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Ah, Lídia, ah, Norma, ah, Sofia

Raul Drewnick

29 agosto 2014 | 09:28

Todos os nomes que damos ao amor

“Poder dormir sem sentir teu amor” é um verso de uma canção feita pelos irmãos Paulo e Marcos Sérgio Valle há cinquenta anos, por aí, na onda de um romantismo desatadíssimo, e penso não ter sido à toa que ele me ocorreu nesta manhã em que certas lembranças de natureza amorosa acenderam em mim faniquitos iguais aos das heroínas dos romances antigos, só não me levando a afogar-me num lago porque lago não havia.
A angústia que o amor nos provoca, essa que nos rouba até o direito ao sono, nasce de nós insistirmos em arranjar sinônimos para ele, em nomeá-lo, em chamá-lo de Lídia, Norma, ou Sofia, e de darmos a Lídia, Norma ou Sofia a exclusividade de representá-lo, como se elas – ou melhor, só uma delas – pudessem fazer isso.
E aí surgem o tu,  o você, o vós que aplicamos a Lídia, a Norma ou a Sofia, e as variações que usamos na nossa linguagem amorosa: tu com teu amor, Lídia, você com seu amor, Norma, vós com vosso amor, Sofia.
Atingimos o paraíso e descemos ao inferno como efeito dessa nomenclatura. Deveríamos ter aprendido, já, que o amor é o amor, seja como for que o chamemos: Lídia, Norma ou Sofia. O que acontece é que, de tanto falarmos baixinho Lídia, Norma ou Sofia, transferimos a esses nomes tudo aquilo que o amor significa.
Se somos amados por Lídia, por Norma ou por Sofia, damos cabriolas, cambalhotas e, num salto só, alcançamos as estrelas. Se Lídia, se Norma ou se Sofia amam Astolfo, ou Rodolfo, ou Pandolfo, e nós não nos chamamos nem Astolfo, nem Rodolfo, nem Pandolfo, choramos como bebês privados da chupeta.
Amemos o amor, só. Louvemos o deus, não suas sacerdotisas, se bem que sejam nomes tão doces esses: Lídia, Norma, Sofia. Ah, Lídia, Norma, Sofia.