de 2012 | 17h15

Ethevaldo Siqueira

Coluna do Estadão de 2 de setembro de 2012

O Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT), primeiro marco regulatório do setor, completou 50 anos na semana passada. A Lei Geral de Telecomunicações (LGT), de 1997, já envelheceu, aos 15 anos de idade. Eis aí duas boas razões para que o Brasil dê prioridade à atualização de sua legislação nesse campo fundamental, que compreende telecomunicações, rádio, TV aberta, internet e todas as demais formas de comunicação eletrônica. Aliás, a legislação desse setor apresenta hoje lacunas e conflitos, decorrentes da desatualização regulatória diante das mudanças tecnológicas ao longo de 50 anos.

A radiodifusão brasileira, por exemplo, rege-se ainda por um verdadeiro entulho regulatório, ou seja, por um capítulo do velho Código (Lei 4.117, de 27 de agosto de 1962), além de decretos do regime militar. O Código de 1962 envelheceu e se transformou em obstáculo ao desenvolvimento setorial, embora tenha representado, na época, ao nascer, um avanço extraordinário, tanto para as telecomunicações quanto para a radiodifusão do País,

Mesmo a LGT – ou seja, a Lei 9.472, de 16 de julho de 1997 – que se limita à área de telecomunicações, já deveria ter sido substituída por outra mais moderna e democrática,levando-se em conta a evolução tecnológica ocorrida nos últimos anos e, em especial, o impacto da internet e da mobilidade.

Quandt relembra

Recorro aos meus arquivos, para resgatar o conteúdo de algumas entrevistas que fiz sobre o CBT com o ex-ministro Euclides Quandt de Oliveira, titular do Ministério das Comunicações de 1974 a 1979, nos anos 1970 e 1980, sobre o nascimento do Código.

Quandt conta que os primeiros projetos apresentados a partir de 1957 tinham, entre outros propósitos, formular uma política nacional setorial e permitir a sobrevivência da radiodifusão em mãos da iniciativa privada, diante da ameaça de estatização que crescia desde 1961, com o ex-presidente Jânio Quadros e, mais ainda, com seu sucessor, João Goulart. Prova disso eram as punições de emissoras de rádio por razões políticas, com risco até de perda da concessão.

Depois de vários substitutivos, apresentados entre 1957 e 1961, nasceu o texto que seria transformado no Código Brasileiro de Telecomunicações, quando o então deputado federal Nicolau Tuma conseguiu aprovar o primeiro projeto, mesmo com um total de 99 emendas.

“A aceleração do projeto ocorreu – relembra Quandt de Oliveira – em decorrência de uma punição arbitrária e inesperada aplicada, em 1961, à Rádio Jornal do Brasil, pelo então presidente Jânio Quadros, simplesmente porque ficou contrariado com as críticas que lhe foram feitas em um programa daquela emissora. A emissora foi, então, suspensa, por dois dias”.

Preocupados com o arbítrio governamental, os dirigentes da radiodifusão brasileira se uniram e continuaram sua lutara por uma nova legislação, mesmo depois da renúncia de Jânio Quadros, ocorrida em agosto de 1961. A Lei 4.117, aprovada em 27 de agosto de 1962, recebeu, no entanto, 52 vetos do então presidente João Goulart. Três meses depois, o Congresso, mobilizado pela radiodifusão, apreciou e derrubou a totalidade dos vetos de João Goulart, no dia 27 de novembro de 1962. Nascia, então, o Código Brasileiro de Telecomunicações. Na mesma data, era criada a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), para unificar a luta diante de ameaças futuras.

Obsolescência

Ao longo de meio século, o Código, que era um avanço democrático em 1962, acabou se tornando um documento obsoleto e ineficaz. Nem a LGT, de 1997, resistiu à obsolescência. Nos últimos 50 anos, o mundo assistiu à chegada da comunicação via satélite, da TV em cores, das fibras ópticas, dos novos cabos submarinos e do processo de digitalização dos sistemas de transmissão. Nos últimos 15 anos, ocorreu a explosão da mobilidade e da internet. O País tem hoje mais de 260 milhões de celulares e 70 milhões de acessos de banda larga.

Há conceitos que devem sempre ser reafirmados, nesse campo: radiodifusão e as telecomunicações são mundos complementares. Um produz conteúdo. Outro transporta. A radiodifusão trabalha essencialmente com conteúdos de informação, entretenimento, conhecimento, opinião política e cultura. As telecomunicações levam tudo isso aos confins do território nacional.

O que falta

O Brasil precisa, sim, de um novo marco institucional muito mais abrangente, que englobe todas as formas de comunicação, que harmonize e unifique esse universo extraordinário, sob o comando de única uma agência reguladora, altamente profissional e independente, num ambiente tecnológico a cada dia mais dominado pela internet, pela convergência e pela mobilidade. O que falta ao setor é, assegurar o melhor convívio possível entre telecomunicações, radiodifusão, TV por assinatura e as novas formas de comunicação eletrônica,

O Brasil já poderia ter feito a grande reforma setorial, em 1997, mas nem o ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta, se dispôs a enfrentar às resistências políticas e a massa de interesses contrários à revisão da legislação arcaica de radiodifusão. Por isso, limitou-se a cuidar da reforma da telefonia, separando, assim, telecomunicações, em seu sentido amplo, da radiodifusão.

Está na hora de completar o trabalho.

 

 

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Mudanças surpreendentes

25 de agosto de 2012 | 22h19

Ethevaldo Siqueira

Se em janeiro de 2011, eu escrevesse uma coluna prevendo que a presidente Dilma Rousseff e seu ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, iriam fazer uma parceria altamente benéfica ao País com uma multinacional norte-americana, detentora de avançada tecnologia de mobilidade, eu seria chamado de louco, até pelos esquerdistas mais flexíveis.

E não digo isso hoje com nenhuma ironia. Esta parceria está sendo formalizada entre o Brasil e a Qualcomm, exatamente a corporação de alta tecnologia baseada em San Diego, que está entre as mais avançadas em computação móvel no mundo.

O Brasil está iniciando um projeto que visa à universalização da internet de banda larga e ao desenvolvimento tecnológico da indústria brasileira. Com a mesma independência com que temos criticado a política de comunicações do País nos últimos anos, não temos agora nenhum constrangimento em aplaudir a parceria anunciada.

Tomara que tudo se realize exatamente como anunciou o ministro das Comunicações, em sua palestra no evento internacional Innovation Qualcomm, realizado em São Paulo, na semana passada. Os cínicos diriam: melhor do que isso só se for verdade. Os ingleses, com seu senso de humor, talvez usassem outra frase bem-humorada: It is too good to be true.

Caminho certo

Em minha opinião, Dilma Rousseff e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, estão no caminho certo. É claro que a banda larga móvel já despertava grande interesse da presidente da República e do ministro das Comunicações. O que surpreende positivamente agora é caminho delineado por Paulo Bernardo e aprovado por Dilma, após o encontro com a equipe da Qualcomm, liderada por seu presidente mundial, Paul Jacobs, realizado na semana passada em Brasília.

Segundo o próprio ministro, a audiência, prevista inicialmente para 30 minutos, durou uma hora e meia. A presidente fez muitas perguntas a Jacobs, para saber dos últimos avanços da banda larga móvel, em especial os proporcionados pela quarta geração do celular (4G). Dilma chegou até a sugerir a visita de uma comitiva de empresários da indústria brasileira e do ministro aos laboratórios da Qualcomm, em San Diego, para conhecer de perto os avanços tecnológicos ligados à computação móvel e, em especial, ao desenvolvimento da 4G.

Segundo Paulo Bernardo, a presidente quer acelerar o processo de atualização tecnológica nessa área e está consciente da necessidade de remover as pesadas barreiras fiscais que oneram produtos e serviços de telecomunicações e de internet no Brasil. Além disso, Dilma Rousseff tem interesse em que o desenvolvimento industrial e os avanços tecnológicos brasileiros sejam concretizados, até se possível com atalhos que reduzam o tempo de maturação e evitem que o Brasil tenha que refazer o mesmo longo caminho trilhado por outros países.

Vantagens

Na verdade, o Brasil só pode ganhar com uma parceria como a anunciada e que está em fase de conclusão com a Qualcomm – bem como com outras alianças futuras com empresas de alta tecnologia dispostas a investir em pesquisa, em transferir tecnologia e implantar sistemas avançados no País. O objetivo central dessa cooperação visa à universalização da internet de banda larga, com a maior participação possível de tecnologia absorvida ou desenvolvida no Brasil.

O ministro relembrou que a expansão da rede de telefonia móvel em 2011 foi superior a 40 milhões de celulares ou a média de 3,3 milhões de novos aparelhos por mês, e que banda larga móvel teve uma expansão de 100%. “Achamos, no entanto, que ainda há certo atraso tecnológico no País nessa área”.

Para Paulo Bernardo, a nova parceria é muito positiva para o Brasil, em especial porque a Qualcomm é uma das empresas mundiais mais avançadas na produção de chipsets e tecnologias de mobilidade do mundo e que, com essa parceria, quatro grupos industriais brasileiros serão inicialmente beneficiados.

O presidente da Qualcomm, Paul Jacobs, anunciou que  a empresa vai desenvolver chips que funcionem em todas as faixas de 4G que o Brasil planeja adotar na quarta geração do celular, entre as quais as faixas leiloadas no Brasil este ano, de 2,5 gigahertz (GHz) e de 450 megahertz (MHz), bem como a de 700 MHz, a ser oferecida pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) no ano que vem. O propósito da Qualcomm é garantir escala mundial para os equipamentos produzidos aqui.

Em abril, a empresa já havia assinado memorando de entendimento com o governo brasileiro para instalar um centro de pesquisa e desenvolvimento no Brasil, que, segundo Jacobs, começará a operar no próximo ano, com cerca de 100 pessoas. A primeira empresa a participar dessa parceria com o centro é a CCE.

Rumo à 4G

A palestra de Paul Jacobs mostrou as grandes tendências da comunicação e da computação móvel nos próximos anos. Entre os avanços já conquistados está a multiplicação por mil da capacidade das células atuais da terceira geração (3G), com a tecnologia de cancelamento de interferência da utilização das frequências dentro dos limites da mesma estação radiobase.

Para a Qualcomm, com a 4G, o futuro próximo será marcado por uma explosão do uso da nuvem, da predominância dos aplicativos e da comunicação de dados sobre todos os serviços atuais da 3G.

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TI Maior: bom diagnóstico com recursos ínfimos

20 de agosto de 2012 | 22h38

Ethevaldo Siqueira

O Programa TI Maior-Programa Estratégico de Software e Serviços de Tecnologia da Informação, de Tecnologia da Informação do governo federal, faz um dos mais completos diagnósticos dos problemas setoriais e de suas necessidades, propõe algumas metas ambiciosas, mas prevê investimentos do setor público considerados modestos e insuficientes, da ordem de R$ 500 milhões.

O lançamento do TI Maior foi feito ontem, em solenidade pública em São Paulo, com a presença de mais de 500 pessoas – entre autoridades, empresários e pesquisadores – pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp. O programa abrange o período 2012-2015 e tem como principal objetivo e fomentar a indústria de software e serviços na área de tecnologia da informação (TI).

Na área educacional, prevê a formação e “capacitação de 50 mil jovens” até 2015. Especialistas lembram que a Coreia do Sul forma mais do que esse número anualmente, em nível de pós-graduação, exclusivamente na área de TI. Mas, até 2022, o governo anuncia o objetivo de formar os 900 mil novos profissionais necessários, que serão adicionados aos 1,2 milhão de profissionais de TI hoje existentes no País.

O Ministério da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (MCTI), em parceria com o Ministério da Educação e associações empresariais, traçou um diagnóstico do mercado de profissionais de TI no Brasil, que culminou no Programa Brasil Mais TI Educação com o objetivo de estimular a criação de empregos e a qualificação profissional.

Além desse propósito, a pesquisa mostra como construir uma grande plataforma de relacionamento digital com estudantes e profissionais do setor de TI, oferecendo intermediação de vagas, cursos básicos e avançados, geração de informação profissional, oferta de cursos gratuitos para comunidades e estudantes, além de atualização tecnológica e acompanhamento de programas governamentais de apoio à iniciativa, como o Pronatec.

A riqueza do software

Para o ministro Marco Antonio Raupp, com o TI Maior, o governo quer que “a produção de software cresça no Brasil a uma taxa muito alta e que esse crescimento represente divisas para o País, geração de renda para as empresas e criação de postos de trabalho qualificados para os brasileiros”.

“Ao valorizar o software nacional – diz Raupp – feito por empresa brasileira ou estrangeira, estaremos incentivando as atividades de pesquisa e desenvolvimento na área de TI. Isso significa que não só as empresas do setor serão estimuladas às atividades de P&D internamente, mas que também serão alargados os caminhos entre essas empresas e nossas universidades e centros de pesquisa para que possam estabelecer parcerias bastante produtivas e permanentes”.

O programa foi apresentado em detalhes pelo professor Virgílio Almeida, secretário de Política de Informática do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Depois de um longo diagnóstico do setor de TI e de suas implicações no desenvolvimento brasileiro, ele anunciou o investimento total de R$ 500 milhões – considerado “insuficiente e tímido” por empresários e por entidades profissionais do setor.

Setor privado investe

O TI Maior, com grande ênfase na participação das entidades privadas e na maioria dos investimentos já em curso no setor público, prevê a ação de incubadoras e de aceleradoras de empresas com base tecnológica, consolidação de ecossistemas digitais, preferência para software com tecnologia nacional nas compras governamentais, capacitação de jovens para atuar na área de TI e atração de centros de pesquisa globais.

O secretário de Política de Informática do MCTI, Virgilio Almeida, destacou que um dos maiores desafios do programa será a redução da defasagem científica e tecnológica que separa o Brasil das nações mais desenvolvidas. “O setor de TI já tem 73 mil empresas no Brasil e faturou US$ 37 bilhões apenas em 2011, ou seja, nossa indústria é qualificada. O TI Maior chega para fomentar esse campo portador de inovação, acelerando os demais setores econômicos do país”, ressaltou Virgilio.

Apoio às empresas

Um dos pontos de maior ênfase do programa TI Maior será o fomento às novas empresas de software e de TI em geral, sob a forma de startups, aceleradoras de pesquisa e desenvolvimento na área de softwares e serviços. Esse apoio às novas empresas será estruturado por uma “rede de mentores e investidores, por meio de consultorias tecnológicas, institutos de pesquisa e incubadoras, parcerias com universidades, articulação com grandes empresas nacionais e internacionais, além de programas de acesso a mercado e compras públicas”.

A certificação de software e serviços (Certic’s) deverá ser ampliada para se estabelecer uma metodologia de avaliação do processo de preferência de compras e produtos resultantes de inovação e desenvolvimento tecnológico local, atendendo ao disposto na Lei 12.349/2010. O Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), vinculado ao MCTI, será responsável por emitir essas certificações.

Cinco áreas

O projeto TI Maior está estruturado em cinco pilares: desenvolvimento econômico e social, posicionamento internacional, inovação e empreendedorismo, produção científica, tecnológica e inovação, e competitividade. Os recursos serão subvencionados por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep/MCTI) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCTI).

O secretário do MCTI, Virgilio Almeida, destacou que um dos maiores desafios do programa será a redução da defasagem científica e tecnológica que separa o Brasil das nações mais desenvolvidas: “O setor de TI já tem 73 mil empresas no Brasil e faturou US$ 37 bilhões apenas em 2011, ou seja, nossa indústria é qualificada. O TI Maior chega para fomentar esse campo portador de inovação, acelerando os demais setores econômicos do país”.

Setores estratégicos

Para integrar os núcleos de pesquisa nas diversas áreas do conhecimento, o TI Maior definiu doze setores estratégicos para o desenvolvimento de softwares e soluções de alta complexidade e impacto econômico e social: educação, defesa e segurança cibernéticas, saúde, petróleo e gás, energia, aeroespacial/aeronáutico, grandes eventos esportivos, agricultura e meio ambiente, finanças, telecomunicações, mineração e tecnologias estratégicas (computação em nuvem, internet, jogos digitais, computação de alto desempenho e software livre).

Em todos os casos, o TI Maior estimulará a concepção de projetos nos institutos de pesquisa públicos e privados, bem como a formação de redes acadêmicas e empresariais em torno dos ecossistemas criados.

O presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), Antônio Gil, apoiou o projeto e reforçou a importância do setor privado no processo. “O TI Maior vem para elevar o Brasil ao papel de potência mundial no setor. Caberá ao setor privado garantir a excelência no desenvolvimento de softwares e serviços”, disse.

Assespro critica

A Assespro, Associação das Empresas de Tecnologia da Informação, divulgou ontem (20) documento em que formula diversas críticas  ao TI Maior. Quanto às metas globais de longo prazo, a entidade faz as seguintes observações:

“A primeira meta divulgada é dobrar o faturamento do Setor de TI nacional até o ano de 2020. Uma conta simples revela que esse crescimento de 100%, projetado para oito anos, equivale a uma taxa de crescimento anual média de 9%. O crescimento do Setor nos últimos 20 anos nunca apresentou uma taxa de crescimento inferior a essa, mesmo em anos de crise econômica. Como não é possível acreditarmos que o objetivo real do Governo seja reduzir o ritmo de crescimento do setor, essa meta nos coloca em alerta: por que o governo teria optado deliberadamente por uma meta tão conservadora? Recusamo-nos a acreditar estarmos apenas diante de um instrumento de marketing político”.

A Assespro também considera modesto o total de investimentos do TI Maior: “Circularam números de até R$ 700 milhões, a serem aplicados ao longo de quatro ou cinco anos, mas o número final ficou abaixo disso. De qualquer forma, esse investimento representa um avanço significativo em relação aos investimentos atuais. Entretanto, esse número é pequeno se comparado com os investimentos feitos em outros setores da economia, com contribuição semelhante ao PIB (por exemplo: cada uma das renúncias fiscais no setor automotivo, para estimular o consumo nos últimos anos, foi estimada pelo governo em R$ 1 bilhão por ano). Se comparado com o faturamento do próprio setor de TI, o investimento anunciado corresponde a algo próximo a 0,1%.”

A Assespro acha, também, que a consulta pública prevista apenas para o processo de certificação de tecnologia nacional deveria estender-se a todo o programa TI Maior. “Se há disposição para o diálogo, por que o próprio plano não foi gerado com o envolvimento da sociedade?”

E queixa-se de ter sido convocada pelo governo apenas “na reta final”. O mesmo teria ocorrido com as demais entidades representativas do setor de TI.

A Assespro conclui que “o grande mérito do programa é conscientizar amplamente a sociedade brasileira sobre a importância que o setor alcançou” e que, no tocante às medidas propostas, “ainda há espaço para muitas melhorias”.

Finalmente, a Assespro formula votos de que “o plano de fato seja implementado” pois  “seria extremamente prejudicial à imagem global do País (com efeitos perversos inclusive sobre as crescentes exportações do Setor) que o programa TI Maior acabe se revelando ser uma estrela cadente, dessas que chamam a atenção por um breve período de tempo, e depois se apagam”.

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Desafios da era pós-PC

18 de agosto de 2012 | 9h36

Ethevaldo Siqueira

Coluna do Estadão de domingo, 19-08-2012

O mundo vive a era pós-PC. São tempos marcados pela mobilidade e pelo uso crescente de dispositivos móveis, como tablets e smartphones, para acessar conteúdos e aplicações. As mudanças são, na realidade, resultado da ação de quatro forças que atuam ao mesmo tempo no cenário de tecnologia da informação (TI): mobilidade, redes sociais, computação em nuvem e internet, chamadas, no jargão internacional: mobile, social, cloud & information.

No conceito elaborado pelo Grupo Gartner, denominado “nexo das forças” (The Nexus of Forces), esses fatores funcionam como quatro alavancas, cada uma com seu papel e sua função. Assim, o papel da mobilidade, por exemplo, é ampliar as possibilidades de acesso às pessoas. As redes sociais, por sua vez, estimulam novos comportamentos e novas aspirações. A computação em nuvem nos dá novas formas de entrega ou de obtenção de serviços e aplicações. E a informação universalizada pela internet fornece novos contextos às empresas e às pessoas.

Em passado recente, essas quatro forças atuavam quase isoladamente. Atualmente, elas convergem e atuam em conjunto, com grande sinergia. Vale a pena rever esse tema, focalizado na semana passada na Conferência sobre Arquitetura de Aplicações, Desenvolvimento e Integração em TI, realizada em São Paulo pelo grupo Gartner.

O PC hoje

A era pós-PC não significa, necessariamente, que o desktop ou o laptop tenham morrido. Nem que estejam em vias de desaparecer no curto prazo. O computador pessoal, embora tenha perdido a hegemonia do passado e a maior parte do espaço que ocupava nas empresas, ainda deverá ter seu lugar nas empresas por muito tempo. O fato extraordinário é que dele nasce uma longa cadeia de subprodutos e dispositivos móveis.

Na era pós-PC, o número de dispositivos móveis nas empresas passa a ser muito maior do que o de desktops. E, em 2015, essa proporção será ainda mais desequilibrada. Segundo preveem os especialistas, para cada PC (desktops ou laptops), haverá quatro dispositivos móveis (tablets ou smartphones) nas corporações.

Novos desafios

Um problema sério para muitas empresas é não compreender a importância da mobilidade nem o significado da mudança de paradigmas. Embora a mobilidade nas comunicações tenha praticamente começado com o celular há mais de 30 anos, a grande convergência de tecnologias é bem mais recente.

O mais surpreendente nessa evolução é comprovar os poderosos recursos acrescentados às redes, bem como a cada dispositivo, que se transforma em poderoso terminal de comunicação e de computação, graças à microeletrônica, à banda larga, à multiplicidade de interfaces, à computação em nuvem, à internet e às redes sociais. Mas torna, também, o novo ecossistema muito mais complexo.

“O lançamento do iPhone, há cinco anos, marca uma mudança rumo a um futuro dominado pelos dispositivos móveis. Smartphones e tablets deixam, então, de ser simples ferramentas de comunicação para se transformar em plataformas de aplicações e de acesso a informações” – afirma David Smith, analista de pesquisa e vice-presidente de pesquisa do Gartner Group.

Na visão desse pesquisador, as mudanças ocorridas com a mobilidade no comportamento humano vieram para ficar. “As pessoas já não executam programas apenas em desktops e notebooks, mas, sim, em dispositivos móveis, que acompanham o usuário onde ele estiver e quando necessitar. Essa revolução da mobilidade cria um novo ecossistema e, daqui para frente, são os dispositivos móveis que vão reinar”.

Smartphones e tablets assumem, então, com vantagens, a função que era dos desktops e laptops na maioria dos serviços e aplicações, não apenas para atender às necessidades do usuário individual, mas, em especial, como ferramentas essenciais à computação corporativa.

Nova estratégia

Nesse novo cenário, dizem os especialistas, empresas de TI e corporações em geral devem mudar de estratégia, aprimorar suas aplicações e interfaces para responder ao grande crescimento da demanda por novos canais – como, por exemplo, transação entre empresas (B2B ou business-to-business); entre empresa e empregados (B2E ou business-to-employees) e entre empresa e consumidor (B2C ou business-to-consumer).

Com a universalização da comunicação móvel, torna-se conveniente, em muitos casos, que os empregados tragam sempre seus equipamentos de uso pessoal – estratégia conhecida pela sigla Byod (de Bring your own device). Mas é essencial que esses dispositivos móveis estejam sempre tecnologicamente atualizados.

Novas interfaces

Um dos maiores avanços que a tecnologia oferece nos últimos anos e que revoluciona os dispositivos móveis é a interface muito mais amigável e intuitiva proporcionada pelas telas de toque (touchscreen) e pelo comando por gestos.

Além disso, a relação homem-máquina é enriquecida pelos canais de áudio e vídeo. Imagine o valor que assumem a cada dia os comandos de voz nas buscas e ações das aplicações. Por sua vez, o emergente canal de vídeo começa a viabilizar o reconhecimento facial e de gestos.

Cabe, então, às empresas acompanhar de perto os avanços que ocorrem a cada dia nas novas técnicas de interface de usuário (como toque, áudio, vídeo, gestos, busca, social e contexto) e criar um novo caminho para o futuro.

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Uma incubadora tecnológica

14 de agosto de 2012 | 16h37

Ethevaldo Siqueira

Micro e pequenas empresas inovadoras da área de software, em tecnologia da informação (TI) e telecomunicações poderão inscrever-se até o dia 20 de agosto, para participar de um estande coletivo na edição do Futurecom 2012, um dos maiores eventos do setor de tecnologia da informação (TI) e telecomunicações da América Latina, que será realizado no Rio de Janeiro, de 8 a 11 de outubro. As empresas interessadas em participar do espaço podem inscrever-se pelo site ITS (www.its.org.br). O resultado das empresas selecionadas sai até o dia 27-08.

Poderão participar do Espaço Inovação as empresas que comprovarem capital nacional e que tenham faturamento bruto anual, em 2011, inferior a R$ 7 milhões. As empresas candidatas devem apresentar soluções inovadoras destinadas ao setor de telecomunicações. O Comitê de Avaliação escolherá 12 empresas para fazer parte do Espaço Inovação. O estande coletivo conta com cerca de 120 metros quadrados e tem como objetivo identificar empreendedores com soluções inovadoras que atendam o setor de telecomunicações.

Será a terceira vez que o ITS e a Provisuale promovem o Espaço Inovação no Futurecom. Esse espaço consiste de um estande coletivo voltado para as micro e pequenas empresas brasileiras com produtos e serviços inovadores. Além de estar presente no Futurecom, o Espaço Inovação também é promovido no CIAB, o Congresso Internacional de Automação Bancária da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos).

O Instituto

Poucas entidades privadas têm objetivos tão importantes e estratégicos quanto o Instituto de Tecnologia de Software (ITS). Entre seus objetivos, estão o estímulo à inovação tecnológica e o apoio à micro e pequenas empresas de software, de modo a viabilizar seu desenvolvimento. Além de estimular e orientar a criação de novas empresas, o ITS apoia a capitalização, a promoção de negócios, a capacitação, o desenvolvimento de projetos de P&D e às atividades de marketing e comunicação.

O ITS iniciou suas atividades em março de 1997, como associação civil sem fins lucrativos, por iniciativa conjunta de empresas privadas, universidades, entidades de classe e órgãos de Governos. O ITS apoia as novas empresas em atividades tais como: a) desenvolvimento de projetos de P&D e inovação; b) gestão de projetos de TI e comunicação; c) modelagem e simulação de processos; d) qualidade de software; e) promoção de inovação na pequena e média empresa; f) internacionalização de empresas; g) apoio à capitalização das empresas de software; h) apoio à promoção de negócios; i) capacitação das empresas de software.

Empresas premiadas

No CIAB 2012 (Congresso Internacional de Automação Bancária), evento realizado anualmente pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), o ITS conferiu o Prêmio Espaço Inovação à Simply Sistemas, vencedora na categoria de Melhor Solução. Duas outras empresas – a Siter (Domain Dialing) e a e-sec (EVO Mobile) – também foram destacadas por seus produtos inovadores.

A vencedora, empresa mineira Simply Sistemas, foi escolhida entre as 24 participantes da edição deste ano. A solução apresentada é a ferramenta Document Explorer (DEX), na área de Gestão Eletrônica de Documentos. O prêmio foi recebido pelo sócio e diretor de tecnologia Roberto Rigotto.

Segundo o diretor de tecnologia da Simply Sistemas, Roberto Rigotto, desde que participou da primeira vez do Espaço Inovação, a empresa passou a ter mais credibilidade e prestígio no mercado.

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Um país sem governo

10 de agosto de 2012 | 19h28

Ethevaldo Siqueira

Coluna do Estadão de domingo, 12 de agosto de 2012

Quem viveu, como eu, na semana passada, o pesadelo de utilizar grandes aeroportos brasileiros, como o Galeão ou Guarulhos, sentiu na pele certamente o que é a humilhação a que estamos sendo submetidos por policiais e funcionários arrogantes, prepotentes e autoritários, embora pagos, suprema ironia, com o dinheiro de nossos impostos.

Como milhões de outros cidadãos, sinto vergonha de viver em um país sem governo, sem justiça e sem o menor respeito por seu povo. É triste reconhecer, leitor, mas a impunidade triunfa no Brasil de 2012. A cada dia que passa, mais empresas e cidadãos são desrespeitados em seus direitos fundamentais, nos aeroportos, na alfândega, na vigilância sanitária, nos portos, nas rodovias, nas greves selvagens, nas universidades paralisadas há meses.

A omissão não é apenas do Executivo, mas do governo como um todo, incluindo Congresso e a Justiça. Nem o Ministério Público, que tem prestado bons serviços nos últimos anos, dispõe-se a enfrentar a imensa chantagem a que estamos submetidos.

Somos reféns

Diante de greves selvagens, eu, você, todos os brasileiros, estamos de joelhos, somos reféns, nas mãos de qualquer grupelho sindical ou corporação profissional. Essas entidades sabem que não há qualquer limite para seus protestos.

Aliás, a ousadia e a violência desses movimentos crescem à medida que as entidades representativas de cada categoria se sentem mais poderosas e organizadas. Até porque sabem que o governo não coíbe nenhum excesso e não se opõe à ação desses novos donos do poder.

É claro que ninguém é, nem poderia ser, contra as reivindicações justas de nenhuma categoria. Nem contra o direito de greve, nos limites da lei. No entanto, não se pode violar, impunemente, o direito dos cidadãos que nada têm a ver com as discórdias ou dissídios bilaterais. O mundo civilizado e democrático não tolera atos e manifestações violentas contra a população ou a destruição do patrimônio público ou privado.

Mas o que acontece no Brasil de hoje? Aqui, os novos donos do poder fecham hospitais, bloqueiam vias públicas, interrompem serviços essenciais e de emergência. E riem na nossa cara, porque a impunidade é total. Sabem que não serão presos, não perderão o emprego e, no final, receberão todos os dias parados e conseguirão reajustes superiores à inflação.

E quem paga a conta? Eu e você, leitor.

As mal-amadas

A recente crise do celular mostrou quem é quem na telefonia móvel, o papel e o desempenho das operadoras, da Anatel e do governo – bem como a responsabilidade de cada um desses players na solução dos problemas do setor.

É claro que as operadoras de celular são odiadas por grande parcela da população. Para alguns, simplesmente por serem empresas privadas. Para outros, porque algumas prestadoras têm capital estrangeiro. E para a maioria, com muito mais razão, porque todas prestam serviços medíocres e atendem mal os seus clientes. A suspensão da venda de celulares por 11 dias, imposta a três operadoras pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), comprovou o quanto essas empresas precisam melhorar.

Outra lição da crise foi o reconhecimento público pela agência reguladora de que sua fiscalização tem sido pouco eficaz no combate aos maus serviços. Vamos cobrar, portanto, nova postura da Anatel.

Cordeiros

O cidadão brasileiro parece ter paciência infinita, ovina ou bovina, mesmo sendo desrespeitado todos os dias, em todos os setores, não apenas por operadoras de telefonia, mas nos transportes, hospitais públicos, seguradoras de saúde, previdência ou segurança e pela maioria das empresas prestadoras de serviços.

Muitos perguntam por que o governo e suas agências não dizem toda a verdade e passam a enfrentar seriamente os abusos e os maus serviços. A resposta é simples. Primeiro, por estarem conscientes de prestar os piores serviços nas áreas estatais. Segundo, porque é mais fácil jogar para a torcida.

Buscar popularidade com punições draconianas e fogos de artifício não resolve. Desse modo, o governo finge que nos defende – como nos juros bancários, controlados pelo próprio Banco Central, e na telefonia, em que fiscaliza mal. Isso só desvia por algum tempo a atenção da população da montanha de mazelas denunciadas diariamente pela mídia, envolvendo escândalos, corrupção, obras superfaturadas, impostos escorchantes e ineficiência estatal.

Hora de reagir

Por que a maioria esmagadora dos brasileiros não reage? Talvez por falta dessa consciência fundamental de cada cidadão, de que somos nós quem paga impostos equivalentes a quase 40% do Produto Interno Bruto e não recebemos em contrapartida serviços minimamente decentes.

Em lugar da cínica operação padrão dos policiais, o Brasil poderia e deveria por em prática a verdadeira operação padrão respeitável, que é a rigorosa aplicação da lei, da justiça e do respeito à população.

Não se cale, leitor. Grite, infernize todo mau político, use a internet e todos os instrumentos democráticos para denunciar o abuso, a corrupção, a violência e a mentira. Use todas as armas republicanas ao seu alcance para combater esse estado de coisas. Aproveite cada eleição para dar troco, pelo voto.

Um dia, talvez, tenhamos governo que jogue de nosso lado.

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