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Estadinho

29.agosto.2011 14:00:05

Sentimentário

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(Por Aryane Cararo)

Se você já precisou abrir o dicionário para descobrir o significado de uma palavra, vai entender o que estamos falando. Especialmente se o dicionário for daqueles enormes, pesados e que não foram feitos para crianças. Muitas vezes não dá nem para entender o que ele está explicando. E, quando dá, a gente até chega a desanimar com a explicação, não é? Por exemplo, vamos ver como ele define a palavra “brincar”, que é uma das melhores coisas na vida:

“1. Divertir-se infantilmente, entreter-se em jogos de crianças. 2. Divertir-se, recrear-se, entreter-se, distrair-se, folgar.”
(retirado do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, da Editora Nova Fronteira, 31ª impressão)

Deste jeito, nem parece divertido como é. O dicionário é sempre tão sério, tão sem sentimentos, que às vezes chega a ser injusto com as palavras. Foi o que pensou Babu, o personagem e narrador do curta de animação Sentimentário. No filme, Babu narra como ficou indignado quando foi procurar o que o glossário falava sobre o manacá, sua flor preferida. Dizia lá:

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Manacá – “arbusto solanáceo (brunfelsia hopeana), muito apreciado como ornamental para jardins e praças, indo a corola de esbranquiçada a azul…”

“Por que não escrevem a verdade? Que é uma flor linda, roxa, que vai ficando lilás e depois branca (…). E o manacá faz lembrar de umas coisas tão boas e tão gostosas, que parece uma máquina do tempo”. É isso que Babu diz no filme e, por causa disso, ele resolve criar seu próprio dicionário, com sentimentos, cheiros, cores e sabores. E dá o nome de Sentimentário. Não é uma ideia incrível?

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Se você leu o Estadinho de hoje  (dia 27), viu que a gente pegou carona nesse ideia e resolveu fazer seu próprio sentimentário. Para isso, pediu ajuda para quatro meninas e a definição que você lê lá é toda delas. As garotas foram tão legais que, depois de assistir ao filme e sugerir os significados, ainda fizeram fotos simulando sentimentos diferentes: tristeza, alegria, espanto, braveza etc.

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Da esquerda para a direita: Helena Galvão Siqueira, 11 anos, que simulou tristeza, Tamires Taiane dos Santos, 6 anos, que fez a alegre, Estefane Williane dos Santos, 9 anos, que tentou fazer uma cara de brava, e Beatriz Maria Lima de Castro, 9 anos, que simulou surpresa.

 Se ainda não leu, clique nas páginas abaixo. Mas volte aqui para ler tudo: entrevista com o pessoal do filme, o texto que deu origem a tudo e uma entrevista em que perguntamos por que o dicionário é desse jeito sem graça.

Página 1

Página 2

Página 3

Veja aqui o filme:

O filme foi feito pelos estudantes Caio Mazzilli e Carolina Araujo, a partir de um texto de Marina Miyazaki (clique aqui para ler o texto). Caio conta que foi só providenciar os desenhos e animá-los. Era para ser apenas um trabalho para a faculdade, mas ficou tão fofo que foi parar até no 16º Festival Brasileiro de Cinema Universitário. E a fama está se espalhando. “A gente não esperava por isso”, diz Caio. Inspirado pelo curta, ele diz que também mudaria algumas definições do dicionário, como “Fusca azul”: para ele, lembra uma viagem bem gostosa.  

 

SIGNIFICADOS DAS PALAVRAS

Se você ficou curioso para saber como o dicionário define as palavras que usamos em nosso sentimentário, dá só uma olhada:

Sorvete: Designação comum a várias iguarias doces, feitas de suco de frutas ou de leite (com ovos, chocolate, etc.) e congeladas até adquirirem consistência semelhante à da neve.

Praia: Orla da terra, em declive suave, ordinariamente coberta de areia, e que confina com o mar.

Férias: Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes, etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades.

Bicicleta: Veículo constituído por um quadro, montado em duas rodas, ordinariamente grandes, alinhadas uma atrás da outra e com raios metálicos, e que é dotado de selim e manobrado por guidom e pedais.

Amigo: Que é ligado a outrem por laços de amizade. Simpático, acolhedor. Que ampara ou defende; protetor.

Arco-íris: Fenômeno resultante da dispersão de luz solar em gotículas de água suspensas na atmosfera, e que é observado como um conjunto de arcos de circunferência (excepcionalmente como circunferências inteiras) coloridos com as cores do espectro solar.

Felicidade: Qualidade ou estado de feliz; ventura, contentamento. Bom êxito, sucesso.

Escola: Estabelecimento público ou privado onde se ministra, sistematicamente, ensino coletivo.

Chocolate: Produto alimentar, em pó ou pastoso, feito de amêndoas de cacau torradas, açúcar e diversas substâncias aromáticas.

Natureza: Todos os seres que constituem o universo.

(Retirado do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª edição revista e ampliada, 36ª reimpressão, Editora Nova Fronteira)

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O DICIONÁRIO

Que sem graça, não é? Por isso, o Estadinho resolveu conversar com a Lílian Passarelli, professora doutora em língua portuguesa na PUC-SP. A gente queria saber por que o dicionário era assim, tão sem sentimentos. Veja o bate-papo abaixo:

Lílian, por que o dicionário é tão frio assim?
A gente tem que entender o dicionário como um manual de consulta. E ele cumpre o papel dele.

Por que é tão difícil entendê-lo, algumas vezes?
A criança não entende porque não tem a proficiência necessária para interpretar os verbetes. Daí o importante papel do professor e da escola. Tem que ter um intermediário para entender essa linguagem referencial. É tarefa da escola ensinar o menino a ler qualquer gênero de texto e o verbete é um desses gêneros. Mas temos versões de dicionários para crianças, com palavras mais acessíveis.

Como funciona o dicionário?
Quando você procura uma palavra, vai haver toda a informação técnica no verbete. O primeiro significado é o mais referencial possível, o mais objetivo. E a partir daí vai se afastando.

Deveria haver também um sentimentário, além do dicionário?
Achei essa ideia sensacional, porque é um exercício bastante lúdico, estaríamos diante da escrita criativa. Os professores deveriam brincar com isso. Seria extremamente saudável, especialmente para as séries iniciais,  para desenvolver o gosto pela escrita.

VOCÊ SABIA?
Que os sumérios, um povo que viveu na antiga Mesopotâmia há cerca de 4.600 anos, já registravam palavras e significados? Eles faziam isso em tabletes de argila e usavam a escrita cuneiforme (um tipo de escrita que usava objetos em forma de cunha para “escrever” no barro). O dicionário deles tinha nomes de profissões, deuses e objetos do dia a dia. China e Grécia também tinham um sistema para catalogar palavras.

SUA VEZ
Agora nós fazemos uma proposta: por que você não leva essa ideia do sentimentário para sua professora? Não esqueça de mandar o resultado para a gente!

 

comentários (8) | comente

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8 Comentários Comente também
  • 27/08/2011 - 10:32
    Enviado por: Francisco

    Oi Aryane…..
    emocionante…impossível não voltar no tempo, nossas lembranças…..que saudade de tantas coisas…
    O texto também é lindo, mas além disso, tive curiosidade e fui ver o blog da Marina – futebol!!!!, me espantei – esperando sei lá o que, diante de texto tão sensível, o que ela poderia escrever deste esporte de ogros, que adoro.
    Após ver o blog, me apaixonei ainda mais pela autora e só me restou usar este espaço para, indelicadamente, sugerir ao pessoal do esporte ou cultura que fale urgente com ela, chega de “neanderthais”, como ela diz…vamos por mais humor – muito bom humor – nas páginas de esporte.
    Agradeço pela mat´eria que me rejuvenesceu por algumas horas
    Francisco

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  • 27/08/2011 - 11:00
    Enviado por: glaufer nobre

    Matéria bem legal… Esse vídeo “Sentimentário” é sem dúvida excelente, nos faz lembrar de todas as coisas boas da nossa infância!!

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  • 27/08/2011 - 14:30
    Enviado por: Kawany

    Boa tarde Aryane,
    queria parabeniza-lá pelo modo com que você tratou a questão. Li a matéria, o texto original e vi o vídeo, e confesso que apesar de possuir pouca idade, sinto-me mal ao ver a frieza com que são feitas as definições do dicionário, e sim, como seria bom se tivéssemos um sentimentário, pois assim, em meio a correria do dia a dia, poderíamos sentar e nos lembrar de como foi boa e marcante a nossa infância.

    Kawany

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  • 27/08/2011 - 17:36
    Enviado por: anita namba

    Maravilhoso! Parabéns!!!!

    Se acumulássemos boas e doces lembranças, o mundo estaria mais azul, mais verde, mais doce, mais macio, mais cheiroso…

    Marina, Parabéns e Obrigada por nos fazer lembrar que existem muiiitas coisas boas, Caio e Carolina Parabéns pela idéia e pelo excelente documentário.

    Anita Namba

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  • 27/08/2011 - 17:40
    Enviado por: Linacir

    Quando se leva ao público uma leitura, um filme, alguma coisa inteligente e séria, a repercussão é imediata . O texto de Marina , animado pelos dois alunos Carolina e Caio, já está dando o que falar. Em Alagoas uma professora usou o filme para mostrar aos alunos e depois fazer um debate. Valeu.

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  • 27/08/2011 - 22:01
    Enviado por: Olga

    Achei bárbara a ideia do dicionário de sentimentos. Como professora tive algumas ideias para trabalhar com os alunos. O vídeo é de uma sensibilidade ímpar. Parabéns Théo pela narração.
    abraços

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  • 28/08/2011 - 21:26
    Enviado por: Jean Mary

    Quando vi o vídeo pela primeira vez me emocionei, e continuo me emocionando. É como voltar no tempo… a gente se sente criança novamente, e mergulha num turbilhão de sentimentos bons. Parece até mágica.
    Valeu Caio, valeu Carolina, e valeu Aryane pela matéria e pela sua sensibilidade.

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  • 29/08/2011 - 14:07
    Enviado por: Marjorie Macedo

    Simplesmente FANTASTICO
    Parabéns a todos!

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Comentários recentes

  • olivio jekupe: hoje em dia os autores indígenas estão cada vez mais publicando seus trabalhos, aqui na nossa aldeia...
  • kellynha: adorei só algumas que é meio sem sentido !!!
  • loana de campos: Adorei a sua ideia, vou tentar fazer
  • Liane: Olha, isso da própria criança gerenciar sua leitura é bem interessante, assim como vários outros aspectos...
  • giovanna: nãão , gosteei muito ;[[

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