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Catarina Sobral e o voo de Portugal para o mundo

Bia Reis

08 julho 2014 | 12:41

Portuguesa premiada em Bolonha como melhor ilustradora jovem fala sobre paixão pela literatura e artes e a produção de seu país

A autora portuguesa Catarina Sobral tem somente cinco livros publicados, mas seu nome já entrou no circuito internacional. Em março, na Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, na Itália, Catarina recebeu – com surpresa, diz – o prêmio destinado a jovens ilustradores. Concorreram 41 autores com menos de 35 anos. “Esta tinha sido apenas a segunda vez que concorri à mostra dos ilustradores e a primeira que fui selecionada”, contou a escritora e ilustradora.

A menina, que nasceu em Coimbra em 1985, amava desenhar e adorava livros – principalmente os ilustrados. Cresceu e se tornou designer. Foi durante o mestrado que mergulhou na literatura e decidiu dedicar-se totalmente à paixão. Na pós-graduação nasceu sua primeira obra, Greve, e o desejo e continuar produzindo. Vieram, então, Achimpa, O Meu Avô, Vazio e Limeriques Estapafúrdios – este último, com texto de Tatiana Belinky.

Foi O Meu Avô que lhe rendeu o prêmio de Bolonha, patrocinado pela Fundação SM. O júri da premiação, composto por Roger Mello (Brasil), Sophie Van der Linden (França) e Pablo Núñez, destacou na escolha de Catarina “a referência à tradição gráfica dos anos 1950, com uma interpretação contemporânea, e a composição baseada em básicas figuras geométricas”.

No livro, Catarina fala do tempo e narra a rotina de seu avô e do dr. Sebastião. Este avô já correu muito na vida – era relojoeiro -, mas agora tem bastante tempo para ler o jornal com calma (ou não), estudar alemão, fazer pilates, cuidar do jardim (ou não), escrever cartas de amor, conversar sobre artes, ler peças de teatro, ir a Paris e buscar o neto na escola. E o dr. Sebastião?

Em O Meu Avô, Catarina utiliza as ilustrações para fazer uma narrativa que vai além, muito além, do texto – e esse é o encanto que apenas os livros ilustrados são capaz de proporcionar. Foi justamente esse aspecto que chamou a atenção de Carla Oliveira, da editora Orfeu Negro, que publica as obras de Catarina em Portugal. “Ela tem a capacidade de produzir simultaneamente textos e ilustrações de qualidade. Uma capacidade que requer uma vasta gama de leituras e de referências artísticas enquanto matéria transformável em um outro universo criativo, o de Catarina Sobral”, afirma.

No livro premiado, a autora também lança mão de uma combinação de cores inusitada – vermelho, verde e marrom – e se debruça sobre formas retas e geométricas.

Questionada sobre quando percebeu que tinha um traço original, Catarina diz que “provavelmente antes do mestrado, embora não fosse inteiramente consciente”. “Quis ser ilustradora porque sentia que era a profissão que me faria feliz. Mas, essencialmente, sempre soube que não tinha falta de capacidade de trabalho e, em arte, parafraseando o Picasso, 10% é inspiração e 90% é transpiração.”

Em seus trabalhos, Catarina gosta de usar materiais variados, como lápis, pastéis, carimbos, tintas e colagens. “Se pinto com pincéis são sempre grandes manchas de cor e geralmente misturo outros materiais para lhes acrescentar textura. Sou muito experimental.” Para Carla, o estilo de Catarina é surpreendente. “Se tivermos de definir o estilo com adjetivos, diria que é um estilo com três cês: contemporâneo, conceitual e cinematográfico”, diz a editora.

Em relação à literatura portuguesa feita para crianças, Catarina classifica a produção atual como original. “No que diz respeito à ilustração, nota-se uma certa escola com um ambiente um pouco modernista, com cores em aplats, contrastantes, e geometrias irregulares. Mas é uma generalização e por isso deixa de fora muito do que cá se faz.”

Sobre o mercado português de literatura para crianças e jovens, Catarina diz que não é tão receptivo e informado quanto, por exemplo, a França e a Itália. “Por outro lado, parece-me menos comercial que alguns mercados de língua inglesa e até mais aberto em relação aos textos dos livros para crianças. E está em crescimento: há cada vez mais leitores que conhecem bem os autores e procuram ativamente os livros. Proporcionalmente, as editoras portuguesas estão a crescer, em tamanho e em qualidade.”

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