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O incrível ‘Mel na Boca’ de André Neves

Bia Reis

03 setembro 2014 | 10:50

O escritor e ilustrador criou uma história emocionante, cheia de possibilidades de leitura, com ilustrações que enchem os olhos

“Lentamente o dia se enrosca nos galhos da árvore e ilumina o pátio.
Pendurada, a gaiola com o pintassilgo dá bom dia ao sol.
O avô gosta de pássaros e manhãs.
Tino, o neto, também gosta e tem mel na boca quando canta.”

São incríveis as imagens que o escritor e ilustrador André Neves cria com as palavras. Em Mel na Boca, seu mais recente lançamento, ele narra, com poesia e afeto, a relação de um avô e seu neto, os valores que compartilham enquanto estão juntos, o olhar sobre o amadurecimento.

Tino passa as férias com o avô, que mora em uma cidade pequena, daquelas em que o tempo custa a passar. O garoto fica descalço, sobe nas costas do avô, aprende com ele músicas e as cantarola. Pelas manhãs, Tino canta, e o pintassilgo ouve. Tino descobre música nos instrumentos que o avô tocava, mas percebe que outros objetos também podem soar: as panelas da avó, a vitrola velha, a bicicleta.

Tino está aprendendo a andar de bicicleta, com a ajuda do avô. O menino gosta quando ele segura seu assento e o guidom – e faz assim até o neto aprumar a coragem. Tino gosta da segurança que sente: além do avô, há duas rodinhas laterais para segurá-lo, auxiliá-lo a se equilibrar. Pura cumplicidade.

Um dia, o pintassilgo deixa o silêncio e canta, e Tino se desequilibra. O avô já não está ao seu lado, está olhando o pássaro, ouvindo seu cantar. Tino vai para seu quarto. Chove, e a chuva inunda seus pensamentos. Ele pensa no pássaro, pensa na bicicleta e vê a noite passar.

No dia seguinte, a gaiola amanhece vazia. O avô procura o pássaro, mas só encontra o silêncio. O menino tenta consolá-lo: “Era só um pássaro, vô”, e segura sua mão. O avô se perde em pensamentos, tentando encontrar um jeito de explicar a fuga do pintassilgo.

O menino se aproxima do avô. Canta, mas ele se mantém distante. Respira fundo e conta que soltou o passarinho, que ele precisava voar. O avô sai, e Tino também silencia. O avô pega a bicicleta e a leva para rua, enquanto o menino pensa que tudo está acabado.

É com delicadesa que o avô revela sua percepção sobre o amadurecimento do neto. Quando Tino olha para a bicleta, não vê as rodinhas que tanto lhe davam equilíbrio. Mas não acaba ai, a cumplicidade segue pelas páginas do livro.

É quase mágica a habilidade de André Neves de contar uma história cheia de emoção, que, sim, as crianças a perceberão de um jeito e os adultos, de outro, pois há várias leituras possíveis. Mas, além de uma linda história, o encanto está na escolha das palavras, no jeito com que o autor compõe suas frases, no ritmo que dá ao texto. E há as ilustrações, um deleite à parte. Os personagens têm o traço característico de Neves, com um pé no mundo real e o outro no da fantasia, com olhares expressivos que revelam quase tudo. Os desenhos têm textura, movimento e uma infinidade de detalhes escondidos em cada página – repare o pássaro talhado na parede de tijolos, a padronagem de galhos e folhas.

E tem gente acha que André Neves faz literatura (só) para crianças.

O autor já esteve nesta Estante de Letrinhas, com Tom (clique aqui para ler)

Serviço
Mel na Boca
Autor: André Neves
Editora: Cortez
Preço: R$ 42 (capa dura)

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