O suplemento anual publicado por cada uma das turmas de Focas é publicado um dia após a conclusão do Curso. Nessa 22ª edição, o caderno vai sair encartado para todo o Brasil no dia 10 de dezembro, um dia após a formatura. Por enquanto que os jovens jornalistas selecionados para esta edição estão envolvidos na produção dos textos, repassamos algumas imagens dos bons momentos informais vividos pelo grupo. Damos uma pausa nos posts habituais para um elogio ao companheirismo, à amizade e à colaboração mútua entre eles. Ingredientes mais que necessários para um bom entrosamento, inclusive, profissional.
Davi Lira de Melo, de 26 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
A manhã começou democrática. Os braços estendidos somados em maior quantidade apontavam a escolha do representante que levaria ao editor-chefe do Estadão, Roberto Gazzi, as três opções de temas que tínhamos para o suplemento dos focas, que saiu no sábado, 11.
Com um segundo turno apertado, ganhei a responsabilidade de representar os colegas e vender nossas ideias para o editor. Eu tinha em mãos um mês de trabalho que começou com 30 temas e depois foi filtrado para seis que passaram por um cuidadoso processo de desenho de pautas e estudo de viabilidade. Por fim, fechamos os três favoritos em mais uma eleição.
Para “vender” o caderno, isto é, convencer o editor que nosso mês de trabalho tinha resultado em três opções interessantes de temas, resolvi ouvir os representantes dos grupos e pegar as melhores ideias, as pautas mais fortes, tudo o que podia contribuir para a “venda” do produto.
Por um momento, me senti como os representantes de vendas de plano de saúde: eu tinha pacotes diferentes para o cliente e a obrigação de que ele comprasse pelo menos uma das opções de planos. Para a missão, fomos eu e a repórter-professora Carla Miranda.
Fomos recebidas na sala de vidro por Gazzi e seus óculos de massa em estilo Woody Allen. A caneta balançando e os olhos para cima demonstravam certa preocupação de Gazzi com os temas apresentados.
- “Bastidores de São Paulo”, apresentei.
- Acabamos de dar um especial parecido no aniversário da cidade, replicou Gazzi.
- “Tempo do paulistano”.
- Muito interessante, mas sem um especialista medindo o valor do tempo, vai ser um caderno de achismo.
- “Subterrâneo de São Paulo”?
- Pouco criativo.
- É… pensamos em mostrar para o público como funcionam as coisas debaixo da terra e que as pessoas não sabem. Tipo para onde vai a água do bueiro. Meu pai mesmo sempre pergunta o que vai acontecer com o subsolo brasileiro quando retirarem o pré-sal.
- Isso!, disse Gazzi. O caderno vai ser esse! Vamos puxar esse caderno nessa ideia do pré-sal e o que as pessoas não sabem do subterrâneo.
Sai feliz com a escolha de um dos temas e aprendi a lição: cuidado ao citar seu pai em uma reunião de pauta. Ele pode ter te pautado e você nem percebeu.
Confira o suplemento dos focas
Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)
Era 1º de setembro e 30 jovens jornalistas entravam na sala em que passariam boa parte dos seus dias nos próximos três meses. Quase todos os rostos eram desconhecidos, um ou outro colega de sala, de corredor de faculdade, mas, no geral, um bando de estranhos. E naquela semana aprenderíamos sobre como, com esforço, poderíamos ter uma carreira tão promissora quanto boa parte dos mais de 600 ex-focas do Estadão.
Com dez dias escrevíamos a nossa primeira matéria para o professor Luiz Carlos Ramos, já éramos a foto da 21ª turma e começávamos a decorar os nomes uns dos outros. E já podíamos nos considerar colegas.
Em 1º de outubro, a língua portuguesa e a filosofia já tinham sido aprofundadas. Conversamos com jornalistas mais experientes, um deles, ministro. As aulas de como se portar em ambientes formais também tinha ficado pra trás. Começávamos a passar pelas primeiras editorias. Pessoalmente, nos conhecíamos um pouco mais, brincávamos com nossos sotaques e queríamos saber um pouco mais das trajetórias dos nossos colegas.
Duas semanas depois éramos muito diferentes. O espanhol Paco Sánchez, que desembarcou na sala dos focas, nos ensinaria tanto sobre jornalismo que, dali em diante, tínhamos a certeza de que sairíamos profissionais muito melhores do que quando entramos. Os perfis que fizemos uns dos outros traziam para mais perto mesmo aqueles que estavam sentados mais distantes. E o Em Foca nascia, com, ironicamente, uma reflexão do que havíamos passado até ali.
Novembro começava deixando para trás as experiências de dois turnos das eleições, o contato com boa parte do alto escalão do Grupo Estado e uma viagem para o Rio Grande do Sul. Olhando o tempo que passou, creio que foi lá, em Santa Cruz do Sul, que os laços se estreitaram por completo. Nas viagens de avião, de ônibus, nos restaurantes, no hotel, foram 72 horas unidos, quase inseparáveis. E ali víamos 30 amigos aproveitando as oportunidades que a vida lhes havia dado.
Ao longo de novembro, nossa rotina mudaria completamente. Era hora de montar nosso suplemento. Para isso conheceríamos a fundo (literalmente) a cidade de São Paulo, uma experiência nova não apenas para os “estrangeiros”, mas também para os que vivem na metrópole. Enquanto isso, começávamos a aprender um pouco mais de política e economia. E reclamávamos de como o tempo havia passado tão rápido.
Quando chega dezembro, retornamos da Argentina com aquele sentimento de fim de festa. Faltam dez, nove, oito dias… “Meu Deus, acaba esta semana!” E queremos ficar mais perto, passar mais tempo juntos. Somos uma família – meio estranha, é verdade, já que não há mais velhos ou mais novos – em que todo mundo ri, chora, discute e se abraça numa comunhão que nunca imaginei que pudesse se efetivar em 90 e poucos dias.
É hora de pensar no futuro. De cada um escolher seu caminho. Sozinho. O ciclo, infelizmente, se fecha. Mas adianto aos focas que virão no ano que vem: nada vai te enriquecer mais nestes meses do que os outros 29 focas. Não perca eles de vista. Nunca.
Rodrigo Rocha, de 24 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP)
Depois de quatro dias na Argentina, estamos de volta ao Brasil. Na mala, trouxemos algumas boas lembranças, como as visitas aos jornais Clarín e La Nación. E voltando para casa também iniciamos nossa temporada de despedidas.
Essa foi nossa última viagem. Antes, fomos ao interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Ótimas oportunidades para conhecermos mais sobre algumas indústrias polêmicas. E uma chance para nos divertirmos fora da rotina no Estadão.
Além disso, teremos concluído nosso suplemento em poucos dias. Motivo de alívio e de orgulho. Tem sido um trabalho realmente grande lidar com o prazo apertado para produzir as matérias. Só espero que gostem do resultado no dia 11.
A última semana também se aproxima. É tempo de refletir sobre os últimos três meses e, entre uma aula e outra, de preparar estratégias para o pós-curso. Tarefa tão complicada quanto assustadora.
Por mais dolorido que pareça seguir em frente, sinto estar dando um passo necessário. Ou, como diriam os especialistas em administração de carreiras Vicky Bloch e Luiz Carlos Cabrera, fechando um ciclo. Aliás, o maior e mais intenso dos últimos tempos.
Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Nos últimos tempos, é cada vez mais comum as apurações acontecerem por telefone, seja nos pequenos, seja nos grandes veículos de comunicação. Compreensível: o tempo urge, as notícias correm cada vez mais rápido e o orçamento das redações é cada vez mais apertado. Foi nesse contexto que eu cheguei ao mercado, assim como a maioria dos focas e dos jovens que começam na profissão neste momento.
Porém, nem sempre é possível obter a informação desejada dessa maneira. No meio do caminho, há sempre uma fonte que não atende, um assessor pouco disposto a colaborar… (como mencionou Amon, em seu post passado). No suplemento que estamos produzindo, isso tem se repetido com frequência e despertado um bom e velho preceito do jornalismo: sujar os sapatos – sair da redação e ir pessoalmente atrás das informações.
A estratégia, muito bem descrita por Érica e Amanda em seus últimos posts, também encontra um ótimo exemplo em uma reportagem que eu, Flávia e a própria Érica estamos fazendo. Precisávamos entrevistar uma fonte da Prefeitura, essencial para a matéria, mas passadas duas semanas, nada de conseguir falar com a pessoa. Incumbido de fazer o contato, ligava diariamente para seu escritório, recebendo sempre as mesmas desanimadoras respostas: “Ela está em reunião”; “Ela está no exterior”; “Pode deixar dou o recado.” No celular, repetiam-se as mesmas ligações diárias. Só caixa postal.
Depois de muita insistência, finalmente uma luz. Em uma tarde, um assessor de imprensa ouviu as minhas preces e, num ato de extrema solidariedade, marcou uma entrevista para dali a algumas horas. Me preparei, pus meu nome na lista dos telefonemas (um padrão de conduta na sala dos focas) e fiquei só aguardando o horário combinado. Cinco e meia: era hora de ligar. Com o bloquinho na mão e as perguntas na cabeça, disquei ansioso o celular da fonte. Quem atende é o assessor:
- Felipe, você pode retornar daqui a pouquinho, é que ela está atendendo duas jornalistas…
Como assim? – pensei, irritado. Tinham marcado comigo! Depois me lembrei que Érica e Flávia haviam ido ao escritório da mulher buscar uns materiais; quem sabe pegá-la no pulo.
- Você sabe me dizer se as jornalistas que estão aí são a Érica e a Flávia, do Estadão? – perguntei.
Eram elas mesmas.
- Então pode deixar que elas fazem a entrevista – disse, rindo aliviado da coincidência.
A história ilustra a importância de, em determinados casos, ir a campo atrás da informação. Tudo bem que as coisas estavam encaminhadas, mas as meninas conseguiram, em uma tarde, o que eu vinha tentando havia semanas por telefone. Sujaram os sapatos.
Felipe Tau, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
* Texto escrito na sexta-feira, 26
São 22h e estou na sala dos focas. Não sei quando vou sair. A densidade populacional por aqui é atípica a essa hora da noite. Vários colegas estão focados em suas reportagens. O cansaço é visível no rosto de todos. As meninas ostentam aquela maquiagem de fim de dia. Os cabelos estão um pouco desgrenhados. Um pedaço de pão e queijo minas ajudam a matar a fome. O chocolate serve para dar ânimo.
Sexta-feira de noite e, pela primeira vez, não surgiu um e-mail no grupo perguntando “Qual é a boa de hoje”? Não vai ter barzinho na Vila Mariana para
ninguém. É provável que alguém passe a madrugada aqui ou vá trabalhar em casa. O sábado promete ser tenso, um último suspiro para reajustar lides.
Isso se chama fechamento. É aquele clima de aluno que precisa entregar o TCC. Na gíria da redação, é pescoção.
E como tenho umas duas páginas standard para me preocupar, o texto fica por aqui.
Bruna Maia, de 24 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Poucas coisas me dão mais agonia do que, diante da missão de fazer um texto ou matéria, ver a tela do computador sem uma só palavra. Pior ainda é quando isso ocorre não por falta de assunto, mas justamente pelo contrário: há tanta coisa na cabeça que fica difícil saber por onde começar e o que falar.
Foi nessa agonia que comecei esse texto. Afinal, depois de quase 90 dias de curso e cerca de 90 posts no Em Foca, mais difícil do que não repetir um colega é buscar, em meio a tanta coisa que já aconteceu (e ainda vai acontecer até o próximo dia 10, quando o curso chega ao fim), um evento que seja mais digno de nota do que outro.
Por isso, me arrisco a dizer: ninguém se esquece das viagens, matérias, entrevistas e palestras, mas marcante mesmo é a nossa rotina. Nesses 101 dias que ainda não terminaram, tem sido um desafio conciliar as atividades do curso com as passagens pelas redações, e agora mais ainda, com a produção das matérias para o suplemento que será publicado em dezembro.
Não é só a intensidade do trabalho que nos fará lembrar do nosso cotidiano. Não vamos esquecer também da convivência e do aprendizado diários, por vezes tão ou mais impactantes do que as obrigações. É por isso que, depois de quase três meses, tenho nesse tripé – trabalho, convivência e aprendizado – um bom motivo para não deixar a tela em branco.
Bernardo Barbosa, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)
Não só de jornalistas com experiência em texto é feito o Curso Estado de Jornalismo. Apesar de ser um programa de treinamento voltado para a formação de repórteres, muitos da 21ª turma traçaram outros caminhos que não o da reportagem escrita antes de chegar aqui.
O Tiago Rogero, foca 29 deste ano, trabalhava há dois em uma rádio de notícias de Belo Horizonte antes de ser selecionado para o curso. Como muitos outros, pediu demissão com a certeza de que o curso o tornaria um repórter melhor. O traço inconfundível faz de Tiago o caricaturista oficial do grupo.
Com experiência em televisão, o foca 15, Gustavo Coltri, deixou o frila em um canal a cabo em Porto Alegre para se mudar para São Paulo. A possibilidade de trabalhar em um grande jornal e a perspectiva de crescimento profissional fizeram com que o primeiro dos quatro Gustavos deixasse o emprego e a família
no Sul para voltar à sua cidade natal.
Comigo não foi diferente. Durante a entrevista de seleção para o curso, ao descobrir meu emprego em Florianópolis, o coordenador Chico Ornellas foi incisivo:
- Tá, mas texto ou foto?
Sabia que seria inevitável. Formado desde dezembro do ano passado, há 10 meses eu trabalhava como repórter fotográfico em um jornal de Santa Catarina. Toda a minha graduação tinha sido direcionada – inclusive meu trabalho de conclusão de curso – para juntar minhas duas maiores paixões: o jornalismo e a fotografia.
Titubeei. Mesmo tendo me preparado para a pergunta, disse, sem convicção, que queria ser repórter. Chico repetiu a pergunta:
- Texto ou foto?
Texto. Tinha certeza de que a chance de fazer o curso, mesmo que a fotografia tivesse de ficar de lado por três meses ou talvez a vida inteira, era imperdível. Seria um jornalista melhor.
No fim, deu tudo certo. Entre as atividades diárias do curso e a correria da apuração das pautas e do infográfico para o suplemento, tenho conseguido fotografar nosso dia a dia e, de vez em quando, fazer dupla com os colegas em uma pauta ou outra do caderno.
Também aproveitei as poucas folgas do curso para fotografar para o jornal em que trabalho as partidas do Avaí e do Figueirense contra equipes da capital paulista.
Mas demorei quase dois meses para recomeçar a fotografar com frequência. Tem sido um prazer imenso escrever. Enxergar o mundo – e tentar traduzi-lo ao leitor – através de um bloquinho e uma caneta tem sido tão prazeroso quanto era com uma máquina fotográfica.
Lucas Sampaio, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Situações desesperadas pedem medidas desesperadas. Foi este o mote que guiou, de maneira inusitada, quase em estilo pastelão, uma visita à USP em busca por fontes para o nosso suplemento.
Na última sexta-feira, eu e as focas Andréa e Carol fomos à universidade entrevistar um geofísico. Tudo certo, agendado com antecedência, sem nenhum estresse. Porém, durante a entrevista, percebemos a necessidade de conversar com outros especialistas. Como já estávamos no câmpus, decidimos otimizar a visita e tentar encontrá-los mesmo sem marcar previamente.
Entre as fontes, um grande geógrafo, Jurandyr Ross, nos deu um baile.
Batemos à porta de sua sala, nada. Fomos ao Laboratório de Geomorfologia, também não. Mas disseram, nos enchendo de esperança, que ele ainda estava no prédio.
– Jura?
– Sim, inclusive o apelido dele é Jura – brincou uma pesquisadora do laboratório.
Decidimos nos dividir e montar guarda em diversos pontos até o encontrarmos. E assim ficamos por cerca de uma hora… Até que cansamos e resolvemos partir para o ataque. Na secretaria, nos disseram que ele tinha barba grisalha e estava vestindo camisa vermelha e jaqueta bege.
– Beleza, agora vai ser fácil.
Doce ilusão. Várias pessoas estavam exatamente assim – e claro que nenhuma era o professor. Então começamos a falar repetidamente, em alto e bom tom, na tentativa de chamar a atenção da pessoa certa:
– Jura?
A esta altura, o pessoal da secretaria já estava comovido. Tentaram entrar em contato, mas não tiveram sucesso. Para ajudar, imprimiram uma foto, em tamanho A4, do rosto do professor. Munidas do retrato, fomos ao estacionamento tentar reconhecê-lo, já que seu carro ainda estava lá e ele deveria ir embora a qualquer momento.
Sentamos na vaga ao lado e continuamos com a foto nas mãos. Não demorou muito e um senhor passou no local com uma expressão ao mesmo tempo curiosa e espantada.
Olhamos para o retrato, olhamos para ele e não tivemos dúvidas.
– Jura!
Fomos ao seu encontro. Surpreso e indignado com a foto que não fazia jus a sua aparência, ele foi receptivo e muito simpático. Mesmo atrasado, topou dar a entrevista na hora, com toda paciência de professor.
Ao final da tarde, voltamos para a redação. Estávamos acabadas, mas, ao mesmo tempo, felizes por desenvolver uma técnica de inédita: apuração bizarro-incisiva – e um tanto divertida!
Amanda Agutuli, de 25 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e em História pela Universidade de São Paulo (USP)
Temos de produzir um suplemento como uma espécie de trabalho de conclusão do curso. Este caderno será publicado no Estado e, por isso, é considerado a cereja do bolo do programa.
Primeiro, elegemos cinco grandes temas relacionados à cidade de São Paulo. Então nos dividimos em grupos e passamos a elaborar uma série de possíveis pautas dentro de cada um. Estas, mais do que um resumo do objetivo da matéria, tinham de ser roteiros detalhados.
Foi aí que começou a diversão… e o desafio.
Nem todos estavam à vontade com o tema que deveriam apurar. Logo de cara, foi necessário deixar de lado os gostos pessoais e fazer o melhor trabalho possível. Vi alguns colegas apaixonados por política, por exemplo, ficarem literalmente chateados ao notar que o caderno que estavam participando tinha ganhado uma cara mais leve, recheada de temas culturais e nada combativos.
Deste exercício resultaram algumas lições importantes. Uma delas é que, quando estiver elaborando a pauta, é importante pensar como a matéria ficaria no papel, em termos de estrutura de páginas mesmo. Às vezes, um tema um pouco batido pode se renovar com uma nova abordagem, um novo recorte. Mas, para isso, é necessário preparo. Outro fator fundamental é ter alguma noção de quais fotos, artes ou infográficos poderiam ilustrar a matéria.
Durante este processo de apuração, notamos que, de vez em quando, tendemos a nos deixar levar pela vontade de fazer uma reportagem só porque produzi-la vai ser muito divertido. O problema é que, na hora de colocar no papel, o assunto terá pouca relevância. Nestes casos, fica um alerta: sempre ter em mente os leitores. Esquecer para quem é a nossa primeira lealdade é um erro que não pode ocorrer.
Também é preciso aprender a cantar a pauta. Deve-se apresentar logo de cara o que ela tem de novo, de melhor. Se não for o tema, que seja a abordagem. Se não o texto, o infográfico incrível que se pode fazer com as informações colhidas.
Por fim, votamos nas três melhores pautas (dentre as quais uma será eleita para ser tema do caderno). Este momento pode ser considerado um último exercício editorial: escolher o que ficará melhor no suplemento, mesmo que a ideia não tenha sido sua, mesmo que o tema não lhe agrade tanto. Um belo exercício de profissionalismo e desapego.
Em suma, a pauta deve funcionar como um roteiro, muito bem construído, ainda que não engessado. Se não vingar, no mínimo você aumentou seus contatos e conseguiu novas fontes. E, com certeza, de alguns especialistas, órgãos e instituições que até então não sabia da existência.
Amanda Agutuli, de 25 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e em História pela Universidade de São Paulo (USP)
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